Prólogo A Vida de Lazarilho de Tormes e de suas fortunas e adversidades · Capítulo 2 de 10
Obra Menu

Prólogo

Prólogo e Tratados, o tratamento epistolar “Vossa Mercê” e alguns termos de época. Para não interromper a leitura, os termos mais difíceis foram reunidos em glossário ao fim do volume.

Tenho por bem que coisas tão assinaladas, e talvez nunca ouvidas nem vistas, cheguem ao conhecimento de muitos e não sejam enterradas na sepultura do esquecimento, pois pode acontecer que alguém, lendo-as, encontre nelas algo que lhe agrade; e que aqueles que não aprofundarem tanto ainda se deleitem. A esse propósito, diz Plínio que não há livro, por pior que seja, que não tenha alguma coisa boa, ainda mais porque os gostos não são todos iguais: aquilo que um não come, outro perde a cabeça por ter.

E assim vemos coisas tidas em pouco por alguns que, para outros, têm valor.

Por isso, nada deveria ser rompido nem tomado por mal, desde que não fosse coisa muito detestável, antes deveria ser comunicado a todos, principalmente quando não causa prejuízo e pode trazer algum fruto. Porque, se assim não fosse, pouquíssimos escreveriam para um só leitor, já que escrever não se faz sem trabalho; e aqueles que passam por esse trabalho querem ser recompensados, não com dinheiro, mas vendo que suas obras são vistas e lidas, e, havendo motivo, louvadas. A esse propósito diz Túlio: “A honra cria as artes.”

Quem pensa que o soldado que sobe primeiro a escada de assalto tem mais desprezo pela vida? Certamente que não. O desejo de louvor é que o faz meter-se em perigo. E o mesmo acontece nas artes e nas letras.

Prega muito bem o apresentado, e é homem que deseja muito o proveito das almas; mas perguntem a sua mercê se lhe pesa quando lhe dizem: “Oh, que maravilhosamente o fez vossa reverência!” Justou muito mal o senhor Dom Fulano e deu o saio de armas ao truão porque este o louvava por ter manejado muito bem as lanças. Que faria, então, se isso fosse verdade?

E tudo vai dessa maneira. Confessando eu que não sou mais santo que meus vizinhos, não me pesará que tomem parte nesta ninharia, escrita em estilo grosseiro, todos os que nela encontrarem algum gosto; e que vejam como vive um homem cercado de tantas fortunas, perigos e adversidades.

Suplico a Vossa Mercê que receba este pobre serviço das mãos de quem o faria mais rico, se seu poder e seu desejo se conformassem. E pois Vossa Mercê escreve pedindo que se lhe escreva e relate o caso por extenso, pareceu-me melhor não tomá-lo pelo meio, e sim pelo princípio, para que se tenha notícia inteira de minha pessoa; e também para que considerem os que herdaram nobres estados quão pouco isso lhes deve ser creditado, pois a Fortuna foi parcial com eles, e quanto mais fizeram aqueles que, tendo-a contrária, remando com força e manha, chegaram a bom porto.

1/1
Menu

Fazer anotação