Amor, máquina e primeiras marchas Losango Cáqui · Capítulo 2 de 7
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Amor, máquina e primeiras marchas

POEMAS I A IX

I

Meu coração estrala. Esse lugar-comum inesperado : Amor, .Na trajetória rapida do bonde... De Sant’Ana á cidade. Da Terra á Lua Julio Verne Atravessei o núcleo dum cometa Me sinto vestido de luzes estranhas E da inquietação fulgurante da felicidade. Aqueles olhos matinais sem nuvens...

I Meu coração estrala. No entanto dia intenso apertado. Fui buscar minha farda. Choveu. Visita espanto Discussões esteticas. Automovel confidencial. Os cariocas perderam o matche- Eta paulistas! Mas aqueles olhos matinais sem nuvens Meu refrão! E penso nela, unicamente penso em mim. Amo todos os amores de S. Paulo... do Brasil. Eu sou a Fama de cem bocas Pra beijar todas as mulheres do mundo! Hoje é Suburra nos meus braços abraços fremen­ tes amor! Minha Loucura, acalma-te. ...Muitos dias de exercicios militares... Previsões tenebrosas... Revoluções futuras... Perspectiva de escravo cáqui, pardacento, fardacento... Meu coração estrala. MÁQUINA-DE-ESCREVER B D G Z, Remington. Pra todas as cartas da gente. Eco mecânico De sentimentos rápidos batidos. Â Pressa, muita pressa. Duma feita surripiaram a máquina-de-escre- ver de meu mano. 1^ Isso também entra na poesia Porquê êle não tinha dinheiro pra comprar outra.

Igualdade maquinal, Amor odio tristeza... E os sorrisos da ironia Pra todas as cartas da gente... Os malévolos e os presidentes da Republica Escrevendo com a mesma letra... Igualdade Liberdade Fraternité, point. Unificação de todas as mãos... Todos os amores Começando por uns AA que se parecem... O marido que engana a mulher, A mulher que engana o marido, Os amantes os filhos os namorados... “Pesames”.

“Situação difícil. Querido amigo... (E os 50 milreis.) Subscrevo-me adm°*' obg° E a assinatura manuscrita. Trique... Estrago! E na letra O. Privação de espantos Prás almas especulas diante da vida Todas as ansias perturbadas! Não poder contar meu extase Diante dos teus cabelos fogaréu A interjeição saiu com o ponto fora de lugar Minha comoção Se esqueceu de bater o retrocesso. Ficou um fio Tal e qual uma lagrima que cai E o ponto final depois da lagrima. Porém não tive lagrimas, fiz ‘Oh!” Diante dos teus cabellos fogaréu. A máquina mentiu Sabes que sou muito alegre E gosto de beijar teus olhos matinais Até quarta, heim, 11. Bato dois LL minúsculos. E a assinatura manuscrita. — Mario de Andrade! Me lembrava daquela cara olhos cabelos, Daquelas mãos um dia cheias de amizades pra mim... No entanto era um desconhecido. .— Faz tantos anos, Mario... — Meia-duzia, foi em 916. — Tive noticias de você... Pelos jornais. Tenho seguido. — Você mudou bastante. — Estou mais forte. — Os insultos foram por demais... — Um pouco... Mas, você? — Ora eu... Mas não acreditei, Mario de Andrade. — E as manobras no Rio, se lembra!... Bom tempinho! — Nosso tempo... E quis me cercar daqueles braços caídos!... Então, falando muito baixo ora mim mesmo, Veriamos juntos si estou certo no que sou... NO ENTANTO ERA UM DESCONHECIDO. Convidou; — Sigo pra Caçapava. — Não pede transferencia? É requerer do gene­ ral. Eu fico aqui. Me olhou rápido como envergonhadodeprocuraralguem. Depois poisou o olhar nos horizontes curtos da ru- a Conselheiro Crispiniano. Depois deixou êle cair nas mãos encardidas pe­ la companhia das sombras burocráticas. Depois me fitou. Fixamente. — Não. Vou pra Caçapava. Adeus, Mario de Andrade. — Passe bem. Que alívio! Detesto os mortos que voltam. São tão mais nossas as imagens! Soldado-raso da Republica. Quarto Batalhão de Caçadores aquartelado em Sant’Ana. Rogai por nós! Valha-me Deus! Todo vibro de ignorâncias militares. ... O calcanhar direito se levanta, Corpo inclinado prá frente... A marcha rompe.

Marcha, soldado, Cabeça de papel, Soldado relaxado Vai preso pro quartel... V

í(Escola! Sen...tido!”

^ E a manhã ã ^ noiva invernal humidecida, Névoas Ventos Gotas de agua, Se desenrola que nem novelo de fofa lã. Que frio!.. Quatro carreiras de menhires humanos. IMOBILIDADE ABSOLUTA. Porém as almas tremem retranzidas. ' — “Cabeças levantadas! Ninguém se mexa!’ E a neblina envereda ver garças batendo asas brancas Pelos alinhamentos de Carnac. VI

Queda pedrenta da ladeira. Calcei botinas de febre. Meus pés são duas sarças ardentes. Queima-se o bruxo Inquisição Topada, Turtuveio, Desfaleço...

...um-dois, um-dois... Mario, coragem Tão atrás dos companheiros... Avance! Olhe á direita o alinhamento.

E continuo: um-dois, um-dois... Mas como eu marcharia, Ta rata! Bandeiras

Centenário Exposição Universal Tôrre-das-Joias dos meus beijos, Si ela fosse soldado! fSi marchasse a meu lado Com a sarça ardente dos cabelos : Labaredando sob o quépi... Que linda então a barulheira dos tacões VI Batendo macanudos no chão UM-DOIS, UM-DOIS... f»1 V

E nem marcha! Desembestava maluco por essas pedras queridas, , Si ela fosse meu rancho. Si ela fosse meu soldo!

Meu amor.. Mario, cuidado, se alinhe! Tão na frente dos companheiros. Essa baita paixão pelo Brasil!

VII

Que sono! Todo dia, Quatro e meia, Madrugada... Tácito hoje não veio. Que seria? Inquietação. A neblina se senta a meu lado no bonde. Estou doente. RUA DOS INVOLUNTÁRIOS DA PATRIA.

— “Escola ! Alto!“ Pararraáaaa... “Não prestou ! Escola Escola pra quem, tenente? O poeta vai na escola... ^ Vai soletrar marchas altos esporas.. O apito mandachuva chicoteia o lombo dele O tenente é um cow-boy da Paramount. O potro corcoveia Prisca, Relinchos surdos, Tine tiririca esporeado no orgulho. Mas parou porquê o cow-boy fe-lo parar. A fita continua. E Pauliceia em frente Recostada no espigão do horizonte Aplaude o domador doiradamente Batendo a mão do Sol na mão da Terra Mas eu queria olhar á esquerda... Bonita casa colonial Cheínha mesmo de paisagem ! r Olhar altivo prá frente!” O meu tenente Não aprecia as casas coloniais. Porém o meu olhar bléfa o tenente. Olhou altivo prá frente E batendo no quépi do soldado da frente Fez esquerda-volver E meigamente espiou a casa colonial.

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