1 - TERROR
1
Terror
O calor imperava naquela noite de verão em Santa Maria. O céu limpo, sem nenhuma nuvem atrapalhando o brilho dos astros que parcamente iluminavam a casa no meio da fazenda, quase isolada de qualquer vizinho. Deitado do lado de fora de sua casinha, no quintal, dormia o cachorro em um buraco raso feito para tentar aliviar a sensação de abafamento. De repente, a cantoria dos grilos e cigarras é abruptamente interrompida por um grito. O cão levanta as orelhas e olha para a casa de seus tutores, notando a iluminação sinistra e inquietante que emanava pela janela, acompanhada de uma gargalhada maligna.
— Tu não pode estar com medo desse filme — disse o homem tentando conter o riso, zombando do susto de sua esposa.
— Estamos no meio do nada aqui. Com esse mato em volta qualquer um pode vir e fazer alguma coisa com a gente e ninguém vai ficar sabendo.
— Vida, estamos preparados para qualquer coisa — falou enquanto pegava o controle da televisão para pausar o filme de um assassino serial em uma cabana isolada. — Além disso, o Comandante Abílio está lá fora para nos avisar se alguém se aproximar.
— Não interessa! Coloca algo menos real, pode ser aquelas coisas de zumbis que você gosta.
— O que não podemos nos defender é de zumbis, por enquanto.
— Mas acho melhor. Amanhã olhamos o resto desse filme. Durante o dia. Prometo — falou ela dando um beijo no cônjuge.
A tela exibia a abertura da série e a mulher se aconchegou no peito do parceiro, tapando-se com o lençol confortavelmente.
— Tu não se sente mal — começou ela —, de estar aqui de boas no ar-condicionado, curtindo Amazon Prime, bem confortável?
— Não. Somos sobrevivencialistas. Estamos nos preparando para qualquer colapso que acontecer, isso não quer dizer que devemos viver como se já tivesse acontecido.
— Mas isso nos deixaria mais preparados ainda, não é?
— Você está pensando demais. Olha o zumbi chegando ali.
O herói da tela lutava com o monstro quando o cão Abílio começou a latir do lado de fora. Do sofá, seu tutor o censurou, imaginando que um roedor estivesse o incomodando. O cachorro insistiu com mais alguns latidos e parou abruptamente emitindo grunhido agudo.
— Bernardo!
— Calma. Vou lá ver o que houve. Não deve ser nada.
Sua intenção era acalmar a companheira, mas ele seguiu para a porta da frente nervoso. Ao abri-la, o calor intenso o deixou com a sensação que a pele queimava, devido à diferença de temperatura com o interior gelado da casa. Parou na área coberta da frente, olhou para a escuridão em volta sem enxergar nada fora do comum. Abílio, agora escondido na sua pequena residência, gemia com medo e não ousava sair mesmo com o dono lhe chamando.
O homem notou um movimento estranho nos arbustos a poucos metros.
— Tudo certo, vida? — perguntou a mulher abrindo uma fresta na porta.
— Vida, vai para dentro — disse quase num sussurro. Ela obedeceu e ficou espiando pela janela. Bernardo esticou a mão até o teto para alcançar a base da fachada. Havia um espaço escondido onde pôde deixar uma espingarda e uma lanterna. Engatilhou e foi lentamente em direção aos arbustos. — Ei! Pode saindo daí! Não queremos problemas, é só seguir seu caminho e sair da propriedade!
As folhas pararam de se mexer, deixando um silêncio pesado, mas nada saiu dali. Bernardo usou a ponta da arma para afastar as folhas e seu coração deu um pulo ao ver uma bocarra aberta cheia de dentes pontiagudos. A língua do animal vibrava enquanto soltava um chiado alto. Quase disparou a arma com o susto, se contendo no último instante. Ele riu aliviado, tentando imaginar quem estaria mais assustado, ele ou o gambá que agora deitava de costas com as patas em riste, deixando a cabeça cair de lado com a língua de fora, representando sua própria morte como se competisse ao Oscar.
— Que belo cão de guarda, hein — disse parando em frente da casinha onde só se podia ver a ponta do nariz para fora da abertura. — Com medo de um gambá. Mas tenho que confessar que ele era bem assustador — falou como se confidenciasse um segredo. — Boa noite, Abílio.
— E então? — perguntou a mulher da porta ao vê-lo se aproximando mais relaxado.
— Nada de mais. Só um gambá. Acho que temos que ter outro cão nesse terreno. Porque esse daí…
— Não fala assim do Abílio! Ele tem sentimentos.
— Sim, está até chorando de novo.
Bernardo olhou para trás para acalmar o parceiro canino e antes que pudesse perceber o que estava acontecendo, uma sombra enorme se lançou contra o homem. A lanterna e a arma foram jogadas longe e a criatura mordeu seu pescoço arrancando-lhe parte da traqueia.
— BERNARDO! — gritou a mulher confusa com a cena. Pensou ter visto Abílio atacando o tutor e quase foi em direção aos dois, no entanto, percebeu a tempo que era algo muito mais sinistro. A criatura agora estava em pé sobre as patas traseiras, observando Bernardo parar lentamente seus movimentos.
A mulher disparou para dentro de casa e bateu a porta, chamando a atenção do monstro. Imaginando formas de se defender enquanto corria, pensou em pegar uma faca na cozinha, mas decidiu ir até o quarto onde havia uma pistola escondida atrás da cômoda. Fechou a porta já empunhando o revólver, mirando para a entrada, aguardando qualquer sinal da fera. Limpou as lágrimas que atrapalhavam sua visão e segurou a arma com as duas mãos, tentando conter sua tremedeira.
Em um estrondo, a porta se abriu, revelando a criatura que agora andava nas quatro patas. Um disparo a fez parar, mas o tiro não acertou o alvo. Talvez por tremer demais, ou pelas novas lágrimas atrapalhando sua mira. O monstro se levantou nas patas traseiras, dando um passo para frente. Outro tiro, agora mais próximo. Passou de raspão no que deveria ser o ombro e se alojou no batente da porta. Antes que pudesse dar o terceiro disparo, a criatura lançou-se contra a mulher. A arma foi jogada longe e a cama afundou quando aterrissaram sobre ela.
A criatura rosnava e babava usando seu peso para imobilizar a mulher. Seus músculos se mexiam decidindo o que faria primeiro. Sabia que estava no domínio da situação e parecia não ter pressa, aproveitando cada expressão de pavor de sua presa. Os pelos escuros como a noite ondulavam com seus movimentos, revelando mechas vermelhas por baixo da pelagem preta, provocando ainda mais pavor com a ilusão de que o corpo do monstro era coberto de fogo. Os olhos ardentes da fera encaravam a mulher, que se limitava a rezar para aquele pesadelo acabar, para o animal desistir e ir embora. Infelizmente suas preces não foram atendidas. Antes mesmo de ela conseguir emitir qualquer som, o monstro abriu sua bocarra e começou a arrancar sua vida aos pedaços.
A casa estava fria, mas o calor invadia o recinto pelas portas escancaradas. O silêncio quebrado somente pelos gritos do protagonista que enfrentava um morto-vivo na série de terror na televisão ligada, e das garras do monstro raspando no chão enquanto saía lentamente do local, deixando um rastro de pegadas e gotas vermelhas.
Deu uma última olhada para o corpo de Bernardo estendido na frente da casa. Satisfeito com sua obra, desapareceu entre a vegetação, misturando-se com a noite.
***
A madrugada seguiu abafada e com os primeiros raios de sol, o calor parece ter piorado ainda mais. Lucila sentiu os pulmões arderem ao sair do ar-condicionado do carro e dar a primeira aspirada no ar ambiente. Foi recebida com olhares divergentes perante sua presença. Alguns brilhando como se vissem um ídolo famoso, outros com desdém como se a escrivã estivesse no lugar errado. E de certa forma estava.
Lucila Klug sempre se destacou por duas coisas: sua incrível capacidade de relacionar fatos que não pareciam ligados e por não saber se relacionar com outras pessoas. A primeira ajudou muito em sua carreira. Resolveu casos difíceis, dando-lhe o direito de ser a única escrivã do Brasil com permissão para atuar ativamente em investigações no departamento de homicídios. Nunca quis se tornar investigadora efetivamente, justificando os olhares de menosprezo. Sentia que trabalhava melhor escondida nas montanhas de arquivos. Não se importa em se encaixar em padrões de beleza. Sua aparência é bastante comum e discreta, apesar dos cabelos loiros anunciarem sua presença. Dá-se ao luxo de uma única extravagância, seus óculos de lentes grandes e hastes finas de cor dourada, combinando com os cabelos.
Vestiu o colete que a identificava como policial civil por cima da blusa social branca de mangas curtas, sem se importar muito com o calor. Pendurou seu distintivo no pescoço e foi em direção aos outros policiais que já se encontravam no local.
— Olha quem chegou — exclamou a oficial que veio ao encontro de Lucila.
— Bom dia, Almeida. Vim assim que pude.
— Chegou logo depois de nós. Doutor Jânio está examinando o primeiro corpo e… — Lucila parou de caminhar de repente e agachou-se para analisar as marcas do chão de terra e pedras que levavam até a casa. — Já demos uma olhada, mas o caminho estava muito seco para guardar alguma marca de pegada ou pneu de carro.
— Por isso todos já passaram por aqui sem se importar em registrar nada no caminho. — Não foi uma pergunta. A escrivã estava apenas colocando suas ideias em ordem, no entanto, poderia soar arrogante para qualquer um que ouvisse, parecendo uma constatação da falta de cuidado do resto dos profissionais que estavam ali.
Ainda agachada, deu uma olhada em volta, levantou-se e saiu andando pelo mesmo caminho que veio.
— Ei! Os corpos estão para lá — falou Almeida, meio confusa.
— O tempo está extremamente seco, porém, as plantas estão bem cuidadas e verdes. — Lucila andava próximo aos arbustos e flores, por vezes afastava as plantas como se procurasse algo, olhava em direção à casa e metia a cara de volta nos arbustos. Almeida franzia o cenho tentando entender o que as folhagens tinham a ver com a cena.
— Preciso de uns marcadores e o fotógrafo — disse Lucila quando finalmente pareceu encontrar o que procurava.
— O que achou aí?
— Não tenho certeza, pode ser nada.
Almeida chamou o fotógrafo pelo rádio, tentando observar o que a escrivã queria registrar. Notou que a terra debaixo das folhagens estava mais úmida, mas nada além disso. O fotógrafo chegou e Lucila lhe indicou dois buracos quase imperceptíveis na base das plantas. O homem parou com sua câmera em mãos e, incrédulo, olhou para Almeida que deu de ombros. Contrariado, fez o registro total do que parecia ser duas camas improvisadas de algum roedor para fugir do calor. Após ele completar todos os procedimentos, Lucila veio com um recipiente cheio de uma mistura de gesso que virou até completar os buracos com o líquido viscoso.
— Certo. Onde estão os corpos?
— Na verdade, chamamos vocês aqui mais para liberar o local do que para investigar o que aconteceu.
— Como assim?
— Devido aos ferimentos infligidos às vítimas e às pegadas que encontramos no local, ficou óbvio que foi um ataque de um animal selvagem.
— Se me permitir, deixe que eu chegue a essa conclusão.
— Sim, senhora. — Almeida esticou o braço em direção à casa para que Lucila passasse.
Jânio Abreu de Souza, o legista chefe, estava com seus equipamentos terminando suas anotações em um tablet, ao lado do corpo de Bernardo. Ele é jovem para a função que desempenha, bastante esperto e determinado. A pele negra em contraste com as tradicionais vestes brancas, bastante alinhadas, junto ao corte de cabelos e barba, bem baixos, completa um conjunto que o deixa estranhamente elegante.
— Olá, doutor Jânio. Como anda?
— Oi, Lucila — disse tirando os olhos do aparelho e dando um sorriso para a investigadora. — Não concluí meu doutorado ainda, mas entendo o jargão. Estou bem, e bem conectado — falou balançando o tablet. — Vai tudo direto para o sistema. A tecnologia não é maravilhosa?
— Me dou melhor à moda antiga. O que temos aqui?
— Bem! Esta vítima foi identificada como Bernardo Alves Moniz. Pela rigidez e temperatura, contando com esse calor, acredito que ele morreu entre nove e meia-noite de ontem. Para ser mais preciso, apenas no laboratório. A causa da morte me parece hemorragia causada pelo ferimento no pescoço. Algo com muita força arrancou um pedaço da traqueia, e foi tão rápido que ele nem pôde disparar a arma que acharam ao lado dele. Não encontrei nenhum outro ferimento no corpo. Rápido e limpo, apesar da poça de sangue. O que não posso dizer da outra morte.
— Como assim?
O legista decidiu mostrar. Passaram pela entrada da casa e atravessaram a sala onde Lucila viu as pegadas que Almeida comentou. Realmente parecia que um animal grande havia passado por ali, após sujar suas patas com sangue. Mas nada garantia que ele executou o casal. Poderia muito bem ter se aproveitado da situação para uma refeição fácil depois que um criminoso humano tivesse feito o trabalho sujo. Entrando no quarto, essa teoria se afastou um pouco dos pensamentos de Lucila.
Era difícil encontrar um lugar onde não estivesse vermelho. A escrivã demorou para notar que o corpo ainda estava na cama. Era tudo um emaranhado de tecidos e sangue. Se ela já estivesse morta ao ser estripada, o sangue não se espalharia daquela forma.
— Meu Deus! — exclamou ela.
— Já viu algo parecido?
Lucila vasculhava em seu passado qualquer coisa que lembrasse aquela imagem. No entanto, a falta de rosto do cadáver, o peito aberto, assim como a barriga, não se comparavam a nenhuma lembrança que pudesse buscar.
— Impossível identificá-la no momento. Se for a dona dos documentos que estão pela casa, ela se chama Bianca Freitas.
— Estranho as pernas estarem praticamente intactas — apontou Lucila, afastando o sentimento de repulsa e se concentrando no racional. — Um animal comeria as partes com mais carne no corpo, mas ela ainda veste as calças de pijama.
— Pode ser um animal com preferências. Durante o exame notei que faltava o fígado.
— Com gosto tão singular que prefere fígado feminino. Por que ele ignorou uma presa fácil lá na frente para correr atrás dessa aqui? Por que uma morte foi tão rápida, quase misericordiosa, e a outra foi essa bagunça? Para mim não faz muito sentido.
— A falta de lógica é que mais me convence que pode ter sido obra de um animal irracional — disse Almeida, que estava parada na entrada do quarto observando os dois.
Lucila olhou para trás e notou um pequeno furo no batente da porta.
— Ela revidou antes de morrer?
— Sim. Uma pistola foi encontrada no chão ao pé da cama. Dois disparos foram ouvidos pelos vizinhos, por mais que não morem muito próximos. Um deles fez um furo no piso, um pouco atrás de mim, e o outro é esse no marco da porta. Pela manhã viram o corpo na frente da casa e nos chamaram.
Lucila, parada onde a vítima estava antes de ser atacada, levantou o braço e apontou dois dedos para Almeida, simulando segurar uma arma.
— Era um tiro fácil — começou Almeida. — Pelo jeito ela atirava muito mal.
— Após presenciar a morte do marido — disse Lucila ainda apontando para Almeida —, a vítima correu para o quarto para tentar se proteger. Sabia onde a arma estava guardada, pegou-a e aguardou. A porta foi escancarada com força, quebrando a tranca.
“A primeira vítima tinha uma espingarda em mãos, a segunda foi direto no lugar onde conseguiria uma arma para se defender. Eles de certa forma estavam preparados. Sabiam o que fazer em um momento de perigo. Duvido que ela não soubesse atirar. Seja lá o que for que estava parado nessa porta a deixou tão apavorada e tremendo tão intensamente que prejudicou totalmente sua destreza.”
— Ainda acha que uma pessoa pode assustar outra desse jeito? Algumas testemunhas aos arredores dizem ter avistado o que parecia ser um lobo rondando a região há alguns dias.
— Um lobo por aqui?
— Apesar de raro — comentou Jânio —, podemos ter avistamentos de Lobo-guará. A aparência dele pode ser bem assustadora para quem vê de perto, mas é inofensivo. Come apenas pequenos roedores, tatus e algumas plantas.
— Alguma espécie mais perigosa pode ter fugido de um zoológico das cidades próximas — disse Almeida. — Ouvi dizer que há um circo na cidade também. Apesar de a legislação não permitir apresentações com animais, pode ser que algo tenha passado na fiscalização e escapado dos donos.
Lucila ainda não estava totalmente convencida. Entretanto, não encontrou nada que pudesse sustentar a ideia que uma pessoa havia feito aquilo. A perícia estava analisando o local e com a bagunça que o assassino deixou, provavelmente achariam pistas. “Bagunça” essa que se limitava ao que ele havia feito com as vítimas, pois o restante da casa estava imaculadamente organizado e limpo. Nada revirado, nada aparentemente furtado. Tudo no seu devido lugar.
A escrivã já havia dado uma observada na casa ao entrar, agora seus olhos azuis atrás das grandes lentes procuravam mais detalhes da vida do casal no caminho até a saída. Nenhuma foto, o que é estranho para pessoas da idade deles. Ou tinham alguma superstição, ou iniciaram seu relacionamento recentemente. Na estante os livros que a levaram concluir que o casal nutria conhecimentos de autopreservação e defesa. Títulos que incluíam manuais de sobrevivência na selva, defesa pessoal, construção de abrigos em lugares remotos. Assim como livros que analisavam as possibilidades de colapso da sociedade em geral, crise econômica mundial, pandemias, catástrofes naturais. Eles estavam se preparando, mas para quê?
Quem encontrou o primeiro corpo foi o vizinho, e ninguém relacionado com a limpeza da casa havia chegado até o momento. Ainda assim, fora o quarto pintado de sangue, estava tudo impecavelmente limpo. Provavelmente apenas um deles trabalhava e o outro cuidava da casa ou viviam de renda e aposentadoria privada.
Jânio e sua equipe agora recolhiam os corpos.
Lucila estava perplexa. Tudo indicava um ataque bastante objetivo e direto. Quem fez aquilo queria o casal morto e apenas isso.
Ela se abaixou para analisar as pegadas que iam até a saída, grandes impressões disformes do que parecia ser quatro dedos almofadados. Colocou sua mão ao lado para comparar e impressionou-se por serem quase do mesmo tamanho.
Chegando à porta, notou uma policial agachada em frente à casinha de cachorro que havia no pátio. Atraiu sua atenção, pois ela era incrivelmente alta e chamava o cão com delicadeza. O comportamento não condizia com a estatura, lembrando um dos seus colegas de departamento. Ela insistia em convidar o cão a sair, que não colocava nada além do focinho para fora da abertura.
— Então, investigadora, o que me diz? — perguntou Almeida se aproximando.
— Ele estava bem escondido — disse apontando para o cachorro. — Nem notei ele ali quando entrei.
— Está bastante assustado. Estamos tentando tirar ele de dentro daquela casa desde que chegamos.
— Algum sinal de sangue ou ferimento no cão?
— Não. Ele é grande, mas não tem patas daquele tamanho. Alguma outra pista ou teoria sobre o caso?
— Tenho que só ver uma última coisa antes de chegar a uma conclusão.
As duas foram até os buracos que Lucila havia encontrado ao chegar. O calor intenso já tinha secado totalmente o gesso nesse meio tempo. Lucila calmamente retirou um dos moldes, limpando o excesso de terra com um pincel macio. A terra ia caindo, revelando uma barriga, dois bracinhos cruzados e o que parecia ser a ponta de um nariz pontudo. “Hum” resmungou a escrivã.
— Me parece um gambá — falou Almeida.
— Sei disso — respondeu Lucila, contendo a impaciência com a constatação óbvia.
Ela esperava conseguir a pegada de alguém espreitando a casa. Ao retirar o segundo molde, já não tinha muitas esperanças, o que resultou numa boa surpresa. Ao limpar os últimos torrões de terra pôde ver claramente a silhueta de uma pata, que parecia ser a mesma que deixou as marcas de sangue pela casa.
— Tenho que dar o braço a torcer, Almeida. Parece que nossas vítimas foram atacadas e mortas por…
— Almeida! — gritou um policial — Olha o que encontramos!
Dois policiais carregavam alguém pelos braços. A pessoa estava algemada e os policiais estavam estranhamente afastados dela. Lucila e Almeida logo descobriram o porquê. O homem estava totalmente sujo como se estivesse dormido em um chiqueiro.
— Parece que vamos ter que investigar melhor o que aconteceu por aqui, colega — concluiu Lucila.