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A Arcádia e a Inconfidência

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A Arcádia e a Inconfidência

Capítulo 1 · A Arcádia e a Inconfidência

A Arcádia e a Inconfidência - bloco 01

A Arcádia e a Inconfidência

Tese para concurso da Cadeira de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de Sto Paulo, 1945.

"Chamavam a este concluio ajunta- mento de poetas, querendo significar com lato, ser fabulosa a projetada revo- lução, assim como fabulosos eram oa mistérios da poesia."

"Ültimos Momentos dos Inconfiden- tes de 1789", pelo Frade que os assistiu em confissão.

F R E I VICENTE DO SALVADOR ilustra pitorescamente a ganância metropolitana durante o nosso período colonial, quando diz que arrancando o que podiam do Brasil, os dominadores ensi- navam os seus loiros a repetir: Papagaio Real! Para Portu- gal! Para Portugall Uma informação autorizada faz subir a cem milhões de esterlinos, o ouro exportado do Brasil para a Metrópole durante o século X V I I I . Esse ouro, particularmen- te o das Minas Gerais ia, através de Lisboa, influir nos mer- cados financeiros da época, alimentando as forças do capita- lismo nascente. Dessa conjuntura histórica, em que Portugal, depois das suas pesadas lutas autonomistas com a Espanha, passa a se debater nas mãos equipadas da Inglaterra, resta um monu- mento que se diria erigido à expropriação. £ o convento de Mafra, junto de Lisboa, que no seu pálido rococó exprime a cópia e a decadência e diz o quanto estamos longe da viríli- dade da Batalha e de Thomar, dos Jerônimos, do castelo da Pena e de Alcobaça.

£ o século XVin, quando as conseqüências ideológicas dos descobrimentos e das invenções agravam o debate entre a tirania e a liberdade, a ignorância e a cultura, a tradição e a revolução. Faltam homens à Metrópole, a colônia os fornecerá, ho- mens que valem o ouro que daqui partiu. São os precursores históricos da nossa emancipação' intelectual e da nossa espiri- tualidade, que precedem de meio século os Inconfidentes: Bar- tolomeu Lourenço de Gusmão, o padre Voador, seu irmão Alexandre, os irmãos Matias Aires e Teresa Margarida da Silva e Horta e Antônio José, o Doutor Judeu. Nesse campo forti- ficado do atraso extremo-ocidental, perecem um a um. Bar- tolomeu de Gusmão, uma das figuras mestras da nova Euro- pa, seria achincalhado e perseguido, para ir morrer em Tole- do, quando fugia na direção & Paris. Alexandre devia ter o desvalimento e a decepção por prêmio de haver confirmado os limites bandeirantes do Brasil. A Matias Aires coube a glória amarga de ser um precursor de Schopenhauer. E a Te- resa Margarida da Silva e Horta deram o desajustamento da vida, o anonimato e o convento. Quem teve pior destino não foi, porém, nenhum desses quatro paulistas. Foi Antônio José, o Judeu, nascido no Rio de Janeiro. Ao escritor que se coloca no pórtico do teatro moderno europeu, para cá de Gil Vicente, mas, acima de quantos depois tentaram a arte da cena em lín- gua portuguesa, coube ser queimado nas fogueiras da Inquisi- ção. Os crimes desse grupo eram de fato alarmantes. Sua peri- culosidade pode ser medida pelo que queria o Padre Voador. Entre o fescenino Convento de Odivellas e os serões da Arcâdia, esse homem trazia no cérebro a aviação, nas suas mais ultrapasadas conseqüências. Eis o que consta do seu mani- festo apresentado a D. João V: "Senhor: Diz o licenciado Bartolomeu Lourenço de Gusmão, que ele tem descoberto um instrumento para andar pelo ar, da mesma sorte que pela terra e pelo mar e com muito mais brevidade, fazendo-se às vezes duzentas e mais léguas por dia, os quais instrumentos poderão levar avisos de mais importância aos exércitos e às terras mais remotas, quase ao mesmo tempo em

que se resolverem, porque interessa a Vossa Majestade muito mais do que a nenhum dos Príncipes, pela maior distância de seus domínios, evitando-se desta sorte, os desgovernos das Conquistas que provêm em grande parte de chegar muito tarde as notícias delas. Além de que poderá Vossa Majestade man- dar vir o precioso delas, muito mais brevemente e mais se- guro poderão os homens de negócios passar letras e cabedais e todas as Praças sitiadas poderão ser socorridas, tanto de gente como de munições e víveres a todo o tempo e tirarem-se delas, todas as pessoas que quiserem. Sem que o inimigo possa in- tervir, descobrir-se-ão as regiões que ficam mais vizinhas aos Pólos do mundo." O documento e datado de 1709. Certos panoramistas da cultura (Spengler, A. Weber, Key- serling, Sorolcin, etc.) dão menos importância à intervenção colonial no desenvolvimento da História que os economistas. Sombart, n O Burguês, declara que sem as jazidas brasileiras "não teríamos o homem econômico moderno". Se as descobertas geográficas mudaram a face da terra, foi por se ter rompido com elas o statu quo econômico do Oci- dente e dado a preponderância a povos que antes não podiam progredir com seus próprios recursos. Os dois países da Penín- sula Ibérica, a Holanda, a Inglaterra, a própria França. Até os nossos dias prosseguem as lutas por zonas de influência e mer- cados mundiais que desde o século XVI modificavam a vida da Europa. Sobre as minas de ouro do Brasil escrevia o donatário Duarte da Costa, em carta de 1542: "Cada dia que passa se esquentam mais as novas". E Frei Vicente do Salvador referia a existência de uma serra de cristais cravada de esmeraldas. Surgem as desilusões e o primeiro governador Tomé de Souza declara ao Rei: "Não hei de falar mais em ouro, se não o mandar V. Majestade". O Rei porém manda. Portugal não se esquecera do seu primeiro fastígio trazido pelas descobertas de Ásia e África quando seus embaixadores desfilavam pelas ruas de Roma, precedendo um elefante que levava numa torre um pontificai maravilhoso, presente de D. Manuel a Leão X. Durante o século XVI e mesmo no outro quando.«e inicia o bandeirismo, o ouro permanece no seio encantado das mon-

tenhas e no fundo indevassável das águas. £ D. Diogo de Me- nezes exclama para o Monarca: "As verdadeiras minas são o açúcar e o pau-tinta, de que V. M. tira tanto proveito sem lhe custar de sua fazenda um só vintém". Mas a imaginação do povo peninsular continua a dizer que "todo o sertão é ouro e prata". A rotina monótona da agricultura nenhum lucro dá ao que trabalha no Continente. Um escritor do século XVII dedica um opúsculo de propagan- da "aos pobres do Reino de Portugal". Esses pobres são mui- tos. Em vez das amotinações campônias que ensagâentaram a Idade Média, eles tiveram a transferência oceânica das desco- bertas. Há ouro no Novo Mundo. Mas... os paulistas, donos de uma rebeldia nativa sem par, teriam retardado a mineração por dois séculos prevendo o que ela traria no bojo. Estranha contradição do bandeirismo! Quem afirma isso é o governa- dor do Rio, Antônio Paes de Sande, citado por João Lúcio de Azevedo. As minas começam de fato, a ser achadas e explora- das somente no inicio do século XVIII, depois da localização de Fernão Dias Pais. Advém dai um clima de otimismo afir- mando que elas vão dar ouro "enquanto o mundo durar" e que acabarão mais facilmente os negros escravos que o metal. Os negros não acabam, ao contrário, vêm empacotados nos maremotos dos veleiros, mas, uma vez em terra firme, costu- mam desaparecer pelo mato adentro. D. João V decreta então que ao negro fugido se corte a perna direita e se ponha em seu lugar outra de pau, "para andar sempre perto". Ê tal a corrida na direção do Brasil aurífero que em 1720 proíbe-se a saída dos passageiros do Reino. Afirma-se que frotas do Rio chegam ao Tejo tendo por lastro ouro. São documentos reproduzidos pelos minuciosos estudos do autor das Épocas de Portugal Econômico. Nas Minas Gerais ferve o aventurismo. "A mistura é de toda condição de pessoas, homens e mulheres, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares, clérigos e religiosos de diversos institutos muitos dos quais não tem convento nem casa" — refere o jesuíta AntoniL A prepotência impera. "Mandam ca- par e matar muitos homens" — diz Garcia Pais em carta ao Rei. Abre-se a luta entre paulistas e reinóis. A autonomia in- dígena ataca os Emboabas, sustidos pelo governo.

£ vedada a entrada das ordens regulares nas Minas Gerais. O lôbrego conde de Assumar avisa que os nativos querem "erigir uma república neste governo". E consuma-se na amon- tinaaa Vila Rica a tragédia ae Felipe dos Santos. Portugal já havia, em meio do debate religioso europeu, tomado posição no mais que oportuno sistema ae idéias, me- dieval e teocêntrico, oferecido pela Contra-Reforma. Uma política correlata de conquistas alioerçava o Abso- lutísmo, vinda do afã espiritual e cultural dos jesuítas. A Com- panhia domina o ensino na Península. Salamanca e Coimbra realizam as argúcias da Esoolástica e exportam seus mestres. São os célebres Conimbres. O Concilio Tridentino, por obra de Lainez, realizou uma espécie de Tordesilhas espiritual, acaparando o mundo de cá. "Ilha da Purificação" é como se intitula a Península, afastada das aventuras espirituais da Re- forma e do Humanismo. Dentro em pouco o jesuíta oonfessor gpza de fama igual a do Professor Jesuíta, e tanto quanto a cátedra e a gramática latina, diz Bõhmer (citado por Pandiá Calógeras) poderia o confessionário simbolizar a Companhia. Dela saíam Conselheiros Reais. Para noção dp quanto chegara a influência dos jesuítas conimbricenses sobre a Europa católica, basta recordar que foram eles professores de Descartes no colégio de La Flécke. O autor do Discottrs de la Méthode aprendeufilosofia com os padres portugueses Pedro da Fonseca — o Aristóteles de Coim- bra — Manoel de Goés e outros. E é um jesuíta luso, Francisco de Santo Agostinho de Macedo, quem vai reger a Universidade de Pádua, chamada pelos humanistas "o castelo forte da barbá- rie escolástica". Nela fumegam ainda os resíduos do Avenoís- mo. Na Europa reformada, o livre-exame conduzia, pela dis- cussão dos textos, a uma comunicação nova e a uma reivindi- cação da personalidade cristã contra a qual ergue-se Loiola. A sua tarefa é também, como a dos Reformadores, liquidar o paganismo a que chegara o Papado. Já que se profanou e corrompeu a catolicidade medioeva, os jesuítas empalmam a perdida missão ecumênica da Igreja, Uma diferença os marca. Eles são os maometanos de Cristo.

Entra na sua arrancada um fogo estranho que não dissimula raízes árabes. £ a disciplina, a tenacidade mística, a entrega do perinde ac cadáver, desconhecidas do primeiro cristianismo como do alto Papado. Há uma espécie ae tara cultural que reaparece no cerne de sua vocação teocêntrica. Sob os disfarces escolásticos dir-se-ia que Averrois lança da Córdoba islamita, a voz renovada de Aristóteles. £ tão grande a sua ausência de "estado de graça" que mais tarde quando o Marquês de Pom- bal vai Iniciar a expulsão de suas hostes das cortes da Europa, pode acusá-los de "ateísmo". "Não é crível que trabalhem tantos homens para arruinarem o dogma da fé sem serem ateís- tas, separados aa crença de Deus". Contra o racionalismo de Descartes, foi no racionalismo de Averrois que eles forjaram a sua blindagem espiritual para as lutas da Idade Moderna. Não faltam comentadores que imputem de muçulmanismo a descida ideológica de Loiola. O geômetra Manuel de Azevedo Fortes afirma ser a Escolástica uma deformação de Aristóteles pelas traduções dos árabes, atribuindo a infecúndidade da filo- sofia commbricense à deformação do Stagirita por "Avicena, Averrois e outros comentadores do Islã". A paixão árabe que tanto influiria nos nossos costumes, traz como último argumento do proselitismo — a fogueira. Nisso os Dominicanos confraternizam com os jesuítas. O Papa Inocêncio XI exclama para os padres portugueses: — "Voi siete barbaramente catolici . E o culto Verney acusa a Inquisição de ser um "tribunal anticristão, invenção de Maomé". Nas marcas de oonvicção, disciplina e expansionismo, a organização guerreira dos jesuítas denuncia o seu arabismo. Através de Averrois, é em Aristóteles mesmo, em certos textos e em certas atitudes mentais, que parece irem eles buscar o seu idealismo residual e violento. No Êudemo, insistindo sobre a vi- da autônoma do espirito, o Stagirita chegara a "amaldiçoar o próprio corpo". Não estamos longe dos Exercícios Espirituais. Esse Diálogo provocado pela morte de um amigo caro, arranca do filósofo grego o seguinte: "O que vale mais para os ho- mens não é nascer... o que vale mais para todos é não nascer, e nascendo o morrer o mais depressa possível". Eis uma coincidência onde refulge o pessimismo espiritua- lista dos filhos de Inigo de Loiola, face a euforia e ao otimismo

A Arcádia e a Inconfidência

Sinopse

A Arcádia e a Inconfidência é a tese apresentada por Oswald de Andrade em 1945 para concurso da cadeira de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. A edição Literúnico preserva o texto autoral em domínio público, sem reproduzir aparato editorial protegido.

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