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Capítulo 1 · Missal

Missal: Oração ao sol

Oração ao sol Sol, rei astral, deus dos sidéreos Azues,

que fazes cantar de luz os prados verdes,

cantar as aguas! Sol immortal, pagão,

que symbolisas a Vida, a Fecundidade!

Luminoso sangue original que alimentas

o pulmão da Terra, o seio virgem da

Natureza! Lá do alto zimborio cathedralesco

de onde refulges e triumphas,

ouve esta Oração que te consagro neste

branco Missal da excélsa Religião da

Arte, esmaltado no marfim eburneo das

illuminuras do Pensamento.

Permitte que um instante repouse na

calma das Idéas, concentre cultualmente

o Espirito, como no recolhido silencio de

egrejas gothicas, e deixe lá fóra, no

rumôr do mundo, o tropél infernal dos

homens ferózmente rugindo e bramando

sob a cerrada metralha accêsa das formidandas

paixões sangrentas.

Concéde, Sol, que os manipanços não

possam, grotescamente, chatos e rômbos,

com grimaces e gestos ignobeis, imperar

sobre mim; e que nem mesmo os Papas,

que têm á cabeça as veneraveis orelhas

e os chavelhos da Infallibilidade, para

aqui não venham, com solemne aspecto

abençoador, babar sobre estas paginas

os classicos latins pulverulentos, as theorias

abstrusas, as regras fósseis, os principios

batrachios, as leis de Critica-megatherio.

E faz igualmente, Sultão dos espaços,

com que os argumentos duros, broncos,

tórtos, não sejam arremessados á larga contra o meu cérebro como incisivas

pedradas fortes.

Livra-me tu, Luz eternal, desses argumentos

coléricos, attrabiliarios, como que

feitos á maneira de armas barbaras, terriveis,

para matar javalis e leões nas

sélvas africanas.

Dá que eu não ouça jámais, nunca

mais a miraculosa caixa de musica dos

discursos formidaveis! E que eu ria, ria --

ria symbolicamente, infinitamente, até

o riso alastrar, derramar-se, dispersar-se

emfim pelo Universo e subir, nos fluidos

do ar, para lá no fóco enorme onde

vives, Astro, onde árdes, Sol, dando

então assim mais brilho á tua chamma,

mais intensidade ao teu clarão.

Pelo scintillar dos teus raios, pelas

ondas fulvas, flavas, ó Espirito da Irradiação!

pelos empurpuramentos das auroras,

pela chlorose virgem das steppes

da Lua, pela clara serenidade das Estrellas,

brancas e castas noviças geradas do teu fulgôr, faculta-me a Graça real, o magnificente poder de rir -- rir e amar, perpetuamente rir, perpetuamente amar...

Ó radiante orientalista do firmamento! Suprêmo artista grego das fórmas indeleveis e prefulgentes da Luz! pelo exotismo aziatico desses deslumbramentos, pelos magestosos cerimoniaes da basilica celeste a que tu presides, que esta Oração vá, suba e penetre os ethereos paços esplendorosos e lá para sempre vibre, se eternise atravez das forças firmes, n’um som alacre, cantante, de clarim proclamador e guerreiro.

Missal

Sinopse

Missal, de Cruz e Sousa, é uma obra clássica de prosa poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 44 textos com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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