Gravuras do México: A lição do deserto e O Deserto e o Homem
Gravuras do México
A lição do Deserto
Quem penetra o território mexicano, pela fronteira do Rio Grande, recebe o choque de um contraste fulminante. Para atrás, ficam os valles estrellados de papoulas silvestres, os campos de .cultura, os canaes de irrigação, os "cottages", os "bun-
galows" e as aldeias norte-americanas, cortadas como taboleiros de xadrez, onde os cow-boys passeiam a sua arrogância de peões elegantes. Para atrás, as doçuras de uma vida fácil e amável, risos de "babies" louros, de olhos ingênuos, rumores de granjas alegres, fitas rectas de estradas macias, torres de armazéns de petróleo, casarões coloniaes, de gosto espanhol, em cujas muralhas cresce a hera dos castellos inglezes. Para atrás, a fartura, a economia, o bom senso medíocre das contas em ordem, a philosophia tranquilla dos livros de razão. Em frente, desdobrando-se numa tapeçaria de mica, num mar de scintillações seccas, ponteadas de brilhos duros e immoveis, estende-se, por todos os quadrantes o deserto primitivo. Nem um relevo hu-
mano mancha a pagina virgem da creação. Sobre a ondulação dos cómoros desolados, onde as palmeiras nanicas equilibram perfis de pernaltas em repouso, despeja-se o azul carrancudo do céu. O vento morno, que percorre os areiaes movediços, não traz ás papillas ávidas uma gota sequer de humidade. Nem um filete d'agua pôde resistir á sucção da terra, onde as gramineas se retorcem á feição de cordas finas e esturricadas. Se quizerdes escavar um poço arteziano, encontrareis com mais facilidade uma bolsa de petróleo. A essa trágica solidão fugiram os pássaros de vôo curto. Por vezes, entretanto, paira uma sombra no ar. Tão alto a divisaes, que a julgarieis nuvem pequena de borrasca. Observareis, todavia, certa regularidade no seu movimento. A sombra
que, assim, vai riscando um demorado circulo no espaço, não é a de um cirro, mas a de uma águia. E' a da águia azteca, dominando o deserto.
O Deserto e o Homem
A medida que o vosso olhar for devassando essas planícies, vereis que o deserto vive, que toda aquella apparencia de solitude é uma illusão. Transposto o cabeço de uma duna mais elevada, súbito surgirá, ante o vosso espanto, um rude
pastor, de largo chapéu descaido sobre a fronte, com um sarape vermelho, verde e azul pendente do hombro. E onde as arvores não brotam, não correm águas, nem se emplumam aves, está o mexicano, com a sua coragem, a sua resignação e o seu heroísmo espontâneo. Filho do deserto, em que as suastribus erraram séculos, o mexicano aprendeu, desde cedo, a estratégia da posse pela violência. Caber-lhe-ia, sem favor, o titulo de romano da America. A grandeza do México assenta na conquista e numa comprehensão de urbanismo tão alta como nunca a tiveram os outros povos do nosso continente. O império azteca é um modelo de sabedoria política. O "status" do cidadão mexicano, os segredos da sua organização administrativa, a riqueza da sua
estructura intellectual fascinaram o invasor hispânico. Nas "Cartas de Relación", firmadas por Cortez, a vaidade ingenita do europeu mal esconde o deslumbramento do conquistador que, para estabelecer a traça deparallelos condignos, vai buscar sempre, no paiz natal, os mais honrosos pontos de referencia. Aqui, ante a physionomia grave de uma cidade nomeia Sevilha ou Cordoba, ali, em face de um monumento severo, lembra o atilamento dos engenheiros de César. O povo mexicano foi marcado nobremente pelo destino. Deu-lhe a natureza um leito áspero de granito, um sonoro berço de pedras, um oceano ondeante de montanhas, picos e grimpas, onde só poderia fixar-se uma espécie enérgica, tenaz
e voluntariosa. Ao longo das suas praias refervem as marinhas salgadas, na asa dos cyclones periódicos; á sombra das suas florestas, no claro espelho dos seus planaltos rola, de repente, a cachoeira, das lavas fumegantes; nas entranhas do seu subsolo ardem as pedrarias e os minérios raros. A raça, ao madrugar, recebeu a mais bella das lições: a lição de que a vida é uma disciplina perigosa. E o azteca de hontem, a exemplo do mexicano de agora, são os descendentes rudes dessa disciplina. Elles aprenderam, destemerosamente, que a existência não comporta gestos inúteis. No braço firme, que se levanta, elles vêm hoje, como antes, uma força calculada, necessária, que não deve perder-se, na mão, que brande a espada ou empunha o martelo, um harmonioso schema da energia universal.
Mexicano exprime sobriedade, resistência de animo, amor de raiz á liberdade, imaginação viril. Cruzando-se com o castelhano voluptuoso, não perderam os povos autóchtones as qualidades intrínsecas. Sob as múltiplas influencias do colonizador solerte, debaixo dos punhaes e dos mosquetes da soldadesca ibérica, palpitava a mesma alma dos antepassados austeros, que animara os guerreiros de Montezuma e os artistas de Chalco, Teotilhuacan e Tetzcoco. Lentamente, porém, as duas tradições se fundiram, a que viera com os espanhóes, resoante de vozes latinas e árabes, e a que nascera no golfo luminoso das Antilhas e ás margens das lagunas de Xochimilco, produzindo uma somma de factores poderosos. Mercê desse caldeamento, refinou o indio puro as qualidades nativas de ener-
gia. Ao primeiro relance, comtudo, julgalo-eis incapaz do menor atrevimento. Enxuto de carnes, desproporcionado de membros, meão de altura, a cabeça achatada por desmedida brachycephalia, o rosto de zygomas salientes, Uluminado por um olhar que se retráe sob as palpebras espessas, de pestanas breves, nada revela, no mexicano, a força recalcada, e silenciosa da sua alma profunda. E' um bronze rígido, cuja apparencia fria e impenetrável desconcerta. O sangue impetuoso do andaluz eloqüente foi absorvido pelo metal patinado da estatua. O gesto esquivo, a palavra rápida, o riso sem alegria, quebram, ás vezes, em repentinas descargas, as linhas serenas, que logo se harmonizam nos relevos da mascara.
Defrontal-o nos atalhos serranos, cortados de agudas pedras, bamboleando o corpo ágil na garupa de jumentos pelludos, á testa de longos rebanhos de bodes e cabras montezes, é um puro prazer. Tudo é decorativo, nesses espectaculos, em que os sentidos se amalgamam num diapasão de coloridos primários. Chapeirões conicos de abas encurvadas, botões polidos, facas mergulhadas em bainhas compridas, botas altas, esporas de rodizios luzentes, toda a sua indumentária é um brilho de clarões vivos ou furtivos de couros brunidos e cobres limpidos. Chocalham campanas no pescoço dos animaes, que saltam e cabriolam em pulos céleres, e o ar todo se arrepia ao contacto do fogo amarello e rubro, que irradia dos ponchos franjados. O mexicano se desforra da melancolia, vestindo-se de luz. Seu mysticismo, como
o dos velhos povos orientaes, é solar. Sente-se, nesse pendor do indio, como elle está perto dos elementos cósmicos, das "popoteras" inflammaveis, da monotonia dos planaltos. Sua melancolia provém do irrefreável sentimento da liberdade que não pôde attingir-se, daquelle sentimento de liberdade a que o homem chega somente pelo mais alto mysticismo esthetico ou religioso, ou pela maior amplitude de acção. Eis por que o mexicano possue o instincto do guerreiro, do santo e do artista. E' Guauhtémoc, Inéz de Ia Cruz ou Diego Rivera. Sua alma é uma perenne fuga para essa realidade transcendente, em que o sêr se confunde com o Universo.