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Úrsula

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Úrsula

Capítulo 3 · Úrsula

II — O delírio

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Violenta, terrível, espantosa tinha sido a crise, e Túlio velava à cabeceira do enfermo. A noite há muito que tinha desdobrado sobre a terra seu pesado manto de escuridão, animando destarte o profundo silêncio dos bosques, apenas interrompido pelo roçar do vento nos longínquos palmares, ou pelo gemido triste de sentido noitibó, ou os agoureiros pios do acauã.

O quarto do doente era apenas aclarado por fraca luz, cuja baça claridade deixava contudo ver-se o rosto do mancebo, afogueado pelo requeimar da febre: os olhos tinha-nos ele dilatados, e com esse brilho e movimento que só dão a febre. No entanto estava tranquilo, e um só gemido não se lhe ouvia.

Após um breve instante desse fictício sossego, entrou a tremer-lhe o lábio superior, ergueu as mãos ambas para o céu, e volvendo-se no leito murmurou com voz queixosa frases que não foram compreendidas.

— Eu a vi! – exclamou, erguendo a voz, num transporte de satisfação – Vi-a, era bela como a rosa a desabrochar, e em sua pureza semelhava-se a açucena cândida e vaporosa! E eu amei-a!... Maldição!... Não... nunca a amei... E calou-se.

Depois um gemido lhe veio do coração; cobriu os olhos com as mãos ambas, e repetiu:

— Oh! Não, nunca a amei!...

Seguiram-se palavras entrecortadas, gemidos e gesticulações desordenadas para ao depois cair em inércia.

Era o delírio assustador que se manifestava!...

Túlio observava-o com angústia: as dores do mancebo sentia-as ele no coração.

A lua ia já alta na azulada abóbada, prateando o cume das árvores, e a superfície da terra e, apesar disso, Úrsula, a mimosa filha de Luísa B., a flor daquelas solidões, não adormecera um instante. É que agora esse anjo de sublime doçura repartia com seu hóspede os diuturnos cuidados que dava a sua mãe enferma; e assim, duplicadas as suas ocupações, sentia fugir-lhe nessa noite o sono.

Bela como o primeiro raio de esperança, transpunha ela a essa hora mágica da noite o lumiar da porta, em cuja câmara debatia-se entre dores e violenta febre o pobre enfermo.

Era ela tão caridosa... Tão bela... E tanta compaixão lhe inspirava o sofrimento alheio, que lágrimas de tristeza e de sincero pesar se lhe escaparam dos olhos, negros, formosos, e melancólicos. Úrsula, com a timidez da corsa, vinha desempenhar à cabeceira desse leito de dores os cuidados que exigia o penoso estado do desconhecido.

Nenhuma exageração havia nesse piedoso desempenho; porque Úrsula era ingênua e singela em todas as suas ações; e porque esse interesse todo caridoso, o mancebo não podia avaliá-lo, tendo as faculdades transtornadas pela moléstia. Este sentimento era pois natural em seu coração, e a donzela não se envergonhava de o patentear.

— Túlio, – disse ao entrar – como vai ele? Toda a resposta do escravo foi um suspiro de profundo desânimo.

Úrsula chegou-se ao leito do enfermo, e com timidez, que a sua compaixão quase destruía, tocou-lhe as mãos. As suas gelaram de desalento e de comoção, porque sentiu as do doente ardentes como a lava de um vulcão.

Então, ao contato dessas débeis mãos que tocaram a sua, o cavaleiro abriu os olhos, a que um delírio febril dava estranha expressão, e fitando a donzela, num transporte indefinível do mais íntimo sofrer, exclamou com voz magoada e grave:

— Oh! Pelo céu! Anjo ou mulher! Porque trocaste em absinto a doçura do meu amor? Amor!... Amei-te eu? Sim, e muito. Mas tu nunca o compreendeste! Louco! Louco que eu fui!... E passando da dor à desesperação, torcia os braços gritando:

— Eu te vi, mulher infame e desdenhosa, fria e impassível como a estátua! Inexorável como o inferno!... Assassina!... Oh! Eu te amaldiçoo... e ao dia primeiro do meu amor!... Minha mãe!... Minha pobre mãe!!... – E entrou a soluçar desesperadamente.

Úrsula e Túlio estavam perplexos; estas palavras sem nexo produziam em seus corações sensações, suposto que em ambos doídas, mas diversas em sua natureza.

A Túlio parecia aquele delírio precursor da morte, e a dor da perda de um amigo, o primeiro talvez que o céu lhe dera, absorvia-lhe todas as faculdades, e para tão grande pesar não tinha prantos, não tinha uma só palavra. Úrsula, pelo contrário, sentia estranho desassossego, um quê, que não sabia definir a si própria! Uma inquietação mortal, uma desconfiança, e as lágrimas brotavam-lhe espontâneas do coração.

— Adelaide! – prosseguiu ele após longa pausa – Adelaide!... Este nome queima-me os beiços; enlouqueço quando penso nela.

— Adelaide!... – repetiu consigo mesma a filha de Luísa B. – Oh! Quem serás?!...

O que é a natureza humana! O que é o coração da mulher! A Úrsula, pobre flor do deserto, que importava um nome proferido em delírio?

Essa mulher, essa Adelaide, parecia-lhe que muito interessava ao mancebo, que ainda agora lhe vivia no coração malgrado as palavras amargas, ou entranhadas de desesperação, que lhe caíam dos lábios ao lembrar-se dela. Essa mulher figurava-se-lhe bela como um anjo, sedutora como uma fada, maligna como um demônio, e entretanto amada, muito amada; e o seu nome lhe queimava o coração, como se lá estivesse escrito com letras de fogo.

E há de ele amá-la? – repetia Úrsula a si própria com uma pertinácia, que a teria admirado, se nisso pudesse atentar. Amor! – prosseguia – o que é amor? Creio que jamais amarei. Mas Adelaide deve ser muita amada por ele... mas eu o ouvi amaldiçoá-la!... Por que diz que lhe queima os beiços o seu nome? Oh! Não é possível, ele já não a ama! E Úrsula, perdida nestes loucos pensamentos, não atendia ao que em torno de si havia.

O doente tinha adormecido.

Então ela voltou para junto de sua mãe. A pobre senhora, vencida pelo muito sofrer, tinha também adormecido, e a menina, reclinando-se em uma cadeira, procurou, mas embalde, conciliar o sono, que nessa noite parecia obstinado em fugir-lhe.

Em vão deixava cair as pálpebras; em vão tentava arredar os pensamentos do que ouvira, que a mente errava em torno daquele leito, donde ela se destacara; e o coração dizia-lhe que não estava tranquilo. Entretanto, pobre Úrsula, julgava que nunca havia de amar!...

Mais tarde um gemido saiu da câmara do doente; o coração doeu-lhe; porque se tinha esquecido até do remédio do enfermo: levantou-se, pois, correndo, e o foi levar.

A hora tinha já passado, porém o calmante produziu salutar efeito; porque ao retirar-se-lhe a colher dos lábios, o cavaleiro, deslizando um fraco sorriso, estendeu a mão à donzela, e disse-lhe com reconhecimento:

— Ah! Senhora, como sois boa! Quem quer que sejais, aceitai meus sinceros agradecimentos pelo generoso interesse, que mostrais por um infeliz desconhecido.

— Silêncio, – animou-se ela a dizer, corando muito – não vedes que tendes febre? Perdoai-me; mas eu não consinto que faleis.

— Oh! – exclamou ele – Tanta bondade me confunde. Deixai ao menos agradecer-vos; mais tarde submeter-me-ei com gosto as vossas determinações.

— Agradecer-me? – interrogou Úrsula com voz um pouco comovida – Que vos hei eu feito que mereça vosso reconhecimento? Pelo céu, nem faleis nisso; e em seus grandes olhos errou uma lágrima.

Não sei que sentimento a trouxe do coração aos olhos; mas fosse qual fosse, o que é verdade, é que a lágrima, semelhando uma pérola escapada a precioso colar, rolou-lhe pelas faces e foi cair sobre a mão do enfermo.

Ela estremeceu involuntariamente, e um rubor subitâneo, que ocultou com as mãos, lhe assomou às faces.

Mas os olhos do cavaleiro, reavendo seu fulgor febril, não viram essa lágrima, que lhe teria escaldado a mão, nem esse inocente rubor tão expressivo; porque começara um novo solilóquio.

— Sim – dizia – e não era feliz em possuí-la? Quê! Oh! Foi um só dia... foi. Mas, minha mãe!... Via-a no sepulcro! E ela era um anjo!... Mataram-na!... Mataram-na!...

E estendia os braços, e sorria-se como afagando benéfica visão.

— Agora posso viver – disse respirando largamente – sim, agora posso viver; porque já a não amo: sim, já não amo aquela que traiu cruelmente minhas loucas esperanças.

— Não vedes? – prosseguiu fitando Úrsula – Como é belo amar-se! Como se nos expande o coração, como nos transborda a alma de felicidade?!...

E a moça dizia consigo — Meu Deus! Meu Deus, que é o que eu sinto no coração que me enternece? Deve ser sem dúvida esta forçada vigília, este lidar de todos os momentos. O estado de minha pobre mãe... a compaixão que me inspira este infeliz mancebo, tão próximo talvez da morte!... Oh! Terrível ideia! A morte! É ele tão jovem... Tão leal, e tão franca é a sua fisionomia... Meu Deus! Seria bem duro vê-lo morrer! Poupai-o, Senhor. Se eu pudesse, duplicaria os meus cuidados para salvá-lo! Oh, se eu pudesse!...

O enfermo entrou a sorrir-se; a febre começava a declinar. Ao delírio violento seguiu-se plácida alucinação – parecia que um mundo de gratas ilusões, povoado de meigos seres, o afagava; estendia os braços como para estreitar entes que lhe eram caros e o rosto se lhe expandia suavemente.

Depois sua mão tocou uma mão alva, e trêmula, e gelada: esta mão, que ele em seu delírio procurou com ardor levar aos lábios, fugiu-lhe medrosa ao contato desse beijo de fogo.

— Atende-me – exclamou com desalento – não fujas... Tenho a contar-te uma história bem triste! Oh! Bem triste!...

E estendia as mãos súplices, e já nada encontrava. Túlio contemplava-o silencioso até que por último exclamou:

— Homem generoso! Único que soubeste compreender a amargura do escravo!... Tu que não esmagaste com desprezo a quem traz na fronte estampado o ferrete da infâmia! Porque ao africano seu semelhante disse: — És meu! – Ele curvou a fronte, e humilde, rastejando qual erva, que se calcou aos pés, o vai seguindo? Porque o que é senhor, o que é livre, tem segura em suas mãos ambas a cadeia, que lhe oprime os pulsos. Cadeia infame e rigorosa, a que chamam “ escravidão”?!... E entretanto este também era livre, livre como o pássaro, como o ar; porque no seu país não se é escravo. Ele escuta a nênia plangente de seu pai, escuta a canção sentida que cai dos lábios de sua mãe, e sente como eles, que é livre; porque a razão lho diz, e a alma o compreende. Oh! A mente! Isso sim ninguém a pode escravizar!

Nas asas do pensamento o homem remonta-se aos ardentes sertões da África, vê os areais sem fim da pátria e procura abrigar-se debaixo daquelas árvores sombrias do oásis, quando o sol requeima e o vento sopra quente e abrasador: vê a tamareira benéfica junto à fonte, que lhe amacia a garganta ressequida: vê a cabana onde nascera, e onde livre vivera! Desperta porém em breve dessa doce ilusão, ou antes sonha que a engolfara, e a realidade opressora lhe aparece: é escravo e escravo em terra estranha! Fogem-lhe os areais ardentes, as sombras projetadas pelas árvores, o oásis no deserto, a fonte e a tamareira. Foge a tranquilidade da choupana, foge a doce ilusão de um momento, como ilha movediça; porque a alma está encerrada nas prisões do corpo! Ela chama-o para a realidade, chorando, e o seu choro, só Deus compreende! Ela não se pode dobrar, nem lhe pesam as cadeias da escravidão; porque é sempre livre, mas o corpo geme, e ela sofre, e chora; porque está ligada a ele na vida por laços estreitos e misteriosos.

E Túlio ficou pensativo, e as lágrimas caíram, a seu pesar, fio por fio pela face a baixo.

Tinha no entanto terminado o delírio ao doente: seguiu-se-lhe extrema prostração e um suor geral e frio.

Úrsula e Túlio tiveram então uma só ideia, terrível e medonha – a morte! e estremeceram de dor. O escravo, porque este homem era agora a vida da sua alma; porque era a imagem de Deus, que lhe sorria. A donzela, por quê?... Ela própria não o saberia dizer. Mas ambos sentiam iguais temores, aflições iguais: é então porque ambos o amavam.

E as noites que sucederam a esta eram ainda povoadas de sustos e ansiedade: o mancebo continuava a sofrer, e seus amigos redobravam de desvelos, e choravam sobre suas dores.

O cavaleiro via-os, escutava-os, e sentia lá no fundo da alma um estranho sentir. Úrsula tornara-se para ele a imagem vaporosa e afagadora de um anjo: e o que se passava naquele coração enfermo só ele o sabia.

Úrsula

Sinopse

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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