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Úrsula

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Úrsula

Capítulo 17 · Úrsula

XVI — Fernando P.

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A mais de uma légua distante de Santa Cruz deixamos Fernando P. galopando ansioso, blasfemando e praguejando contra aquele que por ventura o contrariasse, e acompanhamos aos jovens desposados até o convento de ***, onde deixaremos por agora Úrsula meditando sobre os últimos acontecimentos de sua vida, que mais risonha e sedutora já se lhe figurava, e vamos ao encontro desse homem, animado por tão loucas esperanças, e tão disposto a amar, como a perseguir ao objeto da sua adoração.

O comendador, talvez mais por ostentação que por sentimentos religiosos, tinha em sua casa um capelão, que era voz pública ser-lhe muito dedicado em consequência de altos favores feitos pelos pais de Fernando à sua família. Fosse pelo que fosse, o capelão de Fernando P. dizia-se amigo deste, e isso causava a todos admiração; porque o comendador era um homem detestável e rancoroso, e o sacerdote parecia ser santo varão.

Por uma singular anomalia, estes dois homens pareciam querer-se, ou suportar-se reciprocamente, e essa união dava-lhes a reputação de íntimos amigos.

Fernando, homem estúpido e orgulhoso, não sabendo sequer exprimir seus próprios pensamentos, e não querendo confiar a alguém que ele julgava inferior a si pela posição, e pelo nascimento – única tábua de salvação, a que se pegava em seu naufragar contínuo de completa ignorância – tinha ido à cidade, suposto que ralado de mortais desconfianças, arranjar os papéis da mais absoluta necessidade, ou para fazer-se incontinente esposo de Úrsula, no caso de ainda encontrar viva a mãe desta menina, ou para, constituído por esta senhora tutor de sua filha, esta não poder escapar à sua vigilância, nem à sua paixão. Como ainda este erro seu era grosseiro!

Úrsula podia deixar de aceitá-lo por tutor, e, ainda aceitando-o, recusar-se energicamente a ser sua esposa. O comendador estava afeito a mandar, e por isso julgava que todos eram seus súditos ou seus escravos.

Já o sol não dominava as regiões da terra, quando Fernando P. apeou-se à porta de sua habitação para dar ligeiramente algumas ordens. Vinha esbaforido e preocupado por um pressentimento, que embalde tentava destruir.

— Talvez eu venha por demais tarde! – ao apear exclamou sem intenção de o fazer; porque era contra o seu orgulho, que não imaginava dificuldades.

Dois negros de cabeça baixa, e humilhados, que lhe vieram pegar as rédeas, ouviram em silêncio essa exclamação desesperada, e pela contração dos supercílios do comendador tremeram involuntariamente.

Depois subiu para a varanda, e logo uma multidão de escravos se lhe veio aproximando; mas ele, erguendo a voz imperiosa, perguntou: – Onde está o padre F.?

— Saiu ainda há pouco, meu senhor – animou-se a responder o menos tímido entre os que ali estavam.

— Saiu? – interrogou Fernando, enrugando a testa. – Para onde foi?

— Ignoro-o, meu senhor – tornou o mesmo escravo com voz convulsa pelo medo. – E creio que o mesmo acontece aos mais parceiros. Tomou a sua mula azeitonada, e há pouco o vimos desaparecer pela estrada do cemitério.

Os negros acabavam apenas de tirar a sela ao cavalo fatigado, quando o comendador, descendo de um salto as escadas, foi-lhes golpeando com o chicotinho que trazia, e gritando:

— Eia, que fazem, animais! Outro cavalo imediatamente selado. E os meus dois pajens, que me sigam.

Os míseros escravos gemeram de ódio e de dor; mas nem a mais leve exprobração, nem um sinal de justa indignação se lhes pintou no rosto. Eram escravos, estavam sujeitos aos caprichos de seu bárbaro senhor.

E a ordem era tão peremptória, que um outro cavalo apareceu como por encanto arreado, e os dois pajens montados em suas cavalgaduras.

Fernando P. montou e impaciente cravou as esporas nos flancos do animal, e os negros o imitaram. A carreira era rápida, e nada os podia conter. Fernando pensava encontrar o padre, e não se enganou, que bem perto ia ele. Caminhava a passo lento e ia levar consolações àquela a quem o comendador ia pedir amor.

— Meu padre, – exclamou Fernando ao avistar o homem de paz, que o precedera na viagem – enfim vos encontro! Eia, dizei-me, o que há de novo?

O padre fixou-o com olhar que queria dizer:

— Resignai-vos!

— Minha irmã?! Minha pobre irmã?! – soluçou magoado aquele coração de ferro.

— Morreu, Filho! – disse o padre comovido – E Úrsula geme acurvada pela mais pungente e aflitiva dor.

Então duas lágrimas rolaram dos olhos de Fernando, que se esqueceu de si, imerso nesse sentimento, único que esclarecia a sua vida em todos os demais pontos tão negra. Abandonou as rédeas, e o seu cavalo seguia os passos tardos da mula do digno sacerdote.

E esse torpor doído durou muito, e ninguém ousava quebrar o silêncio que era completo.

Então a corrida de rápida tornou-se vagarosa e pesada, e a lua já passeava bem alta nos campos do céu, quando o comendador, ajudado por seus dois pajens, apeou-se à porta dessa casa silenciosa, cuja fachada melancólica demonstrava os grandes pesares de que o interior era testemunha atenta, posto que muda e impassível.

Enquanto o padre humildemente desmontava, os dois negros batiam à porta. O arruído enfim despertou a velha africana de seus pensamentos dolorosos, e fê-la vir pressurosa ao reclamo, persuadida de que eram os dois cavaleiros, e Úrsula, que regressavam.

— Susana! – bradou Fernando assim que a viu.

— O senhor comendador!... – murmurou a negra, recuando assustada.

Fernando entrou e dirigiu-se à sala, e depois de ter-se atirado sobre uma cadeira, e investigado com um olhar melancólico aqueles lugares, que lhe recordavam a única afeição sincera que havia tido, chamou Susana.

Esta, aflita e angustiada; com os braços cruzados sobre o peito, e a cabeça inclinada para o chão acudiu ao seu chamado.

— Onde está Úrsula? – perguntou com voz alterada.

Susana estremeceu involuntariamente. Úrsula tinha saído à tarde e ainda ela a esperava com ânsia. Achá-la-ia Tancredo? Fugiriam juntos? O que lhe teria acontecido? Apesar de seus receios respondeu com segurança:

— Saiu à tarde, meu senhor, e disse-me que ia orar ao cemitério.

— Úrsula saiu só, e foi até Santa Cruz sem a companhia de alguém? – interrogou o comendador com sinistra incredulidade.

— Só, meu senhor – tornou a negra.

— Mentes! – bradou com voz de trovão.

Levantou-se com ímpeto, e como um tigre que se arremessa à presa ia cair sobre a infeliz Susana, quando o sacerdote, até então testemunha muda dessa cena, lhe disse:

— Prudência, filho! Por que vos encolerizais contra essa mísera velha? Mandai primeiro que tudo a Santa Cruz, e talvez lá seja possível encontrá-la. Sua dor era tão profunda, que minhas consolações tornaramse inúteis. Hoje ao amanhecer pediu-me que queria ficar só por algumas horas, e voltei a Santa Cruz, onde gastei algum tempo a esperar-vos; mas vendo que não chegáveis, e lembrando-me do penoso estado em que a tinha deixado, tomei a resolução de vir de novo trazer-lhe a palavra divina, único bálsamo para as chagas do coração. Este seu desaparecimento, confrontado com a desesperação em que estava, faz-me recear alguma desgraça.

Susana, erguendo as mãos à altura da cabeça, bradou:

— Meu Deus! – E caiu sem acordo.

Fernando P. não lhe ouviu esta exclamação de desespero; porque já havia montado, e com seus dois pajens corria afanoso e desesperado a estrada que conduz a Santa Cruz. Os cavalos dispararam fogosos e rápidos como o aquilão, e sumiram-se com velocidade incrível.

A noite era já adiantada, e o galo, que cantara na fazenda de Santa Cruz, e que ele ouvira ao longe, veio revelar-lhe que tinha soado a hora dos mistérios, a hora em que aquele que medita em meio dos palmares, ou sobre as ribas do mar, debaixo do nosso opulento e magnifico céu todo estrelado, enche o coração de maga poesia, e de um sentir delicioso, que vai como nuvem de incenso desfazer-se puro aos pés do trono do monarca do universo. A hora alta e silenciosa da noite encerra mistérios tão profundos, que só os compreende a alma que verga ao peso de uma dor íntima e incurável, ou o coração, que transborda de afetos, que a vida inteira não pode resfriar.

Para os demais, a hora da meia-noite não tem significação. O comendador Fernando não estava nesse caso – amava; e a sua paixão era ardente e arrebatada como o seu vulcânico coração. Entrou corajosamente no cemitério, onde com terror o acompanharam seus dois pajens horripilados e trêmulos.

Todavia mais de um remorso lhe devia povoar a alma de terror à vista desse lugar onde dormiam Paulo B., Luísa, e tantos outros, cujos dias ele tanto amargurara, e cuja morte talvez pesasse sobre sua consciência.

Mas Fernando P. não era homem que parecesse ter remorsos: talvez o fogo de seu amor sufocasse em sua alma todos os outros sentimentos, que por ventura aí existissem.

Nesta ocasião, a lua era perpendicular ao topo da cruz, e a noite derramava sobre ela seu choro algente e triste.

A cruz estava úmida e orvalhada, e o musgo, que por ela distendia os braços, ostentava o brilhante esplendor de sua verdura, e a gota cristalina, que se filtrara do céu, esmaltava-o com celeste encanto.

O silêncio era tétrico e melancólico, e uma só ave noturna o não interrompia. Parece que toda a natureza o observava estupefata.

E Fernando P. percorreu essa morada da morte anelante e duvidoso, e não encontrou Úrsula.

— Susana! Hás de pagar-me! – bradou fora de si. — Não zombarás de mim impunemente. Ao inferno descerás, negra maldita, e todo o meu rigor não bastará para a tua punição. Foi debalde que tentastes iludir-me! O coração bem mo dizia, que a não acharia aqui!...

Tancredo! Infame!... Seus nomes enlaçados no tronco do jatobá, em que a vi a vez primeira, traiume o estado do seu coração. Ela o ama, já o sabia; mas o seu amor não poderá resistir ao meu ódio. Juro, mulher, que hás de ser minha esposa, ou o inferno nos receberá a ambos!

Tancredo! Tu não hás de rir de um rival desprezado. Não.

Blasfemando horrivelmente, tinha chegado à porta de sua casa, desatinado e furioso.

— O feitor branco – gritou com voz medonha. – chamem-me o feitor branco.

O serão ainda não havia acabado: o débil bruxulear de uma luz esmorecida no meio dessa vasta casa de trabalho indicava que aí ainda todos velavam; porque as tarefas não estavam acabadas.

O feitor apareceu com prontidão. Era um homem de mediana estatura, tez pálida, e olhar melancólico. Ao entrar, fez uma respeitosa cortesia ao comendador, que a não respondeu, e disse:

— Às vossas ordens, senhor comendador.

— Quero imediatamente dois negros, que irão voando à casa que foi de Paulo B. – parou, e com as mãos pareceu afastar de diante dos olhos uma sombra desagradável; mas foi um momento, recuperou sua feroz energia, e continuou:

— Que me tragam sem detença Susana. Ouvis, senhor? Que a tragam de rastos. Que a atem à cauda de um fogoso cavalo, e que o fustiguem sem piedade, e...

— Senhor comendador, – observou o homem, que recebia as ordens – ela chegará morta.

— Morta?... Não, poupem-lhe um resto de vida, quero que fale, e demais reservo-lhe outro gênero de morte.

O homem mordeu os lábios de indignação e perguntou:

— Nada mais ordenais?

— Sim, – tornou ele – quero que dobre hoje o serão destes marotos. Ah! Esta cáfila de negros, só surrados, e...

— Mas, senhor comendador, – interrompeu o feitor com acento apesar seu repreensivo, e indignado – é já meia-noite, os desgraçados ainda trabalham por acabar o serão, como pois é possível dobrar-se-lhes a tarefa?

— Oh! Lá!... – bradou Fernando e sorriu-se com horrível sarcasmo. – Que tal? Quem manda nesta casa?

— Fartai-vos de atrocidades, já que sois um monstro, – retrucou fora de si o feitor, fixando-o com um olhar de desprezo, que ele suportou –, banhai-vos no sangue dos vossos semelhantes, juntai crimes horrendos a crimes imperdoáveis; mas não conteis mais doravante comigo para instrumento dessas ações, que revoltam ainda a um coração viciado, e que só no vosso pode achar morada.

Desde já contai-me despedido do vosso serviço.

— Miserável! – rugiu Fernando sufocado pela cólera.

— Vou imediatamente avisar a velha Susana – disse consigo o feitor – e ainda será tempo de fugir. – Saiu correndo a pegar o seu cavalo, mas, à hora que tão generosamente se dirigia à casa de Luísa B., um sacerdote montado em uma mula acompanhava a preta Susana, conduzida por dois negros, e murmurava em voz inteligível estas palavras do salmo 138: “Para onde me irei de vosso espírito? E para onde fugirei de vossa face?”

Susana não vinha atada à cauda de um cavalo, caminhava com a fronte erguida, e com a tranquilidade do quem não teme; porque é justo.

— Foge, Susana! – bradou-lhe da orla da estrada uma voz forte: ela pareceu nada ouvir, e o padre continuou:

— “Se subira ao céu, vós lá estais; se descera aos infernos ali vos encontraria”.

Então a voz tornou-se a ouvir, e um homem apareceu. Era o ex-feitor; o padre e os negros o reconheceram.

— Foge, Susana!

— Fugir? Não, meu senhor. Não sabeis que sou inocente?

— Louca! – tornou ele – Toma o meu cavalo e foge. Que importa àquela fera a tua inocência? Acaso não conheces o comendador?

Susana replicou-lhe com vivo reconhecimento:

— O céu vos pague tão generoso empenho; mas os que estão inocentes não fogem.

E o sacerdote prosseguia:

— “Se tomasse as asas da alva, e habitasse no cabo do mar, até ali vossa mão me guiaria e vossa destra me sustentaria”.

Susana levantou os olhos para o céu, e quando os abaixou, disse:

— Ide, meu filho! O céu vos abençoe.

O ex-feitor deu então as rédeas ao seu cavalo; deixou passar aquela vítima resignada de tão implacável cólera, e tocado pela sublime brandura daquela velha africana, lamentou profundamente a sorte mesquinha e horrível que lhe preparara o comendador, que em sua insânia parecia despenhar-se irremissivelmente nos abismos do inferno.

Prosseguiam na sua marcha.

Na casa do trabalho, muito mais frouxa lobrigava-se ainda a escassa luz de um lampião: os negros tinham recebido novas tarefas, empenhavam-se por acabá-las. Desgraçados! Não eram eles que trabalhavam por acabá-las – era o novo feitor, que com azorrague em punho ao som dos estalos os despertava. E já nem uma lágrima lhes vinha aos olhos, nem um queixume aos lábios – eram mudos; estorciam-se com a dor da chibatada, abriam os olhos, moviam-se maquinalmente para continuar o serviço, e logo recaíam naquela penosa prostração, que revela a extrema fadiga de um corpo, que descai já para o túmulo, cansado de lutar em vão contra mil privações que o desgastaram e aniquilaram.

O dia não tardava muito a despontar, quando Susana e o sacerdote descobriram, pasmados, a cena espantosa da dupla tarefa na fazenda de Santa Cruz.

— Deus esteja convosco, filho, – disse brandamente o padre ao entrar.

Fernando P. passeava na varanda com um passo incerto e desigual.

— Mandei informar-me, meu padre, do caminho que seguiu a minha louca fugitiva, e em menos de dez minutos aguardo pela resposta. Os homens da minha guarda estão prontos, e partirão ao primeiro sinal; as nossas cavalgaduras esperam-nos no pátio.

— E para que todo esse afã?! – perguntou o sacerdote com estupefação.

— Para quê?! Ainda mo perguntais?! Essa menina, senhor, a necessidade tornou-a minha pupila; e antes que o fosse, meu coração a havia escolhido para esposa!

— Ela? Úrsula? A vossa sobrinha! A filha!...

— Basta – bradou imperiosamente o comendador. – Susana, venha Susana.

Fernando P. pensara que o padre lhe ia lembrar o seu crime, e impôs-lhe silêncio.

Ao reclamo, dois negros entraram conduzindo a velha, cujos cabelos alvejavam como o cume dos Andes e cujos olhos exprimiam sublime resignação.

Ao vê-la, o comendador rugiu como um tigre, os olhos injetaram-se-lhe de sangue, e as artérias entumecidas ameaçavam arrebentar: seu semblante tornou-se roxo de ódio, e a fisionomia era medonha, e horripilante.

— Para onde foi Úrsula? – interrogou com voz que horrorizava – Para onde foi Úrsula? Fala, ou prepara-te para morrer sob o azorrague.

— Não sei, meu senhor, – respondeu humildemente a velha – disse-me que vinha orar ao cemitério.

— Não sabes dela?! Queres arrostar comigo?... – e os olhos desferiram chamas de raiva, que gelavam de terror.

— Foste sua cúmplice, hás de pagar-mo.

— Em nome do céu! – exclamou a mísera, atormentada por tão sinistras ameaças: – que sei eu?

— Cala-te, atrevida, ou ao menos modifica o teu crime, revelando-me o nome do homem que ma roubou.

— Ah! Meu senhor... – tornou a mísera africana, – ela saiu só.

— Pois bem! Confessarás à força de tormentos o que é feito dela, e qual o nome do seu sedutor.

Julgas que o ignoro?

Tancredo! Rápido foi o teu regresso; mas hás de arrepender-te, assim como tu, velha louca e maldita!

Levem-na, – disse, acenando para os dois negros que a tinham conduzido – levem-na, e que ela confesse o seu crime.

— Filho – objetou o padre, – filho, em nome do que nos há de julgar não mandeis flagelar esta pobre velha; ela é inocente.

O comendador bramiu de cólera, e lançou-se sobre a pobre escrava.

— Confessa a tua cumplicidade, diz-me para onde foi ela, ou apronta-te para morrer.

Susana havia dito a Tancredo que Úrsula lhe falara de um perigo iminente, se ele Tancredo retardasse mais o seu regresso, e que esse perigo criava-o o comendador; lembrava-se de que o moço partira imediatamente para o lugar por ela indicado, e onde devia estar Úrsula, persuadiu-se mesmo algumas vezes de que a moça, para escapar às perseguições de seu tio, se houvesse submetido à proteção do mancebo, e fugido; mas tudo isso não era mais que suposição e quando mesmo ela o soubesse com certeza, estava longe de querer denunciá-la a um homem que tão funesto era para quantos o conheciam.

Pediu a Deus que lhe pusesse um selo nos lábios, e o valor do mártir no coração.

— Então... – tornou ele enfurecido – confessas, ou não?...

— Não sei, meu senhor! – replicou Susana.

— Não sabes quem seja o seu sedutor? Não o viste sair em sua companhia?...

— A menina saiu só, eu a quis acompanhar; porque ela estava louca de aflição; mas disse-me: — Proíbo-te que venhas; deixa-me que vá rezar sobre a sepultura de minha mãe, e...

— Levem-na! – bradou o implacável comendador. – Mais tarde confessarás tudo.

— Meu filho, – de novo começou o padre – o sangue do inocente condena ao inferno aquele que o derrama: esta mulher não é cúmplice na fuga de vossa desposada.

Um negro entrou correndo, e disse-lhe:

— Meu senhor, acabo de saber que a senhora, acompanhada de um cavaleiro branco, e de um outro negro, tomou a estrada da cidade de ***.

Então um sorriso infernal lhe arregaçou o lábio superior, e seu rosto ficou hediondo.

— Levem-na! – tornou acenando para Susana – Miserável! Pretendeste iludir-me... saberei vingar-me. Encerrem-na na mais úmida prisão desta casa, ponha-se-lhe corrente aos pés e à cintura, e a comida seja-lhe permitida quanto baste para que eu a encontre viva.

Susana ouviu tudo isto com a cabeça baixa; depois ergueu-a, fitou aos céus, onde a aurora começava a pintar-se, como se intentasse dar à luz seu derradeiro adeus, e de novo volvendo para o chão, exclamou:

— Paciência!

— Não há tempo a perder – disse Fernando, e entrou no seu gabinete, onde deu ordens, que para logo se cumpriram. Dois homens, de hórridas fisionomias, foram introduzidos, e o que lhes disse o comendador, só Deus e eles o puderam ouvir.

Não se passou muito tempo, que não voltassem: eram ligeiros e vinham vestidos como talvez lhes tivesse ordenado o homem, a quem serviam.

Tinham excelentes cavalgaduras. Trajavam calções de couro, e sobre suas selas descansavam enormes capotes de peles de onça. Da cinta pendiam-lhes enormes facas pontiagudas, e a esses horríveis instrumentos, acompanhava um par de pistolas. Aos ombros levavam um medonho bacamarte.

O padre viu todo esse apresto execrando, e aguardava ansioso pelo seu hóspede.

Não esperou muito.

— Meu padre, o dever obriga-me a partir.

Roubaram-me a filha de minha irmã; mancharam a honra da minha casa, assassinaram a minha ventura!...

— Meu padre, – continuou depois de alguma pausa – essa menina era minha desposada, jurei que havia de ser seu esposo; pelo céu ou pelo inferno, sê-lo-ei ainda. Sim, – prosseguiu espumando de ira – ei de ser seu esposo; porque não a tornarei a ver em quanto o sangue do seu raptor não tenha lavado, extinguido o ferrete da infâmia estampado em minha fronte.

— Jesus! Senhor meu Deus! – bradou o pobre padre. – Ainda é tempo de retroceder. Pelo céu, meu filho, não mancheis vossas mãos no sangue de vosso irmão! Filho, o assassino é maldito do Senhor; Caim o foi. Para o assassino não há na vida sossego, nem paz na morte. O sepulcro mesmo, quem sabe se lhe promete tranquilidade?

A vingança, filho, é um prazer amargo, e seu fruto, é o requeimar do remorso em toda a existência, e até o último extremo, até a sepultura!

Fernando P. escutou-o; mas em suas veias agitava-se o sangue, que lhe queimava o coração. Rangia os dentes, e os lábios lívidos e trêmulos exprimiam a impaciência e o furor, até que por último prorrompeu irado:

— Mentes, padre maldito! A vossa doutrina não a escutarei nunca. A vingança, desejo-a com ardor, afago-a. Não sabes que é a única esperança, que me resta? Amor! Ventura!... Tudo, tudo caiu no abismo... eles o quiseram... oh! Não os hei de poupar.

O inferno? Haverá pior de que o que trago no coração?! O inferno?! O inferno me restituirá Úrsula pura da nódoa do amor de outrem, porque será lavado no sangue do homem por quem desprezou-me.

Sabes acaso o que é ser desdenhado pela mulher que amamos? Sabes o que é ser iludido, aviltado por aquela a quem déramos a vida, a honra, a alma se no-la pedisse!?...

— Filho, – arriscou ainda o velho sacerdote – não desafieis a cólera do Senhor. O sangue de vosso irmão vos queimará a alma; e o amor de que vos servirá então? Julgais que vos poderá ele afagar quando ante vós se erguer mudo, e impassível o espectro ensanguentado de vossa vítima, clamando: – És meu assassino!!!...

Então embalde suplicareis o meigo auxílio do sono, que vossos olhos pasmados e fitos no medonho fantasma não se poderão cerrar.

Então ele erguerá a voz, e exclamará com horrífico acento, que vos resfriará os membros: – maldição do Senhor sobre aquele que assassinou o homem, que era seu irmão!

— Cala-te... cala-te, estúpido que és – rugiu o comendador. – Que me importa a mim a vingança dos mortos! Tancredo, Úrsula, não se hão de rir do homem a quem ludibriaram.

— Tancredo? – objetou o padre – Que quereis dizer desse mancebo?

— É o sedutor de Úrsula.

— Ele? – replicou o homem de paz – É impossível!

— Ele. – retrucou Fernando. – Amam-se, já o sabia; mas contava que o seu regresso seria alguma coisa mais demorado.

Sim, eu vi Úrsula, era uma tarde, um jatobá antigo como os séculos prestava-lhe doce sombra; no tronco dessa árvore gravava ela um nome, que me ocultou com o seu corpo; mais tarde, no dia imediato, todos os dias à mesma hora eu ia ao lugar indicado, ela jamais voltou a ele; mas seu nome e o nome de Tancredo entrelaçados aí estavam gravados para advertir-me que se amavam.

Oh! Maldita sejas tu, mulher infame, maldito o teu sedutor! De joelhos hás de pedir-me compaixão para esse que preferiste a mim; mas não hás de achá-la!

— Misericórdia, meu Deus! – bradou o padre erguendo as mãos ao céu.

— Silêncio! – exclamou Fernando ardendo em ira, e aproximando-se-lhe, disse: – Sois meu prisioneiro. A justiça da terra não me estorvará a vingança, porque ninguém senão vós ousará denunciar-me.

— As...sas...si...no!! – estupefato disse o pobre sacerdote, e ficou estacado nesse lugar sem movimento, com os cabelos eriçados, os membros hirtos, e os olhos parados, como se um raio o houvessefulminado.

Úrsula

Sinopse

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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