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Úrsula

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Úrsula

Capítulo 13 · Úrsula

XII — Foge!

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— Aproxima-te, minha pobre filha, – exclamou a infeliz mãe com voz fraca e arrastada – ah! Que desgraçada entrevista!

— Bem mo pressagiara o coração!

E as lágrimas começaram a cair-lhe a dois e dois.

— Baralham-se-me as ideias, minha Úrsula, – tornou-lhe a mãe, em cujo rosto se pintavam já os indícios da morte – talvez não me compreendas bem; mas escuta-me. Meu irmão veio abreviar os instantes, que ainda me restavam para te amar, e proteger-te contra os seus caprichos! Sabes, minha filha, o que quer esse homem?

E um tremor convulso agitou os membros da desditosa mãe, que ainda na sua agonia velava pela infeliz órfã.

A filha, a desvelada filha, tomou-a nos braços, uniu-a ao seu coração, orvalhou-a com as suas lágrimas, e sufocada pela dor lhe bradou:

— Oh! Minha mãe... minha querida mãe, que foi que vos fez esse homem malvado?

A pobre mulher não pôde retrucar-lhe, fechou os olhos, e parecia que de todo lhe faltava a vida:

Úrsula gritou, pediu socorro, e ao seu pranto doído só teve por eco o pranto de Susana!

Luísa tornou a si dessa penosa e prolongada síncope, porque Deus quis que uma vez ainda ela falasse a sua filha, por isso ela, recobrando um breve alento, mas já com os olhos amortecidos e vidrados, e com a voz pausada e abafada, que a custo se lhe deslocava dos lábios, disse:

— Minha filha querida... minha Úrsula, para que te dei essa vida?! Ah tu que eras o encanto dos meus dias... tu, a alma da minha existência... oh! Meu Deus! Senhor, dai-me sequer poucos dias mais de vida para protegê-la, para ampará-la...

E o pranto doloroso embargou-lhe a voz.

— Oh, não choreis, minha mãe, pelo céu – exclamou a pobre moça aflita por tantas dores. — Oh! Não choreis!

— Se soubesses, minha filha... – ia a dizer a mísera agonizante.

— Tudo sei, minha querida mãe – interrompeu a moça, torcendo as mãos de desespero. Sei tudo, ele diz que me ama, e que o seu amor ninguém desdenha impunemente.

— Ouviste-o em quanto me atormentava pela última vez?

— Oh! Não! – tornou Úrsula – esse homem me horrorizou, e eu fugi dele.

— E entretanto sabes que ele quer desposar-te?

— Disse-mo na mata, quando me anunciou seu amor apaixonado. Mas perdoai-me de vos não ter ainda relatado esse triste acontecimento da minha vida. Via-vos tão débil, tão desalentada... que me não atrevia a dar-vos esse golpe. Uma tarde, não há muito, estendi o meu passeio até a mata próxima, e aí meditando sobre as promessas de...

Úrsula enrubesceu, e a voz sumiu-se-lhe dos lábios.

Depois de leve pausa continuou:

— Esqueci-me das horas, o tempo foi passando, e só ao cair da noite é que dei fé de mim e tratei de voltar. Nesse comenos, ouvi o estampido de uma espingarda, e uma pobre perdiz que, ferida, veio como pedir-me socorro. Acolhia-a ao seio; mas nem bem o havia feito, que dei junto a mim com um homem, que me fixava com olhos sinistros.

Tomou a donzela algum alento, e só depois de alguns minutos é que pôde relatar à sua moribunda mãe a sua fatal entrevista. Terminada que foi a narração acrescentou: — Por último cobrei ânimo e quis fugir-lhe; mas ele implorou em vosso nome, e eu ouvi-o!

Louca, louca, que eu fui, tinha diante dos olhos o comendador P***, o perseguidor de minha mãe, e...

— O assassino de teu pai, minha Úrsula – interrompeu Luísa B. com indefinível amargura.

— Será possível? – exclamou a moça atônita.

— Sim – tornou ela – acaba de confessar-mo num transporte, que diz de vivo arrependimento.

— Oh! Que horror! – disse Úrsula levando as mãos ao rosto lívido de pavor.

— E diz que loucamente te adora, e quer compensar-te com o seu nome, e com a sua fortuna dos males que nos há feito!...

— Que insulto nos faz o comendador – o assassino de meu pai!!

— Silêncio, minha pobre filha! Agora escuta-me: são estas talvez minhas derradeiras palavras, pesa-as bem. Não chores, não, minha filha, não chores, se queres ainda ouvir-me por um instante. Bem sei quanto te é penosa esta dura separação; mas tarde, ou cedo, ela devia chegar, e tu deves resignar-te, e aproveitar o tempo, que urge.

Frágil, e já sem forças, eu vi Fernando à cabeceira do meu leito como se fosse anjo do extermínio a falar-me de coisas, que só me poderiam abreviar os instantes. Conheci que chegava o termo dos meus dias, ele também conheceu, e conquanto esta ideia, apesar da dureza do seu coração, lhe fosse amarga, ele contudo deixou-me à pressa para ir à cidade de *** donde deve voltar amanhã.

Fernando voltará aqui com um sacerdote, que há de abençoar, em presença deste leito de agonia, a união forçada da filha de Paulo B. com o seu assassino!

— Oh! Não...nunca! Nunca! – bradou a donzela fora de si.

— Sim, nunca – replicou a pobre moribunda aproveitando suas últimas forças; mas um novo desmaio, seguido de violentas convulsões reapareceu, e seu rosto tornou-se mais esquálido, e as feições mudadas e o suor gelado da morte mostrou-se.

— Meu Deus! Meu Deus! – exclamou Úrsula no auge da mais pungente aflição – Oh! vós Senhor, que sois bom e que podeis tanto, restitui-lhe a vida ainda em troco da minha! E caiu sobre o corpo já meio gelado da infeliz mãe.

Luísa de novo abriu os olhos para dar um último adeus à filha de suas adorações, e por um esforço derradeiro, disse-lhe:

— Úrsula, minha filha, teme a cólera de Fernando; mas sobretudo teme e repele seu amor desenfreado e libidinoso.

Meu Deus! Perdoai-me se peco nisto...

Aconselho-te.... que fujas...

Foge... minha ...fi...lha!.. fo...ge!...

Foram suas últimas palavras a custo arrancadas e entrecortadas pela morte.

Então Úrsula, a pobre órfã, ajoelhou aos pés do leito, e volvendo em seus braços o corpo inanimado, com seus lábios, trêmulos de dor, tocou os lábios frios e inertes de sua mãe, tentando, embalde, transmitir ao coração materno o hálito ardente, que a animava.

Mas quando voltou à realidade, quando teve plena consciência de que estava só, e entregue ao rigor da sua sorte, quando pôde acreditar que sua mãe já não existia, então prorrompeu em lágrimas, e estorceu-se pelo chão, e agitou-se como uma possessa, porque as grandes e profundas dores do coração só acham alívio na expansão ilimitada da dor, e na fadiga do corpo e do espírito...

Ao romper do seguinte dia, via-se um cadáver quase sem acompanhamento, que ia ser inumado no cemitério de Santa Cruz.

Era o da infeliz paralítica Luísa B.

Úrsula

Sinopse

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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