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Úrsula

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Úrsula

Capítulo 5 · Úrsula

IV — A primeira impressão

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Lágrimas tinha ele na voz e no coração; que lha embargaram e o impediram de atar o fio da sua narração. Fez por último um esforço sobre si e começou:

— Úrsula, se eu vos não encontrara meiga, e desvelada, no caminhar de minha amarga existência, odiosa me fora ela, e a recordação do passado seria para mim um prolongado martírio.

O segredo de minhas dores seria para sempre sepultado no mais fundo do meu coração; mas eu vos amo, e o vosso amor dá-me forças para tamanho sacrifício. Ouvi-me, pois, e perdoai-me.

Só apartei-me de minha mãe quando fui para São Paulo cursar as aulas de Direito, e seis anos de saudades aí passei, tendo-a sempre em meus pensamentos; porque amava-a com uma ternura que só vós podeis compreender. Num dia recebi o grau de bacharel e noutro segui para a minha terra natal.

Ah! Como me transbordava a alma de prazer! Eu vinha rever aquela que cercara de amor e de cuidados a minha infância!

Afeição alguma me pôde reter em São Paulo; minha mãe, o lugar onde eu tive meu berço, meus amigos de infância, não os podia esquecer. Parti pois com prazer duma terra onde tinha vivido longos anos de saudade e de pesares.

E eu vi essa mulher, que me dera a vida, essa mulher, que era ídolo do meu coração, e lancei-me nos seus braços, chorando de alegria por tornar a vê-la; mas ela estava desfeita, e suas feições denunciavam grande abatimento moral.

Nunca tive felicidade a que se não viesse misturar sentimentos de angústia; nunca fui completamente feliz.

— Sê-lo-eis ainda – disse-lhe a donzela com indefinível ternura.

— Sim, agora o creio – respondeu ele com confiança. — Vós, Úrsula, sois a mulher com quem sonhava minha alma em seu contínuo devanear.

— E junto de minha pobre mãe – continuou o cavaleiro, após breve silêncio – eu vi uma mulher bela e sedutora, dessas que enlouquecem desde a primeira vista.

No primeiro transporte de alegria, enquanto minha mãe chorava de satisfação, ela com os olhos fitos em um bordado, que tinha entre as mãos, parecia distraída; e eu revia-me na sua beleza tão pura como a estrela da manhã.

Oh! Minha doce Úrsula, eu amei a essa encantadora donzela, e o meu amor foi puro, arrebatador; mas ela não o compreendeu.

— Meu filho – disse-me minha mãe, apresentando-me a formosa donzela – eis Adelaide, a minha querida Adelaide. É filha de minha prima, e órfã de mãe e pai. Recolhi-a e amo-a como se fora minha própria filha.

— Tancredo – continuou – não poderei esperar de ti desvelada proteção para aquela que adotei por filha, para aquela que tem enxugado as lágrimas de tua mãe na ausência de seu filho?!...

— Minha Úrsula adorada, de joelhos prometi a minha infeliz mãe ser o escudo da formosa órfã.

Então ela, em sinal de reconhecimento, estendeu-me a mão, que apertei com enlevo. Creio que meus olhos exprimiam algum sentimento terno a seu respeito; porque seu rosto se tingiu de carmim, e depois um débil suspiro, como que a muito reprimido, saiu meio abafado de seus róseos lábios.

Ouvi-o, e julguei, – louco de mim! – que esse suspiro era a primeira expressão de um repentino e profundo afeto: julguei que sonhava, porque nunca havia sentido o que então se passava em mim.

Mais tarde, veio meu pai felicitar-me. Mostrava-se feliz e orgulhoso de seu filho; e abraçou-me com transporte.

Não sei por quê; mas nunca pude dedicar a meu pai amor filial que rivalizasse com aquele que sentia por minha mãe, e sabeis por quê? É que entre ele e sua esposa estava colocado o mais despótico poder: meu pai era o tirano de sua mulher; e ela, triste vítima, chorava em silêncio, e resignava-se com sublime brandura.

Meu pai era para com ela um homem desapiedado e orgulhoso – minha mãe era uma santa e humilde mulher.

Quantas vezes na infância, malgrado meu, testemunhei cenas dolorosas que magoavam, e de louca prepotência, que revoltavam! E meu coração alvoroçava-se nessas ocasiões apesar das prudentes admoestações de minha pobre mãe.

É que as lágrimas da infeliz, e os desgostos que a minavam, tocavam o fundo da minha alma.

E meu pai ressentia-se da afeição que tributava a esse ente de candura e bondade; mas foram as suas carícias, os seus meigos conselhos, que soaram a meus ouvidos, que me entretiveram nos primeiros anos; ao passo que o gênio rude de meu pai me amedrontava.

O desprazer de ver preferida a si a mulher que odiava, fez com que meu implacável pai me apartasse dela seis longos anos, não me permitindo uma só visita ao ninho paterno; e minha mãe finava-se de saudades; mas sofria a minha ausência, porque era a vontade de seu esposo. Mas eu voltava agora para o seu amor, e seus dias vinham a ser belos e cheios de doce esperança.

Entretanto, eu também era feliz. Aprazia-me ver Adelaide, no arrebol da vida, tão casta, tão encantadora, compartilhando ora a dor, que nos oprimia, ora o prazer que enchia os nossos corações. Em Adelaide minha mãe encontrara uma desvelada amiga; a sua extrema beleza, e a dedicação àquela mulher, que eu tanto amava, atraíam-me incessantemente para ela; e a primeira vez que a vi, o meu coração adivinhou que havia de amá-la.

Sim, amei-a loucamente, amei-a com todas as forças de um primeiro amor, e quando um dia lhe revelei o profundo afeto que me inspirava, conheci que era correspondido, não obstante o ela dizer-me:

— Tancredo, sou pobre, e teu pai se há de opor a semelhante união.

— Ah! – prorrompeu o cavaleiro com azedume mal disfarçado – mulher infame e ambiciosa!

E minha mãe conheceu a afeição que nos ligava, e estremeceu de horror.

— Meu filho, – disse-me um dia, chorando – tu amas Adelaide, eu o tenho adivinhado; porque ao coração de uma mãe nada se oculta. Vais amargurar a tua existência...

Tancredo, meu filho, não cedas a um amor que te pode vir a ser funesto. Adelaide é pobre órfã, e teu pai não consentirá que sejas seu esposo.

Adelaide entrou, sorriu-se para mim, e foi abraçar minha mãe, e eu continuei a conversação.

— Sim, minha querida mãe, amo Adelaide, e seu coração retribui-me, meu pai ama-me, não poderá portanto contrariar a minha primeira inclinação. Não, minha mãe, abençoai primeiro que ele o nosso amor; porque esta há de ser a esposa do vosso filho. Não é verdade, minha Adelaide?

Ela corou de pejo, e redarguiu:

— Tancredo, sou uma pobre órfã, vosso pai...

— Oh! Pelo céu – interrompi-a – pelo céu... Meu pai não tem coração de tigre.

— Ah! Meu filho! – objetou minha pobre mãe com voz tão trêmula que semelhou um choro amargo: – Receio...

— Receais!...

— Receio a prepotência de teu pai, e uma oposição tenaz e exorbitante.

— Tendes razão! – disse-lhe, porque as recordações do passado se erguiam ante mim como pavorosos fantasmas de dor e de vergonha. – Creio no entanto que ele cederá a seu filho o único favor que lhe há pedido em toda a vida.

— Duvido! – replicou, abanando tristemente a cabeça – Meus filhos, o céu que lhe ilumine as trevas do pensamento cobiçoso e que eu os veja unidos e felizes.

— Sim, minha boa e terna mãe – lhe tornei com convicção – haveis de ver-nos felizes, e vós o sereis também. Estou que meu pai não me poderá negar a esposa que meu coração escolheu.

Notei que meu pai começou a ser mais comunicativo e mais tratável, e com isso minhas esperanças robusteciam e minha mãe cedeu a essa enganosa ilusão.

Oh! Como escoaram felizes esses dias! Eu amava, e meu amor correspondido bastava para a minha ventura.

Todo embevecido no meu amor, não curava de meus interesses e nem de ilustrar meu nome na carreira pública. Toda minha ambição era essa mulher tão loucamente amada. Mas isto não podia durar muito – era ventura demais para um pobre mortal.

Era o dia dos anos de Adelaide. Esse dia! Que amargas recordações me traz!...

Decidi-me a ir comunicar a meu pai o segredo do meu coração – esse segredo que me transbordava já da alma, e que ele fingia não conhecer.

— Qualquer que seja a impressão que a meu pai possam causar minhas palavras, – disse a minha mãe – Adelaide há de ser minha.

Ela olhando-me com severidade, redarguiu:

— Tancredo, não chames sobre ti a cólera de teu pai. Oh! Deus não protege a quem se opõe à vontade paterna!

Baixei os olhos confuso e magoado, e quando os ergui duas lágrimas lhe sulcavam o rosto.

— Oh! Minha pobre mãe – exclamei reconhecido – perdoai-me!

Então ela sorriu-se, porém seu sorriso era amargo e terno a um tempo!

Ah! Ela temia seu esposo, respeitava-lhe a vontade férrea; mas com uma abnegação sublime quis sacrificar-se por seu filho.

— Irei eu – disse-me, e saiu.

Corri para o meu quarto, contíguo ao de meu pai, e ouvi tudo quanto se passou entre ele e minha mãe.

O que ouvi, ainda hoje enche-me de espanto, e reconheci desde então que meu pai era mais desapiedado e cruel do que imaginava.

E minha desditosa mãe tudo arrostou, porque era a causa de seu filho que advogava! Era às vezes tão débil e trêmula a sua voz, e tão áspera e violenta a de meu pai, que seus acentos chegavam a meus ouvidos como a queixa ao longe de sentida rola.

Mas outras vezes vinha ela aos meus ouvidos, e eu acreditei que era minha mãe uma santa.

Deus meu! Parece-me que inda a escuto!

A mansidão com que se exprimia desarmaria a uma fera; mas meu pai irritado e fora de si exclamou com voz terrível, que ecoou medonha em meus ouvidos.

— E acreditastes, senhora, que eu consentiria em semelhante união? Estais louca? Sem dúvida perdestes a razão. Ide-vos, e não continueis a alimentar no coração desse louco uma esperança que jamais lhe deveria ter nascido.

— Mas, senhor... – aventurou-se a retorquir-lhe minha desvelada mãe – Adelaide é a filha de uma parenta querida! Amo-a; e porque não será ela digna de meu filho?...

— Calai-vos, vo-lo ordeno. – interrompeu aceso em ira. — Julgais que por ser essa mísera órfã vossa parenta, e porque a amais, hei de desposá-la a meu filho só por ser essa a vossa vontade? Decididamente que enlouquecestes.

E sorriu-se, mas com um sorriso sardônico que me gelou de angústia.

Não se aterrou, e respondeu-lhe com uma voz tão débil, que não ouvi; mas tão meiga e queixosa, que o acalmou um pouco.

— Louvo-vos a generosidade, minha nobre mensageira; – disse pouco depois com tom de sarcasmo, que me fulminou – guardai para uma esposa mais digna de Tancredo essa parte de vossa fortuna com que pretendeis tão desinteressadamente dotar a vossa Adelaide.

E terminou isto com estrepitosas gargalhadas.

— Oh! Senhor, pelo amor do céu! É só para me roubardes a última ventura de um coração já morto pelos desgostos, que me negais o primeiro favor, que vos hei pedido! Que vos hei feito para merecer tanta dureza da vossa parte? Que vos há feito meu filho para vos opordes a sua felicidade?! Oh! Quanto sois implacável em odiar-me... Sim, a lealdade e o amor de uma esposa, que sempre vos acatou, merece-vos tão prolongado, desabrido e maligno tratamento?!

Perdoai-me... Mas tanto tenho sofrido; tantas lágrimas me têm sulcado o rosto desfeito pelos pesares; tanta dor me tem amargurado a alma, que estas palavras, nascidas do íntimo do peito, pungentes, como toda a minha existência, não vos podem ofender. Arranca-as, senhor, dos abismos da minha alma a agonia lenta, que nela tem gerado o desprezo e o desamor com que me tendes tratado!

E extenuada por tamanho esforço e pela dor não pôde continuar.

E meu pai ouvia em silêncio: quando ela terminou suas magoadas expressões, ele, com tom seco e firme, tão estranho aos queixumes da esposa, como se os não ouvira, exclamou:

— Ide-vos! – e acrescentou no mesmo tom – Dizei a vosso filho que a vontade de seu pai não a domastes vós, e ninguém o conseguirá.

— E nem uma palavra de esperança?... – soluçou minha infeliz mãe.

— Ide-vos – tornou-lhe o endurecido esposo.

Ela obedeceu.

Úrsula

Sinopse

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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