Universo da obra
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Terminada a oração, Úrsula, espavorida e amedrontada, disse:
— Fujamos, Tancredo! Mas, ah! O seu ódio pode seguir-nos por toda a parte.
— Úrsula, o meu braço é bastante forte para defender-te; estás ao abrigo do seu furor.
— Fujamos! – Tornou a moça, desvairada – Ele não tarda a chegar.
Tancredo olhou-a assustado, e obedeceu. Úrsula estava combalida por muitas dores, e a mais leve contradição poderia enlouquecê-la. Ele procurou acalmá-la, e durante a viagem, mais tranquila, relatou-lhe os tristes acontecimentos, que sobrevieram na sua ausência.
Tinham deixado a estrada real, e tomado por um atalho, que muito lhes alongava o caminho; mas que evitava o encontro do comendador.
Úrsula caminhava agora desassombrada e feliz, reclinada a cabeça no ombro do mancebo, que ela amava mais que a vida.
E uma noite prateada pelos raios da lua lhes amenizava a fadiga da viagem.
E ao alvorecer do dia, depois de longa e porfiada carreira, chegaram cansados à cidade de ***, em demanda do convento de Nossa Senhora da ***.
Meia légua fora da cidade erguiam-se denegridas pelo tempo as velhas paredes do antigo convento, com suas gelosias também esfumaçadas pelo tempo, e que escondiam zelosas às vistas indiscretas as puras virgens dedicadas ao Senhor.
Era um edifício antigo na sua fundação, grave e melancólico no seu aspecto: era a casa do Senhor sem ostentação. As virgens que o habitavam, longe do mundo, não conheciam deste os gozos de um momento; mas também em suas almas não amargavam o doloroso pungir de profundos pesares. Viviam no remanso da paz; porque a solidão e o retiro davam-lhe aquela doce inocência, que constitui a candura da alma; e essa vida de castos enlevos dedicavam-na ao Deus do Calvário.
E Ele escutava-lhes os sagrados cânticos e acolhia-os; porque vinham de inocentes e angélicas criaturas, de consciência reta e pura, e votadas ao serviço do Senhor.
E o Senhor ama àqueles que na pureza da sua alma erguem-lhe os carmes de um hino melodioso, e abrem-lhe o coração como um sacrário sem mancha; ou, como a pecadora, mostram-se profundamente arrependidos; porque as lágrimas de um pranto sentido lavam a nódoa do pecado.
Chegaram a esse asilo da inocência os nossos viajantes e pararam observando atentos essas paredes solitárias do luxo humano, e depois Tancredo conduziu pela mão sua jovem desposada à porta do convento, que se abriu ao seu reclamo.
Ela estava radiante de beleza, e parecia disputar primores com a estrela da manhã.
A pesada porta abriu-se, e Úrsula desapareceu por ela.
— Úrsula! – exclamou Tancredo de novo cavalgando o seu ginete – Úrsula, só tu compreendeste o meu coração... Deixa vãos receios!... Oh! Sossega! Eu te protegerei contra a cega paixão desse louco.
Pretenderá em vão lutar contra a tua vontade, e nunca te poderá arrancar da alma a sublime afeição, que deste a outrem. Louco! A mulher só ama uma vez. No seu coração imprimiu Deus um sentir tão puro e tão verdadeiro, que o homem não pode duvidar dos seus afetos.
E a mulher cumpre na terra sua missão de amor e de paz; e depois de a ter cumprido volta ao céu; porque ela passou no mundo à semelhança de um anjo consolador.
Esta é a mulher.
Mas aquela, cujas formas eram tão sedutoras, tão belas, aquela, cujas aparências mágicas e arrebatadoras escondiam um coração árido de afeições puras, e desinteressadas... Oh! Essa não compreendeu para que veio habitar entre os homens; porque a cobiça hedionda envenenou-lhe os nobres sentimentos do coração.
O brilho do ouro deslumbrou-a, e ela vendeu seu amor ao primeiro que lho ofereceu.
Maldição!... Infâmia sobre a mulher que não compreendeu a sua honrosa missão, e trocou por outro os sublimes afetos da sua alma.
Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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