Universo da obra
Universo da obra
O amor que se nutre no coração do homem generoso é puro e nobre, leal e santo, profundo e imenso, e capaz de quanta virtude o mundo pode conhecer, de quanta dedicação se possa conceber. Ele o eleva acima de si próprio, e as suas ações são o perfume embriagador desse sentimento, que o anima: mas o amor no peito do homem feroz e concupiscente é uma paixão funesta, que conduz ao crime, que lhe mata a alma e a despenha no inferno.
Tal era o amor que abrasava a alma indômita e malvada de Fernando P. O amor perdera-o. Ele já não sonhava com a vingança; mas começava a sentir alguma coisa, que lhe rasgava o coração. Seriam os espinhos do remorso?
Fernando até ali sopitara esse castigo do céu, e nunca seu sono fora atribulado. Entretanto agora, cada sombra era um espectro pavoroso e ameaçador, que lhe erguia os braços descarnados, e acenava-lhe para as feridas gotejantes: e ele fechava os olhos e via-o ainda, e sempre, e por toda a parte.
Então corria espavorido e louco, como se pretendesse fugir a si mesmo para escapar a tão pungente martírio, mas embalde porque a sombra de sua vítima o seguia impassível.
Após a noite da horrível catástrofe, tinham-se sucedido já duas, e a tranquilidade não voltara ao espírito do comendador. Em todo esse tempo não pudera conciliar o sono um só momento; porque o sono foge àquele que perdeu a paz de espírito.
E para serenar a tempestade da sua alma, lembrou-se de Úrsula, por quem empreendera esses novos e horrendos crimes, e tentou vê-la. De há muito que já se esforçava por ir ver aquele anjo de candura e beleza, mas o ânimo lhe faltava com a lembrança de que ela lhe lançaria em rosto os seus crimes. Por último, vencendo sua pusilanimidade, correu desvairado ao seu quarto.
Úrsula tinha os olhos cerrados; dormia o sono agitado do febricitante. As horas, que se escoavam já tão longas, os desvelos de que a cercavam, nem a dor, que lhe despedaçava a alma, tinham-na arrancado a esse doloroso torpor.
Então Fernando P. ajoelhou ante esse anjo, olhou-a extasiado, sem atrever-se a tocá-la, ou a chamar pelo seu nome. Temeu despertá-la.
Nessa atitude passou ele muitas horas sem que Úrsula voltasse a si. Um assomo de cólera concentrada enuviou a fronte pálida desse homem feroz, e prorrompeu blasfemando:
— Maldição! Mil vezes o mataria, se mil vidas o inferno lhe tivesse dado.
E Úrsula continuou o seu letargo agitado, e ele recaiu na adoração íntima e silenciosa em que estivera.
Mas o fantasma aí veio persegui-lo; ele fechou os olhos, depois abriu-os para fitá-los sobre a donzela adormecida. E estremeceu.
A presença dessa menina era um remorso vivo para o seu coração; seus olhos cerrados, seus lábios entreabertos, sua respiração curta e anelante, pareciam repetir-lhe: — Assassino!
O comendador tentou espantar do espírito essa ideia, que lhe voltava incessante, e ele caiu em dolorosa prostração, que excitaria dó em quem não soubesse os seus nefandos crimes.
Úrsula estremeceu no leito, torceu os braços com desesperação, lançou-os fora da cama e deixou-os depois cair sobre o peito.
O comendador gemeu de dor e atreveu-se a exclamar:
— Úrsula!
Sua voz era trêmula, e o som fraco e doloroso.
Ao som dessa voz, que lhe despertava tão agudas dores, a moça debateu-se no leito, e convulsa, pálida e angustiada, levantou-se com impetuosidade. Abriu os olhos, e dilatou-os sobre Fernando P., sempre ajoelhado a seus pés, e soltou um grito, que o fez estremecer de angústia.
Depois levou ambas as mãos aos olhos, e um soluçar doído e magoado parecia despedaçar-lhe o aflito peito.
Então esse homem endurecido e cruel vergou ao peso de tão enorme remorso... Fernando P. pela vez primeira compreendeu o que era a dor no coração de outrem! Gemeu de aflitiva angústia ante o supremo sofrimento da mulher que amava; e invocou-a com ternura.
— Úrsula! Oh! Quanto te hei amado! Poderás tu compreender a extensão dos meus afetos, e eu não sentira agora envenenarem-me a alma a desesperação e o remorso. Desdenhaste o amor do meu coração... Por quê? Não era ele puro como a tua alma? Donzela! Se te dignasses lançar a vista sobre o meu sofrimento, talvez te apiedasses de mim, e acreditasses na minha afeição; porque muito hei sofrido, Úrsula, muito.... Desde o dia fatal em que te vi na mata, esqueci o meu orgulho, e uma ardente e inextinguível paixão me abrasou a alma. Nesse dia, eu jurei pelo céu ou pelo inferno que serias minha esposa. Perdoa, Úrsula. Nesse dia, ainda eu era orgulhoso. Hoje peço-te suplicante: negar-me-ás? Úrsula, em nome do céu, uma só palavra, ainda que essa seja para amaldiçoar-me...
E dizendo, rojava-se pelo chão, e beijava-lhe a fímbria de seu vestido.
Então ela desvendou os olhos, e pôs-se a contemplá-lo, muda e impassível como se nada a inquietasse; e depois de alguns momentos levantou-se, deu alguns passos vagarosos e incertos, e voltando-se para Fernando, que a seguia com a vista e o coração, deixou escapar um sorriso descomposto, que o gelou de neve.
E Fernando P. conheceu que estava punido! Varreram-se suas afagadoras esperanças. Nesses olhos espantados e brilhantes, nesse andar incerto, e nesse sorriso descomunal reconhecera que estava louca!
Tão doída foi-lhe essa triste convicção, que a cabeça pendeu-lhe para a terra, e ficou prostrado como se um raio o tivesse ferido. E as esperanças tão queridas do seu coração mirraram-se, e extinguiram-se!....
Passou algum tempo nessa posição, e depois esse homem robusto, altivo, feroz e colérico chorou como débil criança.
Mas seu desespero, seu pranto de amargura, não os compreendia Úrsula, que distraída brincava com as flores já murchas de sua capela de noiva.
Então o comendador saiu correndo; porque a presença dessa mulher matava-o.
Na sua desesperação ninguém o consolava; porque era mau e cruel para os que o conheciam.
Seus escravos olhavam-no pasmo, e não o reconheciam. O remorso o havia completamente desfigurado.
Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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