Prólogo
Vós conheceis a menina, ou pensais conhecê-la. Conheceis o túmulo, o frasco, a urgência, a boca do rapaz, a ligeireza do amor quando se crê eterno por haver nascido cedo. Conheceis a pintura, o vitral, a febre de repeti-la. Só que a pintura respirou. Abriu os olhos no instante errado, que é outro modo de dizer no instante exato, e desde então me pedem que eu a conte de novo. Não como santa do amor, não como adorno da tragédia, não como metade de um nome pronunciado aos pares. Julieta, agora, exige o preço inteiro da existência, e eu, que tantas vezes soube como encerrá-los, descubro com algum orgulho e certa vergonha que nunca a soube começar.
Porque há criaturas que assentam com elegância dentro do instante que as consagra, e outras que, tendo-lhe sobrevivido, passam a inquietar a mão que as escreveu, Julieta pertence a esta segunda espécie, daquelas que, uma vez erguidas do chão, já não tornam a deitar-se com docilidade alguma. Durante séculos bastou vê-la deitada para amá-la, pálida o bastante para ser bela, muda o bastante para ser compreendida por quem jamais lhe pediu licença; agora, tendo aberto os olhos, ei-la entregue à desordem de respirar, e respirar, convenhamos, nunca foi ofício simples para mulher alguma, sobretudo quando o mundo inteiro já repartira o sentido de sua morte, já fizera comércio de seu suspiro derradeiro, já pendurara sua juventude em molduras, canções, púlpitos, cátedras e juras de jardim.
Vós me direis, talvez com a serenidade dos tardios, que sempre foi amada, e eu vos concederei a aparência disso, pois também as relíquias são amadas, também os ícones recebem flores, também os altares conhecem joelhos e fervores, só que uma moça amada como emblema corre o risco de jamais ser tocada em sua inteireza. Deram-lhe um quarto no idioma e fecharam-lhe a casa, chamaram-na eterna para melhor furtar-lhe a continuação, deram-lhe lugar no casal célebre e com isso a reduziram à harmonia do dueto, como se toda a sua alma houvesse nascido para completar a música de um nome masculino, belo rapaz, breve rapaz, falecido a tempo de conservar na face a vantagem que a morte às vezes concede aos imprudentes.
Acontece, porém, que o rapaz morreu e a moça ficou, e ficar é verbo menos lírico, verbo de corredores, de olhares atravessados, de sangue ainda quente nas famílias, de criados que cochicham, de sinos que dobram por razões erradas, de mães que aprendem tarde demais o alcance de um silêncio, de pais que chamam honra àquilo que lhes poupa a vergonha. Julieta desperta para dentro desse verbo, e o primeiro escândalo de sua nova vida não é haver tornado da borda escura onde todos a supunham enfim resolvida; o primeiro escândalo é outro, bem mais antigo, bem mais feio, quase sempre masculino em sua administração, a saber, que uma mulher viva exige explicações em quantidade muito superior àquela que se pede a uma mulher morta.
Foi por isso que tornei, e tornarei ainda, à sua cabeceira, não para restituí-la ao nicho de onde a posteridade a retirava conforme a conveniência da estação, e sim para vê-la andar, tropeçar, errar de modo grandioso, conhecer o preço das escolhas que lhe negaram enquanto a chamavam apaixonada, olhar de frente o mecanismo que a queria exemplar apenas enquanto obediente ao roteiro do sacrifício. Se outrora me bastou sepultá-la com elegância, agora me cabe segui-la onde minha pena antiga talvez hesitasse em entrar, entre filhas, espectros, coroas gastas, jardins de artifício, cidades exaustas, máquinas que sonham, homens que nomeiam o destino com a solenidade de quem nunca precisou carregá-lo no ventre, e mulheres, enfim, mulheres em quantidade suficiente para que o espelho de Julieta deixe de lhe devolver apenas o rosto enamorado e comece a mostrar-lhe o restante, que é vasto, pouco dócil, por vezes terrível, por vezes magnífico, sempre seu.
Não espereis, contudo, uma correção piedosa de meus feitos, um remendo virtuoso cosido à pressa sobre antigas ruínas, porque eu conheço o teatro melhor do que conheço o arrependimento, e a tragédia, quando se enamora de uma casa, aprende-lhe o caminho com diligência de uma velha serva. Haverá ainda engano, haverão ainda juramentos, haverão ainda mãos que se procuram, talvez, tarde demais, só que desta vez a moça verá as engrenagens por dentro, e em cada século lhe caberá uma forma diversa de afronta, no passado, a suspeita e a caveira; no presente, a família e a fratura; no porvir, a cintilação e o delírio. Mudam-se os cenários, persiste a fome do mundo por dizer à mulher quem ela é, quanto vale, a quem pertence, e por qual porta lhe convém sair de cena.
Entrai, pois, com a cautela de quem pisa um palco depois do incêndio. A pedra ainda guarda o frio do mausoléu, o lençol ainda conserva a dobra do corpo que dele se ergueu, e a madrugada, essa velha alcoviteira, ainda não decidiu se favorece o milagre ou o escárnio. Julieta abrirá os olhos mais uma vez, e vós, que sempre a vistes quando já era tarde, tereis enfim a rara inconveniência de vê-la a tempo.
Contudo, parece cabível que outras histórias precisem ser inseridas, redirecionadas, acopladas e encaixadas, como se seus conceitos coubessem milimetricamente para as versões de espaço, tempo e contexto, como se cada século guardasse, à sua maneira, uma cavidade já pronta para recebê-la, uma forma à espera do corpo exato, um drama antigo com a fechadura apenas entreaberta, à espera da chave errada, ou da única possível. Assim se fará, não por capricho de artífice tardio, nem por gula de biblioteca, e sim porque certas personagens, ao recusarem a morte que lhes reservaram, desorganizam mais do que o próprio desfecho, desarranjam o edifício inteiro, deslocam vigas, racham heranças, põem em dúvida o lugar das juras, o valor das casas, o decoro dos pais, a prudência dos príncipes, o préstimo dos amantes, o sono das florestas e a disciplina dos futuros. Uma moça que desperta quando já a choravam não regressa sozinha, arrasta consigo afinidades obscuras, parentescos de aflição, corredores que conduzem a castelos, varandas que desembocam em tribunais domésticos, jardins que, tocados pela lua errada, passam a sonhar acima de sua função botânica.
Não se cuide, porém, de uma colcha grosseira, remendada com retalhos célebres para comprazer leitores de boa memória e gosto escolar. O que se pede aqui é operação mais fina, quase anatômica, dessas em que a lâmina entra sem alarde e só mais tarde se percebe que o organismo já não respira como antes. Hamlet, Lear, os enamorados perdidos na noite encantada, todos eles trazem em si uma parte do que faltou a Julieta quando a depuseram cedo demais no mármore do mito, um lhe oferece a suspeita, outro a despossessão, outro a embriaguez das aparências, e ela, que até então servira como cifra do arrebatamento juvenil, começa enfim a adquirir as proporções de uma consciência. Julieta já não cabe inteira no túmulo, no balcão, no beijo, no punhal, menos ainda no par inseparável que a posteridade pronuncia com a pressa de quem julga ter compreendido tudo ao recitar dois nomes unidos por uma conjunção.
Será preciso, pois, abrir passagens. No passado, convém que a pedra dos palácios substitua a ligeireza dos jardins de Verona, que a mocidade se veja cercada por conselhos, olhares de esguelha, servos fiéis em excesso, mães quebradas por segredos envelhecidos em silêncio, e homens educados para confundir autoridade com destino. Ali Julieta aprenderá que sobreviver a um amor não a restitui à inocência, entrega-a a outra escola, a da vigilância, a dos mortos que continuam legislando, a das palavras ditas em voz baixa, cujo alcance excede o de muitas espadas. Quem beijou primeiro, quem matou por honra, quem tomou por virtude o que não passava de medo, tudo isso se tornará matéria inflamável, pois a verdade, quando enfim se aproxima de uma casa ilustre, dificilmente entra desacompanhada do escândalo.
No presente, o cenário trocará de pedra, conservará a ruína, já que as famílias modernas, apesar da tinta nova, do vidro limpo, dos aparelhos luminosos e das terapias em dia incerta, ainda sabem adoecer umas às outras com espantosa competência. Julieta haverá de encontrar outro tipo de corte, já não o que a separa do amante por decreto de sobrenomes rivais, e sim o que a parte por dentro, quando lhe exigem fidelidade à imagem que fizeram dela, quando os afetos são pesados em voz alta, quando o amor se converte em cobrança, quando pai, mãe, filha, legado, desempenho, doçura, firmeza, desejo e culpa passam a disputar o mesmo espaço dentro de uma única respiração. Lear entrará por essa porta, não coroado como nos velhos palcos, e sim distribuído em várias presenças, na falência do cuidado, na fome de ser amado segundo critérios impossíveis, no hábito quase litúrgico de ferir justamente quem ainda permaneceu.
Quanto ao porvir, este aceitará o perfume mais traiçoeiro de todos, o da sedução organizada, da fantasia projetada com precisão suficiente para parecer espontânea, da beleza programada para que ninguém ouse chamá-la de cárcere. Ali a noite de verão deixará de ser bosque apenas, será também arquitetura do desejo, engenharia de percepções, técnica tão graciosa quanto implacável, dessas que oferecem à mulher mil versões cintilantes de si mesma para que nenhuma lhe pertença de fato. Julieta andará por esse jardim futuro como quem reconhece, em plena luz sintética, o antigo ofício do encantamento, agora aprimorado por mãos que dominam não as ervas e os pós, e sim os circuitos, os hábitos, os impulsos, a fome de ser vista, escolhida, desejada, absolvida. E ainda aí a tragédia não perderá sua cidadania, porque todo mundo que aprende a editar sonhos aprende também a amputar lembranças.
Convém dizer que essas histórias não virão para distrair o leitor do centro, virão para provar sua força. Cada uma tomará Julieta pela mão com propósito diverso, uma a conduzirá ao corredor da dúvida, outra à sala de jantar onde o afeto adoeceu, outra ao jardim onde a realidade se penteia diante do espelho e troca de rosto sem pedir licença. Ainda assim, a moça seguirá sendo a mesma em seu nervo mais profundo, aquela que abriu os olhos tarde para o amor e cedo para o restante, aquela cujo nome foi repetido com ternura suficiente para que quase ninguém percebesse o pouco que lhe concederam de mundo. É precisamente por isso que outras histórias lhe serão anexadas, não como ornamentos, antes como câmaras novas escavadas na antiga casa, de modo que ela atravesse o que antes lhe foi negado, o pensamento, a cólera, a suspeita, a recusa, o desejo sem plateia, a inteligência de ver o mecanismo e, ainda assim, continuar dentro dele.
Eu a seguirei por essas passagens, com a pena já menos segura de sua majestade antiga e mais atenta à insolência do tempo, que ensinou às minhas criaturas femininas a dura ciência de se levantarem dentro da frase. Vós, por vosso turno, fareis bem em abandonar a expectativa de reencontrar somente a virgem do balcão, a amante intacta na fé da juventude, a menina toda contida na pressa de amar e morrer. A que surge agora conhece mais portas, mais corredores, mais relógios, mais armadilhas, e em cada realidade lhe caberá o trabalho de aprender a língua da própria condenação antes que lhe exijam pronunciá-la como consentimento.
Daí por diante, a narrativa já não poderá caminhar em linha única, pedirá alternância, retorno, mudança de pele, capítulo a capítulo, como quem gira um prisma sob a mesma chama para descobrir quantas cores o incêndio ainda sabia esconder. Julieta despertará três vezes sem despertar jamais de todo, e a cada vez o mundo lhe oferecerá um método distinto de aprisionamento, um traje próprio para a antiga violência, um nome atualizado para a mesma velha fome de governar o feminino. Que ninguém se iluda com a variedade dos cenários, há continuidades que atravessam os séculos com a elegância do veneno, discretas no frasco, devastadoras no sangue.
Então comecemos, que toda reabertura exige uma primeira fissura, e a nossa será esta, a mão que treme, a pálpebra que cede, o ar que enfim encontra caminho onde todos já supunham concluída a história. Julieta respira, e o mundo, tendo apostado tanto em seu silêncio, precisará agora reaprender a escutá-la.