Universo da obra
Universo da obra
Bianca Valença recebeu o convite de casamento dentro de um envelope sem remetente, três semanas depois de ter bloqueado a irmã em todas as redes sociais. O papel era caro, creme, com letras douradas e um corte atravessado no canto superior, feito por lâmina afiada. Elisa vai se casar, dizia a primeira linha, embora Elisa jurasse odiar casamento desde a infância, quando vestiu a boneca de noiva e a jogou no poço da casa antiga só para assustar a mãe. Bianca leu o endereço da igreja, a data e o nome do noivo. Augusto Rios. Não conhecia nenhum Augusto Rios. Conhecia, porém, a rua onde a festa aconteceria, no fim de Vila Serena, diante da casa que a família fingia ter vendido havia quinze anos.
Ela chegou na véspera da cerimônia com uma mala pequena, um vestido azul escuro e a disposição exata de quem pretendia resolver tudo antes do jantar. Vila Serena continuava igual no que tinha de pior. Calçadas estreitas, muros baixos, vizinhas atrás de cortina e o cheiro de pão doce saindo da padaria como tentativa de inocência. A mãe não atendeu o telefone. Elisa mandou apenas uma mensagem, sem pontuação, dizendo vem sozinha. O táxi a deixou na praça. Quando Bianca perguntou pela igreja de Santa Lúcia, o motorista respondeu que estava fechada desde terça. Perguntou também se ela era parente da moça do vestido. Bianca não gostou da palavra moça, porque naquela cidade ninguém usava termo vago sem motivo.
Na porta da igreja, encontrou Gabriel Sampaio sentado no primeiro degrau, com paletó pendurado no ombro e a mesma cicatriz pequena no queixo que ela lembrava de beijar aos dezenove anos. Agora ele usava distintivo preso ao cinto e cara de homem que dormira pouco por escolha ruim. Bianca quase voltou para o táxi. Gabriel levantou devagar, sem surpresa. Disse que imaginou que ela viria. Ela perguntou se aquilo era convite ou intimação. Ele respondeu que talvez ambos, dependendo do que ela ainda escondia sobre a casa do fim da rua. A frase atingiu o lugar certo. Bianca apertou o envelope na mão. O papel rasgado cortou seu dedo, e uma gota de sangue caiu sobre o nome de Augusto Rios.
Gabriel explicou que o noivo desaparecera dois dias antes. A família de Bianca dizia que ele viajara para resolver problema de documentos. O cartório dizia que Augusto Rios não existia com aquele CPF. A igreja recebera flores, músicos e vestido, porém nenhum pedido formal de casamento. Bianca perguntou por que a polícia não invadira a casa da mãe dela com toda essa delicadeza criminal. Gabriel olhou para a rua lateral, onde uma senhora fingia alimentar pombos invisíveis. Disse que a delegacia local ficava muito sensível quando o sobrenome Valença aparecia. Bianca sorriu sem humor. O sobrenome Valença sempre fora útil para abrir portas. Naquele dia, parecia útil para mantê-las trancadas.
O primeiro sinal de Elisa apareceu dentro da igreja fechada. Gabriel tinha a chave. Isso já bastou para Bianca entender que ele se envolvera além do protocolo. No altar, onde deveria haver flores, havia uma caixa de sapato embrulhada em renda branca. Dentro estavam o buquê seco da avó, uma foto de Bianca adolescente na frente da casa do fim da rua e um pedaço do convite com outra data escrita à mão. Quinze anos antes. O dia em que o pai delas desapareceu. Bianca sentiu a garganta fechar e odiou o corpo por lembrar antes da cabeça. Gabriel encontrou sob a caixa um bilhete dobrado. A letra era de Elisa. Se Bianca chegou, fechem a rua antes que mamãe conte a versão dela.
Bianca retorna a Vila Serena para ser madrinha no casamento da irmã caçula, mas encontra o noivo desaparecido, a igreja fechada e um antigo amor investigando a família da noiva. Entre vestidos guardados, convites falsos e uma casa no fim da rua onde ninguém entra depois das seis, ela descobre que o casamento talvez tenha sido criado para atrair uma testemunha que todos julgavam morta.
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