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Úrsula

Capítulo 21 · Úrsula

XX — A louca

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Brilhavam ainda no ocaso os últimos raios do sol. A parda tarde embelezava a natureza com essas melancólicas cores, que trazem ao coração do homem a saudade e a tristeza.

Sentado em um banco do seu jardim, o comendador Fernando P. não via, nem curava de toda essa beleza arrebatadora, que inebria os sentidos e eleva a alma até Deus. A essa hora mágica em que a flor singela e sedutora escuta enlevada o suspiroso segredo da brisa, que a festeja; em que o colibri furtando-lhe um mimoso e feiticeiro adeja e sussurra-lhe em volta; em que lá no bosque o vento suspira harmonioso, e os cantores das selvas soltam seu trinar melodioso e terno; em que o mar na praia é pacífico e manso, e perde a altivez com que bramia; em que a virgem entregue a um vago, indefinível e mágico cismar recende mais casto, mais enlevador perfume, como o aroma de uma flor celeste; a essa hora mesma Fernando P., aguilhoado pelos remorsos, só via hórridos fantasmas, que o cercavam.

No rosto pálido e desfeito, as lágrimas escavavam-lhe profundos sulcos; os olhos encovados, vermelhos, e pisados denunciavam a insônia febricitante. Já não era o mesmo, senão no seu amor e na sua desesperação.

A dor enrugou-lhe as faces, os remorsos alvejaram-lhe os cabelos. Tão poucos dias de aflição transformaram-no em um velho fraco e abatido.

Faltavam-lhe forças para ver Úrsula; as noites, e os dias inteiros passava-os aí, ora correndo louco por baixo dessas copadas e seculares árvores; ora rojando-se por terra, arrancando os cabelos e blasfemando horrivelmente de Deus e dos homens.

Aí, a essa hora mágica do crepúsculo, estava ele, como de costume, só, e todo entregue a seus pungentes sofrimentos, quando a branda, mas repreensiva voz de um homem, o sobressaltou.

Era o velho sacerdote.

— Vedes? – lhe disse apontando com o dedo na direção do poente. – É ela, é Susana!

O comendador levantou maquinalmente a cabeça e olhou.

Em uma rede velha levavam dois pretos um cadáver envolto em grosseira e exígua mortalha; iam-no sepultar!

Então Fernando P. estremeceu, porque aos ouvidos ecoou-lhe uma voz tremenda e horrível que o gelou de medo. Era o remorso pungente e agudo, que sem tréguas nem pausa acicalava o seu coração fibra por fibra.

Escondeu o rosto, espavorido, e meneando a cabeça disse:

— Não! Não fui eu!

— Fostes! – tornou-lhe o padre com o acento do que vai julgar. — A infeliz sucumbiu à força de horríveis tratos. Martirizastes a pobre velha, inocente, e que não teve parte na desaparição de Úrsula! Não vo-lo provava seu acento de sincera ingenuidade, sua negativa franca e firme?!

Homem! Porque a encerrastes nessa escura e úmida prisão, e aí a deixastes entregue aos vermes, à fome e ao desespero?!!

Nos derradeiros instantes da sua vida, eu, o indigno ministro do Senhor, estava ao seu lado, e os seus últimos queixumes como que ainda os escuto!

Sorria-se à borda da sepultura; porque tinha consciência de que era inocente e bem-aventurada do céu. A morte era-lhe suave; porque quebrava-lhe o martírio e as cadeias da masmorra infecta e horrenda.

E sabeis vós o que é a vida na prisão? Oh! é um tormento amargo, que mata o corpo e embrutece o espírito! É morrer mil vezes sem encontrar nunca a paz da sepultura! É um sono doloroso e triste do qual o infeliz só vai despertar na eternidade!

E endurecestes o coração ao brado da inocência!... Porque era escrava, sobrecarregaste-a de ferros; negastes-lhe o ar livre dos campos, e entretido com novas vinganças, nem dela mais vos recordastes.

Assassino de Tancredo, de Túlio, de Paulo, e de Susana! Monstro! Flagelo da humanidade, ainda não saciastes a vossa vingança? Ah! Humilhado e em nome de Deus, pedi-vos mercê para os infelizes, salvação para a vossa alma. Desdenhastes as minhas súplicas!

Orgulhoso e vingativo que sois! E não sentistes que Deus observa os malvados e que os pune ainda na terra.

Em vossa louca e vaidosa ideia, julgastes-vos grande, e esmagastes aos vossos semelhantes que eram fracos, e estavam inermes.

Como a fera dos bosques acometestes a Tancredo e covardemente o assassinastes: como um verdugo cruel punistes Susana de um crime que não tinha... oh! Se o arrependimento vos não apagar a nódoa do pecado, os crimes vos despenharão no inferno.

Fernando P.! Deus vela sobre as ações do homem, e o condena pela vaidade estúpida do seu orgulho. Úrsula! O que é feito dela?

Tremeis? Oh! Eis aí o vosso primeiro castigo.

A infeliz enlouqueceu de dor, e a sua loucura mirrou-vos a esperança do seu amor!

Agora o amor requeima-vos o coração; mas árido é ele; porque os afetos de sua alma não serão para ti.

Fernando! Chorai o pranto do arrependimento: sede caritativo e sincero que são vias para a remissão de vossos enormes pecados. Ainda é tempo. Escutai por esta boca impura a voz do Senhor, que na sua extrema bondade talvez vos perdoe.

Vivei a vida de solitário, passai em ardente e fervorosa oração os dias e as noites.

Indenizai os vossos escravos do mal que lhes haveis feito, dando-lhes a liberdade. Esse ato de abnegação e de caridade cristãs agradará a Deus, e então talvez na sua misericórdia infinita ele abra para vós os tesouros da sua inefável graça.

O comendador, sempre com a face inclinada para a terra, ouvia em silêncio as repreensões do digno sacerdote; mas vendo que ele terminara aconselhando-o, redarguiu-lhe com desalento:

— Levai-me aonde está ela... há tanto tempo que a não vejo.

O velho sacerdote sentiu-se vivamente comovido ao aspecto desse homem cheio de crimes e de maldições, e a quem os remorsos tinham envelhecido de repente.

Ele conheceu que o arrependimento principiava a operar-se naquela alma rebelde. Tomou-lhe as mãos secas e ardentes, e o foi guiando até os aposentos da donzela. Mas Fernando P. estacou no limiar da porta, não se atrevendo a entrar.

A cena que se apresentou a seus olhos quebrou-lhe o coração de angústias.

Úrsula sorria, afagando invisível sombra, mas esse sorriso era débil e vaporoso – era o derradeiro esforço de uma alma que está prestes a quebrar as prisões do corpo.

O comendador fechou os olhos, e agarrou-se à porta para não cair.

E ela, como se a ninguém visse, murmurava em voz baixa, e depois tornava a sorrir-se.

— Vem – disse com voz débil, mas repassada de ternura, – tanto tempo há que te procuro embalde.

Tancredo! Porque me fugias? Onde estavas?

Espera... agora me recordo. Túlio disse-me que muito longe te levava não sei que negócio urgente!... E eu sentia a dor da separação; porque era já longa, e triste.

E depois tirando dos cabelos uma florzinha seca, última que lhe restava da capela, beijou-a, e sorriu-se com ternura.

Não as vês, Tancredo? São as flores do meu noivado. São tão lindas... amo-as!...

E apertou-a ao coração.

Depois soltou um profundo suspiro, e erguendo as mãos súplices para o sacerdote, em quem só então reparara, exclamou com voz que revelava a mais aflitiva angústia:

— Por compaixão! Oh! Não o mateis! Que horror!... Oh! Matai-me antes!... O monstro ri-se com prazer e sem piedade! Ah! Maldição... maldição sobre ele!

Seus olhos brilharam ainda uma derradeira vez com um fulgir vívido, depois cerraram-se.

Era como a luz, que no seu último viver, antes de extinguir-se para sempre, avulta e cresce por clarões vagos e interrompidos.

Após de longa pausa, sempre com os olhos fechados, continuou:

— Deus meu! Porque assassinou ele a Tancredo? Oh! Era noite... Bem o vi, seus olhos eram os de um tigre!

Arredai-vos! Arredai-vos! – disse, pegando ao acaso a mão do sacerdote, que lhe aguardava o último momento – Não vedes que aí há sangue?... Sangue!... Muito sangue!

Muito, muito sangue derramou ele, e esse sangue caiu-me todo aqui no coração.

Sinto uma aflição, que me mata! Ai que dor!!... – E com a mão sobre o coração se pôs a soluçar com tanta dor, que partiria o coração ainda o mais embrutecido.

O sacerdote acenou então para o comendador, que estava imóvel e pálido: este entrou.

— Meu filho, – disse o padre – ajoelhemo-nos.

Ambos caíram prostrados aos pés da infeliz louca, que entregava a alma ao Criador.

O sacerdote murmurava com melancólico acento o salmo dos defuntos; mas o comendador o não compreendia; porque Úrsula morria, e ele tinha sido a causa. A dor e o remorso tiraram-lhe os sentidos, e caiu por terra.

O padre não deu fé desse acidente e continuou a orar fervorosamente. E a oração dos seus lábios subia ao céu como nuvem de incenso que por muito tempo ondula em torno do altar e sobe até Deus.

Era o perfume, que precedia à alma da donzela.

E ela, nesse transe supremo, cruzou as mãos sobre o peito, apertando nesse estreito abraço a florzinha seca de sua capela, murmurou — Tancredo! –E com os lábios entreabertos, e onde adejava um sorriso divinal, e como um anjo deu o último suspiro.

Úrsula

Sinopse

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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