4-VENTO NORTE Encruzilhada: Lua em Chamas · Capítulo 7 de 12
Obra Menu

4-VENTO NORTE

4

Vento Norte

Um hálito tórrido abeira a cidade. Achega-se calmo, escondendo seus verdadeiros objetivos. Sem ninguém para lhe dar resistência, aumenta seu vigor até expor as carecas escondidas com chapéus, e levantar o tecido das saias mais leves e frescas sem noção de pudor. Totalmente insolente aos cabelos longos e bem alinhados.

Há quem odeie o fato de ter que andar tapando os olhos da poeira levantada com violência pelas rajadas. E quem ame o toque cálido e o caos proporcionado por essa força da natureza, a ponto de despertar em si desejos mais ardentes que a própria temperatura ambiente.

No entanto, todos em Santa Maria concordam que o Vento Norte é praticamente um cidadão honorário da cidade. Dono de uma personalidade própria, algumas vezes se mostra tímido, outras mais violento. Esse temperamento forte, também tão cativante, inspirou um monumento que leva seu nome, exposto em frente a Biblioteca Pública Municipal.

Independente do clima quente, há uma sala que causa arrepios permanentemente, tanto pela temperatura quanto pelo seu propósito. Jânio trabalhou nela incansavelmente até conseguir terminar as considerações sobre o corpo totalmente mutilado de Bianca. Isso inclui tirar inúmeras radiografias, moldes dos ferimentos, testes para tentar determinar a arma do crime, enumerar os órgãos faltantes e de algum modo confirmar se aquela realmente era Bianca. O legista já esperava Lucila com as fontes de sua descoberta, esperando que todas as imagens e radiografias fossem suficientes para saciar a necessidade de provas concretas da escrivã. Geralmente ela preferia ver as evidências por si mesma, mas, dado o estado do cadáver, lhe pareceu de bom-tom não a expor àquele quadro de destruição onde apenas olhos treinados conseguiriam identificar qualquer detalhe relevante.

Jânio revisava suas observações no peito aberto do cadáver, absorto em seu trabalho. Usava um óculos de lentes de aumento pendurados na testa que lhe permitiam enxergar os detalhes dos ferimentos, quando uma voz falou ao seu lado.

— Oi, Jânio. Tudo certo por aí?

— Sim, obrigado. Só estou terminando as últimas observações antes da Lucila chegar.

O legista estava com as duas mãos enfiadas nas costelas do corpo e olhou para o lado distraidamente, enxergando apenas um borrão dourado através da distorção das lentes. Virou a cabeça num ângulo estranho para poder enxergar quem havia falado, se deparando com Lucila de sobrancelhas levantadas. Num movimento rápido, tapou o corpo com o lençol branco que estava ali e tirou sua lupa de pala da cabeça.

— Desculpe pela visão desagradável.

— Não tem problema. Você se lembra que já vi este corpo no quarto onde ele foi encontrado, não é?

Os ferimentos pareciam ainda piores sem todo o sangue. Lucila sentiu novamente repulsa ao ter aquela visão, resistindo para não expressar seus sentimentos, pois não quis estimular ainda mais a aflição do amigo.

— Eu também não me importo — disse Arnaldo fazendo-se notar.

Jânio deu uma rápida olhada de baixo para cima, sem reconhecer o homem atarracado de sapatos lustrados e bigode grisalho consoante ao cabelo.

— Esse é Arnaldo, Jânio. Ele é da corregedoria e está acompanhando o caso.

O legista esticou a mão para cumprimentá-lo com a luva suja de restos mortais, recolhendo logo em seguida, acenando numa saudação tímida à distância, desejando boas-vindas.

— Pois bem — disse Jânio tirando as luvas e pegando um arquivo que estava em uma mesa perto da entrada —, a vítima possuía um número incrível de ferimentos, principalmente no rosto e peito. Infelizmente não sobrou muita coisa para um reconhecimento facial, sendo necessária uma análise da arcada dentária. Foi confirmada a identidade de Bianca.

— Alguma pista sobre a arma do crime?

O legista fez uma expressão estranha.

— Sei que as condições não favorecem o detalhamento do que aconteceu, mas não achei marcas das armas mais comuns. Nenhuma marca de tiro, nenhuma facada. Se fosse dar minha opinião, diria que, se alguém cometeu esse crime, usou um animal como arma. Olhe só essas marcas!

Jânio pegou o tablet que estava na mesa e abriu as imagens que havia feito dos ferimentos infligidos no esterno da vítima. Mostrou o que pareciam sulcos feitos por dentes que rasparam o osso.

— Não parecem marcas humanas — disse o legista. — Mandei as imagens para uma amiga bióloga analisar e tentar identificar. Encontrei as mesmas marcas na parte interna da caixa torácica, como se o animal, após abrir o abdômen, quisesse quebrar as costelas.

— Com que objetivo?

— O coração sumiu. Provavelmente consumido com o fígado. Foram arrancados do corpo aparentemente a mordidas. Nada limpo. A propriedade inteira foi revirada e não foi encontrado nenhum sinal desses órgãos.

— Algo lhe incomoda — afirmou Arnaldo. — Você parece aflito com suas descobertas.

— Precisamente — respondeu Jânio admirado pelo perfilador notar isso. Seus sentimentos quanto aos casos nunca eram discutidos com Lucila. — As marcas que encontrei no rosto — abriu outra imagem onde se via uma das bochechas praticamente sem carne com vários arranhões no osso. — Como podem ver, há inúmeros arranhões na face da vítima. Desde o osso frontal, passando pelo maxilar até a mandíbula. Foram golpes repetidos de cima para baixo, de quatro objetos pontiagudos paralelos. — Ele fez movimentos com quatro dedos curvados, em cima da imagem. — Parecem marcas de garras, no entanto, não sei que tipo de animal poderia ter esse comportamento. Pode ser inexperiente na caçada ou viveu durante muito tempo em cativeiro. Encontrei as mesmas marcas no torço, mas em menor quantidade.

— Hum! — exclamou Lucila, abstraída em seus pensamentos.

— Se isso foi feito por um humano, não saberia dizer como.

As informações obtidas ali eram muito importantes, entretanto não indicavam um próximo passo para Lucila. Tudo mostrava que um animal grande, forte e perigoso havia entrado na casa. Mas se ela não quisesse trabalhar em parceria com a Polícia Ambiental, teria que provar que o estrago que o animal fez escondia um crime. A orelha da escrivã coçava com a pulga residente atrás dela. Havia algo de errado com aquela história e ela precisava saber o que era. Agradeceu a Jânio e pediu para lhe manter informada de qualquer nova descoberta.

***

As grossas lonas do circo sacudiam com a força do vento, chicoteando uma das enormes cordas que fixavam o toldo no chão e acabou se soltando. Um homem magro e alto gritava com outros dois mais novos sobre o ocorrido.

— Rafael! Michel! Falei para prender as cordas direito. Não queremos que ninguém morra de novo. — Ele percebeu de canto de olho a aproximação de Mayara e Raul. Notando que eram policiais, tentou remendar a frase dita, embolando a fala com um sotaque forçado que era uma mistura de espanhol e italiano. — De nuevo! Non queremos que ninguém morra!

Raul estava com calor, no entanto, nada comparado a sua parceira. Ela tentava não transparecer. Por sorte, sua expressão permanentemente fechada a ajudava com esse objetivo. Entretanto, não conseguia reprimir a sensação de que suas bochechas queimavam, os arrepios em todas as partes do corpo e a pele sensível ao toque. Reações febris ao Vento Norte.

— Boa tarde, senhor — começou Raul.

— Ah! Hola, queridos amigos policiales. A que devo sua ilustre visita? Por gentileza, me chame de Giorgi — disse, fazendo uma reverência teatral e falando de forma exagerada. — Mágico, apresentador e proprietário do surreal Circo Dali, de Lá e Acolá. Eu já pagué los impostos.

— Não viemos por isso. Houve um incidente nos arredores da cidade e precisamos fazer umas perguntas. Podemos dar uma volta por aí?

— Por supuesto. Fiquem à vontade. Mi casa es su casa!

Sem dar muito espaço para os policiais falarem, Giorgi começou um passeio, expondo um pouco da história de seu circo. As origens, o ano que começou as apresentações, a quantidade de pessoas na equipe, excedendo a liberdade poética para destacar suas conquistas e longevidade do espetáculo.

O gigante estava nas nuvens, os olhos brilhavam ao ver equilibristas treinando seus movimentos em cima de tábuas e bolas, como se surfassem fora d’água, sustentando uma cadeira apoiada no nariz. Malabaristas jogavam no ar todo tipo de objetos, entre eles facões, bolas e pinos. Enfeitado com um sorriso discreto, Raul ocasionalmente olhava para Mayara, recebendo uma cara ainda mais amarrada de resposta. Obviamente ele não se esqueceu da missão e observava com atenção qualquer detalhe que pudesse ser suspeito, mas isso não significa que não pudesse desfrutar daquela oportunidade única.

Mayara, pelo contrário, estava somente focada em resistir ao calor e acabar logo com aquilo. Sentia-se um pouco tensa. Sabia que, fora do horário de apresentação, seria difícil dar de cara com um personagem bastante comum em circos. Aquele que, mesmo sendo símbolos de brincadeiras inocentes e infantis, lhe causam temor incontrolável: palhaços.

Giorgi continuou sua exposição entrando na grande estrutura principal. O barulho do vento diminuiu, limitando-se a reclamações, traduzidas em pancadas secas do vai e vem das paredes maleáveis, por onde não conseguia passar. Caminharam entre inúmeras cadeiras vazias até o picadeiro. Estavam cruzando ao lado de uma rede que tomava conta de quase todo o espaço, quando um movimento os fez olhar para cima, dando tempo apenas de distinguir a figura feminina que voava em uma cambalhota, até pousar de mau jeito na estrutura da lateral.

— Presta atenção, Caio! — gritou, mal-humorada, a moça para seu parceiro trapezista, alongando um dos pés em pose de bailarina.

Raul demorou um pouco mais do que devia com a cabeça levantada, admirando a bela mulher de roupas justas que averiguava as próprias canelas expostas, procurando machucados. Olhou timidamente para Mayara, esperando certo julgamento, entretanto se deparou com a parceira observando a acrobata quase com a mesma expressão no olhar que ele. Resolveu continuar a conversa com Giorgi.

— Desculpa, me distraí — gritou Caio do outro lado do picadeiro.

Mayara desviou sua atenção para a voz masculina, notando o homem iluminado pelo holofote, sentado na barra do trapézio que balançava levemente, com uma das pernas penduradas. Caio percebeu que ela o observava e retribuiu com um sorriso galante. As pupilas de Mayara dilataram, e como se usasse binóculos, conseguiu apreciar melhor os dotes físicos do homem que estava em sua plena forma. Os braços bem definidos e as veias aparentes pelo esforço do trabalho. O suor fazia seu peitoral bronzeado e definido brilhar sob a camiseta cavada que mal o tapava. As pernas, de músculos bem torneados, estavam vestidas com um colã branco que expunham traços de sua anatomia que ele nem queria exibir.

A investigadora expirou calmamente o ar pela boca, soltando um leve gemido involuntário. Raul, que nunca vira sua parceira agindo de tal forma, perguntou se ela estava bem. Ela, voltando à realidade dos pensamentos que envolviam cordas e corpos se entrelaçando no ar, respondeu positivamente. Afirmou que apenas precisava de um local com ar-condicionado e um banho gelado. Tentou se refrescar abanando a camiseta do uniforme e puxando a gola para soprar em seu interior.

Nesse momento, Caio jogou-se de onde estava, caindo graciosamente na rede de proteção abaixo dele, tal qual um mergulhador olímpico. Depois de mais alguns movimentos hábeis, pousou devagar ao lado de Mayara, que acompanhava com interesse a exibição.

— Bom dia, senhora policial — disse Caio com uma das mãos ainda na rede. — Apesar de que olhando mais de perto, achar que não posso te chamar de senhora.

A investigadora estava com as bochechas queimando e, mesmo sendo sempre muito segura de si, naquele momento em específico não sabia o que responder. Limitou-se a balançar a cabeça.

— Não sei se sou um cara tão mau assim — continuou Caio —, mas se quiser me prender com suas algemas em algum lugar, eu me entrego.

— Eu, hãn, não… — gaguejou Mayara. No entanto, não precisou terminar a frase. Um pé feminino apareceu agarrando a orelha de Caio, afastando-o da investigadora num forte e contínuo puxão, fazendo-o reclamar de dor. Sua parceira de apresentação, que ainda estava em cima da rede, questionava a atitude de Caio entre os dentes, soltando sua orelha apenas quando julgou estar em uma distância segura da policial. Pediu desculpas pelo seu irmão a Mayara, que respondeu com um sorriso, dando uma última olhada para o artista enquanto subia as escadas para continuar o ensaio. Apressou o passo para acompanhar Raul e Giorgi que já estavam no fundo do picadeiro.

O mágico continuou mostrando o lugar, saindo agora da grande lona e indo para os bastidores onde havia caminhões e trailers que serviam de dormitórios de toda a equipe. Pessoas andavam de um lado para outro em seus afazeres diários, carregando objetos das apresentações, limpando, treinando, produzindo as refeições. Após dar uma volta, Giorgi já estava direcionando seu passeio para o caminho de onde vieram.

— Já no cocino tão seguido quanto antes, pero quando posso ainda preparo mio famoso strogonoff.

“Como podem ver, queridos policiales — disse encaminhando seu passeio para o final —, tutto está nos conformes da lei y vigilância sanitária. E por supuesto, nenhum animal selvagem foi encontrado.”

Raul e Mayara pararam e se entreolharam, fazendo Giorgi virar e ficar os encarando.

— Mayara, você falou estarmos procurando por animais? — perguntou o gigante de maneira retórica.

— Não disse nada, Raul. Achei que você tinha dito.

Os dois fitaram o mágico, que ficou em silêncio um segundo, com olhar distante, procurando em seus pensamentos qualquer argumento que o livrasse daquele ato falho.

— Só estava enumerando todas as leis que respeitamos — disse Giorgi com um sorriso simpático, tentando ser o mais seguro que conseguia.

O esforço desabou quase no mesmo momento. Um rugido estranho foi ouvido nas proximidades. Os investigadores buscaram confirmação que haviam ouvido o mesmo, trocando olhares. O rosto do mágico mudou de cor algumas vezes até ficar totalmente pálido, como se a alma tivesse deixado o corpo saindo pelos olhos arregalados. Enquanto inventava qualquer história sobre crianças brincando com cornetas, o rugido repetiu fazendo os parceiros ir na direção de sua fonte.

Aos gritos de “parem em nome da lei circense” e “pega policial” de Giorgi, os investigadores passaram por algumas estruturas e trailers até chegarem a um coche totalmente coberto com cortinas de três cores alternadas. Havia uma mulher ao lado da carroça, falava aflita com a criatura de dentro das cortinas, implorando por silêncio.

Raul e Mayara pediram que ela se afastasse de onde estava. Giorgi começou a discutir com a mulher por não conseguir com que o animal ficasse quieto.

Vagarosamente os policiais se aproximaram das cortinas e viram grades, como se o tecido cobrisse uma jaula. Em meio a escuridão entre as lonas, tentavam ver melhor o que havia no interior daquela prisão quando a enorme cabeça de um urso apareceu os cumprimentando com um urro. Eles deram um salto para trás e seus corações foram parar na boca.

— Mas o que é isso? — perguntou Mayara quase gritando com o susto.

— Calmem! Não é nada disso que vocês estão pensando — suplicou o mágico com as mãos postas, colocando-se entre eles e a carroça.

Giorgi se virou e começou a afastar as cortinas que cobriam as grades da jaula, fazendo os policiais segurarem as armas por instinto. Eles ficaram ainda mais tensos quando o proprietário do circo destravou a tranca da portinhola e a escancarou. Eles deram um passo para trás, esperando logo serem atacados por um monstro selvagem. Entretanto, quanto mais observavam o animal, mais se acalmavam, mantendo a distância por segurança.

A ursa colocou a cabeça, adornada com uma grande fita rosa em formato de borboleta, para fora de seu cativeiro, farejando o ar com curiosidade. Possivelmente pelo cheiro dos estranhos poucos metros à sua frente. Arrastou as patas até os degraus e desceu com dificuldade, balançando toda a estrutura onde estava. Parecia frágil e cansada, sentando-se logo que chegou ao chão. Giorgi lhe deu algo para mastigar, recebendo um abraço carinhoso em retribuição, enquanto discutia novamente com a mulher.

— Não podia aguentar mais um pouquinho com ela? Os policiais já estavam indo embora.

— O que eu poderia fazer? Estava na hora do passeio dela, ela ficou impaciente.

Giorgi olhou para os investigadores que observavam a cena perplexos.

— Ah! Quase esqueci de apresentar minha esposa e assistente de palco, Cássia. — A mulher cruzou as pernas e levantou umas das mãos como se estivesse no palco. — E essa belezura é a Fátima. — A ursa continuou mastigando seu petisco como podia, pois a bocarra parecia ter menos dentes do que deveria.

— Infelizmente — começou Raul —, mesmo que ela seja uma fofa, teremos que abrir uma investigação. Houve um ataque de animal contra uma pessoa nos arredores da cidade e não podemos descartar a possibilidade de um urso.

— Podem investigar a vontade — disse Cássia. — Fátima não faria mal a ninguém.

— E esses passeios? — perguntou Mayara. — Ela não pode ter escapado e, perdida num lugar desconhecido, ter se entregado aos instintos e machucado alguém?

— Na verdade, ela gosta de sair um pouco de seu quarto, mas não mais de alguns minutos e fica por aqui mesmo.

Cássia acariciou atrás da orelha da ursa e Fátima se atirou de barriga no gramado, dando dois passos se arrastando no chão para esticar as pernas.

— Sim! — continuou Giorgi. — Fátima está conosco há muito, muito tempo. Ela já está idosa, mal tem energia para caminhar longas distâncias, ainda menos para atacar uma pessoa.

“Quando a lei de proibição de animais em circos começou a valer, fomos doando nossos parceiros de quatro patas para abrigos e zoológicos que julgássemos serem bons para os animais. Alguns foram mais fáceis, outros nem tanto, mas conseguimos. Sobrando apenas Fátima.

“Ela sempre foi muito querida e carinhosa, mesmo assim não houve um abrigo sequer que aceitasse um animal de seu porte. Não achamos alternativa além de mantê-la escondida e cuidá-la até que nos deixe.”

— Isso é muito tocante — disse Mayara pragmática —, mas vou ter que pedir reforços para investigar a área.

Giorgi e Cássia concordaram acenando a cabeça, cabisbaixos, cada um com uma das mãos coçando o traseiro proeminente de Fátima.

— Bueno — disse Giorgi, que pareceu receber uma injeção de ânimo —, ya que vão ter que esperar aqui um pouco, que tal un piccolo truco com cartas para distrair.

Ele tirou uma caixa de baralho lacrada do bolso, fazendo Raul sorrir e olhar para a parceira, que fingiu esperar alguma resposta do rádio. Com o consentimento do gigante, o mágico abriu o pacote de cartas e embaralhou, com toda a atenção de Raul que, como bom investigador, tentaria desvendar como o truque foi feito. Após abrir as cartas em leque, Giorgi esticou o braço com o baralho em direção de seu voluntário.

— Escolha uma carta — pediu. Mas antes que Raul colocasse a mão no baralho, o mágico agarrou seu pulso — Pero no puede ser qualquer carta. Pense em alguém especial. Concentre-se numa pessoa extremamente importante per te, que realmente vive en tu corazón.

— Certo. Sei bem em quem pensar.

Raul tirou uma carta e olhou. Dama de copas. Mostrou para Mayara que observava a movimentação de canto de olho, simulando desinteresse. Giorgi pediu que a colocasse de volta no monte e o embaralhou novamente. Segurando o baralho firmemente a sua frente, colocou umas das mãos na têmpora e, vagarosamente, uma carta começou a se revelar, saindo sozinha do meio das outras. Raul levantou as sobrancelhas e logo baixou com um sorriso no canto da boca. O mágico perguntou se aquela era a carta dele e Raul respondeu triunfante que não. Sete de ouro havia se revelado. O mágico pareceu confuso por um instante e o investigador sentiu que havia feito algo que atrapalhou a “magia”. Aquela sensação boa de imaginar que, mesmo que não saiba como o truque foi feito, você foi habilidoso o suficiente para não deixar se enganar.

Perplexo, Giorgi girou o baralho nas mãos até ele se transformar em outro objeto. O que surpreendeu Raul, além da transformação rápida, foi reconhecer o objeto que o mágico segurava. A tela do relógio se acendeu e apareceu um dinossauro correndo, saltando de alguns cactos e correndo novamente. O investigador olhou para os próprios pulsos abismado, notando apenas naquele momento a falta de seu acessório.

Raul bateu palmas e falou “bravo”, recebendo uma reverência discreta em retribuição, que logo foi interrompida, pois Raul deu voz de prisão ao mágico por furtar um policial. Giorgi deu a volta em Fátima e se escondeu atrás de sua esposa, sendo perseguido por Raul a passos largos. Fátima deu um suspiro profundo, ainda cansada pelo peso da idade, acompanhando apenas com os olhos os dois trocarem de lado. Quando Raul se aproximou de Cássia, ela gentilmente segurou-o no braço, pedindo calma ao investigador com um sorriso simpático, dizendo precisar do esposo inteiro mais tarde.

Giorgi, do lado oposto da ursa, parou, estendeu os braços com um relógio nas mãos e perguntou a Raul como poderia ser preso se não havia roubado nada. Esfregou as mãos lentamente e o acessório pareceu diminuir entre seus dedos até desaparecer magicamente. Raul franziu o cenho e olhou para o pulso novamente. Lá estava seu relógio com o réptil maratonista no lugar de origem, como se não tivesse saído dali. Espantado, o investigador abriu um enorme sorriso, soltando uma risada, rasgando elogios aos dois companheiros circenses. Giorgi e Cássia faziam reverência em agradecimento, Fátima soltou um gemido preguiçoso, Mayara revirou os olhos.

A investigadora havia percebido exatamente como o truque foi feito, usando esse conhecimento para torturar o parceiro toda vez que ele pedia para revelar o que ela sabia.

Depois que a equipe de reforço chegou ao local, tudo foi vistoriado e fiscalizado, revelando não haver nenhum indício de outros animais além de Fátima. Com a devida atenção de um profissional veterinário, foi constatado que Giorgi e Cássia falavam a verdade. A ursa tinha uma idade avançada, pouca energia e era muito calma. Mesmo assim foram feitas medições de suas presas e molde de suas garras, e Fátima parecia muito animada com tanta atenção e carinho recebidos. Depois de uma rede de contatos, Fátima não precisou mais viajar com sua trupe, sendo muito bem cuidada em um local adequado para sua espécie. Foi visitada em seu paraíso particular por seus colegas de trabalho mais chegados, que também sempre mandavam alguma ajuda financeira ao santuário onde viveu até seu falecimento, poucos anos depois.

Raul nunca mais esqueceu dos eventos no circo, não só pelas emoções juvenis afloradas pelo espaço lúdico, mas também pela dama de copas que encontrou no bolso de seu uniforme ao chegar em casa. A carta agora pousa em um porta-retratos, com uma foto sua e de Mayara, num dos poucos registros da mulher dando um sorriso sincero e espontâneo. Façanha obtida como resultado da gracinha que Raul falou justamente para tentar conseguir a rara imagem.

Mayara chegou em casa naquele dia com uma febre que nunca sentira na vida. Sua pele parecia verter eletricidade. Júlia lavava a louça com uma roupa leve, buscando algum refresco com os respingos da torneira, quando a investigadora chegou lhe dando um beijo e parando ao seu lado na pia. Enquanto Júlia falava sobre coisas cotidianas, Mayara apenas respondia com olhares gulosos e um sorriso nos lábios. Quando indagada pela namorada o motivo de tal olhar, Mayara respondeu apenas segurando sua mão e levando-a para fora da cozinha. As roupas foram ficando pelo chão e as mulheres não conseguiram chegar ao quarto, sendo as paredes da sala testemunhas do que veio. Seus corpos ardiam com tamanha intensidade que o clima parecia fresco. Entre suor, beijos e suspiros, no fim da noite sucumbiram ao cansaço e dormiram ali mesmo, saciando o feitiço de desejo do Vento Norte no chão fresco da sala.

***

Os olhos não se firmavam no lugar. Tudo se esforçava para girar a sua volta, indo da esquerda para a direita, depois voltando, deixando-lhe com o estômago embrulhado. A primeira transformação da noite era sempre mais complicada. No entanto, sabia que o mal-estar duraria pouco, sendo substituído por uma fome infinita.

A morte daqueles dois acalmou seu desejo de vingança pelo que eles fizeram, mas em consequência despertou o desejo de sangue da fera que agora vive dentro de si. Os ratos estão lhe ensinando a caçar, e as galinhas das chácaras ao redor da cidade ajudam com a fome. Entretanto, o desejo ainda perdura. Que feitiço o sangue humano recai nessas feras que não pode ser substituído por nenhum outro.

O enjoo passa enquanto respira rápido de cabeça baixa, como se tivesse acabado de correr uma maratona sem sair do lugar. Suas patas sentiam a terra, fazendo subir toda aquela energia primordial por seus braços e pernas. O instinto animal tomava conta de seu corpo, eriçando cada pelo que surgiu por toda a pele, refletindo a tênue luz noturna nos sedosos fios pretos e vermelhos.

Agora podia sentir até o cheiro das minhocas que fugiam do calor que emanava, se enterrando mais fundo nas raízes da relva. Enxergava os insetos correndo com terror, escondendo-se no lado oposto dos troncos. Conseguia ouvir os pássaros nas copas, batendo seus bicos com medo após serem acordados com uivos e rugidos macabros.

Então a fome, a sede.

Saiu correndo como se a mata fosse seu reino, aproveitando toda a liberdade que suas quatro patas podiam proporcionar, planejando como controlaria suas necessidades naquela noite. Estava cada dia mais difícil, e os donos das fazendas ao redor da cidade já comentavam do monstro que estava minando suas galinhas.

Estava a poucos quilômetros da cidade, e a estrada não ficava longe, trazendo um som curioso aos seus ouvidos. Correu em direção ao barulho do motor de um ônibus que foi parando lentamente. Chegou na faixa onde a condução deixava uma de suas passageiras no meio fio. Havia algumas casas um pouco afastadas, mas nunca imaginaria que um ônibus passava por ali.

Após agradecer e despedir-se do motorista, a mulher vinha em sua direção alheia ao perigo. O barulho dos passos dela não conseguiam abafar as batidas do coração. Aquele emaranhado de músculos, cheio de carne macia, e sangue vivo. Só de imaginar, a saliva tomou conta da língua do monstro. Coração que já deve ter magoado alguém por se entregar a outra pessoa, mesmo que quem tivesse ao seu lado se esforçasse em lhe dar do bom e do melhor todos os dias. O ronco do estômago do animal entrou em consonância com o rosnado que emitia, seus dentes ficaram à mostra.

Mesmo no escuro, a mulher não pôde deixar de notar a fera que vigiava seus movimentos escondida entre a vegetação. Assustou-se com o par de olhos que emitiam um brilho amarelo e parou. Não havia nenhum carro na estrada, então a moça foi para o outro lado da via. Devia ser o cachorro de algum vizinho. Olhou para trás duas ou três vezes, certificando-se que não seria perseguida, voltando a respirar ao ver a criatura entrando no mato.

A paz da mulher durou pouco. Saiu correndo sem olhar para a direção do galope seco que vinha em sua direção, mas não por muito tempo. Sua fuga foi impedida pelas mandíbulas do monstro que cravaram em sua perna.

Ao ouvir o grito de sua vítima, a mente humana sobrepujou o instinto assassino, questionando sua atitude. No entanto, a maciez da panturrilha entre seus dentes e o sabor ferroso banhando sua bocarra, desligaram totalmente o bom senso. Seus olhos pareciam de um tubarão que farejou sangue.

Levou dois chutes na cara, o que fez soltar a perna da mulher. Deu a volta e cravou-lhe os dentes nas orelhas, ficando com a cabeça totalmente na boca. Arrastou sua presa para o mato de onde viera, sem se importar com os puxões nos pelos e tapas que recebia. Após tomar uma distância considerável da estrada, soltou a mulher quase desmaiada, andando em sua volta como um tigre que avalia sua caça. O rosto de Bianca apareceu na face assustada e ensanguentada da mulher, aumentando o ódio da fera. Uma voz rouca e profunda saiu da boca do monstro, como um rosnado.

— Por que tu destruiu minha vida? Sua rata imunda!

A vítima não sabia se estava alucinando, tentou fugir, mas logo foi impedida pelo peso da fera em suas costas. Sua vida acabou ali, com seu corpo sendo banqueteado por um monstro impossível, nunca mais sendo encontrado.

1/1
Menu

Fazer anotação