Escrivaninha, cabos e figuras Losango Cáqui · Capítulo 5 de 7
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Escrivaninha, cabos e figuras

POEMAS XXIV A XXXI

XXIV

A ESCRIVANINHA

Meu pai com seu nariz judeu... Eu vivia quasi sem ruído. Dumas Terrail Zola escondidos, Si êle souber... Meu pai? Meu Deus? Duas pessoas num só terror. Meus quatorze anos sorrateiros Leituras pobres, vicios feios, Quanto passado sem valor! Eu não vivi no meu país. Zola Terrail Dumas franceses... Que gramaticas portuguesas Pro miserável de Paris Depois a Vida me ensinou A vida. Meu pai morreu. Quando Orfão me vi, chora-chorando, Minha miséria se acabou. Anjo-da-Guarda, Solidão! Zola voltou prá escrivaninha De meu pai. Que grandeza estranha Pôs êsse gesto em minha mão?... Não sei.

XXV

Sou o “base”. Primeiro homem da 4:.a Companhia. Primeiro homem de S. Paulo! Ela devia estar aqui Com o seu “bom-dia”... Tem dois soldados inda mais compridos que eu. E a bizarria? E a nitidez dos gestos militares? Finalmente o sargento compreendeu que eu era o Exem-| plo,f Me deu o lugar supremo 1 Sou o generalissimo das tropas de terra-e-mar da hu-i manidadel Ela devia estar aqui Com a sua vaidade. Tudo em mim são ângulos, retas. Maquinismo inflexivel. Corpo metronomo, Allegro ma non troppo. Abaixo as músicas românticas Sou uma fuga de João Sebastião Bach! Porem os pés sarcásticos satincos Grita-gritam riso fino de picadas. Cobras, Espinhos, Dores, Cacos no caminho. Calcei botinas de febre! Lamentações humilhações fisicas insuportáveis Meus pobres pés martirizados Ah, os balsamos deliciosos refrigerantes! Perfumes rarissimos biblicosl Madalenas de mãos finas lentas imperiais XXVII

A MENINA E A CABRA

A menina peleja pra puxar a cabra Que toda se espaventa escorregando no asfalto i:;Entre as campainhadas dos bondes E a velocidade poenta dos automoveis. ... Todo um rebanho de cabras... As cabras pastam o capim do meio-dia... r.:1 E na solidão morta da serra Nem um toque só de buzina. Cachorro feio de olhos grandes entocaiados nos pelos. Junto das pedras movidas pelas lagartixas. Aonde o Solão chapinha na agua agitada Afinca os dentes no queijo doirado Lícias, pastor.

XXVIII FLAMINGO

Rigido a levantar no blau a flama rosea. Flamingo... Alem na sombra o mistério de Flandres... Sinos de coros polifonicos se expandem Em cinza em amplidão nitida e crua ardosia. Quimera viva! Vlan! Lança pelo infinito O bico em curva e o vôo arca sobre o deserto. Desce no areai. Heraldo o alto perfil inquieto Real... E a ridiculêz do passo de Carlito. Passam autos. Mulheres vão e vêm. Dengosa A tarde grande bate as asas do flamingo. Marés-altas de luxo. E o Flamengo domingo Abre nos céus o que não tem no Rio: rosas!...

XXIX

Enfim no bonde pra casa. O coronel não gostou do alinhamento das armas. Sargento Vitoriano ordenou dez minutos de acelerado

No entanto era tão moço o nosso desalinho... Sou brasileiro ou alemão Imperialismo... Na certa que Dom Pedro Havia de se rir do nosso desalinho... O bonde nada no Tiêtê. Havia nas manhãs cheias de Sol do entu­ siasmo As monções da ambição... Giganteas vitorias... Ninguém se amolava com o alinhamento das armas Ninguém mandava acelerados! E nas madrugadas bonitas ... -'rrfrT T -ífT

i - / u uouro u i v ^ da luz As bandeiras e as monções enveredavam prá Aventura yjtcK

Porém o hoje das turmalinas falsas .baratíssimas! Vida bêsta infame odiada! V

Eu trago a raiva engatilhada...

XXX

JOROBABEL

Um chôro aberto sobre o universo desaba A badalar... Um chôro aberto sôbre a Terra Em bandos de ais... Quaiar profético se expande... Ânda franco no mundo o agoiro da miséria... Job abúlico baba o fel que o devora... Hirta A multidão que desapareceu Abel... Um chôro... E a vida excessivamente infinita Clamor! Ninguém se entende! Um Deus não vem !... Ba­ bel Babel! Um chôro aberto sôbre a confusão Das raças! Babel! Os sinos em arremessos Bélicos! Badalar dos sinos! Multidão Hirta! Jerusalem incendiada... Rebate! Babel! Jerusalem ! Jorobabel! Babel! Batem os bronzes bimbalhando! Pobre Job Sem ouro, multidão devora e baba o fel!... Um chôro aberto de entes miserrimos... CABO MACHADO

Cabo Machado é cor de jambo, Pequeninho que nem todo brasileiro que se preza- Cabo Machado é moço bem bonito. É como si a madrugada andasse na minha frente- Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo Adonde alumia o Sol de oiro dos dentes Obturados com um luxo oriental. Cabo Machado marchando É muito pouco marcial. Cabo Machado é dansarino, sincopado, Marcha vem-cá-mulata. Cabo Machado traz a cabeça levantada Olhar dengoso pros lados. Segue todo rico de joias olhares quebrados Que se enrabicharam pelo posto dele E pela cor-de-jambo. Cabo Machado é delicado gentil. Educação francesa mesureira. 'I Cabo Machado é doce que nem mel E polido que nem manga-rosa. Cabo Machado é bem o representante duma terra Cuja Constituição proíbe as guerras de conquista E recomenda cuidadosamente o arbitramento. c'l Só não bulam com êle! Mais amor menos confianca! Cabo Machado toma um geito de rasteira... Mas traz unhas bem tratadas Mãos transparentes frias, Não regeita o bon-ton do pó-de-arroz. Se vê bem que prefere o arbitramento. E tudo acaba em dansa ! Por isso cabo Machado anda maxixe. Cabo Machado... bandeira nacional

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