Gravuras do México: Guadalajara, Tonalá e Talavera de Puebla Itinerário: Antilhas, Estados Unidos, México · Capítulo 8 de 8
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Gravuras do México: Guadalajara, Tonalá e Talavera de Puebla

Guadalajara

Coberta ainda pelos nevoeiros pardos da manhã, Guadalajara, pintada de azul e branco, parece uma talavera. Dentre a cortina dos platanos immoveis e dos eucalyptus parados no ar, sobem, cortando de chofre a claridade prateada e fina, as torres ponteagudas da cathedral. Rompen-

do a penumbra das folhagens pulam, de trecho a trecho, as curvas macias das cupolas forradas de azulejos. O espaço é uma inquietação de pedras que se arremessam tragicamente para o céu. Essa madrugada colonial é uma lição permanente da historia do novo mundo. O ambiente da America absorve, nas suas solidões verdes e ásperas, os vestígios do homem europeu. A paizagem índia contraria o desenho espanhol. A rendilha churrigueresca dilue-se na atmosphera virgem das arvores mexicanas. E, quando o sol tapatio, abrindo toda a sua luminosa corolla, arde no firmamento, Guadalajara fagulha em tons violentos e aggressiyos. O zarape de Saltilho ou de Caxaca vence, nas suas geométricas coloridas, o mysticismo castelhano. O indio levanta-se, mais uma vez, nesse primeiro minuto de aurora, para repellir o conquistador.

Caminho de Tlaquepaque

TJARA São Pedro de Tlaquepaque, em bambas ancas, descem os cargueiros. Oscillam, na cangalha dos jumentos, os samburás carregados de potes e cuias de barro crepitante. Aquella mão, que empunha a comprida vara de tanger os animaes, é um dos mila-

gres do mundo. Foi ella que fez tudo quanto ali vae: desde o sapato de corda até o vasilhame que faísca, em todas as curvas polidas, no trote curto das alimárias pequeninas. Antes do bárbaro occidental penetrar os valles de Jalisco, tinha ella criado o fogo e inventado a arte! Como é rude aquella mão! A palma, achatada e magra, tem a forma de uma folha selvagem. Os dedos longos e nodosos foram feitos para modelar as cousas, para envolvel-as e dominal-as. O pollegar, torto e desgracioso, mostra a belleza da arma que serviu para o combate. A exemplo dos punhaes muito usados, dir-se-ia gasto, mas seu golpe é instantâneo e preciso. Não desenha duas vezes o mesmo traço, e tão firme é o seu toque rápido, que desdenha o torno e vence o mecanismo

vulgar, imaginando e executando, quasi a um tempo. Com o "barro pegajoso" e o "barro branco" das minas de San Andrés, livre de moldes, aquella mão feia e peluda, "paletea" maravilhas. Zomba das technicas occidentaes. Só um rival é capaz de enfrental-a: o olho prompto do tonalteca. Este é um prisma sem par. Decompõe os relevos, degrada os matizes com a facilidade genial do primitivo. Ás vezes, numa simples flor, resume toda a paizagem. O mysterioso dynamismo que os mais subtis pintores modernos procuram, acha-se, de repente, resolvido num "tibor" ou numa "olla" de Tonalá.

Caminho de Tonalá

i^AMINHO de Tonalá, quem te viu não te esquece mais! Por toda a parte ondulam faixas de terra gorda, vestidas de entretons macios, de onde se erguem, aqui e além, grossas e lentas cabeçorras de vaccas silenciosas.

Os campos, que os lírios picam de vermelho e roxo, fumam nos vapores da manhã estivai. Começam a luzir, como besouros, as malacachetas do chão. Chiam as folhas do matto denso. Dos charcos, onde a luz cáe, de improviso, como um fruto que se esborracha derramando fogo, disparam, em vôos curtos, céleres, patos bravos, de bico chato e patas amarellas. Ruflos, palpitações, murmúrios, vozeios. Os pueblos enchem-se de vozes. Á porta de uma choça de adobe, a mascara de um deus azteca sorri, na sua boca sem dentes, para a imagem protectora de Nossa Senhora de Guadalupe.

A festa de Tonalá

TV" A tarde, em que a percorri, Tonalá estava em festa. Aquella gente rude acolhia um homem honrado, o homem que injectou na arte mexicana o sangue virgem da plebe: José Vasconcellos. Tonalá, nesse dia, era um museu, o museu mais

vivo que já me foi dado contemplar. No pateo do "Jusgado Municipal", apinhado de "alfareros", havia uma corrida de novilhos bravos. Fora, na larga praça, emmoldurada pelos cerros empastados de neblina, um grupo de oleiros, com trajes e disfarces monstruosos, dansava ao som incisivo de um "teponaxtle" O espirito dessa mysteriosa ceremonia traduz o conflicto religioso do rito azteca e do rito catholico. A tragédia da conquista repontava daquelle espectaculo, onde até o ridículo das personagens, sinistramente mascaradas, se tornava sagrado. Nos olhos da patuléa relumbrava, nesse instante, o fogo da America, precolombiana. De súbito, porém, todas as taras accumuladas por séculos de terror e livre grandeza, deflagraram num grito que explodiu de centenares de bocas, mudas

até então. E no silencio que, novamente, rolou sobre nós, como a dobra de um manto que se desprega, dura, aguda, vertical, rompeou o espaço a ultima nota do "teponaxtle". Na claridade fumarenta das tochas e das velas resinosas, emquanto a noite cahia das montanhas, proseguia a festa no interior das casas. O "tequila" fermentado com bagos de romã e o "pulque" amargo abriam o apetite para os "tamales" picantes e o espesso "atole", bebido em canecos desenhados como um conto de "Scherazada" O rythmo do "Jarabe" pairava em todos os cantos. Sapateando nos giros breves do compasso nervoso, os pares rodavam no piso de terra batida. O "Jarabe" é a mais bella invenção tapatia. Podia chamar-se a dansa da posse.

Esse júbilo de Tonalá, entretanto, pareceu-me tocado de melancolia. Mais uma vez me convenci de que ha uma indefínivel tristeza em todo povo que se diverte. Quem melhor exprimia o secreto sabor dessa festa, única pelo estylo e pelo caracter, era um trio de Índios, dois homens e uma mulher, que, afastados, lamentavam-se, num rendilhado sonoro de guitarras. Ao centro do pateo, junto á cisterna de pedra, aquellas três figuras tinham a gravidade impressiva de um painel de Diego Rivera. Não havia esperança na sua toada, mas uma queixa humilde, atravessada por faíscas de inquietos desafios. A voz da mulher subia, alta e fina. Era um repuxo de timbres claros retombando sobre os lentos ritornelos do coro masculino. Aquella voz lembrava a "flor de Tonalá", que se abre no barro cozido ou vi-

drado das amphoras e dos gomis. Delicada e subtil, ora se desmanchava num chuveiro de pétalas soltas, ora se fechava num botão inquieto, ora se descerrava no lúcido crystal da corola. Apegada á sua gleba, ninguém lhe arrancaria daquelle solo as infinitas raízes. E a sua mesma tristeza, recolhida e penetrante, era como o perfume da "flor de Tonalá"

Magia Tonalteca

CENDO relativamente pobre a natureza que o cerca, o tonalteca inventa uma natureza mágica, onde os antílopes da índia e os gatos felpudos da Pérsia convizinham com os dragões chinezes e os monstros nipponicos. Elle reduz tudo a schemas

decorativos. E a sua decoração, como a dos povos inventores, ê accentuadamente psychologica. Sua alma está profundamente entranhada no mais modesto motivo: na flor do cacto, onde se accusam as desolações do deserto bruto, ou na grega azteca, onde se vislumbra a densidade espiritual de uma raça.

A casa do tonalteca

A casa do tonalteca é uma fabrica. Desde criança, aprende a lidar com os barros. E lavra-o tão ardente sonho, que não cuida da habitação nem lhe imprime taça architectonica. Contenta-se com as quatro paredes de taipa e argamassa, onde

se rasgam portas e janelas estreitas. Emquanto os admiráveis poblanos valorizam economicamente as talaveras, elle só se preoccupa com a linha ideal das suas obras. "Yo pinto — disse um delles, o extraordinário Zacarias Jimon — porque tengo una cosa adentro que me hace trabajar con dolor. Cuando a uno le encargan una cosa parece que le amarran Ias manos" Diego Rivera pertence á linhagem do meu amigo Zacarias Jimon. Só os largos pannos muraes da Universidade do México seriam capazes de conter a sua imaginação. E mais uma vez, aqui, se repete a luta do primitivo com o conquistador. Sob a curvatura plateresca das arcadas espanholas, as multidões mexicanas de Rivera rebentam, como frutos sangrentos, na tormentosa paizagem social da America.

Quem poderá, d'oravanté, amarrar as mãos do homem americano com qualquer "encommenda" que lhe contrarie o impeto de liberdade ?

O homem de Tonalá

f \ homem de Tonalá fala pouco. Sua eloqüência concentra-se nos olhos e nas mãos. Alto, espadaudo e enxuto de carnes, traz o corpo em aprumo elegante, visando o interlocutor directamente. Ao contrario da maioria dos povos mexicanos,

é pacifico por Índole. E', por excellencia, o "homo faber" Sua face possue a serenidade mágica do hindu das altas castas. E' capaz de permanecer horas a fio, no batente da porta, imaginando uma forma nova ou uma combinação de coloridos para os seus vasos; A' sombra dos cardos massiços, pernas trançadas, alheio á vida circumstante, afeiçôa o barro, numa fascinação inviolável. Acocorados, em redor, a mulher e os filhos espiam, calados, aquella tranquilla experiência do Creador.

Architectura

A S casas de Tonalá, de tectos baixos, obrigam os moradores a olharem sempre para a terra, num contacto amoroso e lascivo. Essa é a grande lição de uma architectura instinctiva, que não distráe o criador humilde. Só os largos e ventila-

dos pateos interiores, com os seus tanques de águas mortas, exhibem o luxo das linhas decorativas dos cardos e magueyes agudos.

Talavera de puebla

"171 todo o mysterio da arte, em sua expressão mais simples e directa, numa fabrica de Talavera de Puebla. Acurvado sobre o torno primitivo, o "alfarero" é um transfigurador. Como no Gênese, ao seu commando anima-se a ar-

gamassa e a ordem domina a matéria. Na argila macia, pegajosa e informe corremlhe os dedos sábios. Ao impulso do pé ligeiro, roda o torno, e o artista, secundado por esse movimento inicial, cria o Universo do caos. Cylindros, pyramides, espheras, surgem e desapparecem, no concavo das suas mãos ; as linhas se recurvam ou se distendem, alongam-se, interrompemse, unem-se e, num relâmpago, nascem vasos de colos esguios, candelabros, jarras e copas de exquisito feitio. Emquanto, maravilhosamente incríveis, bailavam os contornos ante os meus olhos, num jogo inesgotável de geometrias improvisadas e logo desfeitas, senti que o oleiro não pensava. Aquelle homem nunca soffrera, porque, sem procurar a essência das cousas, elle as tirava do não sêr pelo prestigio da fôrma. O Verbo, que elle não

no tentara traduzir, convertia-se na acção, que impellia vertiginosamente. Aquelle homem era, pois, a própria Realidade, o vir-a-ser continuo das apparencias, na sua transcendência absoluta: Cantava no torno o estheta e, no fogo dos fornos crepitantes, cantava também a terra, a mesma terra que, antes, era poeira e rolava na pata dos animaes, e agora seria cântaro para a boca fresca e lasciva da india de ventre fecundo. Cantava o homem, porque se unira á terra, e cantava a terra, porque voltava das mãos do seu creador para o milagre de um momento de perfeição. E tudo era alegria ao redor de mim, porque aquelle homem era um deus.

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