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Úrsula

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Úrsula

Capítulo 12 · Úrsula

XI — O derradeiro adeus!

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Úrsula ainda tão nova começou a vergar sob o peso de tantas comoções encontradas. Pálida e abatida, semelhava o lírio do vale, que a calma emurcheceu. Era débil para tão grandes embates.

Na sua solidão o homem tinha ido perturbar-lhe a virginal pureza do coração para dar-lhe uma nova existência – o amor; e depois ainda o homem, invejoso dessa momentânea e fugaz felicidade, veio roubar-lhe a tranquilidade do espírito, e envenenar-lhe a suave esperança de uma vida risonha e venturosa, espremendo-lhe no coração a primeira gota de fel do cálice que ela devia libar até as fezes.

Ela, conturbada e aflita, recolhia-se em si para meditar nas expressões ardentes e ameaçadoras do homem da mata, que a amedrontavam, e que a gelavam até o fundo da alma.

E quem será ele? Deus meu! Por que fatalidade me viu, e disse-me que me amava com amor ardente e intenso, que terá a duração da sua vida! Pressagia-me o coração aflito, que esse homem e o seu amor me hão de ser funestos!

Uma voz interna diz-me que aí está uma grande desgraça. Oh! Esse homem ensanguentou os meus vestidos, que eram tão alvos! Cada nódoa desse sangue, que tanto me horroriza, parece-me que serão outras tantas lágrimas de amargura, que tenho de verter.

Oh! Meu Deus!... Meu Deus, permiti, Senhor, que eu me engane, e que jamais o torne a ver.

Tancredo! Livrai-me desta aparição ou deste ente repulsivo e ameaçador!...

Tancredo! Onde estás a esta hora? Que fazes, que não me vens proteger contra a insolência e as ameaças desse caçador desconhecido? O teu amor há de amparar-me. Oh, sim, o teu amor me dará forças para destruir suas loucas esperanças e esquecer suas terríveis ameaças.

E ela fechou os olhos, mas na mente se lhe figurava constantemente aquele rosto severo, ardente, apaixonado, e ameaçador, aos ouvidos lhe retumbava o som da sua voz: – era como se ainda o visse, ainda o ouvisse, e ela desanimada e sem forças procurava desvanecer essa visão infernal. Depois de algum tempo de luta interna, exclamou: Oh! Que homem tão ousado, cujo olhar sinistro me amargurou a alma! Apareceu a noite rebuçada no seu manto de escuridão, e a donzela supôs encontrar o sossego das trevas e no sono; mas trêmula e agitada no seu leito, invocava embalde o sono, que o fantasma se erguia mudo e impassível, e a sua mente alucinada dava-lhe movimento e voz, e ele blasfemava, e ameaçava, e sorria-se com sarcasmo. Os olhos chispavam fogo, e os lábios agitavam-se convulsos e os membros e o tronco pareciam cobertos de sangue.

E ela revolvia-se no leito, e o corpo tremia-lhe e o suor corria-lhe, e o peito opresso ofegava: era um pesadelo insuportável!

A noite ia já alta, a moça entrou no quarto de sua mãe; ia talvez revelar-lhe o que se havia passado na mata, descrever-lhe as feições do desconhecido, o acento de sua voz, para ver se descobria indícios que a elucidassem sobre esse terrível adorador, ou ao menos procurar conforto no coração materno, quando com redobrada amargura esta disse-lhe:

— Ânimo! Minha querida filha, não chores: os meus sofrimentos vão já acabar. Sinto aproximar-me da sepultura! Mas Deus me há de permitir ainda ver-te feliz. Sim, feliz! Porque Tancredo te há de dar a ventura, que tanto hei pedido ao céu para a minha Úrsula.

A moça, então traspassada de dor, olhou para essa infeliz mulher a quem tão ternamente amava, estremeceu de angústia. Luísa B. não poderia já aspirar a muitos dias de vida, e essa lembrança fez-lhe esquecer sua desagradável apreensão, e até mesmo seu amor apaixonado para entregar-se toda à dor de uma eterna separação, que ela antevia como irrevogável.

E debruçada sobre o colo materno, a donzela derramava sentido e terno pranto que vinha lá do fundo da alma, onde havia dor mil vezes mais cruel que a própria morte.

Ela fechava aqueles olhos alquebrados, que mal podiam já acariciar os seus, aqueles lábios semimortos, que fracamente exprimiam a ternura maternal, aquelas mãos hirtas, e regeladas, que só por sobre-humano esforço erguiam-se ainda para abençoá-la, e o coração partia-se-lhe de angústia.

Brilhou enfim a alvorada, que espantou essa noite tão longa, e de tantas dores. Luísa B. recobrou fictícios sinais de melhoras.

Úrsula, mais reanimada, tinha secado o seu pranto e, feliz pelas melhoras de sua mãe, procurava esquecer o desconhecido da mata, cuja entrevista desejava relatar à mãe; mas aguardava para esse efeito um dia em que esta se sentisse mais forte e vigorosa.

Úrsula receava incomodá-la com os seus receios, aliás tão bem fundados. Tinha razão – Luísa B., no aflitivo estado em que se achava, morreria instantaneamente vendo a filha querida de seu coração ameaçada por um homem, cuja fereza desenhava-se no seu aspecto.

Sim, Úrsula tinha razão, Luísa não poderia resistir a esse novo embate: era demais para uma fraca moribunda.

E alguns dias tinham-se já passado depois dessa noite de penosas comoções, e Luísa B. era ainda a mesma débil, esquálida enferma, mas terna e desvelada mãe, e parecia mesmo na aproximação da morte redobrar de afetos e de carícias, ameigando com ternura extrema sua inconsolável filha, toda pranto e saudades.

Um dia, porém, Luísa pareceu recobrar forças, que há muito a haviam abandonado, e a filha viu com prazer errar-lhe nos lábios um sorriso animador. Acreditou que suas lágrimas tinham tido o poder de arrancar a mãe às mãos da morte, e prostrada rendeu graças ao Senhor.

Pobre Úrsula!...

Era esse o dia destinado, e há tanto esperado, para ela informar sua mãe sobre a entrevista da mata, e começava já a dispô-la para esse fim, quando bateram à porta.

Ela levantou-se precipitadamente, e foi abri-la: era um escravo, que inqueriu:

— A senhora Luísa B.?

— É minha mãe – tornou a moça.

— Fazei-me o favor de entregar-lhe essa carta, minha senhora.

— Sim – tornou Úrsula, e acrescentou: – Não se poderá saber donde veio?

O negro, sem dar resposta, saudou-a humilde e respeitosamente, e picando o cavalo, seguiu a trote largo pela imensidade do campo.

A moça voltou para junto de sua mãe, e apresentou-lhe a carta, trêmula e desassossegada.

— Uma carta! – exclamou esta. – E donde virá ela? Lede-a, minha filha.

Úrsula quebrou o selo da carta, e reprimindo sua inquietação, começou nestes termos:

Luísa, minha cara irmã.

— É de teu tio – exclamou a mãe, confusa, e assustada. – Que me quererá?

Úrsula comprimiu com as mãos a fronte, que súbita dor acometera. Uma vertigem lhe obscureceu a vista; mas acalmando-se-lhe o natural sobressalto, continuou a ler:

É necessário que nos vejamos ainda uma vez na vida, e conto que anuirás a este desejo, ou antes súplica de teu irmão.

Minha irmã! Minha Luísa! Muito me tens a perdoar; porque gravíssimo é o mal que te hei feito; mas és boa, teu coração não pode alimentar ódio por aquele que foi sócio dos teus jogos infantis, e que na juventude te amou com essa doçura fraternal, que só tu compreendias; porque eram gêmeas as nossas almas.

Luísa, minha doce irmã, porque me tornei eu mau e odioso a meus próprios olhos depois que tomaste Paulo B. por esposo? Por quê? Nem o sei eu! Talvez o desejo que sempre tive de dar-te uma posição mais brilhante, como muitas vezes te fiz sentir. Malograste, no entretanto, as minhas intenções, esposando esse homem, que...

Esse foi o teu crime, crime que eu nunca te haveria perdoado, se o céu se não incumbisse desta conversão, que sem dúvida te há de admirar; porque a mim mesmo me admira.

O mais dir-te-ei vocalmente; porque só deve esta preceder-me uma hora. Adeus.

Teu afetuoso

FERNANDO.

— Meu Deus! – exclamou a viúva de Paulo B. após alguns momentos de silêncio – Que quer dizer isto? Esta conversão! Oh! Não o compreendo. Úrsula, minha filha, não sei por que aperta-se-me o coração à aproximação dessa entrevista. Fernando, meu irmão! O teu ódio ainda não estará vingado?!

Mas – continuou a pobre mulher – ele me fala de perdão: Deus! Será possível que se haja arrependido, e que o meu s ofrimento lhe tocasse o coração empedernido?!

— Duvido, minha mãe – objetou Úrsula – duvido. Para que vem ele perturbar o nosso sossego?

E entrou a cismar sobre tão inesperado e estranho assunto. Falava em sossego! Como se ela o gozasse há dias! Depois dessa desgraçada entrevista da mata, sentira um só dia o que era tranquilidade? Não, por certo. Mas, Fernando P***! Que vinha ele aí fazer? Úrsula tinha horror a semelhante parente, e implorava ao céu o arredasse sempre da sua vista. Graves suspeitas pesavam sobre o comendador, e a infeliz órfã não podia lembrar-se dele sem temor.

E Luísa tinha suas razões; por isso, agora mais que nunca, estava aflita e inquieta, mas Úrsula, para tranquilizá-la, disse:

— Porque estais assim a tremer, minha querida mãe? Que mal vos poderá ele fazer além dos que já tem feito? Ele vos fala em perdões, trata de uma conversão...

— Operada pelo céu, que a ele mesmo admira! – Tornou Luísa, interrompendo sua filha, que cada vez se sentia mais inquieta. Esta conversão assemelha-se a todos os atos de sua vida: esta conversão deve nos ser funesta!

— Pensais isso, minha mãe? – interrogou a pobre Úrsula pálida e convulsa.

— Sim, minha filha, e quase que te posso assegurar.

— Santo Deus! – exclamou Úrsula, precipitando-se para fora do quarto de sua mãe, e cobrindo o rosto com as mãos ambas.

O caçador desconhecido acabava de entrar sem anunciar-se.

— Fernando! – exclamou Luísa, tornando-se lívida, e tiritando de frio.

— Luísa! Luísa, minha querida irmã! – bradou o comendador, correndo para ela, e unindo-a ao seu coração.

Este brado terno e comovido revocou a infeliz mulher a uma vida, que ela já julgava extinta, e esquecendo por um instante todo o amargor que Fernando lhe derramara no coração, sorriu-se para o irmão que amara, e por momentos brilhou-lhe no rosto a alegria, e disse:

— Meu irmão!

E Fernando cedeu então ao mais belo transporte da sua alma, ao único sentimento virtuoso, que Deus aí lhe implantara, e que embalde tinha lutado por abafar, ou destruir.

Fernando combatia há dezoito anos o poder desse amor fraterno, e seu orgulho conseguiu, por algum tempo, o que o coração repugnava, o que a razão e a inteligência condenavam, e o que ele sentia dolorosamente; porque só nesse afeto lhe estava a ventura de toda a sua vida.

E para vencer-se, obstinadamente evitava a vista de sua irmã, a que não poderia resistir, para bem saciar a sua vingança, para bem flagelar-se, flagelando-a na sua desgraça.

Fernando tinha vivido solitário, e desesperado com essa luta terrível do coração com o orgulho: e esses desgostos íntimos, que ele próprio forjava, o tinham embrutecido, e tanto lhe afearam a moral, que era odiado, e temido de quantos o praticavam ou conheciam de nome.

Ele tornara-se odioso e temível aos seus escravos: nunca fora benigno e generoso para com eles; porém o ódio, e o amor, que lhe torturavam de contínuo, fizeram-no uma fera – um celerado.

Nunca mais cansou de duplicar rigores às pobres criaturas, que eram seus escravos! Apraziam-lhe os sofrimentos destes; porque ele também sofria.

Eis aí pois a alma implacável na maldade do irmão de Luísa.

E Úrsula! Onde estava ela?

Pobre menina! Correu sem tino, e sem consciência do que fazia, porque acabava de reconhecer em seu tio o caçador, cuja voz e cujas expressões não podiam ser esquecidas. Seu aspecto, suas ameaças, seu amor violento e libidinoso já o tornavam repelente, e agora via nele Fernando P., o perseguidor de sua mãe e talvez o assassino de seu pai!...

O coração pulsava-lhe com veemência – parecia querer estalar.

Compreendeu toda a extensão do perigo iminente, que estava sobre sua cabeça. Sua mãe pouco poderia viver, Tancredo estava ausente. O comendador ia triunfar, já não havia dúvida. Oh! Essa ideia era horrível!

Úrsula correu louca por algum tempo, ora invocando a morte, ora maldizendo a hora de seu nascimento, até que afinal, vencida por tão violentos embates, caiu em uma prostração mórbida, donde a preta Susana a veio arrancar para dizer-lhe:

— Ide, ide, que minha senhora lhe quer falar. Ah! Ela não pode tardar.

E abafou-lhe a voz copioso pranto.

Úrsula abriu os olhos, estremecendo, e perguntou:

— Que me queres?

E reparando que a escrava chorava, tornou-lhe enternecida:

— Pois que, Susana, tu também choras?!

A velha africana pegou-lhe da mão, e disse:

— Acompanhai-me, vossa mãe está a morrer.

Úrsula exclamou fora de si:

— Oh! Não, mentes, não pode ser! Tu te enganaste, Susana, não é verdade?

Susana tomou-a nos braços, e apontando para o leito da moribunda:

— Vede-a. Ela vos quer falar.

Luísa B. estava só: seu irmão tinha-lhe já dito o derradeiro adeus, ela agora necessitava falar a sua filha – desabafar com ela e dar-lhe o último ósculo maternal!

Úrsula

Sinopse

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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