2-MÁ SORTE
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Má sorte
O suspeito foi encaminhado à delegacia para interrogatório. Após descobri-lo na propriedade, os procedimentos para busca de evidências foram feitos com muito mais minúcia por Lucila e os outros policiais, apesar de o registro das pegadas pela casa e a sinistra pintura de morte deixada no lençol serem o ponto alto da procura. Nada mais de extrema relevância em relação ao caso foi encontrado.
A escrivã voltou a delegacia em posse do que encontrou e logo que chegou lhe entregaram um arquivo sobre o suspeito, completando seu arsenal para o interrogatório. Entrando em uma sala escura, podia observar o suspeito do outro lado da grande janela de vidro sem que ele a enxergasse. Abriu o arquivo onde se lia Édipo Martins da Cruz ao lado da foto do homem de pele negra, bastante magro, barba malfeita e com cabelos apenas nas laterais da cabeça. Sua ficha corrida era rápida e tediosa. Nada além de alguns furtos e invasões a domicílio sem agressões. A violência infligida nas vítimas indicavam falta de experiência e premeditação. Será que buscava aumentar o nível de seus delitos?
Os pensamentos de Lucila foram interrompidos por um homem que entrou na sala onde ela estava.
— Oi. Ouvi sobre a investigação que você está trabalhando. Como vão as coisas?
— Não achei que precisava de um perfilador se já peguei o suspeito.
— Você já tem certeza que esse elemento é o criminoso em questão? — Lucila respondeu com silêncio. — Pois bem. Vamos ao trabalho.
— Não gosto que fiquem me fiscalizando, Arnaldo.
Arnaldo Assis Duarte é perfilador. Sua função nos casos inclui determinar certos aspectos comportamentais e psicológicos dos suspeitos e vítimas que são mais comuns na maioria dos crimes. Isso ajuda a determinar buscas mais eficientes, evitando também possíveis enganos na linha de investigação e acusações injustas.
Fisicamente não era muito imponente, no entanto, possuía altivez em sua aparência com o cabelo bem aparado, o terno elegantemente alinhado de cor cinza, destacando a pele negra. Carregava com orgulho o distintivo no peito, como um xerife de filmes de velho oeste. Foi designado recentemente para o departamento pela corregedoria, e a hostilidade de Lucila era justificada por parecer que ele estava em seu encalço sempre que ela assumia um novo caso.
— Não estou fiscalizando ninguém, Lucila. Estou aqui para ajudar e para isso preciso que você confie em mim.
— Que seja. — Ela lia a ficha quando notou que o suspeito repetia um comportamento. A cada poucos segundos dava um suspiro, balançava a cabeça e sussurrava: “sou brasileiro e não desisto nunca”.
— Parece ser um mantra — disse Arnaldo ao ver Lucila franzir o cenho. — Ajuda a acalmar a mente e enfrentar situações difíceis.
— Ele vai precisar mais do que meditação para sair dessa — disse ela juntando os arquivos e indo para a saída. — Você não vem?
— Vou ficar por aqui, observar um pouco mais.
A investigadora saiu tentando não se importar com aquilo, e quando abriu a porta ao lado pôde perceber o real motivo de Arnaldo não a acompanhar. A atmosfera da sala estava densa com o cheiro que tomou conta do local. O policial que ficou de segurança ao lado da porta coçava o nariz e os olhos, como se quisesse limpar a sujeira que condensava do ar em seu rosto. A sala era totalmente branca, mas no momento a aparência de limpeza era substituída pela sensação de entrar em um esgoto com chorume verde escorrendo pelas paredes. E isso tinha apenas um motivo. Édipo, o suspeito, foi levado para a sala da mesma forma que foi encontrado, totalmente sujo do chiqueiro onde estava. Foi deixado assim justamente para não se sentir confortável. Certamente isso o animaria a falar rapidamente tudo que os policiais precisavam, e livrar-se de uma vez de toda aquela sujeira.
— Olá, Édipo. Meu nome é Lucila, preciso fazer umas perguntas.
— Claro. O que quiser — disse com um sorriso tímido e ombros arcados, como se as algemas fossem pesadas demais. — Me desculpe pelo cheiro.
— Tudo bem. Trabalho em cenas com cadáveres todos os dias, já senti coisa pior. Tem o costume de invadir casas, Édipo?
— De vez em quando. Entro em casas abandonadas tentando ter uma boa noite de sono. Principalmente em dias de chuva.
— Você não tem casa?
— Há algum tempo.
— O que fazia naquela fazenda ontem a noite?
— Eu… Perdi minha pipa.
— Quer que eu acredite que enfrentou o perigo de ser preso para pegar seu brinquedo?
— Era importante — disse ele tentando limpar a sujeira dos olhos — Fiz a pipa para vender e conseguir algum dinheiro. Estava testando em campo aberto, quando uma rajada de vento a derrubou no meio de algumas árvores ali perto. Fui parar próximo da casa porque algo me chamou a atenção.
— E o que foi?
Édipo abriu a boca, pensou melhor e fechou, ficando em silêncio.
— Me ajude a entender, Édipo. Por acaso cansou de não ter onde morar, viu naquela casa isolada a oportunidade de se livrar dos donos e tomar a casa para si?
— Livrar dos donos? Não, não! — falou tomado por uma energia ao notar do que estava sendo acusado. — Nem cheguei perto dos donos.
— Então você pode me explicar isso? — Lucila colocou a foto de Bernardo com a garganta dilacerada, arrancando uma expressão de repulsa do interrogado. Quando colocou a imagem da cama em cima da mesa, Édipo demorou a entender o que via e logo olhou para o teto, desviando o olhar, assustado.
— Caramba! Hoje eu não durmo.
— Por se sentir culpado?
— Eu nunca faria uma coisa dessas. Até porque sei quem é o assassino.
— Então me fale, por favor!
Édipo abriu a boca e voltou a fechar. Revirou os olhos e balançou a cabeça, discutindo com os próprios pensamentos. Colocou o cotovelo na mesa com a mão esticada para o teto, tomando coragem. A outra mão pendurada pela algema, sem saber o que fazia com ela. E com um movimento curto como se jogasse a informação para Lucila, tomou coragem e falou: “o chupa-cabra”.
— É o quê? — Lucila esperava qualquer resposta. Já ouviu centenas de desculpas e mentiras, mas aquilo era demais.
— O chupa-cabra — repetiu Édipo com o mesmo movimento da mão.
— Inacreditável.
— Não é!? Também quase não acreditei quando vi. Já tinha presenciado coisas estranhas morando nas ruas. Mas nada tão vívido quanto aquilo.
— Quis dizer que literalmente não dá para acreditar. Essa é a pior história que já ouvi de alguém para se livrar da culpa.
— Você tem que acreditar em mim. Sei o que vi, e aquela noite lá estava o chupa-cabra!
Ao repetir o nome do criptídeo mais uma vez, algo mudou na atmosfera da delegacia. Saindo da sala de interrogatório, atravessando o salão e as mesas de outros policiais, fazendo uma curva até chegar do outro lado do recinto, uma sensação de arrepio levantou os pelos da nuca do homem que digitava em seu computador.
— Sentiu isso, Mayara? — perguntou Raul à parceira que dava atenção à própria tela na mesa ao lado.
— Sei que trabalhamos juntos há muito tempo, mas você poderia sair da sala quando estiver com gases? — respondeu impaciente a investigadora, sem desviar os olhos do trabalho.
Raul Cavalcanti Fortunato é alto e está no auge de sua forma física. Certamente sua beleza e músculos lhe colocariam na posição de semideus se vivesse nas eras clássicas da história. Embora seu comportamento fizesse torcer o nariz de colegas mais tradicionais. Um exemplo disso é o fato de carregar na parte interna do pulso o relógio inteligente que, além das horas, exibia o fundo de tela com o pequeno dinossauro do Google em sua corrida infinita, pulando por cima de um cactus de tempos em tempos.
Na mesa ao lado, e na posição oposta do espectro comportamental, está Mayara Caeté Silveira, sendo de baixa estatura, magra e desproporcionalmente forte. A descendente de indígenas se destacava por sua determinação e destreza na luta. Já havia derrubado até mesmo o gigante Raul em treinos de combate na academia. Era conhecida por sua inteligência, obstinação e mau humor, não sendo de muitos sorrisos. Um pequeno frasco de ódio e destruição. Recentemente fez uma fina mecha de cor verde-oliva em seu cabelo, que se notava no rabo de cavalo. Depois de uma insistente orientação da delegada Castro para que Mayara fosse um pouco mais cordial com os colegas de trabalho, a investigadora fez a pintura “ousada” nos cabelos pretos, com a justificativa de passar um ar de simpatia, sem muita eficiência no resultado.
— Não é isso desta vez — disse Raul dando uma espiadela no horário e no réptil maratonista. Piscou os olhos, tentou se concentrar no relatório e, quando não conseguiu, levantou-se de sua mesa.
— Aonde você vai?
— Acho que tem algo acontecendo. Só vou dar uma olhada no recinto. Já volto.
— Você sempre sente algo quando tem que terminar a papelada. Raul, Raul! — Mas ele se afastou ignorando a parceira.
O investigador caminhou calmamente pelo prédio observando seus colegas trabalhando em suas funções normalmente. Um casal discutia entre si, sentados em uma mesa enquanto um policial tentava acalmá-los, nada anormal. Atravessou o recinto até a janela onde podia olhar para dentro da sala de interrogatório. A persiana interna estava fechada, ainda assim havia algumas frestas onde pôde ver Lucila impaciente, esfregando os olhos com os dedos polegar e indicador por baixo dos óculos. Do outro lado da mesa, um homem todo sujo falava alto, gesticulando como podia, limitado pelas algemas. “Hum, promissor”, pensou Raul. Ele abriu uma fresta na porta só para ouvir a frase: “então o chupa-cabra apareceu”. Seus olhos brilharam, ele abriu a porta se arrependendo logo em seguida com o cheiro que sentiu. Como chamou a atenção de todos, continuou com seu objetivo, respirando com parcimônia.
— Pode deixar comigo, Fernando — disse Raul para o policial que estava de guarda com os olhos lacrimejando. Fernando agradeceu duas ou três vezes antes de sair rapidamente, evitando que Raul desistisse de substituí-lo.
Édipo observou de olhos arregalados aquela montanha de músculos, com cara de poucos amigos, entrar e se posicionar ao lado da porta.
— Olha — começou Édipo para Lucila com a voz falha —, não sei que tipo de interrogatório vocês fazem aqui, mas você tem que acreditar em mim.
— Eu lhe aconselho a falar tudo desde o começo. — Lucila não sabia o que Raul estava fazendo ali, no entanto, achou que a impertinência do colega pudesse ajudar naquele momento.
— Bom… Eu era jovem. Queria trabalhar para conseguir minhas conquistas. O problema é que meu primeiro chefe era um alcoólico inveterado. Tudo que ele ganhava no trabalho gastava no barzinho perto de casa…
Mayara foi à procura de seu parceiro ao perceber que ele não voltaria. Notou pelas frestas da persiana que ele estava de guarda na sala de interrogatório. Ao contrário de Raul, decidiu não entrar, mas sim, observar o que estava acontecendo pela sala ao lado.
— Olá! — cumprimentou Arnaldo ao Mayara entrar, interrompendo as anotações que fazia. — Veio apreciar o show?
— O que temos aqui?
— Foram encontrados dois corpos na zona rural. Um suspeito estava aos arredores da casa. Ele diz que o responsável pelas mortes é o chupa-cabra — respondeu rindo numa bufada, balançando a cabeça em negativa.
A investigadora se sentiu surpresa com a trama, mas mal esboçou reação.
— Não me admira que Raul tenha se interessado pelo caso.
— Seu parceiro tem muito interesse nesses assuntos fantasiosos?
Mayara se posicionou melhor para ouvir o que o suspeito falava, fingindo não ter percebido a pergunta. Édipo contava de suas madrugadas em claro como assistente de palco de eventos locais.
— O que ele está fazendo?
— Enrolando — falou o perfilador. — E de quebra, tentando conquistar um pouco de empatia.
— E por que Lucila não o interrompe?
— Ela está dando corda. Alguns suspeitos só querem ser ouvidos. Isso também ajuda o investigador a conhecer melhor o suspeito, e dá a possibilidade de encontrar inconsistências na história, colaborando com a acusação.
Dentro da outra sala, Édipo continuava sua história.
— Então trabalhei de vendedor em uma loja, infelizmente não sou muito bom nisso… Enquanto fazia a faculdade, ministrei algumas aulas, mas não sou bom como professor… Naquela loja tinha um gerente que reclamava do barulho dos meus passos, acredita nisso?… Tentei meu negócio próprio, daí veio a pandemia. Imagina como é difícil ser massoterapeuta com distanciamento social… Então meu nariz não parava de sangrar com o pó da madeira. Até que gostava da marcenaria, só que com o nariz sangrando…
— Você está me enrolando — falou finalmente Lucila após quarenta e cinco minutos, apoiando o rosto com o punho.
— Foi você que pediu para contar tudo desde o início.
— Eu queria saber o motivo de você estar no local do crime.
— Pois então, como não podia continuar sendo marceneiro…
— Por favor, seja objetivo — pediu Raul com certa rispidez.
Édipo gaguejou um pouco e a gritaria do casal que ainda discutia no salão do lado de fora pareceu lhe deixar preocupado.
— Vida, por favor, não apronte mais comigo hoje — disse ele para as paredes.
Lucila e Raul se entreolharam sem entender.
— Você ouve vozes? — perguntou a escrivã.
— Não, não — respondeu Édipo rindo de nervoso. — A bagunça ali fora está me assustando um pouco. Tenho o costume de falar com a Vida, o Universo, ou o que seja que rege nosso destino.
— Não se preocupe. É só uma briga de casal — disse Raul. — Meus colegas têm tudo sob controle.
— Vocês não entendem. A vida gosta de brincar comigo, sou azarado ao extremo. Como se meu caminho fosse regido pelas leis de Murphy.
— Não acredito que alguém seja tão sem sorte.
— Por mim tudo bem, mas sugiro que se afaste um pouco — pediu Édipo a Raul ao ouvir mais alguns gritos inflamados.
— Está me ameaçando?
O suspeito se encolheu na cadeira intimidado pelo gigante.
— Não! É só um aviso para o seu bem.
Lucila balançou a cabeça e Raul voltou para o lado da porta, deixando o suspeito relaxado novamente, dentro do possível.
— Preciso que você me conte a verdade — começou a escrivã —, pois essa história de chupa-cabra não está colando. Como você foi parar no local?
— Pois bem, você notou que não consegui me estabelecer em nada, então resolvi apenas desistir de tentar encontrar uma carreira. Ganho algum dinheiro para comida fazendo bicos aqui e ali, dentre essas coisas algumas pipas para vender. Perdi a dita cuja no meio das árvores ali perto. Como estava escurecendo, resolvi que ia dormir lá.
— No meio das árvores?
— Sim. Bem tranquilo. Já havia feito isso outras noites. Por vezes os mosquitos são meio chatos, mas…
— Foco, Édipo!
— Sim, sim. Ouvi dois disparos nas proximidades. E como não sou bobo nem nada, fui averiguar do que se tratava.
— Isso me parece a maior estupidez, na verdade.
— A Vida só quer me humilhar e ferir gravemente, não me matar. Enfim… Não me aproximei tanto assim, mas foi o suficiente para vê-lo parado lá, em frente a casa, com o cara deitado no chão.
— O chupa-cabra?
— Exatamente! Ficou olhando para o cara um tempo e saiu andando. Notei que estava vindo em minha direção, então tentei me abrigar em uma cabaninha que tinha por ali. Chegando perto descobri, pelo cheiro, que era um chiqueiro. Não tinha outra opção. No escuro, pulei a cerca para dentro e bati minha cabeça no teto baixo. Só acordei com seus colegas me tirando de lá. Tenho que voltar e agradecer o leitão que se enfiou embaixo da minha cabeça, como um travesseiro, se não teria morrido afogado no barro.
— Essa história não faz nenhum sentido — disse Lucila, sorrindo, sem saber como reagir àquele absurdo.
— Mas tenho como provar — respondeu ele, como quem conta uma reviravolta fenomenal, deixando os investigadores confusos e tentando entender o motivo pelo qual ele não começou todo o argumento com essa notícia. — No meu celular tem uma gravação do bicho.
No momento que Édipo colocou a mão na parte interna do paletó, Lucila se afastou da mesa ainda sentada e Raul sacou uma pistola taser. Na mira da arma de choque e aos gritos de Raul o mandando levantar as mãos, Édipo obedeceu, mas começou a se movimentar como uma minhoca-louca no asfalto quente. Repetia “não atire em mim”, imaginando estar sendo ameaçado por uma arma de fogo. Performando uma dança estranha sem sair do seu assento, movia-se de um lado para o outro com as mãos para o alto. Ignorando os pedidos de ficar imóvel, continuava seu estranho sacolejo digno de dar inveja a qualquer dançarina do ventre.
— O que você está fazendo? — perguntou Raul aos berros, ainda apontando a arma para ele.
— É mais difícil acertar um alvo em movimento — justificou ele com a voz assustada, meio esbaforida, e os olhos fechados.
Os investigadores se entreolharam aturdidos. Raul recolocou a arma no coldre sem tirar a mão dela. Édipo parou de dançar após dar uma espiadela e perceber que não estava mais na mira, deixando as mãos apontadas para o teto.
— Não era para você ter nada nos bolsos — comentou Lucila. — Quem lhe revistou?
— Um homem simpático chamado Jeferson.
Entre os gritos da discussão que vinham do salão, ouviu-se um urro de raiva que parecia mais próximo. Mayara não segurou a indignação com seu colega incompetente.
— Preciso que você pegue seu celular devagar, por favor — pediu a escrivã, ignorando a interjeição que veio de trás do espelho.
— Gravei enquanto ele olhava o cara deitado, pouco antes de sair correndo. — Édipo na velocidade de uma preguiça, abriu o casaco exibindo o bolso interno para a investigadora, pegou o aparelho com a ponta dos dedos e esticou para entregar para ela. — A tela está quebrada, mas ainda funcio…
PÁÁÁÁÁÁ!
Um tiro zuniu para dentro da sala. Raul viu que Lucila se jogou no chão e estava bem, então atirou-se em cima de Édipo, que não havia se movido, derrubando-o com cadeira e tudo. Mayara abriu a porta da sala ao lado, agachada e com sua arma em punho. Espreitando, notou que um dos integrantes do casal que brigava soltava cuidadosamente uma arma em cima da mesa. Pedia desculpas, levantando as mãos, obedecendo às ordens dos policiais a sua volta.
Mayara teve que segurar o impulso de espancar Jeferson quando descobriu que, no meio da discussão, ele havia se descuidado, deixando a mulher furiosa pegar sua arma e ameaçar o marido. Queria assustá-lo, mas disparou a arma por acidente, quase matando alguém na delegacia. Felizmente, parecia que ninguém havia sido atingido. Era o que pensavam.
Raul levantou Édipo com a cadeira onde estava sentado, e ele parecia estar congelado na cena onde entregava o celular para Lucila. Perguntou para o suspeito se ele estava bem, recebendo em resposta apenas o mantra: “sou brasileiro e não desisto nunca”. Édipo não parecia ferido, porém Lucila chamou a atenção do colega para o aparelho que ainda estava na mão do interrogado. Raul notou um furo por onde o projétil passou, bem no meio da tela do celular.
A escrivã pegou o aparelho, dizendo que os técnicos do departamento analisariam com cuidado e recuperariam qualquer dado armazenado. Édipo colocou instintivamente as mãos no rosto, afastando-as de volta para não se afogar com o cheiro. Estava desolado por perder a única prova que o inocentaria.
Mas naquela altura, apesar da história mirabolante, nem Lucila, nem Raul acreditavam que ele era culpado. Infelizmente também não havia nada concreto que o inocentasse totalmente. Lucila explicou que até que ele não mudasse a história, ou que nada fosse encontrado no local o inocentando, Édipo teria que ficar preso preventivamente. Ele apenas perguntou se poderia tomar banho e trocar de roupa. Com a resposta positiva da escrivã, aceitou sem resistência.
— Eu te acompanho até o vestiário — disse Raul.
Édipo estava, apesar das circunstâncias, animado com a possibilidade de conseguir roupas limpas e um prato de comida. Parecia confiante de que nada provaria que ele matara aquelas pessoas, e logo estaria solto. Para alguém que diz ser perseguido por forças invisíveis que lhe dão azar, encarava com positividade as jornadas entre uma desgraça e outra.
Enquanto se encaminhavam para fora da sala de interrogatório, Raul achou necessário falar em particular com Lucila. Algo o incomodava. Usou a envergadura de seu braço para empurrar o suspeito para fora da sala segurando-o pelo colarinho, encostou a porta no próprio ombro, improvisando certa privacidade com Lucila no lado de dentro da sala. Sem entender muito bem, Édipo apenas sorria e acenava para os curiosos que observavam a estranha cena.
— Não confio muito nesse cara — começou Raul.
— E por quê?
— Dei uma espiada nas fotos. Acho que ele está mentindo.
Era tudo que Lucila precisava. Não havia visto nenhum detalhe no relato, ou no local do crime, indicando que Édipo fosse o assassino. Além do fato de ele ser encontrado lá, mas isso não sustentaria uma acusação.
— O que te levou a essa conclusão?
— Ele diz que as vítimas foram atacadas pelo chupa-cabra. Todos sabem que este ser se alimenta de sangue, portanto, não haveria tanto sangue naquele quarto se isso realmente tivesse acontecido.
Lucila não esboçou reação. Apenas ficou olhando para o gigante esperando algum sinal de que aquilo pudesse ser uma brincadeira. Raul levantou as sobrancelhas esperando alguma resposta da escrivã à sua incrível e lógica constatação.
— Com licença, Raul — falou ela abrindo a porta. — E vá tomar um banho que você está fedendo também.
Quando foi cheirar a própria camisa, percebeu que se sujou todo com lodo de chiqueiro ao jogar-se em cima de Édipo para protegê-lo. O gigante e o suspeito foram discutindo em direção aos vestiários depois de Édipo concordar com Lucila quanto ao cheiro de Raul.
O investigador deixou Édipo em um banheiro vigiado e se dirigiu ao vestiário dos policiais. A rotina continuou normal na delegacia, quando de repente PÁÁÁÁÁÁ, um estouro e a escuridão. Todos se abaixaram pensando se tratar de um novo disparo. Iluminados apenas pelas luzes de emergência e as telas dos computadores, olhavam para todos os lados tentando entender o que aconteceu. Pôde-se ouvir um grito distante: “Foi mal! Minha culpa! Estourou meu chuveiro”. Édipo desculpava-se pelo que acreditava ser a má sorte que o acompanhava. Continuou seu banho, sem se importar com a temperatura fria da água, cantando O Sole Mio.
Sem mais sustos e maiores atrasos, a investigação envolveu, em caráter emergencial, vários setores do departamento. Dedicaram-se a revisar qualquer pista e encontrar qualquer suspeita de que Édipo, ou alguma outra pessoa, havia entrado naquela casa. Inúmeras imagens foram tiradas do local. Recolheram amostras de pelos pretos, bastante grossos, perto da porta do quarto. Após retirarem o corpo de Bianca, o lençol que guarnecia seu leito de morte parecia uma pintura abstrata em tons de vermelho. Os fios brancos registraram permanentemente a guerra travada entre mãos e patas, gravadas em sangue seco, nos momentos finais de sua vida. Todas as evidências foram registradas e recolhidas e nada mais foi encontrado. Nenhuma digital que não fosse das vítimas que estavam na casa, nenhuma outra pegada humana desconhecida. Nada.
Estava quase escurecendo quando Édipo recebeu a notícia que seria liberado. Os investigadores não encontraram evidências de que ele entrou na casa e, perante a violência infligida nas vítimas, era de se esperar qualquer resquício de sangue em suas roupas ou mãos. Mesmo se a sujeira em que ele foi encontrado pudesse esconder a maioria dos vestígios, embaixo das unhas, por dentro das mangas e parte interna do casaco provavelmente teria alguma pista. Certamente quanto ao envolvimento dele no crime, vale a máxima de que a ausência de evidência não significa a evidência de ausência, mas naquele instante não tinham mais motivos para segurá-lo na delegacia.
Compadecido pela dupla destruição do paletó, com a lavagem a seco com lodo de chiqueiro e o destrinchar dos peritos em busca de pistas, Raul conseguiu um novo traje para Édipo. Na verdade, era um antigo terno seu, que ainda guardava como lembrança do tempo que era adolescente. Enquanto o gigante segurava, dava realmente a ilusão de que podia ser do tamanho certo para caber em Édipo, já que parecia segurar um terno infantil. Mas no momento que Édipo o vestiu ficou tão grande quanto sua antiga roupa destruída. Independente da insistência de Raul em conseguir outras vestes, Édipo agradeceu emocionado dizendo estar ótimo e do tamanho perfeito.
Mayara pareceu ter sido atingida pela história trágica do suspeito, conseguindo para ele um celular que ela não usava mais. Explicou para Édipo que ficou sabendo do que aconteceu na sala de interrogatório e queria ajudá-lo também, e que se ele se lembrasse de algo da noite do crime era só ligar para o número salvo na agenda. Pareceu ser o dia mais feliz do homem mais azarado do mundo. Com um sorriso largo, agradeceu e abraçou os dois antes de deixar a delegacia pela porta da frente. Assim que ele se afastou, Raul olhou desconfiado para a parceira.
— Que foi? — perguntou ela dissimulada. — Não posso fazer uma boa ação como você?
— Claro… Tu, oh, rainha da compaixão! Majestade benevolente de toda benfeitoria! Gandhi de saia… Apesar que acho que ele já usava saia…
— Cala a boca! Não usava. E nem eu.
— Sabe que não vai poder rastrear ele o tempo todo. E qualquer prova que conseguir com aquele aparelho não valerá de nada.
— Saber por onde ele anda pode ser útil. Se ele for culpado, é provável que irá se livrar do celular, mas se não for, ao menos ajudei um necessitado.
Parecia uma boa lógica.
O fim do dia foi anunciando o final do expediente. As mentes cansadas dos nossos investigadores afastaram seus pensamentos do caso e do caos da delegacia, sem imaginar o que a noite escondia.
***
O mato alto em seu entorno balançava com o vento manso, esfregando as folhas no corpo esguio, eriçando o pelo bicolor. Movia-se minimamente, pois sua audição acusou o barulho de minúsculos passos poucos metros à sua frente. A ratazana se camuflava no escuro, entre a vegetação, mas seus olhos podiam vê-la como se fosse dia. Seus sentidos estavam super aguçados, excitados pela emoção da caçada. Suas orelhas, duas parabólicas captando o mínimo de movimento do roedor, que ainda não notara sua presença e roía grãos despreocupadamente. Prendeu a respiração e saltou, deixando a sua presa alerta, no entanto, antes que ela pudesse entender o que aconteceu, duas enormes patas surgiram do céu a prendendo no chão e uma dezena de dentes estraçalharam sua coluna. Vestida com pele de lobo, a morte veio rápida e piedosa para o roedor, em contraponto ao que aconteceu com Bianca.
A criatura sentiu o sabor de sangue inundando sua língua e não resistiu em separar, com a boca, metade do corpo da outra metade que segurava com a pata. A pele não gerou muita resistência. Mastigou os ossinhos que quebravam com facilidade entre seus dentes, expelindo o conteúdo que protegiam, espalhando os miolos e pulmões em suas bochechas. Engoliu com gosto, partindo para a segunda parte de sua refeição até não sobrar nem a ponta da cauda. Desaparecendo com toda a existência do pequeno animal.
Sentando-se, experimentou a presunção de que estava acima de tudo e que todos estavam aos seus pés. Saboreou o vento balançando levemente seu pelo, alternando as cores preta e vermelha. O poder crepitava em todos os poros, fazendo-lhe ter a certeza de que agora, qualquer um ao alcance de seus dentes e garras eram nada além de meros ratos.