Capitulo 3 Meu Reveillon Favorito · Capítulo 3 de 5
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Capitulo 3

Odiava passar de quarentena.

Além da quantidade exagerada de exames, que precisei fazer para constatar que minha saúde estava perfeita por conta do contato que tive com o marciano.

Mesmo estando com a roupa quando ele me agarrou acabou rasgando a mesma, acabei tendo algum contato que digamos assim com ele.

O mais estranho é que nenhum organismo que estava dormindo com ele foi transferido para mim e nem para o laboratório. Foi como se ele apenas tivesse saído de dentro de um ovo e a explosão meio que limpou tudo.

Quando sai da quarentena e o laboratório foi devidamente limpo, esterilizado. Veio a parte chata, reunião atrás de reunião com todo o pessoal que estava na missão e as precauções que iriamos tomar por conta do marciano sob custódia. Não deveríamos em hipótese alguma chegar perto dele ou adentrar em sua cela. Além de terem explicado sobre os protocolos de segurança caso ele conseguisse fugir. A tática dos dardos só funcionou, pois quando colhemos seu DNA da pedra conseguimos construir um tranquilizante para derrubar o marciano caso funcionasse nossas experiências.

O interessante é que o gás hidrogênio e amônia que o sistema estava registrando foram os causadores de tudo aquilo, por conta do laser que os atingiu, ocorreu uma reação e assim a explosão. Esse era a grande questão, como uma explosão fez despertar um ser tão complexo como ele?

Quando finalmente fui liberada e o laboratório estava apto e limpo para ser usado novamente voltei para o meu trabalho. Comecei a analisar melhor os fragmentos das pedras, por estarem perto dele deviam possuir alguma resposta, porque se havia um adormecido deveria haver muitos outros. Entretanto, nada fazia sentido ali. Só apenas um ser possuía a resposta, contudo as ordens eram para não chegar perto dele.

— Mas não vou conseguir nada com essas coisas — bati a cabeça na mesa e olhei para o relógio no meu pulso e já era bem tarde. Para chegar na cozinha precisava passar na frente da cela e havia evitado o local o dia inteiro, sempre arranjando alguma desculpa para que algum colega me trouxesse comida para mim. Não sabia o que falar com ele, porque foi gentil…da forma dele desde o início, enquanto nós fomos… — Pare com esse medo Joana e tome juízo — levanto da cadeira e rumo a cozinha com firmeza.

Passo na frente de sua cela e estava completamente escura e aquilo me dá um calafrio, contudo continuo com o meu objetivo. Precisava me alimentar. Pego um sanduíche e um copo de suco e saio do lugar.

— Joana!

Olhei para os lados sem ver ninguém e dei uma mordida no sanduíche.

— Legal, agora estou delirando por conta da fome — resmunguei de boca cheia.

— Achei que em seu planeta já haviam aprendido boas maneiras enquanto comem.

Olho para o lado e encontro o marciano grudado com seu rosto no vidro e seus enormes olhos amarelos e seu corpo flutuando atrás dele. Controlei meu corpo inteiro por conta do susto repentino, ainda bem que por causa do treinamento militar sabia como agir.

Havia recebido um relatório quase que diariamente sobre as condições dele. Uma das que me deixava mais intrigada era que quando o colocaram no oxigênio como todos da estação ele conseguiu respirar. Tudo por conta do gás hélio que estava quase no fim.

— Intrigante! Como seu corpo marciano ainda consegue flutuar na atmosfera criada na estação — tomei um gole do suco o encarando e um pensamento no fundo da minha mente surgiu. Queria tocar em seu corpo escamoso sem nenhuma proteção, pois no laboratório a roupa impediu o contato. Com certeza era o meu lado cientista querendo mais respostas. Afastei a ideia, pois ainda faltava resultados para saber se não havia patógenos que poderiam nos causar alguma doença.

Parecia que um sorriso surgiu no canto de sua enorme boca.

— Por conta da gravidade de Marte ser mais densa que a de vocês.

Acabei cuspindo o suco no vidro não acreditando na besteira que ele havia dito.

— Impossível. Está errado, a aceleração da gravidade na Terra é de aproximadamente 9,8 m/s², enquanto em Marte ela é muito mais fraca, medindo cerca de 3,7 m/s². A estação inteira esta submetida pela gravidade da Terra.

— Achei que colaria essa desculpa — marciano rindo, deu um giro de trezentos e sessenta graus com todo o seu corpo.

— Colaria? Isso é uma gíria, sabia? Sabe o que significa essa gíria? Ou o significado da palavra gíria?— dei uma mordida no sanduíche.

— Com certeza, gíria é uma palavra ou expressão usada por um determinado grupo de pessoas de forma informal, muitas vezes com um significado diferente do sentido original da palavra.

— Quando falou comigo pela primeira vez foi em grego, não é?

— Sim, mas o seu grego é péssimo.

— Desculpa, tive poucas aulas. Mas você depois estava conversando comigo naturalmente como se fizesse parte do seu repertório o meu idioma.

— Isso se chama aprendizagem marciana, absorvemos a cultura de outros povos apenas observando.

— Esse tipo de coisa não existe.

— Como não? Não está vendo o exemplo vivo na sua frente, Joana? — mais uma vez aquele seu giro estranho do corpo.

— Certo. Então, poderia explicar de forma científica, como consegue flutuar? — mordo o sanduíche e então percebo seus olhos seguirem o movimento que fiz com o sanduíche o levando até a minha boca e depois desviou o olhar para o outro lado.

— Ora, da mesma forma que outros animais voam, não têm animais que voam em seu planeta?

— Sim, mas eles tem asas que o sustentam no ar — dou outra mordida no sanduíche prestando atenção em sua reação e seus olhos se mexeram levemente enquanto enfiava a comida na boca. Com certeza aquilo era um sinal interessante, só precisava investigar mais.

— Hum, então apenas entenda que é coisa de marciano — serpenteia todo seu corpo.

— Não consigo, sou uma cientista, preciso entender como as coisas funcionam, assim como consegue gerar fogo dentro de si e não queimar seu interior.

— Por conta de uma glândula perto do início da minha garganta que quando friccionada e expelida ela entra em contato com o ar causando a combustão — dá mais um giro de trezentos e sessenta graus.

Desta vez quem ficou observando seus movimentos fui eu. Acabei ficando um pouco zonza com aquele seu movimento. Sacudi a cabeça para afastar a tontura. Concordei com a cabeça enquanto ele girava e dei outra mordida no pão e seus olhos fixaram no que eu fazia. Ali estava a resposta que precisava.

— Por acaso já comeu, marciano?

— Não.

— Mas o protocolo é sempre dar comida para os…

— Prisioneiros…deve ter sido minha culpa — riu dando outro giro completo.

— Por quê?

— Porque sempre que alguém chegava perto eu atirava bola de fogo — gargalhou.

— Mas agora está com fome.

— Bom ponto que acabei não me dando conta — ergueu um dedo apenas de sua garra como se estivesse pontuando o que disse, pousou e ficou olhando para a minha mão que segurava o resto do sanduíche.

— Que tipo de comida se alimenta?

— Estou olhando para ela — me olhou mostrando os dentes, arregalei os olhos e dei um passo para trás.

Gargalhou alto e se atirou no chão colocando as patas na barriga, que deveria ser ali, porque seu corpo era esguio.

— Não acredito que cai nessa ameaça fajuta sua — bati o pé começando a caminhar para longe dele.

— Hei, espera, é que não aguentei. Poxa, estou há alguns anos sem conversar com ninguém. Então tem mais dessa coisa aí que está comendo?

— Como sabe que ficou tanto tempo dormindo? Havia um relógio com você dentro da pedra lhe informando?

— Olha para uma cientista essa foi a pergunta mais estranha que já fez. Eu olhei pela janela e observei as estrelas. Sabe aquela coisa redonda e pequena lá em cima? Então, foi por ela que as observei e assim descobri que fiquei adormecido por mil anos. Sanei sua curiosidade, agora? Poderia me dar comida?

— Outra pergunta, como fez um cálculo tão preciso assim? Como conseguiu enxergar perfeitamente as estrelas de onde está?

— Sério? Eu estou com fome…

— Então não deveria ter atirado bolas de fogo em todo mundo que chegou perto de você.

— Beleza, beleza. Eu fiz o cálculo de cabeça e os olhos dos marcianos enxergam muito além. Pronto? Sanei? Comida?

— Realmente sanou. Posso sim lhe dar comida, mas quantos deles vou ter que fazer para aplacar sua fome?

Ele parou para pensar e olhou para baixo, ergueu as duas patas flutuando e esticou todos os dedos.

— Se está dizendo com os dedos de suas patas a quantidade que precisa, seria oito?

— Não mesmo. Olha aqui, isso também é um dedo — segurou o dedo da lateral igual que os cachorros tem. — Então no total são dez, entendeu? — o marciano bufou embaçando um pouco o vidro que nos separava.

— Até achei que iria pedir mais por conta de seu tamanho — virei o corpo e fui em direção à cozinha.

— Onde está indo? Preciso pegar leve nas minhas primeiras refeições, depois volto ao normal, pode ficar tranquila.

— Indo preparar o que pediu. Já volto.

— Vai demorar muito?

— Por quê?

Ele desviou o olhar e depois voltou a olhar para mim.

— Fome né.

— Né? Vou ter que conversar com os outros alferes para não ficarem conversando perto de você falando gírias. Tem algumas que não são muito bonitas — sumo pelo corredor indo em direção à cozinha.

Quando volto, passo os sanduíches por uma portinhola. Marciano senta à minha frente e enquanto ele come ficamos conversando sobre curiosidades, ele fazia mais perguntas que eu. Sem perceber não sinto o horário passar. Apenas quando as luzes diurnas são acesas tirando aquela sensação mais sombria que as noturnas deixavam. Barulho de alferes que começavam o serviço cedo ecoa pelo corredor.

— Nossa, tenho que ir dormir. Tenho muito trabalho para fazer hoje — me ergui do chão num pulo, esticando meu corpo sentindo o cansaço me alcançar.

— Vai voltar?

— Por quê?

Novamente aquela desviada de olhar para um lado e depois voltou a me focar.

— Tem que garantir que eu não aprenda gírias estranhas — sorriu mostrando aqueles enormes dentes brancos pontiagudos e com certeza bem afiados.

Solto uma risada anasalada e balanço a cabeça em negativa.

— Só posso voltar pela noite, quando todos forem dormir e conversar com você é proibido.

— Mas você…

— Eu nada, te lembra que foi você que começou? — pisco para ele com um olho.

— O que significa isso de piscar com um olho?

— Tenho que ir, de noite te conto — caminho para longe sorrindo.

— Joana, qual é?

Até o próximo capítulo, não esqueça de curtir, comentar e compartilhar pra ajudar a autora: D

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