Parada, desincorporação e esquina
POEMAS XXXIX A XLV
XXXIX
PARADA (7 de Setembro de 1922)
“Colunas de pelotões por quatro!” O DESFILE PRINCIPIA. O refle rombudo da soldadesca marchando Mansamente se embainha na Avenida. — “Olhe a conversão!” Conversão de S. Paulo... Todos convergem prá esquerda. Lá está Bilac estreando a fatiota de bronze. Patria latejo em ti... Meu Brasilzinho do coração! A alma da gente drapeja no espaço cinzento. Os mil milhões de rosas paulistanas. Moça bonita! Muitas moças. Conhecidos. — “Troque o passo 1” Gi, Taco, Maria, que lindos os très! Maquinas cinematográficas. My Boy. Não posso me rir. Olhar altivo prá frente... Na minha frente O cabo mais descabido deste mundo. Rua Augusta curiosa. Todas as ruas transversais espiando curiosas Trepadas em trincheiras de automóveis. Sorveteiro. Moça bonita Palmas. Grade dos escoteiros perfilados. Cunhas, velhas corocas debruçadas... Brutas No parapeito das cabeças infantis. As famílias dos mitras nos castelos roqueiros Apresentam armas em négligé. Zero uniforme. Este cabo caminha em contratempo, Cinco por quatro, Tal e qual Boieldieu na Dama Branca “Viens, gentille dame”... Zortzico de Âlbeniz... Esculhamba toda a marcha Moça bonita! — “Olhe o Mario de Andrade!” Se enganou, moça. Onde estarei? Ela não veio com certeza... Que bem me importa Saiba a cidade de S. Paulo Que nela vive um homem feliz — “Olhe a cadência O TRIANON VAI PASSAR Palmas. O tenente gesticula com a espada E todos olham prá direita em continência. Músicas. Ovação. Trinta carinhas adoraveis. Esta familia sorocaba... Tudo procissiona em meus olhos um-dois... Arvores, O preto, Beiço vermelho tapa o resto. Moça bonita! Músicas. Cornetas. Cornacas. Bengalós. No alto dum palanquim Sua Excia. o Marajá de Khajurao. O snr. presidente do Estado não gosta de Moder- ' nismo... Olha pra mim! — “Fora de forma Quarenta dias de prisão 1...” Oh, minhas alucinações! Moça bonita! Palmas. Passou o palanquim. Serenamente continuou sua jornada Sua Excia. o marajá de Khajurao. E os diademas de pérolas luzentes Nos risos das favoritas. Toneladas de moças bonitas! -- “Viva o Brasil!” — “Viva o Quarto Batalhão de Caçadores”! Risos. Sorveteiro-sorveteiro. Acerte o passo, cabo! Um senhor tres filhas gordas. Colares f dsos. Terra-roxa, Guaratinguetá, Tabatinguera, Oblivion Oblivion... Não existo. Não marcho. T: Muito longe Nos cafundós penumbristas de Santo Amaro O vacuo badalando badalando... Não tem mais Independencia do Brasil. Olhos defuntos. Ninguém. .i^ Nada. A
O braço nem doi mais. 1^. Sol crestado nas nuvens que nem PÃO. Kennst du das Land Wo die Zitronen blühen?... Assombrações desaparecidas. O mundo não existe. Não existo. Não sou. CICLIZAÇÃO Dava dez milreis por um copo de leite. Não devia falar “meu coração estrala”. Lembro todos os estralos do mundo... Os boleeiros guasqueiam os burros... O pneu arrebentou quando iamos duas ho ras da manhã... Balas-de-estralo pelo Ano-Bom...
—- Eu peno todas as dores Com êste amor que Deus me deu, Quem achou os seus amores A si mesmo se perdeu. TOADA SEM ALGOL
Certeza de ser nesta vida Fingimento de alguém nas artes, Covarde diante desta vida. Chuçadas e lapos berrantes, Klaxon, terror! sem automovel... Antes triste traste covarde Diante dos morros desta vida. Ninguém sabe da solitude Que enche o meu peito sem emprêgo, O qual comunga todo dia Na missa-baixa do abandono. Mas, rapazes, não tenho a culpa De ter faltado em minha vida- O amigo que me defendesse. Aquela que eu defenderia.
RONDO’ DAS TARDANÇAS h' “Volte amanhã.”
r Como tarda a desincorporação Não tem mais formaturas, Não tem mais acelerados... Iflí CALMARIA Desejo de tempestades Adoece meus membros parados. il- Quero ir de novo pro batuque público da vida Que engraçado Também quando trato dos meus negocios com a vida Ela sempre me diz com o ar distraido dela — “Volte amanhã.” Desincorporados. Previsões tenebrosas, Outra parada, Revoluções futuras... O snr. presidente da República Acredita na fidelidade dos seus súbditos. E TUDO ACABA EM DANSA! Por isso cabo Machado anda maxixe... Nem sodade nem prazer. Me inebriei de manhãs e de imprevistos. Bebedeiras sentimentais... Meu vício original. Recordámos esquerdas-volver e meias-voltas... Volta e meia vamos dar. Não ser obrigado a fingir mais olhar altivo prá‘ frente, Secretamente eu preferia o olhar quebrado do amor. E a gente tem mais coisas que fazer. Não sou dêsses pros quais a segunda-feira é igual zinha ao domingo. Trabalho como jeteí Quando é florada na fruteira. iîî.'' Corro minha vida com a velocidade dos electrons Mas pofêm sei parar diante das vistas pensativas E nos portais das tupanarocas sagradas. Eis a vida. V’lá Paris... pan-bataclan... j. — Ordinário, marche, Pros meus vinte-e nove anos maravilhosos Afinal, Êste mês de exercicios militares; Losango cáqui em minha vida. .Ariequinal...
XLIV
RONDO’ DO TEMPO PRESENTE
Noite de music-hall... I
Não, faz Sol. É meio-dia. Hora das fábricas estufadas digerindo. A rua elastica estica-se talquai clown desengonçado Farfalhando neblinas irónicas paulistas. O Sol nem se reconhece mais de empoado Ver padeiro que a gente encontra manhãzinha Quando das farras vai na padaria comer pão. Noite de music-hall... Cantoras bem pernudas. O olhar piscapisca dos homens aplaudindo. Como se canta bem nas ruas de S. Paulo O passadista se enganou. Não era desafinação Era pluritonalidade modernissima. Em seguida o imitador, Tenores bolshevistas, Tarantelas do Faseio... Ibsen! Ibsen! Peer Oynt vai pro escritorio Com o rubim falso na unha legítima. Empregados públicos virginais Deslumbrados com o jazz dos automóveis. Os cadetes mexicanos marcham que nem cavalos en sinados, Está repleto o music-hall! Mulheres-da-vida perfiladas nas frizas. — Olhar á direita! — Olhar á esquerda! Taratá! Olhar especula pra todos os lados Mas as continências livres do meu chapéu Não se esperdiçarào mais com galões desconhecidos! Prefiro mil vezes saudar os curumins! Os meninos-prodigios caminham seculo-vinte Sem esbarrão na confusão da multidão. Bravíssimo! Taratá! Século Broadway de gigolôs, boxistas e pansexualidade! Que palcos imprevistos! Programas originais! Permitido fumar. Esteja a gôsto. Faz Sol. meio-dia... Noite de music-hall...
XLV
'I, TOADA DA ESQUINA
Pouco antes de meio-dia Senti que vinha. Esperei.
Veio. Passou. Foi assim Como si a Lua passasse Por essa picada estranha Que viajo desde nascer. A redoma toda verde Do meu peito escureceu. Noite de Maio bondoso. Lá vai a Lua passando. Ha mesmo essa refração Que me bota no pescoço O cache-col da Via-Latea E a Lua na minha mão. Mas quando quero gosar O belo táctil do luar, E passo a mão sobre os dedos. Tenho de desiludir-me. Suspiro talquai na infancia. — Que queres, Mario? — Mamãi, Quero a Lua ! — Hoje é impossivel, Já vai longe. Tem paciência, Te dou a Lua amanhã. E espero. Esperas... Espera... Pinhões!