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Capítulo 19 · Úrsula

XVIII — A dedicação

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Antero era um escravo velho, que guardava a casa, e cujo maior defeito era a afeição que tinha a todas as bebidas alcoolizadas.

Em presença dos dois homens de má catadura e feições horrendas, ele mostrou-se rígido, e atirou com o prisioneiro para um quarto úmido e nauseabundo, e mostrou interessar-se vivamente em cumprir as ordens, que recebera. Depois colocou-se à porta, qual fiel cão de fila a quem o dono deixou de guarda à sua propriedade ameaçada por ladrões.

Túlio, entretanto, debatia-se de desesperação encerrado nesse quarto, do qual se não poderia escapar sem cometer um crime, que repugnava-lhe o coração. Impaciente, receoso pela sua sorte, e ainda mais pela de seu benfeitor, contava os minutos, e amaldiçoava a mão que assim o retinha.

Curvou a fronte em uma de suas mãos, e descansando o cotovelo sobre a coxa, mergulhou-se em seus pesares e deixou-se levar por eles. A tristeza e o abatimento, que se debuxavam naquele rosto nobre, contristaram ao seu guarda, que atento o considerava.

— Coitado! – dizia ele lá consigo – Sua pobre mãe acabou sob os tratos de meu senhor!... E ele, sabe Deus que sorte o aguarda. Pobre Túlio!...

E o prisioneiro, ora abatido, ora desesperado, entrou a soluçar, e a desafogar por esse modo as dores que lhe assoberbavam o peito. Depois ergueu-se e entrou a passear pela estreita prisão, ora com passos rápidos e incertos, ora com andar frouxo, aflito e desalentado.

Soaram nove horas. Túlio deu um gemido de desesperação.

Antero, que também sofria, quis distraí-lo de seus pensamentos dolorosos, e murmurou:

— Meu filho, não achas que a noite assim vai tão lenta e fastidiosa?

Túlio não respondeu. Pensava então que Tancredo partira já a receber sua noiva, e que apenas saísse da cidade estaria a braços com os seus assassinos.

— Ah! – dizia ele estorcendo as mãos – E eu aqui guardado para o não defender!!...

O velho esteve por algum tempo recolhido em si mesmo; depois levantou-se, pegou de uma cuia e tratou de lançar-lhe dentro o que quer que era que estava em uma cabaça. Mas esta estava completamente vazia. Antero arremessou-a para longe de si com certo ar de desprezo, suspirou, e depois disse:

— Maldito vicio é este! E que não possa eu vencer semelhante desejo!

Oh! Acredita-me, Túlio, estala-me a garganta de secura. E como não há de assim ser? Desde que aqui chegou meu senhor que não mato o bicho. Arre! E nem uma pinga de cachaça! Nem ao menos uma isca de fumo sequer para o cachimbo.

Então passou pela mente do mísero prisioneiro um lampejo de esperança, respirou com indizível satisfação; mas com arte objetou, afetando repreensivo acento:

— Que mau vício em verdade, pai Antero... Sempre a fumar e a beber. Não vos envergonhais de semelhante procedimento? Que conceito fará de vós o senhor comendador?!

— Que conceito? – interrogou o velho desapontado – Que conceito! É o único vício que tenho; e ainda por conservá-lo não prejudiquei ninguém. Que te importa que beba, – acrescentou com voz que queria dizer: não tens coração. — Por ventura pedi-te algum dinheiro para fumo ou cachaça? – e dizendo afagava a cabaça vazia com um desvelo todo paternal, como que arrependido de tê-la desprezado, a ela, a sua companheira constante.

— Não – respondeu friamente Túlio.

— Pois bem, – continuou o velho – no meu tempo bebia muitas vezes; embriagava-me, e ninguém me lançava isso em rosto; porque para sustentar meu vício não me faltavam meios. Trabalhava, e trabalhava muito, o dinheiro era meu, não o esmolei. Entendes?

— Perfeitamente, – retorquiu Túlio, fingindo sorrir-se.

— Pois ouça-me, senhor conselheiro: na minha terra há um dia em cada semana, que se dedica à festa do fetiche, e nesse dia, como não se trabalha, a gente diverte-se, brinca, e bebe. Oh! Lá então é vinho de palmeira mil vezes melhor que cachaça, e ainda que tiquira.

— Então, pai Antero, gostais assim tão loucamente de matar esse imortal bicho?

— Oh! Se gosto! – exclamou o velho africano lambendo os beiços só de esperança.

— Pois bem, – tornou o jovem negro, metendo-lhe nas mãos tanto dinheiro quanto era bastante para Antero embriagar-se dez vezes pelo menos –, tomai, e ide saciar à farta essa maldita sede.

O velho arregalou os olhos, e o prazer transbordou-lhe as feições ridentes; tomou a cabaça e saiu correndo; mas não sem ter fechado sobre si a porta da prisão.

Então Túlio olhou em derredor de si a assegurar-se da situação e dos meios de fuga, e viu nesse quarto horrível troncos, correntes, cepos, anjinhos, que se cruzavam. Aí, quantos desgraçados não tinham no meio das torturas amaldiçoado, como Jó, o dia do seu nascimento?!... Quantas lágrimas não teriam regado aqueles instrumentos de suplício?!...

— Ah! Se eu sempre tivesse destes bons prisioneiros!... – exclamou contente, e batendo as palmas o bom Antero, que voltava já bastante alegre, e que não satisfeito com a dose, que engolira, de novo beijava ternamente sua querida cabaça, agora cheia da bebida de sua predileção.

— Deus te pague, meu filho, e te dê uma boa sorte. – E daí arremessava-se à sua amante, e já os beijos eram tão repetidos, que pareciam um só e contínuo.

Contava já o incansável Túlio com a possibilidade de escapar-se; porque o silêncio, que reinava na casa, o advertia da ausência do comendador.

Dez horas ecoaram aos seus ouvidos. Túlio estava sobre espinhos.

— Dez horas! – murmurou – Que silêncio! Parece-me, pai Antero, que o mundo inteiro dorme: pelo menos nesta casa aposto que só nós estamos acordados.

— Adivinhaste – resmungou o velho com a língua tão pesada, que parecia um moribundo – porque se não fôramos nós, ela estaria completamente deserta.

— Deserta! – perguntou Túlio, tremendo em face de uma coisa que ele adivinhara já: – E então aonde foi o comendador?

Antero bebia freneticamente, esquecendo destarte o bárbaro rigor de Fernando P.; e por isso já meio dormindo apenas respondeu:

— Achei a porta fechada... por fora...

— E por onde então saíste? – perguntou Túlio, sacudindo-o. – Falai.– An! – Balbuciou a custo abrindo os olhos.

— Por onde saíste, se achaste a porta fechada por fora?

Pai Antero fez um esforço, e resmoneou:

— Pelo quintal.

Não pôde mais falar, e caiu em profundo sono, entrecortado só por uma respiração forte e estrepitosa. Então Túlio arrastou-o pelas pernas, e o foi levando até um tronco, que se unia à parede, e lá depois de o ter bem seguro, tirou-lhe da algibeira a chave da prisão e saiu.

O negro previra a explosão de cólera do comendador, quando de volta de sua traidora emboscada, e reclamando o preso, só encontrasse Antero embriagado, a prisão aberta, e a sua vítima fora do alcance de sua ira. Naturalmente o comendador vendo Antero preso no tronco, acreditaria que se dera uma luta entre ele e o prisioneiro, e que aquele, velho e sem forças, fora subjugado e preso, e que assim tolhido e sem socorro algum, vira-lhe a fuga, sem poder sequer opor-lhe a menor resistência.

Túlio não se enganou – o seu estratagema salvou o velho escravo.

Livre, Túlio deitou a correr em direitura da casa, tendo só na mente salvar a seu benfeitor e amigo.

Estava esbaforido, e mal entrou, sabendo que Tancredo há muito saíra acompanhado das testemunhas, partiu sem respirar pela estrada que levava ao convento.

— Meu Deus! – dizia ele consigo – será ainda tempo? Poupai-o, Senhor: livrai-o de seus inimigos.

E finda esta breve súplica, a esperança, que começava a abandoná-lo, voltou-lhe risonha e vigorosa.

Já lhe faltava o fôlego, já as pernas se lhe afracavam de cansaço, e ele corria sempre veloz como o fuzilar de um relâmpago, como o cervo que o caçador persegue.

No meio da sua carreira, avistou um homem montado em uma mula, que caminhava a passos lentos.

O jovem negro conheceu-o e respirou.

– Louvemos ao Senhor Deus! – disse. E acrescentou: – Senhor, vindes do convento de ***?

— Sim. Acabo de fazer aí um casamento, – redarguiu o retardatário viajante, que era um sacerdote.

— E os noivos, senhor?

— Deixei-os na igreja, filho.

Túlio deixou o padre, e de novo começou a correr, e não tardou muito em descobrir as negras paredes do templo, onde uma lua minguada projetava tíbia claridade.

E Túlio avistou um coche, cujos cavalos, mordendo o freio, iam já partir para a cidade.

Depois ouviu pronunciar-se um adeus, logo depois outro, e o coche partiu a trote largo. Outro coche, porém, estava ainda postado à porta da igreja.

Faltavam-lhe já forças, estava aniquilado de cansaço, entretanto corria sempre; porque o coche que passou não era o dos noivos, e ainda talvez fosse tempo de salvá-los.

Na sua carreira, pressentiu um vago rumor à beira da estrada, e um vulto negro que se escondeu atrás de uma árvore copada. Uma tal aparição veio dar-lhe novas forças, e a suspeita fê-lo ativar a sua carreira.

— São eles! – disse a si mesmo, e no ardor da sua dedicação gritou com voz que repercutiu na solidão.

— Cilada, senhor... Querem assassi...

Dois tiros de pistola disparados ao mesmo tempo ressoaram com pavoroso estampido, e Túlio não acabou a palavra!

A mão que os disparou era certeira, e ele, moribundo, só pôde exclamar:

— Jesus! Eu mor...ro!...

Então Tancredo e sua jovem esposa, que acabavam de entrar no coche, tremeram de dor e de surpresa. Reconheceram que a voz era a de Túlio, que lhes advertia na íntima desesperação da sua alma.

E Tancredo bradou desatinado:

— É ele, é o meu fiel Túlio! Monstros! Porque o assassinaram? – e deu um passo para ir socorrê-lo; mas Úrsula puxou-o pelo braço, dizendo-lhe:

— Não ouvistes o seu aviso? Ah! Tancredo, querem assassinar-vos! – E cobriu-o com seus níveos braços.

E um tropel como de lobos, que devorados pela fome uivam medonhamente, aproximou-se do coche; e o grito do postilhão denunciou-lhes que estavam cercados por essas feras humanas mil vezes mais temíveis que os chacais e as hienas.

Tancredo reconheceu o perigo iminente que o cercava e, abrindo a portinhola, fez fogo com as suas pistolas. A primeira errou a pontaria, a segunda feriu de leve a um homem vestido de luto. Nesse homem Tancredo reconheceu o comendador.

— Úrsula tinha razão! – disse ele consigo – Eu é que me perco sem a poder salvar!...

E Fernando P. furioso e com ímpeto subiu ao coche, e apareceu a suas vítimas sinistro e ameaçador, como o anjo deve-o ser no dia do supremo julgamento.

Feroz e hórrido sorriso arregaçava-lhe os lábios, que resfolegavam o ódio e o crime. Assim deviam sorrir-se Nero, Heliogábalo e Sila nas suas saturnais de sangue.

— Poupai-o, senhor. Ah! Pelo céu, poupai-o! – exclamou Úrsula aflita e pálida caindo aos pés desse homem desapiedado.

E por um esforço sublime, que só a mulher – ente feito para a dedicação e o amor – pode conceber, disse-lhe, apresentando-lhe o peito:

— Ofendi-vos, senhor, vingai-vos: eis-me, não me poupeis: mas ele? Oh! não o assassineis! Oh! Não tem culpa de que o ame mais que a vida...

E caiu prostrada aos pés de Fernando, que semelhante à hiena, que meneia a cauda e lambe os beiços, porque a presa lhe não escapará, olhava-a sorrindo de ferocidade.

Estava agora face a face com Tancredo, que desarmado só podia esperar a morte fria e cruel que lhe preparava seu implacável inimigo.

E vendo a esposa desmaiada aos pés do comendador, abaixou-se e tomou-a em seus braços.

E essa beleza adormecida e pálida como o lírio do vale, parecia sorrir-lhe com celeste meiguice, e o jovem esposo, transportado de amor e de aflição, imprimiu nesses lábios de voluptuosa perfeição um beijo ardente com que parecia ir-lhe a vida – era o seu último adeus.

Ao contato desses lábios amados, ela abriu seus grandes olhos alquebrados pela dor, e com um olhar que exprimia a mais singular e indefinível ternura, pareceu dizer-lhe:

— Amo-te!

Depois esses dois astros de amor, que guiavam ainda no perigo, ou nas trevas da desesperação, ao infeliz mancebo, recaíram em seu lânguido torpor.

Esse beijo foi a expressão profunda de tão sublime amor: foi o primeiro, o casto e puro ósculo de amor, que o comendador jurou ser o derradeiro.

Esse ósculo pareceu-lhe insultuosa ofensa: rangeu os dentes de raiva, e arremessando-se contra o seu odioso rival, arrancou-o com força do ódio dos braços de sua jovem esposa.

— Vingança! – bradou – Vingança! É a hora da vingança. Julgavas que eu a tinha esquecido? Louco! Não sabes que a essa mulher, que amaste, eu dei a alma e o coração, e que jurei que há de ser minha?

Roubaste-ma e envileceste-a a meus olhos! Cuspiste-me a face, e nodoaste-a com o teu amor impuro!... Poluíste-a com o teu hálito... Tancredo, esse ósculo trespassou-me o coração de ciúme. Só o teu sangue poderá purificá-la ante mim, que jurei esposá-la. Prepara-te para morrer!...

— Covarde!... Miserável assassino – exclamou o mancebo atirando-se sobre o seu adversário. – Respeita ao menos a pureza de Úrsula, não calunies a sua inocência.

Luta desesperada travou-se entre ambos. Os asseclas do comendador agarraram Tancredo pelas costas, e o covarde comendador embebeu-lhe no peito o punhal que trazia na mão.

— Mataste-me! – exclamou o infeliz Tancredo. — Farta-te de sangue, fera indômita e cruel! Mas eu te juro à hora suprema da minha existência que Úrsula não será tua esposa.

Fernando P., essa menina, que jaz desfalecida, ama-me muito para poder esquecer-me; e odeia-te demais para poder perdoar-te. O teu amor será a punição do teu crime.

Entretanto Fernando, vitorioso e triunfante, uivava de feroz alegria, e vociferou rangendo os dentes:

— Mentes! Mentes! Olha-a pela derradeira vez; não é ela formosa como um anjo? Não é assim? Achei-a também, amei-a, rendi-lhe um culto de louca adoração, e agora é minha. Amaste-a, Tancredo? Amou-te ela? Oh! Há de amar-me também, quando tuas cinzas já frias no sepulcro lhe não recordarem tua passada ternura.

E o infeliz Tancredo, no último transe de sua íntima agonia, estendeu os braços e exclamou com delírio amoroso:

— Úrsula! Minha Úrsula!

Então a donzela despertou de seu dorido letargo, abriu os olhos, e num excesso de amor apaixonado, e de uma dor íntima, lançou-se sobre seu desditoso esposo, e unindo-o ao coração recebeu-lhe o derradeiro suspiro.

Um mar de sangue tingiu-lhe as mãos e os puros seios! Tinha os olhos fixos e pasmados sobre o doloroso espetáculo, e entretanto parecia nada ver; estava absorta em sua dor suprema, muda, e impassível em presença de tão monstruosa desgraça!...

O seu sofrimento era horrível, e profundo, e o que se passava de amargo e pungente naquela alma cândida e meiga foi bastante para perturbar-lhe arazão.

Úrsula

Sinopse

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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