U. S. A.: Philosophia do arranha-céu e Synthese de Nova York
U. S. A.
Philosophia do arranha-céu
O arranha-céu não é apenas um milagre da mecânica. E', antes do mais, um índice sociológico, uma representação de valores políticos. Ao revés do templo ou do castello senhoril, cuja construcção estava subordinada ás necessidades de um ente
superior, que fazia sentir, por toda a parte, o influxo do seu poder exclusivo, o arranha-céu é uma pequena communa, onde todos quantos elle abriga estão sujeitos a uma só lei de igualdade civil. Essa igualdade liberta o indivíduo das hierarchias e augmenta-lhe o senso da responsabilidade em face dos seus semelhantes. A galeria dos espelhos, em Versalhes, é a moldura de um Rei. Moveis, tapeçarias, cristaes e gentishomens eram, ali, ephemeros accessorios da majestade real. Constituíam simples accidentes, onde se refrangiam os raios do Rei-Sol. Puras massas de paizagem para o jogo de um Príncipe. A nave de Chartres, os largos espaços das basílicas romanas criaram-se para o esplendor da idéa de Deus. A lógica da cathedral e do palácio inspira-se numa disciplina abstracta: no
respeito ao Homem-Deus e ao HomemSenhor. A lógica do arranha-céu inspira-se no sentimento da communhão, nas leis da economia, que repellem quaesquer resíduos decorativos, e nas leis do direito publico, que reduzem as relações sociaes a um pacto de igualdade. O arranha-céu é filho da Revolução. Seu primeiro architecto foi o Emílio, de Rousseau.
Synthese de Nova York
T\ ENTRO do enorme "shake", installado na torre de madeira, a mecânica misturou cimento, vidro, pedra britada, aço, ferro, betume e asfalto. Giro de rodas. Rumor de bilhas pesadas, escorrendo óleo grosso.
Ranger de correntes. Saltos de embolos. Pulos de luzes tontas, disparando de ptías electricas. Posse da matéria pela machina. Gymnastica de cubos. Acrobacia de sólidos. Nova-York, vertical, plantada sem raízes no granito insensível, ergueu-se do chão entre vagidos longos de metaes. Cidade que não foi embalada pela voz do homem. Jogo da razão geométrica. Invenção do calculo. Equação urbana.
Lá-longe, escondida no valle do Arno, uma pobre aldeia toscana, toda illuminada de sol, lança a flecha da sua egreja para o céu