Tratado Segundo - Como Lázaro se assentou com um clérigo e das coisas que com ele passou A Vida de Lazarilho de Tormes e de suas fortunas e adversidades · Capítulo 4 de 10
Obra Menu

Tratado Segundo - Como Lázaro se assentou com um clérigo e das coisas que com ele passou

No dia seguinte, não me parecendo seguro ficar ali, fui para um lugar chamado Maqueda, onde meus pecados me puseram diante de um clérigo. Chegando eu a pedir esmola, perguntou-me se sabia ajudar à missa. Eu disse que sim, como era verdade, pois, embora maltratado, mil coisas boas me havia ensinado o pecador do cego, e uma delas fora essa.

Por fim, o clérigo me recebeu como seu.

Escapei do trovão e dei no relâmpago. Porque o cego, perto deste, era um Alexandre Magno, embora fosse a própria avareza, como contei.

Nada mais digo senão que toda a miséria do mundo estava encerrada naquele homem. Não sei se era de sua própria colheita ou se a havia adquirido junto com o hábito de clérigo.

Ele tinha uma arca velha, fechada à chave. A chave trazia atada por uma correia ao casaco. Quando vinha o pão bento da igreja, logo o lançava ali com a própria mão e tornava a fechar a arca.

Em toda a casa não havia coisa alguma de comer, como costuma haver em outras: algum toucinho pendurado no fumeiro, algum queijo posto sobre uma tábua ou no armário, algum cestinho com pedaços de pão que sobram da mesa. Parece-me que, mesmo sem aproveitar nada daquilo, eu me consolaria só de ver.

Havia apenas uma réstia de cebolas, e ficava trancada em um quarto no alto da casa. Dessas eu tinha por ração uma a cada quatro dias. Quando lhe pedia a chave para ir buscá-la, se havia alguém presente, ele metia a mão no peito com grande continência, desatava a chave e me dava, dizendo:

“Toma, e devolve logo. E vê se não vais andar lambiscando.”

Como se debaixo daquela chave estivessem todas as conservas de Valência, quando no dito quarto, como já disse, não havia maldita outra coisa além das cebolas penduradas em um prego. E ele as tinha tão bem contadas que, se por desgraça de meus pecados eu passasse da minha taxa, isso me custaria caro.

Enfim, eu morria de fome.

Pois, se tinha pouca caridade comigo, consigo mesmo usava mais. Cinco brancas de carne eram seu ordinário para comer e cear. É verdade que repartia comigo o caldo, porque da carne nem pensar. Dava-me um pouco de pão, e prouvera a Deus que me desse metade.

Aos sábados, come-se naquela terra cabeça de carneiro, e ele me mandava buscar uma que custava três maravedis. Cozinhava-a e comia os olhos, a língua, o pescoço, os miolos e a carne que havia nas queixadas. Dava-me todos os ossos roídos, colocando-os no prato e dizendo:

“Toma, come, triunfa, que para ti é o mundo. Vida melhor tens que o Papa.”

“Que Deus te dê uma igual”, dizia eu baixinho comigo.

Ao fim de três semanas que estive com ele, cheguei a tal fraqueza que não me podia sustentar sobre as pernas, de pura fome. Vi-me claramente a caminho da sepultura, se Deus e meu saber não me remediavam.

Para usar minhas manhas, não havia ocasião, por não haver em que dar salto. E, ainda que houvesse algo, não podia cegá-lo como fazia com aquele que Deus perdoe, se morreu daquela cabeçada; porque o outro, embora astuto, por faltar-lhe aquele precioso sentido não me sentia. Este, porém, tinha a vista mais aguda que qualquer outro homem.

Quando estávamos no ofertório, nenhuma branca caía na concha que ele não registrasse. Um olho tinha na gente, e o outro nas minhas mãos. Bailavam-lhe os olhos na cabeça como se fossem de azougue. Todas as brancas que ofereciam ele tinha por conta. Acabado o ofertório, logo me tirava a conchinha e a punha sobre o altar.

Não fui senhor de pegar-lhe uma branca durante todo o tempo em que com ele vivi, ou, para melhor dizer, morri. Da taverna jamais lhe trouxe uma branca de vinho. O pouco que da oferta havia metido em sua arca, media de tal forma que lhe durava a semana inteira. E, para ocultar sua grande mesquinhez, dizia-me:

“Olha, moço, os sacerdotes devem ser muito temperados no comer e no beber. Por isso não me excedo como outros.”

Mas o miserável mentia falsamente, porque nas confrarias e nos enterros em que rezávamos, à custa alheia, comia como lobo e bebia mais que benzedor.

E já que falei de enterros, Deus me perdoe, porque jamais fui inimigo da natureza humana senão então, e isso porque comíamos bem e me fartavam. Desejava, e até rogava a Deus, que cada dia matasse o seu.

Quando dávamos sacramento aos enfermos, especialmente a extrema-unção, como o clérigo mandava rezar os que ali estavam, certo é que eu não era o último da oração. E com todo o meu coração e boa vontade rogava ao Senhor, não que o pusesse na parte em que mais servido fosse, como se costuma dizer, e sim que o levasse deste mundo.

Quando algum desses escapava, Deus me perdoe, eu o mandava mil vezes ao diabo. E o que morria levava de mim outras tantas bênçãos.

Porque, em todo o tempo em que ali estive, que seria quase seis meses, somente vinte pessoas faleceram. E estas bem creio que matei eu, ou, para melhor dizer, morreram a meu pedido; porque, vendo o Senhor minha raivosa e contínua morte, penso que gostava de matá-los para me dar vida.

Mas para aquilo que eu padecia no presente não achava remédio. Se no dia em que enterrávamos alguém eu vivia, nos dias em que não havia morto, por estar já habituado à fartura, voltando à minha fome cotidiana, mais a sentia.

De maneira que em nada achava descanso, salvo na morte, que também para mim, como para os outros, eu desejava algumas vezes; mas não a via, embora estivesse sempre em mim.

Pensei muitas vezes em deixar aquele amo mesquinho, mas por duas coisas não o fazia. A primeira: não me atrevia a minhas pernas, por temer a fraqueza que de pura fome me vinha. A segunda: considerava e dizia:

“Já tive dois amos. O primeiro me trazia morto de fome; deixando-o, dei neste outro, que já me tem com ela na sepultura. Pois, se deixo este e caio em outro ainda mais baixo, que será senão acabar de morrer?”

Com isso, não ousava me mover, porque tinha por fé que em todos os graus eu havia de encontrar coisa pior. E, se baixasse outro ponto, não soaria mais Lázaro, nem dele se ouviria no mundo.

Estando eu em tal aflição, da qual queira o Senhor livrar todo fiel cristão, e sem saber que conselho tomar, vendo-me ir de mal a pior, um dia em que o mesquinho, ruim e miserável de meu amo havia saído do lugar, chegou por acaso à minha porta um caldeireiro. Creio que foi anjo enviado a mim pela mão de Deus naquele hábito.

Perguntou-me se eu tinha algo para consertar.

“Em mim teríeis muito que fazer, e não faríeis pouco se me remediásseis”, disse eu baixinho, mas ele não me ouviu.

Como não era tempo de gastar palavras em graças, iluminado pelo Espírito Santo, disse-lhe:

“Tio, perdi uma chave desta arca e temo que meu senhor me açoite. Por vossa vida, vede se entre essas que trazeis há alguma que lhe sirva, que eu vos pagarei.”

Começou o angélico caldeireiro a provar uma e outra de um grande molho de chaves que trazia, e eu o ajudava com minhas fracas orações. Quando menos esperava, vi em figura de pães, como dizem, a cara de Deus dentro da arca. Aberta ela, disse-lhe:

“Não tenho dinheiro que vos dar pela chave, mas tomai daí o pagamento.”

Ele tomou um daqueles pães bentos, o que melhor lhe pareceu, e, dando-me minha chave, foi-se muito contente, deixando-me ainda mais contente.

No momento, não toquei em nada, para que a falta não fosse sentida. E, ainda, porque, vendo-me senhor de tamanho bem, pareceu-me que a fome não ousava chegar perto de mim.

Veio o mísero de meu amo, e quis Deus que não reparou no pão que o anjo levara.

No outro dia, assim que ele saiu de casa, abri meu paraíso de pão. Tomei entre as mãos e os dentes um pão bento e, em dois credos, o fiz invisível, sem me esquecer de deixar a arca fechada. Comecei a varrer a casa com muita alegria, parecendo-me que, com aquele remédio, remediaria dali em diante a triste vida.

Assim estive aquele dia e o outro, gozoso.

Mas não estava em minha sorte que durasse muito aquele descanso. Logo no terceiro dia me veio a verdadeira febre. De repente, vejo aquele que me matava de fome sobre nossa arca, revolvendo e tornando a revolver, contando e tornando a contar os pães.

Eu dissimulava, e em minha secreta oração, devoções e preces, dizia:

“São João, cegai-o!”

Depois que esteve um bom tempo fazendo a conta, contando por dias e pelos dedos, disse:

“Se eu não tivesse esta arca tão bem guardada, diria que dela me tiraram pães. Mas de hoje em diante, só para fechar a porta à suspeita, quero ter boa conta deles: restam nove e um pedaço.”

“Más notícias te dê Deus”, disse eu comigo.

Com aquilo que ele disse, pareceu-me que me atravessava o coração com flecha de caçador. E começou-me o estômago a escavar de fome, vendo-se posto na dieta passada.

Ele saiu de casa. Eu, para me consolar, abri a arca. Como vi o pão, comecei a adorá-lo, sem ousar recebê-lo. Contei os pães, para ver se por acaso o miserável havia errado, e achei sua conta mais verdadeira do que eu queria.

O máximo que pude fazer foi dar-lhes mil beijos e, com o maior cuidado que pude, partir um pouco do pedaço que já estava partido. Com aquilo passei aquele dia, não tão alegre como o anterior.

Mas, como a fome crescesse, principalmente por estar meu estômago acostumado a mais pão naqueles dois ou três dias já ditos, morria má morte. Tanto que, vendo-me só, eu não fazia outra coisa senão abrir e fechar a arca e contemplar aquela cara de Deus, como dizem os meninos.

Mas o mesmo Deus, que socorre os aflitos, vendo-me em tal aperto, trouxe à minha memória um pequeno remédio. Considerando comigo, disse:

“Esta arca é velha, grande e quebrada em algumas partes, embora com pequenos buracos. Pode-se pensar que ratos, entrando nela, fazem dano a este pão. Tirar um pão inteiro não convém, porque verá a falta aquele que em tanta falta me faz viver. Isto bem se sofre.”

Comecei então a esfarelar o pão sobre uns mantéis não muito custosos que ali estavam. Tomava um pão e deixava outro, de maneira que em cada um de três ou quatro esfarelei um pouco. Depois, como quem toma confeitos, comi aquilo e me consolei um tanto.

Quando ele veio comer e abriu a arca, viu o mal estrago. Sem dúvida creu que ratos haviam feito o dano, pois estava muito propriamente imitado o modo como eles costumam roer.

Olhou toda a arca de um lado a outro, viu certos buracos por onde suspeitava que os ratos tivessem entrado, e chamou-me, dizendo:

“Lázaro, olha! Olha que perseguição nos veio esta noite sobre o nosso pão!”

Eu fingi muito espanto e perguntei-lhe o que poderia ser.

“Que há de ser?”, disse ele. “Ratos, que não deixam coisa viva.”

Pusemo-nos a comer, e quis Deus que ainda me coube um pouco mais de pão que a mesquinhez costumada, porque raspou com a faca tudo o que julgou roído por ratos, dizendo:

“Come isto, que o rato é coisa limpa.”

E assim aquele dia, acrescentando a ração pelo trabalho de minhas mãos, ou de minhas unhas, dizendo melhor, acabamos de comer, embora eu nunca começasse a ficar satisfeito.

Logo me veio outro sobressalto: vê-lo andar solícito, tirando pregos das paredes e buscando tabuinhas, com as quais pregou e fechou todos os buracos da velha arca.

“Ó Senhor meu”, disse eu então, “a quanta miséria, fortuna e desastres estamos postos os nascidos, e quão pouco duram os prazeres desta nossa trabalhosa vida! Eis-me aqui, que pensava com este pobre e triste remédio remediar e passar minha miséria, e já estava quase alegre e de boa ventura. Mas não quis minha desdita: despertando este miserável de meu amo e pondo-lhe mais diligência do que ele por si já tinha, pois os míseros, na maior parte, nunca carecem dela, agora, fechando os buracos da arca, fecha-se a porta a meu consolo e abre-se a meus trabalhos.”

Assim me lamentava eu, enquanto meu solícito carpinteiro, com muitos pregos e tabuinhas, dava fim a suas obras, dizendo:

“Agora, senhores ratos traidores, convém mudar de propósito, que nesta casa tendes má medra.”

Depois que saiu de casa, fui ver a obra e achei que não deixara na triste e velha arca buraco por onde pudesse entrar sequer um mosquitinho. Abri com minha chave desaproveitada, sem esperança de tirar proveito, e vi dois ou três pães começados, os que meu amo pensou estarem roídos por ratos. Deles ainda tirei alguma miséria, tocando-os muito levemente, a uso de esgrimista destro.

Como a necessidade é tão grande mestra, vendo-me com tanta, sempre, noite e dia, estava pensando a maneira que teria de sustentar o viver. Penso que, para achar estes negros remédios, a fome me servia de luz, pois dizem que o engenho com ela se aviva e, ao contrário, com a fartura se apaga. Assim era, por certo, em mim.

Estando uma noite desvelado nesse pensamento, pensando como poderia me valer e aproveitar-me da arca, senti que meu amo dormia, porque o mostrava com roncos e grandes respiros que dava enquanto dormia. Levantei-me muito quieto e, tendo pensado durante o dia o que havia de fazer, e deixado um velho facão em parte onde o achasse, fui-me à triste arca. Por onde eu havia visto que tinha menos defesa, acometi-a com a faca, que usei à maneira de broca.

E como a antiquíssima arca, por ser de tantos anos, eu a achasse sem força nem coração, antes muito branda e carcomida, logo se me rendeu e consentiu em seu costado, para meu remédio, um bom buraco. Feito isso, abri bem devagar a arca ferida e, ao tato, do pão que achei partido, fiz como abaixo está escrito.

Com aquilo algo consolado, tornando a fechar, voltei às minhas palhas, nas quais repousei e dormi um pouco. Isso eu fazia mal, e o atribuía ao não comer. Assim seria, porque certo, naquele tempo, os cuidados do rei de França não me deviam tirar o sono.

No outro dia, foi visto por meu senhor amo o dano, tanto do pão quanto do buraco que eu havia feito. Começou a mandar os ratos ao diabo e a dizer:

“Que diremos a isto? Nunca se sentiram ratos nesta casa senão agora!”

Sem dúvida devia dizer a verdade, porque, se casa havia no reino justamente privilegiada deles, aquela por razão havia de ser, já que não costumam morar onde não há o que comer.

Tornou a buscar pregos pela casa e pelas paredes, e tabuinhas para tapá-los. Vinda a noite e seu repouso, logo eu me punha de pé com meu aparelho, e quantos ele tapava de dia, eu destapava de noite.

De tal maneira foi, e tanta pressa nos demos, que sem dúvida por isso se deve ter dito: “Onde uma porta se fecha, outra se abre.” Finalmente, parecíamos ter por empreitada a teia de Penélope, pois quanto ele tecia de dia, eu rompia de noite. Em poucos dias e noites pusemos a pobre despensa de tal forma que, quem quisesse falar propriamente dela, mais couraças velhas de outro tempo que arca a chamaria, segundo a pregaria e as tachinhas que sobre si tinha.

Quando viu que nada lhe aproveitava seu remédio, disse:

“Esta arca está tão maltratada, e é de madeira tão velha e fraca, que não haverá rato de que se defenda. E já vai tal que, se mexermos mais com ela, nos deixará sem guarda. E ainda o pior: embora guarde pouco, fará falta faltando, e me porá em gasto de três ou quatro reais. O melhor remédio que acho, pois o de até aqui não aproveita, é armar por dentro contra estes ratos malditos.”

Logo buscou emprestada uma ratoeira. Com cascas de queijo que pedia aos vizinhos, o gato estava continuamente armado dentro da arca, o que para mim era singular auxílio; porque, ainda que eu não precisasse de muitos molhos para comer, alegrava-me com as cascas de queijo que tirava da ratoeira, e sem isso não perdoava o roer do pão bento.

Como achasse o pão roído e o queijo comido, e não caísse o rato que o comia, dava-se ao diabo. Perguntava aos vizinhos que coisa poderia comer o queijo e tirá-lo da ratoeira, sem cair nem ficar dentro o rato, e achar caída a portinhola da armadilha. Acordaram os vizinhos que não era rato quem fazia aquele dano, porque alguma vez havia de ter caído. Disse-lhe um vizinho:

“Em vossa casa eu me lembro que costumava andar uma cobra, e esta deve ser, sem dúvida. E faz sentido: como é comprida, tem espaço para tomar a isca. E embora a portinhola lhe caia em cima, como não entra toda dentro, torna a sair.”

Agradou a todos o que ele disse, e alterou muito a meu amo. Daí em diante não dormia a sono solto. Qualquer verme da madeira que de noite soasse, pensava ser a cobra que lhe roía a arca. Logo se punha de pé, e com um porrete que, desde que lhe disseram aquilo, punha à cabeceira, dava grandes porretadas na pecadora da arca, pensando espantar a cobra. Despertava os vizinhos com o estrondo que fazia, e a mim não deixava dormir.

Ia às minhas palhas e as revirava, e a mim com elas, pensando que a cobra ia para mim e se envolvia em minhas palhas ou em meu saio. Diziam-lhe que de noite acontecia a esses animais, buscando calor, irem às cunas onde estão criaturas, mordê-las e fazê-las perigar. Eu, na maioria das vezes, fazia-me de dormido, e de manhã ele me dizia:

“Esta noite, moço, não sentiste nada? Pois atrás da cobra andei, e ainda penso que ela há de ir para tua cama, que são muito frias e buscam calor.”

“Queira Deus que não me morda”, dizia eu, “que muito medo lhe tenho.”

Dessa maneira andava ele tão elevado e levantado do sono que, por minha fé, a cobra, ou o cobro, por melhor dizer, não ousava roer de noite nem levantar-se à arca. Mas de dia, enquanto ele estava na igreja ou pelo lugar, fazia eu meus saltos. Vendo ele esses danos e o pouco remédio que lhes podia pôr, andava de noite, como digo, feito trasgo.

Eu tive medo de que, com aquelas diligências, topasse com a chave que eu tinha debaixo das palhas, e pareceu-me mais seguro metê-la à noite na boca. Porque já, desde que vivi com o cego, a tinha feito tão boa bolsa que me aconteceu ter nela doze ou quinze maravedis, todos em meias brancas, sem que me atrapalhassem o comer. De outra maneira, eu não era senhor de uma branca com que o maldito cego não desse, não deixando costura nem remendo que não me buscasse muito a miúdo.

Assim, como digo, metia cada noite a chave na boca e dormia sem receio de que o bruxo de meu amo desse com ela. Mas, quando a desgraça há de vir, diligência é demais.

Quiseram meus fados, ou, por melhor dizer, meus pecados, que uma noite, estando eu dormindo, a chave se me pôs na boca, que aberta eu devia ter, de tal maneira e postura que o ar e o respiro que eu deitava dormindo saíam pelo oco da chave, que era de canudo, e silvavam, segundo quis meu desastre, muito forte. De tal modo que meu amo, sobressaltado, o ouviu e creu sem dúvida ser o silvo da cobra. E certo devia parecer.

Levantou-se muito devagar com seu porrete na mão e, seguindo o tato e o som da cobra, chegou-se a mim com muita quietude, para não ser sentido por ela. Como se viu perto, pensou que ali, nas palhas onde eu estava deitado, ela havia vindo ao meu calor. Levantando bem o pau, pensando tê-la debaixo e dar-lhe tal porretada que a matasse, com toda a sua força me descarregou na cabeça tão grande golpe que, sem nenhum sentido e muito mal descalabrado, me deixou.

Como sentiu que me havia acertado, pois eu devia ter dado grande sentimento com o golpe feroz, contava ele que se chegou a mim e, dando-me grandes vozes, chamando-me, procurou despertar-me. Mas, quando me tocou com as mãos, sentiu o muito sangue que de mim saía e conheceu o dano que havia feito. Com muita pressa foi buscar luz.

Chegando com ela, achou-me gemendo, ainda com a chave na boca, que nunca desamparei: metade de fora, bem daquela maneira em que devia estar no tempo em que silvava com ela.

Espantado, o matador de cobras, do que poderia ser aquela chave, olhou-a, tirando-a toda de minha boca, e viu o que era, porque nas guardas nada diferia da sua. Foi logo prová-la, e com ela provou o malefício. Deve ter dito o cruel caçador:

“O rato e a cobra que me davam guerra e comiam minha fazenda, eu achei.”

Do que sucedeu nos três dias seguintes, nenhuma fé darei, porque os tive no ventre da baleia. Mas o que contei ouvi depois que tornei a mim, dito por meu amo, que a todos os que ali vinham o contava por extenso.

Ao cabo de três dias tornei em meu sentido e me vi deitado em minhas palhas, a cabeça toda emplastada e cheia de óleos e unguentos. Espantado, disse:

“Que é isto?”

Respondeu-me o cruel sacerdote:

“À fé, os ratos e cobras que me destruíam já os cacei.”

Olhei para mim e me vi tão maltratado que logo suspeitei meu mal.

A essa hora entrou uma velha que ensalmava, e os vizinhos, e começaram a me tirar os panos da cabeça e a curar a porretada. Como me acharam voltado a meu juízo, alegraram-se muito e disseram:

“Pois tornou a seu acordo, prazerá a Deus que não seja nada.”

Aí tornaram de novo a contar minhas desditas e a rir delas, e eu, pecador, a chorá-las. Com tudo isso, deram-me de comer, porque estava transido de fome, e mal me puderam remediar. Assim, pouco a pouco, aos quinze dias me levantei e estive sem perigo, mas não sem fome, e meio são.

Logo no dia seguinte em que me levantei, o senhor meu amo me tomou pela mão, levou-me para fora da porta e, posto eu na rua, disse-me:

“Lázaro, de hoje em diante és teu, e não meu. Busca amo e vai com Deus, que eu não quero em minha companhia tão diligente servidor. Não é possível senão que tenhas sido moço de cego.”

E benzendo-se de mim, como se eu estivesse endemoniado, tornou a meter-se em casa e fechou sua porta.

1/1
Menu

Fazer anotação