Gravuras do México: O exemplo de Obregon
O exemplo de Obregon
Nesse tumulto, como onda que empolasse o dorso e, de improviso, avultasse sobre o referver das paixões partidárias, arrastando, no redemoinho impetuoso, o turbilhão das vagas menores e incontáveis, que se agitavam inutilmente, surgiu Obregon.
Obregon veiu da terra, e a terra imprimiu-lhe o feitio dos temperamentos exaltados. Sua mocidade foi espontânea e rebelde, como a de todos os homens que nasceram sem compromissos. Já, montado no lombo nú dos cavallos, laçando o touro tresmalhado ou competindo com os mais adestrados ginetes de Sonora, já, de espingarda prompta, escondido entre a vegetação humida e rasteira dos mangues tranquillos ou á sombra dos bosques espessos, para derribar as garças ou os gamos selvagens, elle viveu a adolescência de um heróe. Sempre em contacto com o povo, Obregon apurou o caracter destemeroso nas livres trajectorias da natureza. Não foi pedir ás Universidades os diplomas de sapiência graduada. Não foi buscar, nos salões officiaes, o prestigio dos favoritismos
transitórios. Não mergulhou no sophisma livresco as claridades do espirito. Sua mestra exclusiva foi a observação diuturna dos seres e das cousas. Foi a vida, em summa. A realidade que os seus vinte annos encontraram não podia ser mais dura. O paiz estava confiado, praticamente, a um circulo estreito de indivíduos que jogavam, desabridamente, com os seus destinos, impedindo o surto da consciência collectiva. O povo sem mestres e os campos sem amanho estavam entregues ás mais solertes explorações. Sobre todas as tyrannias, a peor, sem duvida, era a do espirito. Dentro do México só havia uma opinião : a de Don Porfirio. A imprensa era porfírista, o exercito era porfirista, o ensino era porfirista, o clero era porfirista, a sociedade era porfirista. No seio dessa una-
nimidade, as massas n|ío tinham assento, nem para concordar. Contribuíam, apenas, para as estatísticas, como um valor econômico. Obregon viu tudo isso, de perto. Ao contrario de muitos, porém, não se satisfez com um exame superficial do momento. Não se tornou descontente por ambição recalcada, senão pelo conhecimento directo dos phenomenos que analysava. Elle sentiu, desde logo, que a Revolução decorria da natureza das cousas, porquanto o paiz estava governado por homens que procuravam contrariar a sua verdadeira realidade ethnica e histórica. A palavra famosa de Juarez sobre a intervenção franceza, confirmava-se mais uma vez, nos derradeiros tempos do porfirismo: "Ia paz interna es imposible cuando no hay respecto ai derecho ajeno".
Reflectindo os anseios da maioria, Obregon comprehendeu a necessidade de dar ao governo mexicano feição nacional. Para não aggravar o conflicto entre o branco e o incola, tão perturbador para a vida intima da pátria, elle percebeu que era imprescindível a participação directa do elemento autóchtone nos negócios públicos. Intelligente e sagaz, o indio mexicano não se adapta facilmente aos postulados da civilização occidental. Herdeiro de raças superiores, pôde exhibir, á semelhança do egypcio ou do assyrio, uma nobre tradição de cultura humana, mais vigorosa que a de qualquer civilização precolombiana. Ora, pois, forçar onze milhões de indivíduos á observância dos usos e costumes de cinco milhões, descendentes dos conquistadores, seria prejudicar, talvez irremediavelmente, a marcha progressiva da
nacionalidade. Equilibrar essas duas forças, a imaginação do indio e a vontade do branco seria, ao revés, realizar obra de lúcida política. Os homens capazes de tal empresa não eram, certamente, os que apoiavam o Estado porfirista. Aos intellectuaes extremes, como José Vasconcellos, e aos campesinos, como Álvaro Obregon, caberia a gloria de preparar as massas para a defesa dos seus direitos. Quando a Revolução, com o baque da tyrannia, começou o cyclo das lutas intestinas, só as antigas classes dirigentes não quizeram entender a razão da nova lei. Chegando ao poder, pela armadura de uma vontade inflexivel, depois de sobrepujar o caudilhismo de Pancho y Villa, Obregon não desmentiu as suas origens nem falseou os princípios da Revolução, a exemplo de Carranza.
Seu primeiro cuidado foi o de nacionalizar o México. Abriu escolas, apparelhando-as com os mais aperfeiçoados systemas pedagógicos, repartiu a terra, como na parábola evangélica, entre os humildes, tornou o sub-sólo patrimônio da nação e organizou os syndicatos operários e agrários. O México, por tantas décadas apartado da vida intellectual, reformou-se espiritualmente. A palavra das Universidades, das academias, das escolas secundarias e primarias veiu ao encontro da multidão, e, das fileiras obscuras do proletariado, repontaram typos dominantes. Nem um chefe de Estado me impressionou tanto pela simplicidade, como esse que soube morrer na vanguarda do seu povo. Na noite em que elle me recebeu, o Castello de Chapultepec, dentro do bosque millenar picado de luzes vivas, não
parecia um palácio offícial, mas hospitaleiro solar de outras idades. Estadistas, poetas, guerreiros e artistas confundiam as vozes, naquellas salas espaçosas, em que pulsaram corações de imperadores e caudilhos. Pensei no Renascimento. E era o renascimento de uma raça aquelle príncipe, distrahido dos protocollos e dos títulos, que attingira a mais alta nobreza humana, pelo caracter, aquelle príncipe, cuja singeleza não tentaria, talvez, a penna dos historiadores rhetoricos.