Universo da obra
Universo da obra
Agora é preciso sabermos como Tancredo, de volta de sua viagem, pôde saber onde estava Úrsula, e o que lhe havia acontecido.
Dominado unicamente pela ideia de revê-la, o mancebo correu apressadamente, e quase sem descanso, logo que terminou na comarca de *** a missão de que o haviam encarregado, e que tão penosa se lhe tornou depois que conheceu Úrsula; mas Tancredo mal podia prever quantas dores amarguravam a alma da pobre donzela.
Entretanto raiou o dia apetecido, e que devia levá-lo para junto de sua jovem desposada, e nesse dia o coração arfava-lhe, ora com um arrebatamento apaixonado, ora com um triste desassossego, e ele enterrava as esporas nas ilhargas do brioso animal que o conduzia, e redobrava o ardor de sua carreira.
E na sua impaciência a distância parecia-lhe imensa.
— Túlio, – exclamou Tancredo vendo que fugiam as horas – será possível que ainda hoje deixemos de chegar à sua casa?!
Túlio nada respondeu, e parecia não tê-lo ouvido: com efeito, o negro cismava profundamente; porque a aproximação daqueles lugares trazia-lhe mais de uma recordação.
— Não me ouviste, meu bom amigo – continuou Tancredo. – Túlio, quero vê-la hoje, agora mesmo se nos for possível. Ah! Não sabes como a amo... Ela é tão bela... o sorriso nos seus lábios é como a gota do orvalho no cálice de uma flor.
— Túlio, apressemos os cavalos.
— Morreriam, senhor – tornou Túlio arrancando-se aos seus pensamentos.
— Oh! – exclamou Tancredo contrariado – E ela me espera! Parece que lhe escuto o palpitar do coração, que vejo a ânsia com que me aguarda, e ouço-lhe um som queixoso, e um suspiro lhe perpassar pelos lábios, embaciando o vivo rubor, que os tinge.
E então ela chamar-me-á ingrato, e esquecido da minha promessa. Oh meu Deus! ... Túlio, tu não sabes quanto essa ideia me aflige. Demo-nos pressa; tu andas tão devagar!... Ah! Hoje mesmo Úrsula deve ter a seus pés o homem que mais sabe adorá-la sobre a terra.
Túlio também sentia uma vaga inquietação, e esse desassossego, que começava a tornar-se sensível no jovem apaixonado, há muito o tocava ao vivo: é que a cada um deles figurava-se que Úrsula reclamava socorro, que algum pesar a oprimia.
Tancredo amava apaixonadamente a essa menina de olhar meigo e arrebatador; Túlio tinha-a visto no berço, e a sua afeição para com ela era profunda e desinteressada.
Entretanto, tinham já percorrido longo espaço, quando duas estradas se lhes apresentaram à vista.
— Agora – disse Túlio – tomemos a estrada de Santa Cruz; é a que devemos preferir. Daqui à casa de minha senhora temos só meia légua, e a outra dar-nos-á mais que o dobro.
— Louvado seja Deus! – exclamou o mancebo com alegre reconhecimento. – Tomemos a estrada de Santa Cruz. E meteram os cavalos a galope.
— É tão somente para satisfazer a vossa impaciência – tornou Túlio – que propus essa estrada com preferência à outra; ao contrário...
— Por quê? – interrompeu o mancebo ingenuamente.
— Por quê! – repetiu Túlio – porque eu havia prometido a mim mesmo, e às cinzas de minha mãe, nunca mais trilhar esta maldita estrada: porque sentirei pungentes e tristes recordações ao passar pela fazenda de Santa Cruz.
— Espera, – interrogou Tancredo – parece-me que já ouvi falar desse nome. A quem pertence essa fazenda?
— Ao comendador P. – respondeu Túlio gravemente.
— É verdade – tornou o cavaleiro – É do irmão da senhora Luísa B.
— Sim, – prosseguiu o negro com voz amarga. – é desse homem de sangue, dessa fera indômita. Oh! Vós não conheceis o comendador, e vossa alma generosa terá de repugnar em face das barbaridades, que ele pratica cada dia. Implacável é o seu ódio, e a pobre senhora Luísa B. bem o tem experimentado. Pobre senhora! Seu marido foi também um homem cruel; mas a cólera do comendador o seguiu por toda a parte, e Deus sabe... talvez lhe abreviasse os dias...
— Pois quê?! – interrogou Tancredo – Julgas, Túlio, que fosse o comendador o assassino de Paulo B.?
— Não sei, senhor – suspirou o negro. – O comendador nunca procurou justificar-se; e graves suspeitas pesam ainda hoje sobre ele.
Nesse comenos cortavam eles ao meio a situação do comendador, deixando ao nascente a casa de sua residência, bela na aparência, de uma construção sólida, e elegante; porém hermeticamente fechada; e ao poente um longo cercado de pau a pique, no centro do qual erguia-se uma cruz sobranceira: era o cemitério.
Ambos levaram as mãos aos chapéus, e reverentes descobriram a cabeça.
O sol começava já a amortecer seus raios.
A essa mesma hora, também alguém caminhava apressadamente para a casa de Luísa B., e que, como Tancredo, amava cegamente ao lírio daquelas solidões. Esse alguém era o comendador Fernando P.
Fernando P. vinha da cidade de ***, e suas cavalgaduras arfavam de cansaço pela rapidez da marcha. Mas à hora que Tancredo atravessava a fazenda de Santa Cruz, a Fernando P. faltava mais de uma légua para aí chegar.
Ambos caminhavam pois para o mesmo lugar, tinham ambos pressa, Tancredo, unicamente para ver a mulher de suas adorações, Fernando, porque nutria graves suspeitas de que outro lhe seria preferido. Ele começava a sentir no fundo da alma o desassossego mortal do ciúme e da vaidade; mas cônscio do terror que infundia àqueles que o conheciam, cobrava às vezes um pouco de calma e dizia:
— Não é possível! Embora ela o ame, não poderá resistir à minha vontade. E demais onde está agora esse insensato? Na comarca de***, quando voltar tudo estará feito: Úrsula será já minha esposa, e ele, resignado, ou esquecido, ou mesmo desesperado; mas respeitando minha posição social e meu nome, morrerá de inveja, embora amaldiçoando a minha felicidade. Mas, se pelo contrário!... Não é possível! Se pelo contrário, ai dele!
Tudo isto repetia o comendador a si mesmo, devorando a estrada, que trilhava, cego por uma frenética paixão.
Entretanto o rico sítio de Santa Cruz oferecia aos jovens viajantes o mais belo panorama que se pode imaginar. Era sobre uma colina donde se gozava a poética perspectiva do campo, que a tinham colocado; a sua formosura era portanto natural; porque os renques de coqueiros, que se alinhavam, fazendo um semicírculo em frente da casa do comendador, e dos ranchos dos negros, a mão do tempo e o abandono do proprietário tinham reduzido a um penoso estado de morbidez, que causava dó.
Ainda as casas dos escravos, que outrora tinham sido de um aspecto agradável, tapadas de barro e cobertas de telha, hoje mal representavam esse singelo asseio de outras eras. Já arruinadas, desmoronavam-se aqui e ali; porque os desgraçados escravos do comendador, espectros ambulantes, não dispunham de uma só hora no dia, que pudessem dedicar em benefício de suas moradas; à noite trabalhavam ordinariamente até o primeiro cantar do galo. Esfaimados, seminus, espancados cruelmente, suspiravam pelas duas ou três horas de sono fatigado, que lhes concedia a dureza de seu senhor.
Desgraçados! Que até a hora das trevas e do repouso, à hora em que a brisa geme apaixonada, como amante que anela o ardente hálito do seu adorador, em que a erva escuta o segredo terno da viração, em que o cantor da espessura afaga o plumígero habitante de seu ninho amoroso, um momento de sossego e amor lhes é vedado!
Não há descanso para o seu corpo, nem tranquilidade para seu espírito desvairado pelo terror de tantos e tão contínuos sofrimentos!
Mísero escravo!!!... Tantas dores há em seu coração; e nós as não compreendemos!...
Túlio tinha recaído em suas profundas meditações, e Tancredo, que começava a sentir-se feliz com a ideia de rever o objeto de seu amor, admirava a beleza natural dessa soberba situação, quando de repente, voltando-se para o seu companheiro, perguntou-lhe:
— Habitaste algum dia estes lugares, meu Túlio?
— Se os habitei, perguntais?! Ah! Este é o lugar de meu nascimento; mas que detesto, que eu amaldiçoo do fundo da minha alma; porque aqui minha pobre mãe, à força de tratos os mais bárbaros, acabou seus míseros dias!
— Oh! – exclamou Tancredo vivamente tocado.
— Minha mãe – continuou o jovem negro – era a escrava predileta de minha senhora: essa predileção chamou sobre ela parte do ódio que Fernando P. votava à sua irmã.
Deveis saber que esse homem amaldiçoado comprou as numerosas dívidas que meu senhor legou à órfã e à sua viúva, com o intuito tão somente de reduzi-la ao último extremo de miséria, como a reduziu; porque seus diversos credores ter-se-iam comovido, e talvez lhe facultassem os meios de os ir pagando sem grande detrimento de sua fortuna, aliás tão arruinada.
— Que vingança tão mesquinha!... – interrompeu Tancredo indignado.
— Pois bem – prosseguiu Túlio, com voz lagrimosa – minha desgraçada mãe fez parte daquilo que ele comprou aos credores, e talvez fosse ela mesma uma das coisas que mais o interessava. Quando ela se viu obrigada a deixar-me, recomendou-me entre soluços aos cuidados da velha Susana, aquela pobre africana que vistes em casa de minha senhora, e que é a única escrava que lhe resta hoje!
Minha mãe previa a sorte que a aguardava; abraçou-me sufocada em pranto, e saiu correndo como uma louca.
Ah! Quão grande era a dor que a consumia! Porque era escrava, submeteu-se à lei que lhe impunham, e como um cordeiro abaixou a cabeça, humilde e resignada.
Bem pequeno era eu – continuou Túlio após uma pausa entrecortada de soluços –; mas chorei um pranto bem sentido por vê-la se partir de mim, e só comecei a consolar-me, quando mãe Susana à noite balouçando-me na rede, disse-me:
— Não chores mais, meu filho, basta. Tua mãe volta amanhã, e te há de trazer muito mel, e um balaio cheio de frutas.
— Enxuguei os olhos e dormi na doce esperança de revê-la; e à noite sonhei que a vira carregada de frutas, como a boa velha me havia dito. Embalde a esperei no outro dia! Porém mãe Susana, que chorava enquanto eu cuidava dos meus brinquedos, sorria-se quando me via, e procurava fazer-me esquecer minha mãe e seus afagos.
Minhas forças eram ainda débeis para compreender toda a extensão da minha desgraça, e por isso as saudades que me ficaram, pouco e pouco, foram-se-me adormecendo no peito.
Eu estava já crescido; mas nunca mais a havia visto; era-nos proibida qualquer entrevista.
Um dia, disseram-me: — Túlio, tua mãe morreu!
Ah! Senhor! Que triste coisa é a escravidão!
Quando minuciosamente me narraram – continuou ele com um acento de íntimo sofrer – todos os tormentos da sua vida, e os últimos tratos, que a levaram à sepultura, sem nunca mais tornar a ver seu filho, sem dizer-lhe um último adeus, gemi de ódio, e confesso-vos que por longo tempo nutri o mais hediondo desejo de vingança. Oh! Eu queria sufocá-lo entre meus braços, queria vê-lo aniquilado a meus pés, queria... Susana, essa boa mãe, arrancou-me do coração tão funesto desejo.
E o pobre Túlio desatou a chorar em desespero; porque era a recordação das desditas de sua mãe!
Tancredo também tinha na alma uma chaga mal cicatrizada, e as dores do negro encontraram eco em seu coração. Tancredo chorou também, e o silêncio da tarde recolheu soluços que não podiam envergonhá-los.
Alguns momentos depois estavam à porta da casa onde haviam deixado Úrsula, lacrimosa, porém cheia de lisonjeiras esperanças, e Luísa B., suposto que ao aproximar-se da morte, todavia feliz pela futura felicidade de sua filha. Mas essa porta estava fechada, um sinistro pressentimento afetou o coração de ambos. Bateram e ao abrir-se a porta só Susana apareceu, que vendo-os disse:
— Podeis entrar. – E as lágrimas lhe espadanaram pelo rosto.
Tancredo e Túlio olharam-se em silêncio; esse choro não o compreendiam eles.
— Chorais? E de que, mãe Susana? – perguntou Túlio, beijando-lhe respeitoso a mão.
— Meu filho, – soluçou a velha – tudo para mim acabou! E a pobre menina lá foi sozinha ao cemitério orar sobre a sepultura de sua mãe!
— Úrsula? – perguntou Tancredo, rompendo o seu morno silêncio. – Morreu a senhora Luísa B.?
— Oh! Parece – tornou Susana com amargo dissabor – que aquele maldito homem jurou exterminar esta infeliz família!
— De quem falas, Susana? Quem é esse homem? – perguntou ansioso o cavalheiro, coligindo por estas palavras que alguma desgraça havia sucedido.
— De quem falo, senhor? Ah! É do senhor comendador P.!
— Dize-nos o que aconteceu. Mas primeiro que tudo, onde está Úrsula?
— Saiu, meu senhor, haverá uma hora, e proibiume que a acompanhasse: disse-me que ia orar sobre a sepultura de sua mãe, como já vo-lo afirmei.
— E onde é o cemitério? – inqueriu Tancredo, tomando as rédeas a seu cavalo.
— Em Santa Cruz, senhor – replicou a africana, curvando a cabeça para a terra.
— Partamos, Túlio! – ajuntou o cavaleiro, e depois acrescentou: – Não é possível que tenha ido a Santa Cruz; porque a teríamos encontrado sem dúvida.
— Há tantas estradas para lá, – disse Túlio – que é muito possível que a não víssemos.
— E demais – acrescentou Susana – ela sofre tão cruelmente pela morte de sua mãe, como pela perseguição de seu tio, que...
— Perseguição de seu tio!? – interrogou vivamente Tancredo, de novo chegando-se para a velha. – Que receia ela do comendador?
— Ah! Senhor, creio que ela me disse que se não chegásseis agora, estava perdida; porque o senhor Fernando P. abreviou os dias de sua mãe, e jura que há de ser o esposo da pobre menina.
Foi só o que no meio da sua dor me pôde confiar. Pobre menina!
— Pois bem, – redarguiu Tancredo – tudo está remediado. E galoparam de novo em busca dadonzela.
Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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