Universo da obra
Universo da obra
Nota editorial. Tradução original Literunico, preparada a partir do texto francês de René Descartes em domínio público no Brasil. O texto original foi publicado em 1637; Descartes faleceu em 1650. Esta tradução é nova e não utiliza tradução moderna protegida.
O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo; pois cada pessoa julga estar tão bem provida dele que mesmo aqueles que são mais difíceis de satisfazer em qualquer outra coisa não costumam desejar mais bom senso do que possuem. Nisso não é provável que todos se enganem. Antes, isso mostra que a capacidade de bem julgar e distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se chama bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens. Assim, a diversidade de nossas opiniões não nasce de uns serem mais racionais que outros, mas apenas de conduzirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e de não considerarmos as mesmas coisas. Não basta ter o espírito bom; o principal é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, assim como das maiores virtudes; e aqueles que caminham muito devagar podem avançar bem mais, se seguirem sempre o caminho reto, do que os que correm e dele se afastam.
Quanto a mim, nunca presumi que meu espírito fosse em nada mais perfeito que o comum. Muitas vezes desejei ter o pensamento tão rápido, a imaginação tão clara e distinta, ou a memória tão ampla e presente quanto alguns outros. Não conheço qualidades, além dessas, que sirvam à perfeição do espírito; pois, quanto à razão ou ao senso, por ser a única coisa que nos faz homens e nos distingue dos animais, quero crer que ela existe inteira em cada um, seguindo nisso a opinião comum dos filósofos, que dizem haver mais e menos apenas entre os acidentes, e não entre as formas ou naturezas dos indivíduos de uma mesma espécie.
Mas não recearei dizer que acredito ter tido muita felicidade ao encontrar, desde a juventude, certos caminhos que me conduziram a considerações e máximas das quais formei um método. Por meio dele me parece que tenho como aumentar pouco a pouco meu conhecimento e elevá-lo, gradualmente, ao ponto mais alto que a mediocridade de meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitirem alcançar. Já colhi dele tais frutos que, embora procure não julgar a mim mesmo senão com desconfiança, e embora, olhando com olhos de filósofo as diversas ações e empresas de todos os homens, quase não haja uma que não me pareça vã e inútil, não deixo de receber extrema satisfação pelo progresso que penso já ter feito na busca da verdade, e de conceber esperanças para o futuro. Se, entre as ocupações dos homens puramente homens, há alguma que seja solidamente boa e importante, ouso crer que é esta que escolhi.
Pode ser, porém, que eu me engane, e talvez tome por ouro e diamantes apenas um pouco de cobre e vidro. Sei o quanto estamos sujeitos a nos equivocar naquilo que nos toca, e quanto também devemos suspeitar dos juízos de nossos amigos quando nos são favoráveis. Por isso, neste discurso, gostaria de mostrar quais caminhos segui e de representar minha vida como em um quadro, para que cada um possa julgá-la; e, ao saber pelo rumor comum quais opiniões terão sido formadas, eu tenha um novo meio de me instruir, somando-o aos que costumo usar.
Meu propósito, portanto, não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que modo procurei conduzir a minha. Aqueles que se metem a dar preceitos devem considerar-se mais hábeis do que aqueles a quem os dão; e, se falham na menor coisa, são censuráveis. Mas, oferecendo este escrito apenas como uma história, ou, se preferirem, como uma fábula em que, entre alguns exemplos que se podem imitar, talvez se encontrem muitos outros que haverá razão para não seguir, espero que ele seja útil a alguns sem ser nocivo a ninguém, e que todos me sejam gratos por minha franqueza.
Fui nutrido nas letras desde a infância; e, como me persuadiam de que por meio delas se podia adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, eu tinha extremo desejo de aprendê-las. Mas, assim que terminei todo esse curso de estudos ao fim do qual se costuma ser recebido entre os doutos, mudei inteiramente de opinião. Encontrava-me embaraçado por tantas dúvidas e erros que me parecia não ter tirado outro proveito de tentar instruir-me senão descobrir cada vez mais minha ignorância. No entanto, eu estivera em uma das escolas mais célebres da Europa, onde pensava que devia haver homens sábios, se os houvesse em algum lugar da terra. Aprendera ali tudo o que os outros aprendiam; e, não satisfeito com as ciências que nos ensinavam, percorrera todos os livros que tratavam das mais curiosas e raras matérias que puderam cair em minhas mãos. Com isso, conhecia os juízos que os outros faziam de mim, e não via que me considerassem inferior aos meus condiscípulos, embora já houvesse entre eles alguns destinados a ocupar o lugar de nossos mestres. Enfim, nosso século parecia-me tão florescente e tão fértil em bons espíritos quanto qualquer dos precedentes. Isso me dava liberdade para julgar todos os outros por mim mesmo e para pensar que não havia no mundo doutrina alguma que fosse como antes me haviam feito esperar.
Eu não deixava, entretanto, de estimar os exercícios praticados nas escolas. Sabia que as línguas que ali se aprendem são necessárias para a compreensão dos livros antigos; que a graça das fábulas desperta o espírito; que as ações memoráveis das histórias o elevam e, lidas com discrição, ajudam a formar o juízo; que a leitura de todos os bons livros é como uma conversa com as pessoas mais honestas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversa estudada, na qual elas nos revelam apenas o melhor de seus pensamentos. Sabia que a eloquência tem forças e belezas incomparáveis; que a poesia possui delicadezas e doçuras arrebatadoras; que as matemáticas têm invenções muito sutis, capazes de satisfazer os curiosos e facilitar todas as artes, diminuindo o trabalho dos homens; que os escritos sobre os costumes contêm muitos ensinamentos e exortações à virtude que são úteis; que a teologia ensina a ganhar o céu; que a filosofia oferece meios de falar com verossimilhança sobre todas as coisas e de fazer-se admirar pelos menos sábios; que a jurisprudência, a medicina e as outras ciências trazem honras e riquezas aos que as cultivam; e, por fim, que é bom examiná-las todas, mesmo as mais supersticiosas e falsas, para conhecer seu justo valor e guardar-se de ser enganado por elas.
Mas eu acreditava já ter dedicado bastante tempo às línguas, e também à leitura dos livros antigos, às suas histórias e às suas fábulas. Conversar com os homens de outros séculos é quase o mesmo que viajar. É bom saber algo dos costumes de diversos povos para julgar os nossos com mais sensatez, e para não pensar que tudo o que contraria nossos hábitos seja ridículo e contrário à razão, como costumam fazer os que nada viram. Porém, quando se emprega tempo demais em viajar, torna-se afinal estrangeiro em seu próprio país; e, quando se é curioso demais pelas coisas praticadas nos séculos passados, permanece-se ordinariamente muito ignorante das que se praticam neste. Além disso, as fábulas fazem imaginar muitos acontecimentos como possíveis quando não o são; e mesmo as histórias mais fiéis, se não mudam nem aumentam o valor das coisas para torná-las mais dignas de serem lidas, ao menos omitem quase sempre as circunstâncias mais baixas e menos ilustres. Daí vem que o restante não aparece como é, e que aqueles que regulam seus costumes pelos exemplos que tiram dessas leituras estão sujeitos a cair nas extravagâncias dos paladinos de nossos romances e a conceber projetos que ultrapassam suas forças.
Eu estimava muito a eloquência e era apaixonado pela poesia; mas pensava que ambas fossem dons do espírito, mais do que frutos do estudo. Os que têm raciocínio mais forte e digerem melhor seus pensamentos para torná-los claros e inteligíveis sempre podem persuadir melhor aquilo que propõem, ainda que falem apenas baixo bretão e nunca tenham aprendido retórica; e aqueles cujas invenções são mais agradáveis e sabem exprimi-las com mais ornamento e doçura não deixariam de ser os melhores poetas, mesmo ignorando a arte poética.
Eu me agradava sobretudo das matemáticas, por causa da certeza e da evidência de suas razões; mas ainda não notava seu verdadeiro uso. Pensando que servissem apenas às artes mecânicas, admirava-me de que, sendo seus fundamentos tão firmes e sólidos, nada mais elevado tivesse sido construído sobre eles. Ao contrário, comparava os escritos dos antigos pagãos que tratam dos costumes a palácios soberbos e magníficos, edificados apenas sobre areia e lama. Elevam muito alto as virtudes e as fazem parecer estimáveis acima de todas as coisas do mundo, mas não ensinam suficientemente a conhecê-las; e muitas vezes aquilo que chamam por um nome tão belo não passa de insensibilidade, orgulho, desespero ou parricídio.
Eu reverenciava nossa teologia e pretendia, tanto quanto qualquer outro, ganhar o céu; mas, tendo aprendido como coisa muito segura que o caminho dele não está menos aberto aos mais ignorantes do que aos mais doutos, e que as verdades reveladas que a ele conduzem estão acima de nossa inteligência, não ousaria submetê-las à fraqueza de meus raciocínios. Pensava que, para empreender examiná-las e chegar a bom termo, seria preciso alguma assistência extraordinária do céu e ser mais que homem.
Nada direi da filosofia, senão que, vendo que foi cultivada pelos espíritos mais excelentes que viveram desde muitos séculos, e que ainda assim nela não há coisa alguma que não seja disputada, e portanto duvidosa, eu não tinha presunção bastante para esperar acertar melhor que os outros. Considerando quantas opiniões diferentes pode haver sobre uma mesma matéria, sustentadas por homens doutos, embora nunca possa haver mais de uma verdadeira, eu reputava quase falso tudo o que era apenas verossímil.
Quanto às outras ciências, na medida em que tomam seus princípios da filosofia, julgava que nada sólido podia ter sido construído sobre fundamentos tão pouco firmes. Nem a honra nem o ganho que prometem bastavam para me convidar a aprendê-las; pois, graças a Deus, eu não me sentia em condição que me obrigasse a fazer da ciência um ofício para aliviar minha fortuna. E, embora não professasse desprezar a glória como cínico, fazia muito pouco caso daquela que eu não esperava adquirir senão por falsos títulos. Enfim, quanto às más doutrinas, pensava conhecer já o bastante o que valiam para não mais correr o risco de ser enganado, nem pelas promessas de um alquimista, nem pelas previsões de um astrólogo, nem pelas imposturas de um mágico, nem pelos artifícios ou vaidades de qualquer dos que professam saber mais do que sabem.
Por isso, assim que a idade me permitiu sair da sujeição de meus preceptores, abandonei inteiramente o estudo das letras. Resolvi não procurar outra ciência além daquela que pudesse encontrar em mim mesmo ou no grande livro do mundo. Empreguei o resto de minha juventude em viajar, ver cortes e exércitos, frequentar pessoas de diversos humores e condições, recolher experiências variadas, provar a mim mesmo nos encontros que a fortuna me apresentava e, por toda parte, refletir sobre as coisas que se ofereciam, para tirar delas algum proveito. Parecia-me que eu poderia encontrar muito mais verdade nos raciocínios que cada um faz sobre os negócios que lhe importam, cujo resultado o punirá logo se tiver julgado mal, do que naqueles que um homem de letras faz em seu gabinete sobre especulações sem efeito algum e sem outra consequência para ele senão talvez tirar delas tanto mais vaidade quanto mais afastadas estiverem do senso comum, por ter precisado empregar mais espírito e artifício para torná-las verossímeis. Eu sempre tinha um desejo extremo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso, para ver claro em minhas ações e caminhar com segurança nesta vida.
É verdade que, enquanto apenas considerava os costumes dos outros homens, quase nada encontrava que me desse segurança. Neles notava quase tanta diversidade quanto antes notara entre as opiniões dos filósofos. Assim, o maior proveito que tirava era que, vendo muitas coisas que, embora nos pareçam extravagantes e ridículas, são comumente recebidas e aprovadas por outros grandes povos, aprendia a não crer com demasiada firmeza em nada daquilo de que fora persuadido apenas pelo exemplo e pelo costume. Desse modo, livrava-me pouco a pouco de muitos erros que podem obscurecer nossa luz natural e nos tornar menos capazes de ouvir a razão. Mas, depois de empregar alguns anos em estudar assim no livro do mundo e procurar adquirir alguma experiência, tomei um dia a resolução de estudar também em mim mesmo e de empregar todas as forças de meu espírito para escolher os caminhos que devia seguir. Isso, parece-me, me saiu muito melhor do que se eu nunca tivesse me afastado de meu país nem de meus livros.
Obra central da filosofia moderna, com a dúvida metódica e o caminho cartesiano para conduzir a razão. Tradução brasileira Literunico preparada a partir do texto francês original em domínio público.
Texto original no Aurora: Discours de la méthode - https://literunico.com.br/aurora/93439 Fonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/13846
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