Capítulo 1 - O segundo despertar
Vós conheceis o túmulo, o frasco, a urgência, a boca do rapaz, a ligeireza do amor quando se crê eterno por haver nascido cedo. Conheceis a pintura, o vitral, a febre de repeti-la. Só que a pintura respirou. Abriu os olhos no instante errado, que é outro modo de dizer no instante exato, e desde então me pedem que eu a conte de novo. Não como santa do amor, não como adorno da tragédia, não como metade de um nome pronunciado em complemento. Julieta, agora, exige o preço inteiro da existência, e eu, que já tinha me conformado com o fim, descubro com algum orgulho e certa vergonha que nunca a soube continuar.
Contudo, parece cabível que outras histórias precisem ser contadas da forma correta, como uma porta torta com a fechadura apenas entreaberta, à espera da chave errada, ou da única possível. Ao recusar a morte que lhes reservei, desorganizou mais do que o próprio desfecho, desarranjou a construção inteira. Uma moça que falha até em morrer quando o mundo inteiro já se havia posto de acordo quanto à utilidade de seu cadáver começa a causar embaraços que o amor, sozinho, jamais causaria.
E ela despertou.
Não pela primeira vez naquela noite de ruína, e nisso reside o escândalo. Já tornara uma vez ao mundo, já abrira os olhos para encontrar o rapaz entregue ao frio, já provara o gosto agudo da perda, já buscara no ferro um caminho obediente para segui-lo, e, ainda assim, o fim não se fechara sobre ela com a correção que os homens tanto apreciam nos funerais alheios. Agora regressava de novo, arrancada não apenas ao túmulo, e sim ao desfecho repetido, à insistência de uma morte que, tendo-a reclamado em público, ainda assim não a retivera. Há humilhações que só o destino sabe infligir com tamanha elegância.
Poderia ter sido de pronto, como fazem os saudáveis depois de um sono justo, ou com a mansidão dos que dormem sem culpas, só que foi aos poucos, com a lentidão de quem sobe por dentro de águas escuras, encontrando antes o incômodo do corpo do que o nome do mundo. Primeiro veio a aspereza do ar, que lhe entrou pela boca como um visitante sem convite, depois o frio da pedra, que não a tocava como frio de inverno ou madrugada, tocava-a com a impessoalidade de uma matéria já resignada a receber cadáveres. Mais tarde, e com alguma crueldade, vieram os cheiros, a flor cansada, a cera vencida, o resíduo acre de incenso, o metal de algo já derramado, a umidade antiga que sobe das paredes como se nelas o tempo apodrecesse em silêncio. Havia ainda outro odor, mais difícil de nomear, mistura de pano guardado, mãos alheias e ritual consumado, o cheiro próprio das coisas já choradas. Só então o pensamento, ainda disperso, ainda aflito, começou a tatear o escuro em busca de memórias.
Julieta não abriu os olhos de uma vez, porque há consciências que, ao pressentirem o pesadelo da realidade, preferem negá-lo por mais um segundo, e porque a alma, quando regressa a um corpo que julgavam desocupado, precisa antes reconhecer se foi chamada por amor, por castigo ou por erro. Seus dedos moveram-se primeiro, quase sem querer, roçando o tecido que a cobria, mais rígido do que a roupa em que antes caíra, mais cerimonioso em suas dobras, como se outras mãos o houvessem composto sobre ela. O gesto pareceu mínimo, e no entanto foi o bastante para alterar a ordem das coisas, pois um dedo que responde desfaz um destino, uma mão que se contrai já começa a ofender metade dos discursos proferidos em volta de um túmulo. Tendo-se mexido, respirou outra vez, mais funda, e o ar lhe doeu como doem as verdades que chegam antes de serem ditas.
Se eu fosse homem menos dado às complicações do espírito, dir-vos-ia simplesmente que Julieta tornou da morte. Seria frase breve, sonora, boa para as plateias, ruim para as mulheres, às quais quase sempre se quer reduzir a símbolos porque os símbolos não interrompem os homens enquanto falam. Contudo, a verdade, que em matéria de moças sempre chega cercada de vigilâncias, é mais áspera. Julieta não voltou da morte, voltou da versão que haviam escolhido para ela. Morreu o bastante para ser chorada, morreu o bastante para ser tocada com reverência, coberta com compostura, entregue ao pranto e à moral dos sobreviventes, só que não o suficiente para ser concluída, e nisso reside um dos maiores aborrecimentos que uma mulher pode causar a uma sociedade, recusar, ainda que sem intenção, a forma sob a qual já a tinham compreendido.
Abriu enfim os olhos, e o escuro pareceu-lhe maior por vir acompanhado de contornos. Acima dela não havia céu, tampouco teto doméstico, e sim a abóbada severa de uma construção feita mais para conservar nomes do que para abrigar gente. As velas, poucas e fatigadas, vacilavam à distância, como se também elas duvidassem da conveniência de iluminar aquela cena. A chama tremia sobre a pedra, insistia na sombra, deixava nas superfícies uma claridade de vigília, dessas que não aquecem coisa alguma. Julieta fitou o alto por um instante, incapaz ainda de recordar o acontecido por inteiro, e depois virou a cabeça. O mundo, nesse momento, resolveu apresentar-se em sua ordem de ofensa.
Viu primeiro as flores já murchas, espalhadas em redor com aquela ternura tardia em que as famílias depositam a culpa quando já não sabem a quem entregá-la. Viu a cera grossa caída em blocos sobre castiçais baixos, viu o pano mais claro que lhe cobria parte do corpo, viu o véu recuado, viu as marcas de arranjo, como se a houvessem preparado para a quietude com esmero suficiente para poupar os vivos da indecência do espanto. Só depois viu a mão ao lado. Depois o rosto. Depois o rapaz por inteiro.
Romeu jazia próximo o bastante para ser reconhecido, próximo demais para ser sonho, distante o suficiente para já não pertencer aos vivos. Tinha a boca entreaberta, como se ainda guardasse a intenção de dizer-lhe alguma coisa, alguma jura derradeira, algum resto de ternura precipitada, e havia em sua postura aquela imobilidade indecente que só os mortos sabem ostentar com tamanha convicção. Estava disposto com mais ordem do que antes, mais limpo em sua desgraça, mais composto para os olhos de terceiros, e foi isso, talvez, o que primeiro lhe feriu a alma. Julieta já o vira morto. O horror antigo não lhe era novo. O novo, agora, era encontrá-lo morto depois do pranto, depois das mãos alheias, depois do cuidado inútil de quem já o havia entregue à condição de lembrança.
Ergueu-se num sobressalto imperfeito, apoiando-se nos cotovelos, e o movimento lhe arrancou da garganta um som sem nome, menos grito do que engasgo, menos palavra do que a explosão abafada de um terror que voltava tarde demais para ser inocente. Seu corpo respondeu com demora, pesado de fraqueza e ferro, e por um instante ela não soube se doía mais a carne ou a consciência. Levou a mão ao ventre, ou ao seio, ou ao ponto exato em que procurara obedecer ao rapaz e à lenda, e ali encontrou apenas a dor surda, a faixa apertada, a memória do gesto não consumado. Tivera coragem bastante para tentar desaparecer, contudo o desaparecimento, insolente como um criado mal pago, faltara ao serviço.
Poderia eu, se quisesse ser generoso com a tradição, dizer que nesse instante ela pensou em amor. Seria bonito, coerente, delicado ao gosto das gerações que exigem do feminino compostura até mesmo ao despertar numa tumba. Todavia, o que lhe atravessou primeiro não foi o amor, e sim o horror nu, animal, feroz, de perceber que nem mesmo ao lado dele conseguira concluir-se. Julieta não viu apenas o rapaz. Viu o rapaz e viu-se sobreviva. Viu o corpo dele fixado na morte e o seu devolvido à respiração. Entre uma coisa e outra abriu-se um abismo que nenhuma jura amorosa saberia cobrir.
Tentou chamá-lo, embora já soubesse. O nome saiu-lhe seco, gasto, atravessado pelo resíduo amargo do que bebera antes e do sangue que talvez houvesse provado depois. Chamou-o outra vez, agora mais baixo, como quem testa não a esperança, já extinta, e sim a própria memória do som. Ajoelhou-se com dificuldade ao lado dele, tocou-lhe o rosto, sentiu-lhe o frio, sentiu também a limpeza recente da pele, o ordenamento do cabelo, a compostura fúnebre que mãos estranhas lhe haviam imposto, e esse cuidado a feriu com ferocidade nova. Houve gente ali. Houve olhos sobre eles. Houve preces. Houve comentários sussurrados, talvez perdões tardios, talvez reprovações em voz baixa, talvez o alívio torpe de verem enfim encerrado o que tanto os descompusera. Julieta e Romeu tinham sido chorados. Julieta e Romeu tinham sido vistos. Julieta e Romeu, ao que tudo indicava, tinham sido deixados à paz oficial dos mortos. E ela, contudo, respirava.
Aqui, se me permitis uma indiscrição que o tempo autoriza, direi algo de vós, leitores de toda época, tendes o costume de amar as moças quando elas empalidecem com beleza, quando sofrem com música, quando caem sob o clarão conveniente, e amais sobretudo o instante em que julgais que o amor, para ser verdadeiro, precisa ter por testemunha um cadáver ou dois. Julgo isso pouco prático, ainda que teatralmente rentável. Uma moça que desperta ao lado do morto que ama, já depois de ter tentado segui-lo, já depois de ter sido composta para o luto, não pensa logo em eternidade, pensa em escândalo, em blasfêmia, em erro, em mãos que a tocaram julgando-a como um finalmente, em bocas que rezaram por uma alma ainda presa ao corpo, em quanto do mundo ruiu sem sua licença. Julieta, naquele instante, começou por ser muito mais ofendida do que célebre.
Foi só depois do choque, depois do toque inútil, depois da vertigem de sentir o rito impregnado na pedra e nas roupas, que a memória, essa serviçal tardia, começou a trazer-lhe os fragmentos do que havia ocorrido, o plano, a poção, a carta esperada, a pressa, o padre, a noite, o leito fingido, o despertar primeiro, o rosto de Romeu morto, o punhal, a decisão súbita, o golpe ou a tentativa dele, a queda, o escuro tornando a subir, e depois nada, esse grande administrador das desgraças humanas. Então compreendeu não tudo, que isso seria favor indevido, e sim o bastante para ser ferida pelo encadeamento cruel das coisas. Dormira para salvar o amor, despertara para perdê-lo, tentara morrer para honrá-lo, e agora tornava do próprio fracasso, como se a vida, tendo-lhe esvaziado as mãos, ainda lhe exigisse que as conservasse abertas.
Levantou a mão à boca, como se pudesse conter ali o terror, e fechou os olhos uma vez mais, por uma breve súplica pela cegueira. Não foi atendida. Quando tornou a olhar, Romeu continuava ali, e a cripta, indiferente à novidade de seu novo despertar, conservava a mesma compostura mineral com que recebera príncipes, esposas, crianças, pecados hereditários e reconciliações demoradas demais para serem úteis. Ao redor, os nomes gravados na pedra pareciam observá-la com a severidade das casas tradicionais, sempre prontas a exigir das senhoras e senhoritas uma conta que elas jamais contraíram sozinhas. Capuleto, Montecchio, sangue, honra, acordo, injúria, aliança, desavença, tudo isso parecia estar presente ali, ainda quando não dito, como se a lápide tivesse por verdadeira argamassa o acúmulo de vontades masculinas pronunciadas em nome do futuro alheio.
Julieta, que até então conhecera o amor como quem visita o inferno, começou a conhecê-lo como quem é recusada até por ele.
Ergueu-se com dificuldade, uma das mãos apoiada na pedra, a outra ainda buscando equilíbrio no ar, e por um instante pareceu a si mesma estrangeira dentro do próprio corpo. A cabeça latejava, o coração batia com violência irregular, e cada respiração lhe recordava que viver, depois de tão perto da quietude definitiva, exige do organismo certa brutalidade. Deu um passo. Parou. Voltou-se para Romeu. Deu outro. Tornou a olhar para trás. Eu vo-lo digo, nenhuma tragédia séria se faz apenas de grandes decisões, faz-se também desses pequenos impasses ridículos e santíssimos, permanecer ou fugir, chamar ajuda ou esconder-se dela, oferecer-se de novo ao fim ou suportar mais um minuto de mundo. Julieta, naquele momento, não era heroína nem mártir, era uma moça demasiadamente viva para a cena em que a haviam colocado.
Foi então que ouviu.
Poderia ser um estampido único, claro, providencial, como os que os dramaturgos frouxos costumam oferecer para mover suas criaturas, mas a realidade não era tão providencial. Os sons pareciam a composição de vários sinais, um passo apressado ao longe, o raspar de alguma sola na escada, a vibração metálica de algo tocando um corrimão, vozes abafadas pela espessura da construção, vozes de homens, o que raramente prenuncia paz quando uma mulher se descobre viva onde a sociedade já a queria sepultada. O barulho pareceu vir de fora e de cima, desse mundo que retoma seu curso sem pedir licença à desgraça íntima, e Julieta, ouvindo-o, compreendeu num átimo que a morte de Romeu já não era o único fato a exigir dela resposta. Em poucos instantes haveria olhos, perguntas, versões, mãos apressadas, talvez escândalo, talvez um susto devoto, talvez piedade, que muitas vezes se parece demais com humilhação. E pior do que tudo, haveria testemunhas para sua sobrevivência, que é forma de exposição ainda mais severa do que a morte para certas donas bem nascidas.
Vede como se multiplicam logo as exigências em torno de um retorno. Morta, bastava que fosse bela e lamentável. Morta de novo, bastava que fosse solene e conclusa. Viva, contudo, terá de explicar, justificar, suportar, escolher, narrar-se, defender-se, e fazê-lo com a compostura que os outros julgam compatível com sua dor. Foi nesse intervalo, entre o morto amado e os vivos que se aproximavam, que Julieta deixou para trás o território breve da fábula e entrou, sem ter sido consultada, na jurisdição ampla da permanência. O amor, até ali, fora uma chama particular contra tudo. Agora o fogo era quem vinha cobrar-lhe o incêndio.
Então aconteceu sua verdadeira insurreição.
Seus olhos tocaram o lugar do punhal, ou o vazio onde antes o procurara, e dela não nasceu a ânsia de repetir o gesto. Outra coisa surgiu, mais confusa, talvez menos bela e muito mais rara. Quis ar. Quis saída. Quis mais um minuto. Quis entender antes de desaparecer. Quis, talvez pela primeira vez com inteira nitidez, algo que não fora escolhido por pai, por marido prometido, por amante, por frade, por casa ou por poema. Quis continuar.
Sentiu, então, o corte da lâmina, por baixo de uma atadura muito bem presa, que talvez possa ter sido a responsável pela ressurreição.
Os passos vinham mais perto.
Julieta recuou um pouco, a mão cerrada sobre o próprio vestido, o coração em guerra contra o peito, os olhos já menos turvos e mais fundos, o espaço de poucas horas tinha lhe envelhecido em alguns anos. Inclinou-se sobre Romeu uma última vez, e não era para segui-lo, dessa vez. Era para fixá-lo, como quem precisa recolher do rosto amado alguma coisa que lhe sirva de amparo contra o que virá. Seus lábios moveram-se, talvez numa despedida, talvez numa promessa, talvez numa acusação que o amor, ofendido, dirige por vezes ao morto sem deixar de amá-lo. Eu não a obrigarei a dizer o que disse, há intimidades que sobrevivem melhor sem testemunha.
Bastará saber isto, quando a mão tocou a pele do rosto do amado pela última vez, Julieta já não era a menina que bebera obediente a esperança preparada por outros. Nem sequer era a moça que, ao primeiro despertar, procurara no aço a simetria do eterno. Havia nela, ainda confusa, ainda ferida, ainda jovem demais para a dimensão do infortúnio, uma alteração decisiva. A tragédia, que até então a conduzira como conduzem os rios os corpos leves, encontrara resistência. Pequena, sim. Trêmula, sim. Quase invisível, sim. Ainda assim, resistência.
Lá fora, ou acima, ou nos corredores pelos quais o destino costuma entrar vestido de rotina, o imprevisto se aproximava.
E Julieta, pela segunda vez devolvida à vida, preparou-se enfim para recebê-lo viva.