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A Casa que Dorme no Brejo

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A Casa que Dorme no Brejo

Capítulo 1 · A Casa que Dorme no Brejo

A Chegada em Santa Bruma

Laura Menezes voltou a Santa Bruma num ônibus que cheirava a diesel, roupa úmida e promessa ruim. Desceu na praça com uma mala pequena, uma pasta de documentos e a certeza prática de que passaria três dias no povoado, assinaria a venda da casa da avó e voltaria para a cidade antes que alguém perguntasse por sua mãe. A chuva tinha parado havia pouco, mas as pedras da rua continuavam brilhando, e as fachadas baixas pareciam lavadas para uma visita que ninguém queria receber. O cartório ficava ao lado da farmácia, a igreja ao lado do cemitério, e a casa de dona Celina, sua avó, esperava no fim da estrada de barro, depois da ponte estreita sobre o brejo. Laura não olhava naquela direção desde os dezessete anos.

O motorista tirou a mala do bagageiro e avisou que a ponte velha rangia pior à noite. Disse isso com gentileza de quem entrega recado antigo, depois cuspiu no chão e foi embora. Laura puxou a mala pela praça, tentando ignorar as janelas que se fechavam devagar. Santa Bruma tinha esse dom desagradável. Fazia silêncio com intenção. Na porta da farmácia, dona Elza fingiu arrumar caixas de remédio para observar melhor. No banco da igreja, dois homens pararam de conversar quando viram a pasta de documentos. Laura sabia que sua volta seria notada. O que a incomodou foi perceber que a notícia parecia esperada.

O corretor não apareceu. Mandou mensagem dizendo que a estrada até a casa estava pesada e que o comprador a encontraria lá. Laura respondeu apenas com um ponto, porque educação extensa demais fazia gente irresponsável se sentir perdoada. Pegou um táxi velho na praça e pediu a casa de dona Celina. O motorista, um rapaz novo demais para lembrar dela, travou a mão no câmbio. Perguntou se era visita ou negócio. Laura disse venda. Ele olhou pelo retrovisor com alívio e medo misturados. Durante o trajeto, passou por pastos baixos, árvores inclinadas e poças largas onde o céu cinza parecia preso. Quando a ponte surgiu, estreita, coberta por lodo nas bordas, o táxi parou antes da madeira.

A casa ficava depois da ponte, sozinha, erguida sobre pilastras antigas, com varanda funda e telhado escuro. Durante o dia, o brejo ao redor parecia apenas terreno alagado, água parada entre capim alto e troncos tortos. Laura lembrava do lugar à noite, quando a água subia sem chuva, quando sapos calavam juntos e a avó trancava janelas falando baixo com alguém no corredor. O motorista se recusou a cruzar. Disse que voltaria se ela ligasse antes das cinco. Depois das cinco, a estrada afundava. Laura perguntou se era estrada ou coragem. Ele não sorriu. Deixou-a com a mala no começo da ponte e foi embora rápido demais.

Laura cruzou a ponte a pé. A madeira gemeu sob cada passo, e o brejo soltou bolhas lentas perto das pilastras. Ela parou no meio, irritada consigo mesma por escutar água com atenção de criança. A chave da casa estava num envelope preso ao portão, junto com uma cópia do contrato preliminar. Havia também um bilhete sem assinatura. Não durma antes que a casa durma. Laura amassou o papel no bolso, decidiu que o corretor tinha péssimo gosto para marketing rural, e abriu o portão. A varanda cheirava a madeira molhada, folha podre e café antigo. Nenhuma casa fechada por seis meses deveria cheirar a café.

Caio Vilar estava dentro da sala, ajoelhado diante de uma tábua solta, segurando uma lanterna entre os dentes. Levantou quando ela entrou. Aos trinta e poucos, continuava com os mesmos olhos escuros da adolescência, agora cercados por cansaço, barba curta e uma calma que irritou Laura antes de qualquer palavra. Ele tirou a lanterna da boca e disse que o corretor tinha esquecido de avisar sua chegada cedo. Laura respondeu que o corretor parecia esquecer tudo que exigia presença física. Caio sorriu pouco. O sorriso trouxe de volta o verão em que ela prometera nunca sair dali sem se despedir dele. Promessa adolescente envelhecia mal em casa assombrada.

Ele disse que pretendia comprar o imóvel para restaurar, transformar em pousada pequena ou residência de temporada. A explicação era limpa demais para aquela sala. Laura olhou ao redor. Os retratos da família estavam virados para a parede, exatamente como a avó deixara antes de morrer. O piano coberto por pano tinha marcas recentes de dedos na poeira. Perto da lareira, uma xícara repousava sobre o assoalho, com borra escura no fundo. Caio acompanhou seu olhar e disse que encontrou aquilo ao entrar. Laura perguntou se ele tinha feito café para impressionar fantasma. Ele respondeu que, se fantasma aceitasse proposta de compra, ele serviria até bolo.

A casa estalou sobre eles. Não foi barulho de madeira cedendo. Foi um suspiro comprido, saindo das paredes, do teto, do brejo embaixo. Laura ficou imóvel. Caio perdeu o sorriso. Do corredor que levava aos quartos veio o som de passos leves, arrastando chinelos conhecidos demais. Laura reconheceu antes de admitir. Era o andar da avó, lento, com uma pausa perto da porta da cozinha. A maçaneta do corredor girou sozinha. Caio pegou a lanterna. Laura colocou a pasta de documentos sobre a mesa e sentiu o contrato de venda vibrar sob seus dedos. Então uma voz de velha, baixa e rouca, falou do outro lado da porta fechada. A menina voltou antes da casa terminar de sonhar.

A Casa que Dorme no Brejo

Sinopse

Laura Menezes volta ao povoado de Santa Bruma para vender a casa herdada da avó, erguida sobre um brejo que desaparece durante o dia e respira à noite. O comprador interessado é Caio Vilar, restaurador de imóveis antigos e antigo amor de adolescência, que sabe demais sobre a família dela. Entre tábuas molhadas, retratos virados e uma promessa enterrada, Laura descobre que a casa não quer novos donos. Quer alguém da família de volta.

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