5 - ENLAÇO
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Enlaço
O dia começou como sempre, Mayara e Raul se encontrando em frente aos armários metálicos, se preparando para o dia de trabalho enquanto guardam seus pertences pessoais e conversam sobre o café da manhã. Uma presença enorme fez com que eles virassem as cabeças, quebrando a rotina. Era Bárbara, que se demonstrou muito feliz ao ver Raul, beijando-o no rosto para cumprimentá-lo e abanando para Mayara, que respondeu discretamente balançando a cabeça com um meio sorriso enquanto ajeitava o coldre.
— Não achei que veria você por aqui. Na verdade, estou feliz por isso — disse Raul galante.
— Vim atrás de uns documentos sobre o Comandante Abílio. Coisa chata, burocracia. Mas já estou indo embora. — Bárbara esticou o braço, sem se esforçar muito, como se tentasse pegar algo em cima dos armários. — Pode me alcançar o capacete, por favor. Tu é mais alto — disse Bárbara com um bico e olhar pidão.
Raul esticou o braço e pegou o capacete. Conversaram sobre motos enquanto andavam até a saída. Mayara os acompanhou com o olhar.
—Pode me alcançar o capacete. Tu é mais alto…— repetiu ela a frase de Bárbara como uma criança birrenta. Bateu a porta de metal com mais força que queria, só para dar de cara com Arnaldo fechando o seu próprio armário calmamente, analisando o seu comportamento.
— Não me olha desse jeito. Não é nada do que você está pensando. — Arnaldo levantou as sobrancelhas. — Tu viu que se ela esticasse os pés já alcançava o capacete que, provavelmente, foi ela mesma que colocou ali. — O perfilador abaixou o queixo e juntou as mãos na frente do corpo. — Não é ciúmes, eu só… Conheço o gosto por mulheres de Raul. Sei que ela vai quebrar ele em pedacinhos, e como sou eu que convivo com ele o dia todo, tenho que ficar aguentando as lamúrias e juntando os cacos. — Ele ainda a observava, levantando uma das sobrancelhas. — Olha… Não tenho que te provar nada. — falou finalmente, afastando-se do perfilador, para pouco tempo depois estar reunida de novo a ele e Raul para uma reunião tática.
Calorosa como sempre, ou seja, nenhum pouco, a delegada Maria Castro Figueiredo cumprimentou a equipe, pedindo também algumas atualizações sobre o andamento da investigação.
Delegada Castro, como era conhecida, ficava feliz de ter a fama de ser alguém firme e séria no seu trabalho. Sendo uma das poucas mulheres negras em seu cargo, precisou durante anos provar sua proficiência, conseguindo um respeito descomunal na região em que seu departamento atua. Poucos conheciam qualquer aspecto de sua intimidade, fora o caso de ter um casamento feliz e dois filhos que já beiravam a independência. Mesmo que o semblante denunciasse a idade, era bastante enérgica e muito bem adaptada ao ritmo que sua vida exigia, fazendo todos questionarem como ela conseguia dar conta de tudo e ainda manter a aparência de quem está sempre pronta para uma coletiva de imprensa.
— Apesar de Fátima parecer bastante assustadora no início — falava Raul —, ela foi um doce com os tratadores. Pesquisei o histórico de incidentes no circo, quando ainda eram permitidos animais, e nada foi encontrado. Fora o ataque de um pinscher a um palhaço. Mas depois que o cão foi aposentado por estresse, não se soube de mais nenhum ataque de animal.
— As amostras tiradas da ursa — continuou Mayara — não foram compatíveis com as marcas do corpo de Bianca. E não foi encontrado nenhuma evidência de que havia outros animais no recinto.
— Já foi comprovado que eles foram mortos por um animal? — perguntou a delegada.
— O comportamento do ataque — começou Lucila — e o estado do corpo, principalmente da mulher, estão dificultando definir o motivo da morte. E, se foi um animal, de qual espécie era. Jânio está bem focado em conseguir essas respostas. Ele encontrou alguns pelos no local e na vítima. Estão em análise.
— Não é comum, mas pode ser de uma nova espécie — disse Raul. Mayara torceu o nariz com a informação, fazendo-o continuar o argumento. — Recentemente, um grupo de veterinários da região se depararam com um caso interessante. Havia um animal perdido e ferido rondando algumas fazendas. Foi identificado como uma fêmea Graxaim-do-campo. Quando foi encaminhada para o tratamento de animais silvestres, notaram que ela latia como um cachorro e mandaram para um canil. Lá tentaram alimentá-la com ração e tratar ela como outros cães, mas ela não se adaptou. Então ofereceram pequenos roedores e ela os caçou como um graxaim faria. Enfim, tiveram que fazer um teste de DNA para determinar o que ela era e descobriram que, na verdade, era um cruzamento raro de cachorro com graxaim-do-campo.
— Certo. Então esse caso seria de responsabilidade da polícia ambiental?
— A natureza da morte das vítimas ainda não está clara, senhora — respondeu Lucila. — Principalmente da mulher. Na linha de tempo, nada impede que eles tenham sido mortos e depois devorados por um animal que escondeu o crime.
— Ou até se usaram algum animal treinado para atacar as vítimas — completou Raul.
Aquela ideia parecia um pouco fora da realidade para a delegada, no entanto, dois fatos deixaram o argumento mais plausível: as notícias que lera na internet sobre cães que atacaram pessoas, resultando em seus falecimentos, e o fato de Raul estar falando. Não que ele possuísse qualquer super poder de persuasão, mas sim por Maria estar habituada aos seus pensamentos fora da caixa que acabavam colocando dúvida suficiente para justificar a continuidade da investigação.
— E nosso primeiro suspeito?
— Nenhuma evidência de que Édipo chegou a entrar na casa foi encontrada — respondeu Mayara —, ou que indique alguma relação com as vítimas.
— Um azarado. Estava no lugar errado na hora errada. — Todos concordaram. — Descobriram alguém que queria o casal morto?
— Precisamos entrar em contato com alguns colegas e com a esposa para mais detalhes — falou Lucila.
— A esposa não está morta?
— Bernardo era casado com alguém, mas não era a pessoa que estava na casa. A morte dele daria direitos à esposa legal de herdar os bens, incluindo a chácara e os imóveis no terreno.
— Entendi. Dinheiro e heranças sempre são um bom motivo. E quais motivos os conhecidos teriam para querê-los mortos?
— Ainda não sabemos — respondeu Raul. — Mas acredito que os grupos de sobrevivencialismo sejam a melhor chance de encontrar alguém com os conhecimentos e possuir algum animal que pode ter desferido tais ferimentos.
— Certo. Resolvam essas suspeitas logo, antes que mande os currículos de vocês para o IBAMA.
O grupo assentiu e se dispersou. A escrivã saiu a passos largos, deixando Arnaldo para trás sozinho, sentado na mesa onde observava e anotava em seu bloco.
— Então — começou a delegada, enquanto o perfilador juntava suas coisas para acompanhar Lucila —, o que está achando da investigação?
— Meu trabalho, por enquanto, é observar. Certamente receberá considerações mais aprofundadas em breve.
— Entendo. Boas fofocas podem dar continuidade a uma investigação. Em um crime, geralmente temos que filtrar as informações em uma rede de mentiras, ou até interpretações do que realmente aconteceu, dependendo do que cada testemunha acredita ter visto. De qualquer forma, fofocas podem ser pequenas pistas que acabam levando à verdade em um caso.
Arnaldo olhou para a delegada com ar inquisitivo, tentando interpretar o que acabou de ouvir.
— Está me chamando de fofoqueiro?
— Estou dizendo que a verdade de um indivíduo pode moldar a realidade, dependendo ao fim que se quer chegar. — Arnaldo a olhava perplexo. — Acompanhei sua jornada profissional nos últimos dias.
— Está me investigando, delegada?
— Estou fazendo o que o Estado e a população dessa região esperam que eu faça: garantindo a ordem e que as leis sejam cumpridas.
“Notei uma ascensão considerável em sua carreira, mediante um estreitamento no seu relacionamento com o corregedor chefe. Várias equipes de investigação de outros departamentos foram dissolvidas, ou ‘aposentadas’, através de suas considerações aprofundadas encaminhadas ao seu superior”.
— Garanto que eles mereciam. A senhora quer me acusar de alguma coisa diretamente ou continuará exibindo sua retórica?
— Sem acusações no momento. Apenas comentei sobre fatos específicos que podem mudar minha atitude quanto ao seu trabalho por aqui.
— Seja clara.
— Espero que não use a cabeça dessas pessoas boas como degraus para seus objetivos pessoais — disse apontando para a direção do grupo que anteriormente estava ali —, pois se eu tiver uma poeira de dúvida sobre seus métodos, eu juro que a queda do pedestal que você acha que nos observa, resultará em uma destruição sem precedentes. — Arnaldo se endireitou, cruzou as mãos na frente do corpo e olhou com austeridade para a delegada. Ele fez menção de responder, mas foi interrompido. — Dito isso, espero que aproveite sua visita ao nosso departamento e aproveite o cafezinho. Embora desconfie que quem fez por último foi o Jéferson, então bomchafé.
Arnaldo observou a delegada se afastando, atônito. Olhou em volta percebendo que não sabia em que direção seu grupo alvo havia se encaminhado, precisando procurá-los pela delegacia.
Lucila aproveitou um momento de distração do perfilador e foi conversar com sua chefe, que entrava na própria sala. Boa oportunidade para uma conversa particular.
— O que precisa, Lucila? — perguntou a delegada fechando a porta, abafando o murmurinho do departamento.
— Fazer uma pergunta: a senhora tem dúvidas sobre minha capacidade na função?
— Claro que não — respondeu franzindo o cenho.
— Então por que essa análise minuciosa sobre como trato os casos? Essa pressão me distrai, acabo cometendo falhas que normalmente não aconteceriam, e deixo de observar questões que não deixo passar. Já temos avaliações internas dos procedimentos e me encontro anualmente com o psicólogo do departamento, confirmando minha aptidão para continuar nas investigações.
— Acredite, Lucila. Fui a primeira a questionar os objetivos da corregedoria nessa empreitada. Infelizmente as ordens vieram de cima e não pude impedir. Saiba que se, de alguma forma, isso atingir vocês, também irá me atingir. Trabalho incessantemente para que essa delegacia funcione de maneira correta e idônea. Então posso afirmar que nunca estive tão satisfeita com uma equipe como a que temos por aqui. — Ela falou firme e convicta. Colocou a mão no ombro de Lucila. — Principalmente você, Mayara e até o Raul. Então não deixarei nada acontecer com este grupo.
— Amo meu trabalho. Sinto que me encontrei na função que exerço. Não quero que haja qualquer possibilidade de que isso esteja em risco.
— Então continue fazendo o que sempre fez que ficará tudo bem. Inclusive fico feliz de serem vocês três quem eles estão acompanhando de perto. Ninguém melhor para representar o trabalho que fazemos nessa delegacia. Deixa que com a corregedoria eu me preocupo. Eles só vão descobrir que não há nada para mudar por aqui.
A escrivã olhou nos olhos da delegada e sentiu confiança em suas palavras. Agradeceu o apoio e saiu da sala satisfeita, deixando sua chefe respirando fundo, recuperando a própria segurança após omitir sua preocupação quanto aos objetivos do corregedor. Maria acreditava profundamente em cada agente de sua equipe. Julgava serem pessoas boas, que seguiam a missão do departamento de tentar fazer o mundo melhor. No entanto, não podia se deixar levar pelo pensamento inocente de estarem imunes de serem atingidos por corrupção e brigas de poder. Segurou a cruz de prata pendurada em seu pescoço, uma joia herdada de sua mãe, rezando por proteção e força para a jornada que estava por vir.
Arnaldo andou a esmo pela delegacia por um tempo, procurando a equipe de investigação que acompanhava, até enxergar os cabelos loiros de Lucila atravessando o salão rapidamente. Apressou o passo para chegar ao seu lado. Quando a escrivã o notou, observou-o com os olhos azuis por trás das grandes lentes dos óculos, soltando uma provocação.
— Achei que você não vinha — disse ela, sem parar de caminhar.
— Ainda estou me adaptando com o ritmo de vocês.
— Precisamos ir mais devagar para você conseguir acompanhar? — falou por cima do ombro sem parar de andar.
— Não. Trabalhe como sempre.
— Ótimo!
Pegaram um carro, com Lucila do lado do motorista. Durante o percurso, mesmo sem ele perguntar, atualizou-o do que estava fazendo. Disse ter ligado para o emprego da esposa de Bernardo, Marilu Lopes Moniz, entretanto ela estava se sentindo doente e havia ficado em casa. Conseguiu seu endereço e estavam se dirigindo para a residência.
Não era um percurso longo, Marilu morava nos bairros centrais, mesmo assim o silêncio deixou o caminho um pouco mais pesado. Lucila se perdeu em seus pensamentos, ensaiando mentalmente o que falaria para mulher, já que a morte de seu esposo, mesmo que eles tenham se separado, não seria uma notícia fácil de ser digerida. Além disso, teria que, no mesmo momento, fazer com que ela se sentisse disposta a responder algumas perguntas que auxiliassem o andamento da investigação.
Chegaram no endereço indicado, pediram ao porteiro que avisasse a proprietária pelo interfone. Subiram com o elevador e chegaram à porta, mas antes que pudessem bater ou apertar a campainha, um homem abriu com uma cara de preocupado para os dois.
Ele era alto, seu cabelo e barba dividiam a mesma cor ruiva, estavam bem aparados, mas desgrenhados, como se tivesse recém-acordado. Usava uma regata branca que expunha seu corpo atlético e o braço esquerdo enfaixado. Estava de cuecas samba-canção e descalço.
Lucila não deixou de notar que o ferimento do braço era praticamente da mesma altura do furo de projétil encontrado no batente da porta na cena do crime.
— Bom dia!
— Olá. Meu nome é Lucila, esse é o agente Arnaldo. Este apartamento é de Marilu Lopes Moniz?
— Marilu Mariano Lopes — corrigiu o ruivo. — É sim. Sou irmão dela. Aconteceu alguma coisa?
— Uma investigação está em andamento sobre a morte do marido dela. Sabe onde podemos encontrá-la?
O homem olhou para os dois agentes, virou os olhos soltando uma bufada e pediu para eles entrarem. Foi em direção à cozinha americana preparar um café, dizendo para os agentes ficarem à vontade. Os dois ficaram em pé observando ao redor. No sofá havia um travesseiro e lençol embolado. O apartamento era organizado ainda que pequeno. No entanto, um pouco bagunçado, como se não fosse limpo há alguns dias.
— Não pareceu surpreso com a notícia, senhor… — comentou Arnaldo.
— Carlos — respondeu o ruivo, preparando a cafeteira. Notou que Arnaldo anotava em seu bloco. — Carlos Mariano Lopes. Não se preocupem com minha indiferença. Apenas não me importo com a morte daquele imbecil.
— Ainda assim, precisamos entrar em contato com a esposa da vítima — disse Lucila.
— Ex-esposa. Ela está indisposta no momento. Isolada, na verdade. Começou a passar mal há alguns dias, suspeita de COVID. Vim para cá ajudar a cuidar dela. Mal dormiu essa noite, queimando de febre e dores no corpo.
— O senhor também pediu dispensa do emprego?
— Há algumas vantagens de ser o próprio chefe. Meus alunos compreenderam totalmente. Sou instrutor de artes marciais. Apesar dos potenciais perigos e ferimentos — disse apontando para o curativo do braço —, gosto bastante do meu trabalho. O que aconteceu com o idiota do Bernardo?
— Foi encontrado morto na própria casa, sob condições suspeitas, junto de Bianca Freitas.
Carlos tentou disfarçar a expressão de raiva, deixando cair a máscara da indiferença.
— Conhecia a mulher? — perguntou Arnaldo.
— Sim — respondeu contendo o ódio. Serviu-se de café. — E a casa não era dele. Marilu foi quem mais se esforçou por aquele lugar. Querem café? — Os policiais agradeceram.
— Fiquei curiosa. Qual sua relação com as vítimas? Parece existirem muitos rancores entre vocês.
Carlos soltou uma pequena risada.
— Virei suspeito agora? Apenas por achar Bernardo um imbecil como ele realmente era? Bom, digo qual a nossa relação: ele era meu cunhado. E não devia passar disso. Mas ele decidiu destruir a minha vida, junto com a da minha irmã, só porque não conseguia deixar o tico nas calças. Aquele RATO… — disse alterado. Fechou os olhos e respirou fundo para se acalmar. — tirou a Bianca de mim. Então desculpa por não sentir pena da morte dos dois. Aparentemente eles conseguiram o que queriam, viver juntos até que a morte os separasse.
— Não disse que era um suspeito, mas terei que perguntar: onde estava na noite de sexta entre as dez da noite e uma da manhã de sábado?
Carlos coçou os olhos bufando impaciente, repetiu a palavra “sábado” três vezes.
— Há poucos lugares abertos nessas horas por aqui, mas tem um restaurante nos arredores da cidade que Marilu e eu gostamos muito. Essa noite ficamos acordados até mais tarde e acabamos ficando com fome. Fomos lá pegar um lanche. Posso mostrar o comprovante no aplicativo do cartão se vocês quiserem.
Ele pegou o celular da mesa e chegou até o dia em questão no histórico de compras do cartão. Passou o celular para os policiais, que confirmaram o que ele dizia.
— Certo. De qualquer forma, teremos que falar com Marilu. Há detalhes e processos legais em relação à morte de Bernardo que precisam ser encerrados.
— Sem problema. Aviso quando ela estiver melhor e puder ir à delegacia prestar um depoimento.
Os policiais agradeceram a atenção do ruivo e, sem mais perguntas, se dirigiram a saída sendo acompanhados por Carlos, que abriu a porta.
Voltando ao veículo, após alguns minutos de silêncio enquanto processavam as informações que acabaram de receber, pela primeira vez Lucila e Arnaldo se entreolharam e admitiram pensarem o mesmo: havia algo errado naquela história. Carlos parecia saber mais sobre o caso do que estava falando.
No apartamento, o ruivo sorvia os últimos goles de seu café já frio, escorado na mesa da sala, olhando para qualquer canto aleatório. O senho cerrado quase materializando seus pensamentos. Caiu de volta a realidade ao notar o ser fantasmagórico enrolado em um cobertor leve, vindo do corredor que levava ao quarto. A pele branca do rosto estava ainda mais pálida, marcada apenas pelas sardas espalhadas pelo nariz e bochechas. Os fios de cabelo vermelho mais rebeldes se projetavam da cabeça parcialmente coberta. A face se contorceu ao receber a luz que vinha da janela.
— Bom dia,Marilua— disse Carlos em tom animado.
— Acho que nunca odiei tanto esse apelido — respondeu ela com uma voz rouca e fraca, sem abrir os olhos.
— Para de mentir. Se não vou me sentir culpado de te chamar assim durante toda sua vida. Vou fazer um café para ti.
— Estou um pouco enjoada.
— Mas tem que comer alguma coisa. E a febre como está? — perguntou colocando as costas dos dedos na testa da mulher. — Cedeu um pouco, mas continua quente. Volta para seu quarto que já te levo algo para comer.
— Sabe que não precisava de tudo isso, né?
— O mal-agradecida, fecha o biquinho e volta para tua cama, agora — disse paternalmente.
— Tá bom! Não precisa manifestar o espírito do irmão mais velho. Já estou indo, já estou indo.
— Acho bom, mesmo.
— Te amo, seu tonto — disse sumindo de volta na escuridão de onde veio.
— Te amo, maninha. Não se preocupe. Vai dar tudo certo. Eu cuido de você.
***
— Eu nem sabia que esse tipo de coisa existia por aqui — comentou Mayara ao chegar na fachada do que parecia ser um clube.
Mesmo próximo de locais movimentados, como a Avenida Nossa Senhora das Dores e Avenida Medianeira, havia bairros mais nobres que resguardavam paz e tranquilidade. Grades e muros altos garantem a privacidade dos proprietários em seus casarões. Terrenos enormes, muitos deles já vendidos por gerações recentes para grandes construtoras locais, as quais usaram os metros quadrados com maestria, empilhando apartamentos opulentos e espaçosos para quem pudesse pagar. Sem deixar de lado quem não se importasse de investir o dinheiro mais limitado em um lar com menor atenção ao aspecto arquitetônico, construindo prédios de formato minimalista que priorizavam ângulos retos. E, finalizando a abrangência da clientela, reservando espaços pensados para comércio, com salas de aparência geral, cabendo a quem quisesse personalizar conforme o nicho de seu negócio.
Um desses terrenos era onde Mayara e Raul se encontravam nesse exato momento. As paredes da fachada estavam ornadas com troncos rústicos, tratados com verniz para evitar a deterioração. Na parte de cima uma placa, também de madeira, exibia as letras queimadas onde se lia: Grupo de Sobrevivencialismo da Região Centro.
Os investigadores entraram na recepção, sendo recebidos por uma mulher que, mesmo aparentando ter uma idade mais avançada, parecia cuidar muito da saúde e forma física.
— Bem-vindos ao grupo, policiais — disse, após ver os distintivos, ajeitando os óculos com aros extravagantes e cordão de óculos ornado com pedrarias. — É sobre a licença das armas? MATHIAS!
— O que tu quer, mulher? — gritou o homem em resposta na outra sala.
— Traz as licenças das armas, por favor!
— Onde que está?
— Aonde deveria estar, Mathias? — continuou gritando a mulher.
— No arquivo dos documentos pagos.
— Então!? Deve estar nesse arquivo. — Voltou sua atenção de volta para os investigadores. — Haja paciência. Não me levem a mal. Ele sabe de cor todas as plantas venenosas por aqui, rastreia água e alimento na mata como ninguém, mas para achar as cuecas ainda precisa da minha ajuda.
— Bom, não viemos pela licença — disse Raul.
— Ah! Sabia que vocês eram um dos nossos. — A moça pegou uns folhetos que estavam espalhados pela mesa e os entregou aos investigadores. — Temos vários cursos de sobrevivência primitiva na mata com grupos indígenas. Não que você precise, não é mesmo? — disse enquanto alcançava o informativo para Mayara.
A investigadora ignorou o prejulgamento da recepcionista em pensar que, apenas por ela ser descendente de indígenas, saberia sobreviver na floresta. Olhou a imagem no folheto onde mostrava indígenas com os rostos e braços pintados com tracejados pretos, colares coloridos em seus pescoços, sorrindo enquanto conversavam com algum dos instrutores do grupo de sobrevivência. A saudade da família tomou conta de sua mente e umedeceu seus olhos, mas não permitiu o acúmulo de uma lágrima.
— Já faz um tempo que me afastei da minha comunidade. Estou um pouco enferrujada — respondeu Mayara, devolvendo o folheto e deixando Raul espantado. Ele esperava alguma resposta ácida para a recepcionista, mas ficou mais assustado ainda com a calma da parceira.
— Na verdade, viemos por outro motivo. Meu nome é Raul, essa é Mayara e estamos investigando um incidente que aconteceu com um de seus integrantes.
— Conhece Bernardo e Bianca? — perguntou Mayara.
— Sim, claro. Um casal muito querido. O que eles fizeram?
— Infelizmente eles foram encontrados mortos na residência de Bernardo.
A mulher congelou e arregalou os olhos até quase o tamanho das lentes dos óculos. Mathias, um homem atarracado e com a barba e cabelos grisalhos, bem aparados, entrou na recepção carregando uma caixa, dizendo que não conseguia achar os documentos que ela pediu. A moça olhou de relance para dentro da caixa, enfiou uma das mãos lá e tirou um papel de dentro, batendo com ele em cima da mesa. Mathias pegou o documento e soltou: “Ah! Aqui está!”.
— Vocês estão me dizendo que Bernardo e Bianca morreram?
— Como é, Jacinta? — perguntou Mathias assustado. — Mas o que aconteceu? Como eles morreram?
— É o que estamos tentando descobrir — disse Raul com pesar. — As condições que eles foram encontrados deixaram algumas suspeitas. Sabe de alguém que poderia querer o mal deles.
— Não, absolutamente — respondeu Jacinta, colocando a mão na testa. — Como disse, eles eram muito queridos por todos. Bastante ativos no grupo e muito simpáticos. Meu Deus! Era um casal tão jovem, quero dizer, eles não eram tão jovens, mas o namoro era recente. Estavam tão felizes.
— Estranhei quando eles não apareceram noworkshopdebushcraft. — disse Mathias. — Eles nunca faltavam.
Raul olhou o folheto e algo veio à sua mente.
— Vocês costumam encontrar grandes predadores nessas trilhas? Como onças, por exemplo.
— Raramente. Alguns gatos-do-mato e Graxains — respondeu a recepcionista ainda meio tonta, sem entender o interesse do investigador —, nada perigoso.
— A caça e defesa de abrigos contra esses animais não fazem parte dos conhecimentos de sobrevivência na selva? Seria um atrativo enorme para mais integrantes do grupo se conseguissem um grande felino para os treinamentos.
Jacinta contorceu o rosto numa expressão estranha.
— Claro. O perigo real poderia potencializar o aprendizado. Infelizmente a caça ilegal e desmatamento praticamente dizimou essas espécies por aqui. E, com certeza, não é o objetivo desse grupo colocar os integrantes em perigos desnecessários. Acabamos estudando bastante a teoria. O que isso tem a ver com Bernardo e Bianca?
— Acredito que nada — respondeu Raul, deixando de lado a ideia de que os donos poderiam ter capturado uma onça e perdido o controle do animal em algum momento.
— E fazemos tudo nos conformes da lei — completou Mathias batendo duas vezes com o indicador na caixa de documentos.
— Ainda assim — começou Mayara —, precisamos colher alguns relatos de conhecidos. Podemos dar uma volta no local?
— Claro, sem problemas.
O terreno era grande, gramado, com algumas árvores e arbustos delimitando. Havia um grande galpão onde se encontravam o estande de tiro e uma área reservada para treinamento de arco e flechas, protegendo as residências vizinhas do barulho e dos projéteis. Um grupo estava sentado em círculo no sol. Usavam tocos de madeira como bancos, vestiam roupas confortáveis de atividade física. Alguns seguravam cuias e bebiam chimarrão, prestando a atenção no instrutor que, de pé, apresentava ferramentas e explicava seus principais usos, destacando encontrarem todos os produtos no catálogo de vendas do estabelecimento.
Do outro lado, nos fundos do terreno, se via uma área cercada, onde um homem magro segurava umpit bull. Com sua ordem, o cão saiu correndo atrás da pessoa que vestia uma roupa de proteção acolchoada. O cachorro agarrou o braço protegido do alvo e este fingia bater na fera com um bastão, sacudindo como se tentasse se livrar do ataque. Opit bullapenas soltou o “agressor” com outro comando de voz dado por seu dono. Embora a ofensiva parecesse aterradora, o que se passava na cabeça de todos era o calor intenso que o alvo estava passando.
— Quem é aquele? — perguntou Raul aos seus guias.
— Aquele é Rico… — disse Mathias e trocou olhares com Jacinta. — Henrique. O adestrador de cães do grupo.
— Algum problema?
— Quando perguntaram sobre inimizades com Bernardo e Bianca — falou a mulher —, não me veio à cabeça o Rico. Foi uma besteirinha. Ele era próximo de Bianca. Flertava com ela sem muito pudor. O casal adotou um cão e ela pedia dicas de adestramento.
— Ele falou para todo mundo que ela quem dava em cima dele — contestou o homem.
— É claro que ele ia se gabar dizendo ser ela quem corria atrás, Mathias — falou Jacinta impaciente.
Mayara e Raul olharam um para o outro, “Falo com a turma da roda”, disse ela, “e eu com o cachorrão”, respondeu ele.
Mathias se aproximou do cercado junto do investigador. Raul observou o homem meio encurvado e magro que segurava o cão de guarda pela guia. Ficou imaginando se aquela figura meio esquelética traria algum risco para qualquer relacionamento, ainda mais para cometer o crime que investigavam. Quem sabe ele era um ótimo adestrador e só os cães fizeram o trabalho sujo.
No momento que Mathias gritou o nome de Henrique, quem respondeu não foi o dono do pit bull, mas a figura acolchoada que servia de alvo. A pessoa se aproximou a passos largos, e quando notou o uniforme de Raul, foi desabotoando a proteção, sendo observado atentamente a distância pelo cachorro. Nesse momento Raul pôde ver um motivo de ciúmes. O homem que se revelou estava totalmente em forma, ainda que a idade avançada pintasse os cabelos e barba pretos com vários pontos grisalhos. Chegou com um largo sorriso estendendo a mão suada, assim como o resto do corpo, para cumprimentar o investigador. A parte superior da proteção pendia na cintura. O brilho em seus olhos não condizia com a idade, dando ares de garotão conquistador.
Depois de Mathias atualizar o colega dos acontecimentos, o sorriso e o brilho se desfizeram, sem apagar totalmente o charme e carisma do adestrador.
— Estou totalmente impactado com essa notícia — disse Rico encostando-se em um dos mourões da cerca, parecendo sinceramente triste. — Ber e Bia eram um casal incrível. Todos amavam eles. Na verdade, havia quem sentisse inveja daquele namoro deles.
— Inveja a ponto de querer fazer mal aos dois?
— Absolutamente. Eles eram muito sérios aqui. Realmente se interessavam pelo aprendizado do sobrevivencialismo. Cara! Eu adorava o Ber. E Bianca até veio me pedir algumas dicas de adestramento. O filhote deles é um pouco rebelde.
— Quer dizer que você se aproximou de Bianca. Isso não causou nenhum estresse entre o casal e você?
— Não — respondeu displicente, abanando o ar. — Quero dizer, sempre há um leve ciúme entre os homens. Olhe para mim — disse com um largo sorriso e uma sobrancelha mais alta que a outra. — Mas me dou bem com todo mundo. Principalmente com os caras. Temos até um grupo nowhatsapp.
— Sua aproximação com as vítimas me faz perguntar: onde você estava na noite de sexta, perto da meia-noite?
— Isso virou um interrogatório? — respondeu Rico olhando para Mathias, que se afastou para os dois conversarem mesmo querendo ouvir a resposta.
— Posso conseguir um mandado e uma requisição para você comparecer na delegacia prestar depoimento, se achar melhor.
— Não é necessário — sussurrou Rico, fazendo Raul se aproximar. — É apenas um pouco constrangedor. Eu estava com Catarina.
— Catarina?
— Fala baixo! É a moça na roda que está com a cuia na mão.
Raul olhou em direção ao grupo onde Mayara estava. Catarina parecia bem calma, relaxada até de mais, observando o adestrador de longe. Quando notou que ele olhava em sua direção, fez um carinho sugestivo na cuia e deu uma abanada discreta. Rico respondeu com um sorriso e uma leve jogada de cabeça.
— Por que isso seria constrangedor?
— Ela é esposa do Samuel — falou escondendo a mão que apontava para o dono dopit bull, que agora andava a passos largos mantendo o cachorro junto de sua perna.
— Ok… — disse Raul surpreso. — Era uma noite de sexta e Samuel não estava com a esposa?
— Pois bem… Ele estava com a Cármen.
— Cármen?
— Chiu! — Rico pediu silêncio, olhando para os lados para ver se ninguém havia ouvido. — Você não sabe falar baixo?
— Desculpa. É do sangue — respondeu se encurvando e tentando conter a voz.
— A mulher de blusa rosa.
Rico apontou os olhos para o grupo sentado novamente, fazendo com que Raul olhasse, ficando perplexo e coçando a cabeça.
— Ela é casada com Lauro, que está sentado ao lado dela.
— O quê? Como? — perguntou Raul mais por curiosidade do que como investigador.
— Sei lá. Um diz que tem que ver algum familiar, outro diz que jogará futebol, ou ir no grupo de crochê.
Raul esfregou a mão no rosto perplexo.
— E ninguém nunca descobriu nada?
— Todos são bem crescidinhos. Não sei se todos sabem dos casos dos outros, ou se fingem que não vêm para continuar nos seus rolos. Mas nunca houve nenhuma briga por causa disso.
— Devido às investigações, teremos que confirmar essas alegações.
— Entendo. Fazer o quê? Apenas torcer que todos sejamos adultos aqui, e cada um admita seus tropeços.
Mathias aproximou-se quando viu que eles falavam normalmente.
— Então, encontrou o que precisava, policial?
— Eu não sei o que encontrei — respondeu rindo.
— Essa conversa me deixou um pouco tenso — comentou Rico apertando a própria nuca. — Que saudade do nosso massagista.
— Ele era realmente bom — comentou Mathias. — Mas ele nunca mais respondeu às mensagens.
— Massagista? — perguntou Raul, como se aquela palavra lhe trouxesse uma lembrança nebulosa à tona.
— Sim, ele é ótimo — Mathias pegou o celular, e pesquisou por um tempo na tela. — Com esses músculos, talvez você precise também. Aqui está. Se conseguir contato, indicamos que faça uma sessão com ele, sem medo.
Mathias virou o celular para Raul, fazendo-o levantar as sobrancelhas e abrir um sorriso. A única coisa que conseguiu pensar foi: “Mayara vai adorar isso”.