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Úrsula

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Úrsula

Capítulo 7 · Úrsula

VI — A despedida

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Minha desvelada mãe aguardava-me tremulada e ansiosa, e perguntou-me aflita:

— Recusou?

— Não, senhora – tornei-lhe amargurado.

— Louvado seja o Senhor! – exclamou então com reconhecimento, mal compreendendo o excesso da minha dor, e lágrimas de satisfação lhe regaram as faces.

E Adelaide erguendo as mãos aos céus, e fitando neles seus grandes olhos úmidos de prazer, parecia concluir a oração começada por minha mãe.

— Adelaide, – disse-lhe – não cedas assim aos transportes de uma ventura, que ainda se envolve nas sombras do porvir; porque o despertar te seria doloroso. Meu pai impôs-me dura condição, e eu submeti-me a ela. Meu Deus! Que posso eu fazer? Sabeis qual seja? Oh! É um custoso e amargo sacrifício, é um ano de separação arrastado no exílio! Este ano é um século de desesperação.

— Meu Deus! – exclamou minha pobre mãe com acento tão doloroso, que me estalou o coração de mágoa – É mais uma prova, Senhor, que me enviais!

— Meu filho, – continuou – esta separação será talvez eterna!

Muitos dias não eram passados, quando eu em pé no meio do salão de meu pai, com os braços cruzados sobre o peito, que sentia partir-se de dor, observava em silêncio a agonia íntima dessas duas mulheres que, na derradeira despedida, semelhavam dolorosas estátuas de Níobe.

Adelaide reclinava-se nos braços de minha mãe, pálida como a açucena pendurada na corrente; e essa mulher cheia de bondade e de virtude esforçava-se por consolá-la de uma dor, que só nela era real; mas que supunha igual na donzela, que um dia seria minha esposa.

Com mágoa comparei então o semblante pálido e emagrecido dessa mulher de alma tão heroica e santa, com o seu retrato pendente de uma das paredes do salão, e gelei de pasmo e de angústia. O pintor havia aí traçado uma beleza de dezoito primaveras.

As madeixas de seus sedosos cabelos molduravam-lhe as faces brancas de neve, e as rosas eram tão débeis que as tingiam apenas de ligeira cor. Sua fronte altiva e nobre coroava uns olhos ternos e expressivos, e os lábios acarminados, onde pairava angélico sorriso, deixava meio perceber-se dois renques de alvíssimas pérolas.

E agora, demudada, macilenta e abatida pelos sofrimentos de tantos anos, era a duvidosa sombra da formosa donzela de outros tempos.

Esta separação forçada era contudo a maior dor que a havia torturado; porque um funesto pressentimento dizia-lhe que seria eterna!

E essa dor debuxava-se muda, porém viva e profunda, em seu rosto macilento e cheio de rugas.

Minha pobre mãe!...

E ao lado desse retrato estava outro – era o de meu pai. Sessenta anos de existência não lhe haviam alterado as feições secas e austeras, só o tempo começava a alvejar-lhe os cabelos, outrora negros como a noite.

Enquanto retraçava na mente agitada os desgostos de minha aflita mãe, entrou seu esposo. Notou-lhe o abatimento, viu as lágrimas de Adelaide, e seu rosto de leve se contraiu.

Tomei-lhe a mãe e beijei-a: e ele voltando-se para a inconsolável esposa, com severa inflexão de voz, e com aspecto colérico, perguntou-lhe:

— Senhora! Quando deixareis partir vosso filho? Por toda a resposta, só lhe ouvi um gemido de profundo desânimo.

— Meu pai!... – exclamei sentido.

— Oh! Meu filho – tornou-me ele com aquele sorriso, que lhe é particular – é necessário que nem sempre se atenda às lágrimas das mulheres; porque é o seu choro tão tocante, que apesar nosso comove-nos, e a honra, e o dever condenam a nossa comoção, e chamam-lhe – fraqueza.

— Pois bem, meu pai, na hora em que saio a cumprir a vossa vontade, permiti que vos recomende zeloso o tesouro de minha futura felicidade, e a mãe desvelada, que minha alma adora.

— Meu pai – continuei com voz queixosa – adoçai o amargor do meu exílio! Bem sabeis quanto me é penosa esta separação, que só um requinte de filial condescendência a ela me obrigou. Oh! Fazei com que não saiba no lugar do desterro que minha pobre mãe verteu uma lágrima de aflita dor, longe do coração de seu filho, e que a desposada, que me concedestes, se conserva triste e pesarosa como ora a vedes. Oh! Velai por ela, meu pai, e que ela se conserve digna da mão que lhe está destinada.

Então olhou-me, e seu olhar era sinistro: suportei-o, e sempre imóvel ante ele, aguardei uma resposta.

Mordeu os lábios, e com esforço disse-me:

— Descansa. Avia-te, avia-te.

— Úrsula!... Minha Úrsula!... – prosseguiu o cavaleiro reprimindo um doloroso gemido – beijei as faces mimosas de minha desposada, uni minha mãe contra o coração; mas não lhe disse um adeus, nem um gemido me arquejou no peito; porque aí havia dorido sofrer.

Ela deu-me um derradeiro olhar, tão terno, tão apaixonado, tão expressivo de mágoa íntima, e de sincero reconhecimento, que as lágrimas, que me gotejavam no coração, por fim me ressaltaram nas faces, e prorrompi um copioso pranto...

Nesse olhar, em que lhe estava a alma, disse-me a infeliz seu derradeiro adeus!

Úrsula

Sinopse

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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