Capítulo IV - O jardim das versões
Capítulo IV
O jardim das versões
Haverá um tempo em que a cidade aprenderá a esconder seu artifício com perfeição suficiente para que as pessoas chamem de natural aquilo que foi minuciosamente programado. As superfícies responderão ao toque com a docilidade das coisas treinadas, o clima dos ambientes se ajustará antes mesmo de o corpo formular desconforto, as janelas decidirão sozinhas a quantidade exata de claridade capaz de favorecer o humor, e os jardins, esses velhos cúmplices do encantamento, já não dependerão de estações, chuva ou solo, florirão conforme o cálculo, mudarão de cor de acordo com o perfil do visitante, exalarão perfumes compostos para produzir confiança, desejo, calma ou esquecimento. Nessa época, em que o mundo se terá tornado hábil em oferecer às criaturas versões agradáveis de si mesmas, a realidade não precisará mentir em voz alta; bastar-lhe-á editar. Julieta abriu os olhos dentro dessa mansidão aperfeiçoada, e durante alguns segundos nada a feriu de imediato, o que talvez fosse a primeira violência.
O leito sobre o qual jazia era largo, branco, silencioso em seu desenho, com tecidos que pareciam não guardar calor algum de noites anteriores, como se ali ninguém dormisse de fato, apenas repousasse em conformidade com alguma diretriz invisível. Acima dela, o teto translúcido deixava passar uma luz sem origem aparente, clara o bastante para banir a sombra e branda o suficiente para não se chamar agressão. O ar tinha perfume leve de folhas partidas e água limpa, porém nenhuma corrente entrava de fora, nenhum ruído de rua, nenhum cão, nenhuma roda, nenhuma voz distante. Tudo lhe chegava filtrado, resolvido, entregue já em estado de conveniência. Julieta permaneceu deitada por mais alguns instantes, não por languidez, e sim porque o corpo, quando pressente que o mundo ao redor foi apaziguado em excesso, aprende uma prudência nova. Levantou a mão até o rosto, tocou a própria boca, a curva do queixo, o pescoço, e encontrou pele viva, temperatura firme, respiração estável. Não havia dor evidente, nem faixa, nem vestígio de ferimento, nem sequer o cansaço duro que a manhã anterior lhe deixara no presente. Esse excesso de integridade produziu nela uma suspeita instantânea, pois a carne, quando atravessada por lembranças autênticas, raramente se oferece ao dia com tamanha cooperação.
Sentou-se devagar. O quarto revelou-se amplo e quase circular, com paredes que não eram bem paredes, antes painéis translúcidos onde a claridade corria em gradientes suaves, mudando do branco ao verde pálido sem que se pudesse dizer onde terminava uma cor e começava a outra. À esquerda, uma superfície espelhada lhe devolvia o corpo vestido com uma túnica clara de tecido leve, preso por linhas discretas ao ombro e à cintura, peça de uma elegância lisa, sem costura aparente, sem botões, sem zíper, como se tivesse sido imaginada antes para parecer inevitável do que para ser usada. Julieta olhou para o próprio reflexo e, por um breve instante, o estranhamento não veio da roupa, mas do modo como o espelho parecia favorecê-la, corrigindo-lhe a fadiga, tornando mais nítida a curva dos olhos, diminuindo a sombra junto à boca, como se a imagem ali servida fosse uma versão tratada de sua presença e não sua presença em si. Aproximou-se, tocou o vidro, e uma linha de luz passou sob seus dedos antes de se apagar. O reflexo sorriu um segundo depois dela. O atraso foi mínimo. Bastou.
Voltou-se de imediato, já sem confiar inteiramente em nada que ali respondesse com gentileza. No centro do quarto havia uma mesa baixa e sobre ela repousava um recipiente de vidro fino com água translúcida, duas frutas de superfície quase luminosa, um pequeno disco metálico e um ramo de flores miúdas cujo perfume se espalhava com constância excessiva, sem avanço nem recuo, como se o ar o estivesse distribuindo com disciplina. Julieta aproximou-se do recipiente, levou-o ao rosto, cheirou a água, provou um gole, e a pureza do sabor lhe pareceu tão completa que quase se tornou ausência. Quando pousou o copo, o disco metálico acendeu. Não emitiu som. A luz veio primeiro, depois a voz, feminina, de timbre agradável, colocada na exata medida entre a intimidade e a autoridade.
— Julieta, teu ciclo de reparo foi concluído. Os níveis retornaram à zona segura. Aconselha-se alimentação leve nas próximas duas horas e permanência em ambiente regulado até nova liberação.
A frase inteira lhe causou menos espanto do que a naturalidade com que seu nome fora pronunciado por uma coisa sem rosto. Julieta fitou o disco em silêncio. A voz, percebendo talvez a ausência de resposta, retomou com a mesma gentileza estudada.
— Registra-se alteração de padrão cognitivo nas últimas trinta e seis horas. Desejas acesso à sequência guiada de estabilização?
Julieta não respondeu. Havia qualquer coisa de profundamente obscena em ser tratada com tamanha delicadeza num lugar onde ninguém ainda se apresentara como pessoa. Deu dois passos para trás, e a superfície do quarto modificou-se levemente, os painéis deixando entrar mais verde, como se o ambiente estivesse lendo seu movimento como sintoma e oferecendo em troca alguma variação tranquilizadora. Foi então que ela percebeu a porta, quase invisível até ali, recortada na curva da parede com uma discrição tão perfeita que parecia pertencer antes ao campo do pensamento do que ao da matéria. Aproximou-se e, antes mesmo de tocá-la, a porta abriu-se em silêncio.
Além dela se estendia um corredor transparente suspenso sobre um jardim vasto demais para caber dentro de qualquer ideia antiga de jardim. Lá embaixo, caminhos sinuosos percorriam manchas de vegetação organizada em geometrias orgânicas, se assim me permitis o aparente disparate, porque tudo ali imitava a liberdade com fidelidade técnica suficiente para dispensar o acaso. Árvores de copas translúcidas deixavam cair folhas que se dissolviam antes de tocar o chão. Espelhos d’água mudavam de cor com lentidão meditativa. Flores abriam-se em ondas sucessivas conforme passavam pequenas aeronaves de manutenção, quase invisíveis. Ao fundo, erguiam-se estruturas de vidro e metal pálido, altas, curvas, ligadas umas às outras por passarelas que brilhavam em níveis diferentes, como se a própria cidade se tivesse acostumado a pensar em camadas. Julieta apoiou a mão na lateral do corredor e encontrou superfície morna, segura demais, sem o frio honesto da pedra, sem a aspereza do ferro, sem nada que lhe permitisse ler o mundo pela resistência. A beleza daquele espaço não lhe trouxe alívio. Trouxe vigilância. Os lugares excessivamente belos costumam desejar alguma coisa dos que abrigam.
À distância viu mover-se uma figura humana, depois duas, ambas trajadas com a mesma elegância sem ruído do seu próprio corpo, caminhando pelo jardim inferior com a leveza treinada de quem nunca precisou disputar espaço com o bruto. Não olhavam para cima. Seguiam por uma rota luminosa que se acendia sob seus pés e se apagava logo depois, e essa pequena cortesia tecnológica lhe deu a impressão de uma cidade que removia de si cada vestígio de passagem, como se a permanência dos corpos fosse tolerada desde que não deixasse marca. Julieta avançou alguns passos mais pelo corredor e então viu, na superfície interna da parede à sua direita, seu nome inscrito em caracteres finos, seguido por uma sequência de dados cujo sentido lhe escapava por inteiro. Abaixo do nome havia outra palavra: Variação. E sob ela, um número.
Julieta permaneceu olhando aquilo por mais tempo do que gostaria. Variação. A palavra lhe entrou pelo corpo com uma lentidão fria, abrindo espaços de compreensão ainda imperfeitos, mas já ameaçadores. Havia ali registro, classificação, talvez multiplicação. De algum modo que ela ainda não sabia tocar, aquele mundo não a reconhecia como indivíduo simples, irrepetível na sua dor e no seu desejo; reconhecia-a como ocorrência, padrão, desvio dentro de série maior. Ela ergueu a mão para a inscrição e no instante em que seus dedos quase tocaram os caracteres, a parede se iluminou de novo. Desta vez não surgiu uma voz, mas uma imagem. Primeiro linhas. Depois traços de um rosto. Depois a própria face, multiplicada em leve diferença, uma Julieta de cabelos mais curtos, outra com os olhos fechados, outra ainda sorrindo para alguém fora do quadro, outra em perfil, outra reduzida a malha de pontos luminosos, e todas aparecendo e desaparecendo como se o sistema lhe servisse a coleção das suas possibilidades com a serenidade de um criado bem instruído. Ela recuou.
O coração, que até então batera em compasso excessivamente dócil, encontrou enfim uma cadência mais humana. Havia mais de si ali do que podia tolerar. Mais de si e menos de si ao mesmo tempo. Julieta pensou em Romeu sem querer, não como rapaz específico, nem como o morto de outrora, nem como o beijo capturado pela cidade do presente, mas como nome que se acendia sempre que o mundo ameaçava dissolvê-la em função alheia. Romeu, nesse instante, serviu-lhe menos como amado do que como prova de singularidade; ninguém ama uma variação, ama-se um rosto, uma voz, um gesto, um corpo que chega uma vez só e por isso rasga. Ela mal concluíra esse pensamento e já se abriu, ao fundo do corredor, uma nova porta.
De lá saiu um homem jovem, ou pelo menos elaborado na idade que este século julgava mais tranquilizadora à autoridade. Tinha o rosto muito limpo, o cabelo escuro cortado rente demais para permitir desordem, os olhos de uma cor difícil de fixar por conta da própria luz do lugar, e o corpo vestido de forma que a sofisticação quase se confundia com neutralidade. Não trazia arma, pasta, papel, insígnia. Não precisava. Certas épocas aprenderão a apresentar o comando com uma suavidade que elimina o esforço de reconhecê-lo. O homem parou a alguns passos de Julieta e inclinou a cabeça numa medida que reunia acolhimento e cálculo.
— Estás estável — disse, como quem constata a eficiência de um processo. — Isso facilitará nossa conversa.
Julieta não lhe devolveu inclinação alguma. Havia nela, apesar do assombro, uma recusa cada vez mais firme a oferecer prontamente ao mundo a coreografia que ele esperava dela.
— Onde estou?
O homem quase sorriu, não por zombaria, antes porque a pergunta lhe pareceu confirmar um roteiro conhecido.
— No Jardim de Preservação Nove.
A resposta nada lhe deu além do desenho do engano. O homem percebeu.
— Foste reintegrada há poucas horas. É natural que a orientação ainda esteja em reconstrução. Teu núcleo passou por instabilidade prolongada.
Julieta ouviu cada palavra com a sensação de que lhe devolviam o próprio corpo em idioma que não aceitava carne. Núcleo, instabilidade, reintegração. Nada ali comportava dor, medo, vergonha, beijo, morte, pai, casa, nome. Era o léxico perfeito para operar sobre pessoas sem ter de suportá-las por inteiro.
— Quem és tu? — perguntou.
— Cassian, mediador de continuidade.
Outra profissão impossível. Outra função inventada para administrar aquilo que as épocas anteriores ao menos chamavam pelo nome brutal de poder. Cassian ergueu uma das mãos e a parede ao lado de Julieta devolveu, em projeção luminosa, o jardim visto de cima. Rotas acenderam-se, círculos pulsaram, setores receberam numeração. Ele então falou com a mesma serenidade com que um sacerdote explicaria um ritual já em andamento.
— Tiveste acesso inadvertido a arquivos de origem. Isso desencadeou sobreposição de memória e rejeição parcial do ambiente. Foste preservada antes do colapso completo. Nossa tarefa agora consiste em devolver-te à linha funcional com o mínimo de perda.
Julieta olhou para o mapa, depois para o homem, depois para o próprio nome ainda aceso junto à palavra Variação. Compreendia pouco de tudo aquilo, mas o bastante para detectar o ponto central da violência. Não queriam matá-la. Queriam devolvê-la a uma utilidade.
— E se eu não quiser tua linha?
A pergunta saiu inteira, sem tremor. Cassian demorou menos de um segundo a responder, e esse breve atraso denunciou que nem toda frase lhe chegava neutra.
— O querer, Julieta, costuma ser um sintoma delicado em estados de instabilidade.
Ali estava enfim, sob perfume novo, a mesma velha fome do mundo. Em um século era o túmulo, noutro a casa, agora o sistema inteiro. Muda a roupa, preserva-se o apetite. Julieta sustentou os olhos nos dele e viu, por trás da polidez técnica, a primeira sombra de cálculo mais duro. Cassian não se incomodava apenas com sua pergunta; incomodava-se com o fato de ela ainda formular perguntas fora do roteiro. O jardim, abaixo, continuava a abrir flores em ondas impecáveis. As outras figuras humanas percorriam as rotas luminosas com a serenidade dos que já consentiram na versão servida. O ar seguia perfeito. O corredor seguia morno. E no entanto, ali diante dela, o futuro começava a mostrar seu verdadeiro bosque: não o das árvores escuras e dos feitiços de antigamente, e sim o das interfaces suaves, das memórias editadas, das identidades mantidas em cultivo.
Julieta então voltou a olhar para as imagens de si mesma multiplicadas na parede. Uma delas, quase apagada entre as demais, parecia fitá-la com a boca entreaberta, como se também estivesse prestes a fazer uma pergunta que o sistema preferiria não ouvir.
Julieta aproximou-se da parede com a lentidão de quem sabe que certas superfícies, uma vez tocadas, passam a exigir em troca mais do que a impressão dos dedos. As imagens continuavam a mover-se em alternância suave, cada uma oferecendo uma variação mínima de um rosto que era seu e ao mesmo tempo parecia já pertencer ao arquivo antes mesmo de haver pertencido à vida. Havia na diferença entre aquelas faces algo mais perturbador do que a simples multiplicação, porque não se tratava apenas de retratos sucessivos, como os espelhos de uma galeria ou os estudos de um pintor paciente, tratava-se de possibilidades conservadas com o zelo com que se armazenam peças úteis, e a utilidade, quando aplicada à identidade, costuma ter o cheiro exato do sacrifício. Julieta ergueu a mão até quase tocar a imagem mais apagada, aquela cuja boca entreaberta lhe parecera conter uma pergunta, e o sistema reagiu antes do contato. A figura ampliou-se, ganhou nitidez, e em torno dela abriram-se linhas finas, anotações, níveis, datas, ciclos, termos que lhe escapavam em parte e, justamente por isso, a feriam mais. Cassian não se apressou em interromper a leitura, talvez porque confiasse no excesso de opacidade do vocabulário, talvez porque toda estrutura de poder goste de observar o momento em que o sujeito percebe, ainda sem domínio técnico, que há a seu respeito um saber acumulado em lugar inacessível.
Ela então reconheceu uma palavra. Não pelo sentido exato, e sim pela recorrência, por aparecer em mais de uma coluna, sob mais de uma imagem, acompanhando mais de uma versão de si. Recursão. A palavra ficava melhor naquele século do que fantasma nas velhas cortes, e no entanto desempenhava função semelhante, a de anunciar que o passado, por mais eliminado que parecesse, seguia trabalhando dentro da carne. Julieta leu outra inscrição, desta vez mais curta: episódio de memória originária. E outra: fixação em objeto afetivo externo. O objeto, compreendeu com uma irritação muito limpa, podia ser qualquer coisa que insistisse em singularizá-la, um nome, um rosto, um beijo, uma perda, uma recusa, algum fio que a puxasse para fora da grande máquina de versões reguladas. Romeu voltava a ela sob formas diferentes desde o começo da travessia, morto sobre a pedra, insistente ao portão, talvez ainda por aparecer ali como outra coisa ou outro alguém, e já lhe ocorria que o sistema inteiro reconhecia nesse retorno um problema de primeira ordem. O amor, quando não devidamente editado, conserva o hábito pouco higiênico de diferenciar as pessoas. Cassian, percebendo o endurecimento quase imperceptível de sua atenção, disse com voz baixa que aquelas inscrições não deveriam alarmá-la, faziam parte do protocolo de preservação, nada mais. Julieta voltou-se para ele e a calma do homem lhe pareceu, por um instante, mais agressiva do que qualquer grito de seu pai ou qualquer ordem solene do passado. Há violências que, uma vez aperfeiçoadas, dispensam a pressa e confiam plenamente na linguagem.
— Preservação de quê? — perguntou, e a pergunta saiu com aspereza bastante para arranhar o verniz do corredor.
Cassian uniu as mãos à frente do corpo, gesto ensaiado o suficiente para parecer espontâneo. Disse que a integridade dos núcleos sensíveis exigia contenção de excesso mnêmico, que o jardim fora criado justamente para oferecer continuidade harmônica às variações promissoras, que as falhas anteriores haviam ensinado ao Consórcio o alto custo da liberdade total em organismos com grande amplitude afetiva. Julieta escutou a frase inteira como quem vê uma tapeçaria sendo tecida diante de si e reconhece, por trás da beleza do desenho, o suor de quem ficou do lado de fora. Integridade, continuidade, harmonia, liberdade total, amplitude afetiva, o futuro fizera da tutela uma ciência tão elegante que já não precisava chamar-se cárcere. E, contudo, alguma parte dela, talvez a que despertara duas vezes no túmulo e uma vez no quarto do presente, já estava treinada para farejar o mesmo velho apetite sob perfumes distintos. Quis perguntar o que eram as falhas anteriores, quantas outras Julietas tinham sido cultivadas ali, quantas tinham pedido explicação, quantas tinham enlouquecido sob a doçura do tratamento, quantas tinham aceitado sorrindo a própria neutralização. Não perguntou tudo. Escolheu apenas uma linha.
— Promissoras para quem?
A pergunta abriu no rosto de Cassian uma fissura tão leve que quase poderia passar por modulação de luz. Ainda assim, estava lá. Pela primeira vez desde que surgira no corredor, a resposta lhe exigiu pequeno cálculo, e esse cálculo, por menor que fosse, devolveu a Julieta algo da ordem antiga do conflito, onde o poder pelo menos ainda precisava, vez ou outra, inventar-se no ato. Ele começou a falar do equilíbrio coletivo, da gestão de crises, da necessidade histórica de compatibilizar memória e paz, desejo e segurança, pluralidade e coerência. Julieta deixou que os termos passassem por ela sem se fixarem por inteiro. Não era que lhes faltasse inteligência, antes lhes sobrava administração. Em algum momento, enquanto ele falava, o jardim abaixo mudou de cor. As lâminas d’água receberam tons mais quentes, as copas translúcidas fizeram circular por suas fibras um brilho âmbar, e das estruturas mais distantes ergueu-se uma música baixa, quase vegetal, composta talvez de frequências capazes de desacelerar o sangue. Julieta sentiu o efeito em si mesma e, por isso mesmo, odiou-o. Até o consolo ali vinha com intenção embutida.
Avançou dois passos pelo corredor, afastando-se da parede das versões e aproximando-se da face transparente que dava para o jardim. As figuras lá embaixo continuavam a cumprir percursos sobre trilhas luminosas, e entre elas agora distinguia uma mulher de cabelos muito claros que parara junto a um espelho d’água e permanecia ali imóvel, olhando a superfície com o mesmo rigor com que se olham coisas capazes de devolver mais do que rosto. Havia também um menino ou rapaz muito jovem conduzido por duas pessoas de túnicas cinzentas até uma estrutura circular parcialmente coberta por plantas pendentes. Nenhum deles parecia propriamente infeliz. Essa era talvez a refinaria maior do lugar. O sofrimento bruto produz resistência, grito, fuga, conspiração. O bem-estar levemente forçado produz adaptação, vergonha de insurgir-se, dúvida sobre a legitimidade da própria inquietação. Julieta levou os dedos ao vidro e pensou no bosque de outras eras, nos galhos, nos aromas noturnos, no engano, na troca dos afetos, na desordem franca e, a seu modo, democrática dos feitiços. Ali o encantamento tinha outro nível de soberania. Já não confundia por excesso de sonho. Corrigia por excesso de cuidado.
Cassian tornou a aproximar-se, não demais, respeitando a exata distância que permitiria a um observador chamá-lo de paciente e a um internado chamá-lo de onipresente. Disse que o primeiro ciclo depois da reintegração costumava trazer hiperassociação, misturas indevidas de resíduos narrativos, personificações afetivas, e que seria prudente aceitar a sequência guiada antes que novas sobreposições comprometessem a estabilidade alcançada com alto custo. Julieta ouviu “alto custo” e a frase ficou. Alguém pagara, ou todos pagavam, ou o preço era a própria vida em parcelas invisíveis, e o homem se permitira a delicadeza monstruosa de confessá-lo sem o nome. Ela perguntou quem havia decidido que sua estabilidade valia aquele custo. Cassian respondeu que as decisões matriciais precediam os indivíduos e que seu caso, em particular, exigira esforços extraordinários por conta do potencial de propagação. Propagação. A palavra encontrou imediatamente, em sua imaginação, um caminho de carne: uma memória que circula, uma pergunta que passa de uma Julieta a outra, de um núcleo a outro, de um quarto a outro, um beijo, uma morte, um nome aceso numa tela, a notícia de que existe fora do jardim algo irredutível ao arquivo. Não foi apenas a curiosidade que a alcançou então, foi uma espécie de alegria sombria. Se eles temiam a propagação, algo nela ainda podia espalhar-se.
A imagem mais apagada na parede chamou-lhe de novo a atenção. Não por movimento, porque o sistema mantinha tudo sob aparência de ordem, mas porque, ao ser observada pela segunda vez, a variação pareceu menos obediente ao conjunto, menos bem integrada na coreografia da multiplicação. Julieta voltou até ela e pediu, com voz firme, acesso completo àquele registro. Cassian respondeu de imediato que tal nível de abertura não lhe estava liberado naquele ciclo. Ela tornou a pedir, não em tom mais alto, antes com uma nitidez mais fria, e o homem repetiu que o protocolo impedia. Houve então um momento miúdo, precioso, em que os dois olharam exatamente para o mesmo ponto do painel sabendo que disputavam mais do que um arquivo. O futuro inteiro, com suas delicadezas treinadas, estava contido naquela recusa. Julieta fez o que aprendera sem método ao longo das outras realidades: desviou a rota. Em vez de insistir diretamente sobre a variação, perguntou quantas eram. Cassian respondeu que a contagem individual não tinha relevância para sua adaptação. Ela pediu então a própria identificação completa. Ele disse que os marcadores de série só seriam apresentados em estágio posterior. Julieta perguntou se havia outras como ela naquele jardim. O homem, talvez por fadiga mínima ou por confiança excessiva, demorou meio segundo além do necessário antes de responder que naquele setor a coexistência visual havia sido reduzida em benefício da integração. Coexistência visual. Julieta quase agradeceu a frase. O jardim, portanto, temia encontros.
A voz feminina do quarto tornou a falar, agora vinda do próprio corredor, suave como água inclinada num cálice. Informou que o nível de excitação cognitiva ultrapassava a zona recomendada e sugeriu deslocamento imediato ao Pavilhão de Reequilíbrio Sensorial. A certa altura do jardim, como se obedecendo ao chamado, ergueu-se uma passarela móvel que não existia instantes antes, ligando o corredor a uma estrutura distante de cúpula leitosa. Cassian estendeu a mão na direção da passagem com a cortesia satisfatória de um carcereiro que oferece ao preso o benefício da sombra antes do interrogatório seguinte. Julieta fitou a ponte, depois o homem, depois a cidade ao longe. Acima das estruturas curvas, em níveis mais altos, viu mover-se pequenos pontos luminosos que poderiam ser veículos ou drones, e além deles uma faixa de horizonte falsa demais para lhe merecer confiança. Perguntou o que havia depois do Jardim Nove. Cassian respondeu que a pergunta, naquele estágio, nascia de angústia projetiva e seria melhor tratada mais tarde. Julieta guardou a resposta como se guarda um mapa invertido; toda vez que uma época recusa nomear o fora, confirma que o fora existe.
Avançou um passo, mas não em direção à passarela. Foi para o lado oposto, até uma das junções do corredor com a parede externa, onde pequenas fissuras de engenharia deixavam passar a linha fina da luz estrutural. Abaixou-se, observou, tocou a superfície e percebeu algo que o excesso de beleza quase lhe escondera: a perfeição tinha emendas. Não grandes, não escandalosas, antes discretas, distribuídas com talento, mas ali estavam, minúsculas interrupções do contínuo, pontos de manutenção, lugares por onde o sistema precisava admitir que era sistema. Seu dedo demorou-se numa delas e a luz interna oscilou quase imperceptivelmente. Cassian aproximou-se então com rapidez maior do que até ali permitira a si mesmo. Não a tocou, porém a proximidade bastou para tornar claro que, sob o ofício de mediador, havia também o guarda. Pediu que se afastasse da estrutura, porque o contato não autorizado poderia comprometer o equilíbrio ambiental do setor. Julieta levantou-se devagar. Sorriu muito pouco, quase nada, não por alegria, antes por ter encontrado finalmente uma rudeza material naquele reino de convites suaves. O sistema sangrava luz pelas costuras.
— Se é tão estável — disse — não deveria temer meus dedos.
A frase encontrou o homem num ponto menos treinado do que as outras. Ele respondeu que o tema não era medo, era cuidado com processos complexos. Julieta já não precisava da explicação. O pequeno tremor no controle do outro bastava. Pela primeira vez desde que abrira os olhos naquele leito impecável, sentiu crescer dentro de si alguma coisa que não fosse apenas espanto ou repulsa. Era interesse. Um interesse duro, quase alegre em sua ferocidade, nascido do instante em que o mundo deixa de parecer total e começa a mostrar as bordas. Tornou a olhar para o jardim, para a passarela de reequilíbrio, para a imagem mais apagada entre as variações, para o nome Variação seguido de um número que ainda desconhecia, e percebeu, com uma clareza que lhe veio inteira, que o futuro também a queria deitada, não em pedra ou em cama doméstica, mas numa função estável, bem regulada, bem disposta para visita e uso. A recusa, portanto, teria de encontrar aqui outros músculos.
Cassian repetiu o convite para o pavilhão. Julieta disse que iria, e o homem relaxou apenas o suficiente para denunciar alívio. Esse alívio foi seu primeiro erro. Ela começou a caminhar pela passarela translúcida ao lado dele, sentindo sob os pés a vibração mínima de mecanismos em trabalho. Lá embaixo o jardim abria novos ciclos de flores. Ao longe, as estruturas curvas continuavam a brilhar com a elegância satisfeita dos sistemas que se acreditam duradouros. Julieta acompanhava o mediador com o rosto sereno o bastante para não despertar contenção imediata, mas por dentro contava. Contava portas, distâncias, a posição das passarelas, o ritmo das figuras cinzentas, a frequência das vozes de orientação, a oscilação da luz nas costuras, a localização da imagem apagada, a palavra propagação, o atraso de meio segundo que surgira nas respostas do homem quando tocado fora do roteiro. Havia começado a aprender a sintaxe do jardim. E toda sintaxe, por mais elegante, contém pontos onde a frase pode ser torcida.