Capítulo 2 - A Decisão da Ressurreição
Os palácios engolidos pelo tempo, eu o sei por longa prática, preferem as mulheres imóveis, porque uma moça morta cabe inteira na oração dos outros, serve ao remorso dos pais, à edificação dos padres, à eloquência dos príncipes, à ternura retrospectiva dos amantes e, com alguma sorte, ainda ornamenta a memória da casa, flor tardia em vaso de mármore, só que uma moça que torna a abrir os olhos depois de haver sido lavada, chorada, composta e confiada à quietude, essa já não cabe, ofende, desloca os criados, descompõe a gramática da piedade e, pior que tudo, exige revisão, palavra detestável para toda autoridade que se deseje. Foi assim, pois, que no reino passado de nossa Julieta, onde as paredes sabiam mais de segredos do que os homens que a herdavam e os corredores eram compridos o bastante para que uma suspeita envelhecesse dentro deles, a manhã não começou com alívio, começou com constrangimento.
Julieta despertou sobre a laje que lhe haviam preparado com esmero de cerimônia, os cabelos recompostos, o vestido alisado por mãos devotas, o ferimento sob o peito ou mais abaixo, onde quer que o desespero lhe encontrara carne, apertado sob faixas limpas demais para uma noite daquela natureza, e por um breve instante, desses que o corpo toma para si antes que a alma se apresente, acreditou estar dentro de um sonho febril, um resto de delírio deixado pela poção, pelo sangue, pelo horror de ter visto Romeu entregue à morte, só que o frio respondeu com a firmeza de todas as matérias sem imaginação, as flores murchas responderam com o odor doce e já fatigado das coisas tocadas pelo pranto, e a cera derramada ao lado de castiçais baixos respondeu com sua feiúra sólida, que é sempre o modo mais seguro pelo qual o real se impõe. Ao redor dela havia vestígios de presença humana em quantidade bastante para lhe ferir o juízo, um lenço esquecido, uma fita desatada, uma conta de rosário caída, uma tigela de água turva em cujo fundo alguém lavara dedos ou culpa, e, a pouca distância, disposto com gravidade fúnebre, mais belo do que convinha a um morto tão recente, Romeu jazia outra vez.
Não foi o terror da descoberta que a assaltou primeiro, esse já a visitara antes, com dentes mais novos e maior violência, quando abrira os olhos e o vira caído sob a brutal franqueza do veneno, o frasco ao lado, a boca muda, a ruína já consumada, e a memória dessa cena tornou a ela em golpes curtos, o nome dito em seco, a pele gelada, o aço procurado com a rapidez dos desesperados, a ânsia cega de não ficar, a decisão que parece heroica aos de fora e aos de dentro nasce de puro esgotamento. Agora outra coisa lhe entrou pelo corpo, mais lenta e por isso mais funda, a vergonha alheia transformada em cenário, a evidência de que tinham passado por ali, tinham chorado, rezado, comentado, tocado seu rosto, alisado suas roupas, talvez fechado suas mãos sobre o peito, talvez distribuído entre si alguma versão da tragédia, talvez louvado o amor com a mesma facilidade com que antes o haviam condenado. Julieta sentiu pela primeira vez, com nitidez de lâmina fria, que uma morte pública não pertence inteiramente ao morto, pertence sobretudo aos vivos que dela fazem uso.
Moveu os dedos, depois as pernas, e a dor acordou por regiões, não toda de uma vez, como fazem os exércitos bem treinados, e sim em pequenos levantes, uma fisgada sob as faixas, um latejar surdo nos ombros, a garganta áspera, a cabeça ainda sob o nevoeiro do remédio e do sangue perdido, ainda assim o corpo obedecia, e essa obediência lhe pareceu quase obscena, como se a carne, ignorante da conveniência do luto, insistisse em continuar seu ofício ordinário. Sentou-se com esforço, o pano deslizou-lhe dos joelhos, e ali, na dobra do tecido e no modo como fora acomodado, havia sinais de zelo feminino, mãos de aia ou de parenta, mãos que tinham aprendido a arrumar moças para casamentos e sepulturas com a mesma disciplina, e tal semelhança, crede-me, é uma das injúrias mais discretas que a história costuma reservar ao sexo delicadamente oprimido. Julieta levou a palma ao ferimento, encontrou a faixa, sentiu sob ela a resposta amarga da sobrevivência, e o primeiro pensamento nítido que lhe ocorreu não foi gratidão, foi ira, porque nenhum espírito generoso suporta de boa vontade ser devolvido ao mundo quando já havia consentido em deixá-lo.
Chamou Romeu novamente, em voz baixa, sem esperança e sem teatro, apenas para provar a si mesma que o nome ainda existia fora da lembrança. Nada lhe respondeu, como na vez anterior, além da chama hesitante das velas e de um gotejar remoto vindo da parede de pedra. Inclinou-se então para diante, fitou o rosto do rapaz, viu que lhe haviam limpado a pele, recomposto os cabelos, unido sobre o peito as mãos outrora tão rápidas, e naquele arranjo reconheceu a pior das crueldades, a da ordem imposta ao irreparável, porque a desordem da morte ao menos guarda alguma verdade, o sangue fora do lugar, a roupa torcida, a boca interrompida em pleno gesto, enquanto o morto preparado para visita já pertence a uma pedagogia, torna-se exemplo, lição, retrato, e aos retratos concede-se menos humanidade do que aos cães fiéis. Julieta estendeu a mão e tocou-lhe a manga, depois o pulso inútil, depois o rosto, e a frieza permaneceu a mesma, impassível à sua necessidade. Não chorou de pronto, havia nela ação mais dura em atividade, um assombro quase insultado, como se a morte de Romeu, por ter sido aceita pelo mundo com tanta rapidez, a expusesse ainda mais à própria descontinuação.
Foi então que ouviu uma nova investida de vozes, mas em tom contido, dessas conversas que julgam preservar o decoro e apenas tornam mais perceptível a arrogância. Não distinguiu as palavras a princípio, só a aura de poder, o compasso de botas, a parcimônia estudada dos que falam acreditando que ninguém digno de consideração os possa escutar dali, e isso bastou para acender nela uma atenção nova. Desceu da laje com lentidão feroz, mordeu o ar quando a dor lhe atravessou a faixa, recuperou o equilíbrio pondo uma das mãos na pedra, e só então viu, à esquerda do túmulo principal, uma porta estreita cuja madeira não se confundia com o restante do recinto, porta de serviço ou de manutenção, dessas por onde entram criados, padres atrasados e culpas mal enterradas. O que em outras casas seria detalhe, nas casas nobres é sempre convite, e Julieta, que até então conhecera sobretudo a pressa do amor, começou ali a conhecer o instinto da escuta, primo bastardo da prudência e padrasto de quase toda vingança.
Abriu a porta o bastante para passar, e o corredor lhe surgiu comprido, mal iluminado, frio em sua extensão, com nichos rasos onde jaziam bustos de antepassados sem mérito suficiente para terem sala própria, homens de pedra olhando-a com o tédio grave das genealogias. Subiu alguns degraus, cada um deles cobrado pelo ferimento, e ao alcançar a curva da escada ouviu palavras soltas, “príncipe”, “reconciliação”, “imprudência”, “carta”, “escândalo encerrado”, e por fim uma voz mais lisa, tão limpa em sua segurança que de pronto se tornou suspeita, a dizer que a cidade precisava acima de tudo de ordem, que os jovens tinham pago por excessos alheios e próprios, que a paz entre as casas seria consolidada antes do próximo domingo, que a carta extraviada jamais poderia agora ser devidamente rastreada sem reacender disputas indesejáveis, que ao amor dos mortos convinha o silêncio que se oferece aos símbolos. Não me peçais, por ora, o nome desse homem, bastará dizer que havia nele a serenidade untuosa dos que sabem tirar proveito até dos lutos mais recentes, espécie abundante em toda corte, cada século lhe muda o figurino, o ofício preserva sua limpidez repugnante.
Julieta apoiou-se na parede, tanto para não cair quanto para melhor ouvir, e outra voz, mais velha, fatigada, talvez a de um conselheiro que servira a pais e agora servia a filhos com o mesmo cansaço obediente, perguntou em tom baixo se o frade seria interrogado. A voz lisa respondeu que o frade seria protegido, vigiado e desacreditado conforme a conveniência, três caridades muito apreciadas pela política, e acrescentou que nenhuma boa cidade se beneficia de documentos tardios, mensagens perdidas, amantes mal orientados e moças que acordam fora de hora, frase esta que ele pronunciou, sem o saber, diante da própria refutação respirante. Julieta sentiu o sangue mover-se de modo novo dentro dela, já não simples dor, já não simples luto, e sim o primeiro esboço de uma suspeita organizada, porque há diferença entre o acaso e a utilidade, e quando demasiadas desgraças servem depressa à paz dos senhores, uma inteligência ferida começa a contar dedos onde antes contava lágrimas.
Poderíeis imaginar que uma menina daquela idade, recém-devolvida à vida e ao vexame do seu retorno, procurasse apenas esconder-se, fugir, cair aos pés do primeiro santo de esquina ou do primeiro padre disponível, só que as jovens mal avaliadas pela história costumam surpreender seus cronistas justamente quando a dor lhes rouba o adorno. Julieta permaneceu imóvel, ouvindo mais do que o bastante para compreender que sua morte fora aceita com utilidade excessiva, que a de Romeu já se convertera em matéria de concórdia pública, que o extravio da carta, longe de ser tratado como fatalidade lastimável, começava a ser guardado com a discrição interessada dos fatos proveitosos, e nesse instante, ali naquele corredor onde o frio tinha cheiro de pano molhado e metal antigo, nasceu nela uma disposição nova, menos brilhante do que o desespero, menos cantável do que o amor, muito mais duradoura, a de não morrer antes de saber. Digo-o com a experiência de quem já viu príncipes hesitarem por questões menores, a dúvida, quando se acende em pessoa de imaginação viva e coração ofendido, adquire consistência de alimento.
As vozes afastaram-se, o som das botas dissolveu-se para os lados da escadaria maior, e Julieta permaneceu só entre os bustos e as sombras, a mão espalmada sobre a construção úmida, o corpo ainda rebelado contra a própria continuação, quando então veio a ela, do fundo do corredor ou de dentro do sangue, coisa que me recuso a definir cedo demais, uma presença. Não foi aparição clara, dessas que os pintores adoram porque lhes poupam ambiguidade, e sim um adensamento do ar perto da última arcada, uma firmeza de frio onde o gélido já havia, um contorno mais pálido do que a escuridão permitia, e dentro dele a impressão do rosto amado sem a obediência inteira dos vivos, Romeu e não Romeu, o rapaz e o dano, a lembrança tomando forma bastante para ferir. Julieta não gritou, o grito serve melhor aos inocentes, ela apenas ergueu a cabeça com aquela rigidez assustada dos animais que pressentem a presença do caçador e do milagre com igual desvantagem. A figura não se aproximou, não abriu os braços, não lhe ofereceu consolo, e nisso foi mais honesta do que grande parte dos homens, conservou-se à distância e, quando a chama de uma tocha distante oscilou, pareceu mover os lábios.
Lembra-te.
Uma palavra só, ou talvez duas sílabas inventadas por sua própria fome, não importa ainda, porque o efeito foi inteiro. Julieta sentiu o ferimento bater de novo sob a faixa, o corpo inclinou-se um pouco para diante, como se obedecesse a um fio atado ao centro do peito, e a aparição, ou a lembrança armada em aparição, desfez-se no instante seguinte, restando-lhe apenas o corredor e o coração dela, agora muito menos disposto à docilidade do que o aceitável. Há homens a quem um fantasma ordena vingança; às mulheres, em geral, o mundo oferece tarefas mais discretas e mais cruéis, recordar, suportar, perceber o que ninguém julgou que perceberiam, guardar os nomes, ligar o gesto ao interesse, a lágrima ao decreto, o cadáver à conveniência. Julieta, filha recente do túmulo, iniciava sua instrução.
Tornou à cripta com passos ainda vacilantes, olhou uma vez mais o rapaz disposto à correção fúnebre, e já não viu apenas o amor perdido, viu também a pergunta que o cercava, o trajeto da carta desaparecida, a pressa com que os homens de cima haviam transformado a tragédia em ordem, a utilidade rápida demais da reconciliação, e percebeu, com susto e clareza, que a morte de Romeu talvez não terminasse nele. Curvou-se, encostou por um instante a testa à pedra fria da laje onde despertara, não em adoração, menos ainda em submissão, e sim para recolher do próprio frio a disciplina que lhe faltava. Quando ergueu de novo o rosto, a menina que seria celebrada pelas canções ainda estava ali em alguma parte, jovem o bastante para amar sem cálculo, ferida o bastante para desejar o fim, só que ao lado dela, respirando da mesma boca, principiava outra criatura, uma Julieta de sombras e escuta, de suspeita e temor, criatura menos conveniente aos altares e muito mais perigosa às casas.
Lá em cima um sino deu uma hora indecisa, dessas em que a madrugada começa a ceder o corpo ao dia sem lhe confiar ainda o nome, e Julieta compreendeu que, se voltasse a deitar-se, a paz alheia se completaria; se saísse, o mundo teria de revê-la. Escolheu a segunda ofensa. Recolheu do chão, junto à laje, um manto escuro deixado por algum assistente do ritual, cobriu-se com ele, poderia ser para esconder-se de Deus, mas ele já a conhecia em excesso, esconderia-se, sim, dos homens, cuja curiosidade vem sempre acompanhada de veredito, e, sustentando a dor como se sustentam os copos de remédio amargo, começou a subir a escada que levava ao castelo.
Assim entrou Julieta, ainda com cheiro de flores secas e mortuária, no território onde os vivos mentem com pleno uso dos pulmões.