Leia agora
Pauliceia Desvairada

Universo da obra

Pauliceia Desvairada

Capítulo 1 · Pauliceia Desvairada

Dedicatória e Prefácio Interessantíssimo

A MÁRIO DE ANDRADE

Mestre querido. Nas muitas horas breves que me fizestes ganhar a vosso tado dizieis da vossa confiança pela arte livre e sincera... Não de mim, mas de vossa experiência recebi a coragem da minha Verdade e o orgulho do meu Ideal. Permiti-me que ora vos oferte êste livro que de vós me veio. Prouvera Deus ! nunca vos perturbe a dúvida feroz de Adriano Sixte... Mas não sei, Mestre, si me perdoareis a distância mediada entre estes poemas e vossas altíssimas lições... Recebei no vosso perdão o esforço do escolhido por vós para único discípulo; daquele que nêste momento de martírio muito a medo inda vos chama o seu Guia, o seu Mestre, o seu Senhor. Mario de Andrade 14 (ie DEZEMBRO de 1921 S. PAULO

Prefácio Interessantíssimo « Dam mon pays de fiel el d’or j’en suis la loi

Veh h a eren

Leitor: Está fundado o Desvairismo.

Este prefácio, apesar de interessante, inútil.

Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões,

confrontando obra e dados. Para quem me regeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou. Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. D’ai a razão dêste Prefácio Interessantissimo.

U -í

Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a hlagiie, onde principia a seriedade. Nem eu sei.

E desculpe-me por estar tão atrasado dos movimentos artísticos actuais. Sou passadista,

confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu; e o autor deste livro seria hipócrita si pretendesse representar orientação moderna que ainda não compreende bem. Livro evidentemente impressionista. Ora, segundo modernos, erro grave o Impressionismo. Os arquitectos fogem do gótico como da arte nova, filiando-se, para alem dos tempos históricos, nos volumes elementares: cubo, esfera, etc. Os pintores desdenham Delacroix como Whistler, para se apoiarem na calma constructiva de Rafael, de Ingres, do Grecco. Na escultura Rodin é ruim, os imaginários africanos são bons. Os músicos despresam Debussy, genuflexos deante da polifonia catedralesca de Palestrina e João Sebastião Bach. A poesia... « tende a despojar o homem de todos os seus

aspectos contingentes e efêmeros, para apanhar nele a humanidade »... Sou passadista, confesso.

« Este Alcorão nada mais é que uma embrulhada de sonhos confusos e incoerentes. Não é inspiração provinda de Deus, mas criada pelo autor. Maomé não é profeta, é um homem que faz versos. Que se apresente com algum sinal revelador do seu destino, como os antigos profetas ». Talvez digam de mim o que disseram do criador de Alá. Differença cabal entre nós dois: Maomé apresentava-se como profeta; julguei mais conveniente apresentar-me como louco. Você já leu São João Evangelista? Walt Whitman ? Mallarmé ? Verhaeren ? IV V

Perto de dez anos metrifiquei, rimei. Exemplo?

A rtista O meu desejo é ser pintor — Lionardo, cujo ideal em piedades se acrisola; fazendo abrir-se ao mundo a ampla corola do vsonho ilustre que em meu peito guardo

Meu anseio é, trazendo ao fundo pardo da vida, a cor da veneziana escola, dar tons de rosa e de ouro, por esmola, a quanto houver de penedia ou cardo.

Quando encontrar o manancial das tintas e os pincéis exaltados com que pintas, Veroncso ! teus quadros c teus frisos,

irei morar onde as Desgraças moram; e viverei de colorir sorrisos nos lábios dos que imprecam ou que choram!

Os snrs. Laurindo de Brito, Martins Fontes, Paulo Setubal, embora não tenham evidentemente a envergadura de Vicente de Carvalho ou de Francisca Julia, publicam seus versos. E fazem muito bem. Podia, como eles, publicar meus versos metrificados.

Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contacto com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saisse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me pesaria reentrar na obscuridade. Pensei que se discutiriam minhas ideas (que nem são minhas): discutiram minhas intenções. Já agora não me calo. Tanto ridicularizariam meu silêncio como esta grita.

Andarei a vida de braços no ar, como o «Indiferente» de Watteau.

«Alguns leitores ao lerem estas frases (poesia citada) não compreenderam logo. Creio mesmo que é impossivel compreender inteiramente á primeira leitura pensamentos assim squematizados sem uma certa prática. Nem é nisso que um poeta pode queixar-se dos seus leitores. No que estes se tornam condenáveis é em não pensar que um autor que assina não escreve asnidades pelo simples prazer de experimentar tinta; e que, sob essa extravagância aparente havia um sentido porventura interessantíssimo, que havia qualquer coisa por compreender ». João Epstein. Ha neste mundo um senhor chamado Zdislas Milner. Entretanto escreveu isto: « 0 facto duma

obra se afastar de preceitos e regras aprendidas, não dá a medida do seu valor ». Perdoe-me dar algum valor a meu livro. Não ha pai que, sendo pai, abandone o filho corcunda que se afoga, para salvar o lindo herdeiro do visinho. A ama-de-leite do conto foi uma grandíssima cabotina desnaturada.

Todo escritor acredita na valia do que escreve Si mostra é por vaidade. Si não mostra é por vaidade também.

Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.

O ridículo é muitas vezes subjectivo. Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre.

Criamo-lo para vestir com êle quem fere nosso orgulho, ignorância, esterilidade. Um pouco de teoria ? Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, crea frases que são versos inteiros, sem prèjuizo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada. Entroncamento é sueto para os condenados da prisão alexandrina. Ha porém raro exemplo dêlc nêste livro. Uso de caximbo... A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer impecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que, somada a Lirismo, dá Poesia (1), não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisa-lo das pedras e cercas (1) Lirismo + Arte = Poesia, fórmula de P. Dermée.

de arame do caminho. Deixe c[ue tropece, caia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos.

Que Arte não seja porém limpar versos de exagêros coloridos. Exagêro: simbolo sempre novo da vida como do sonho. Por ele vida e sonho se irmanam. E, consciente, não é defeito, mas meio legítimo de expressão.

« O vento senta no ombro das tuas velas ! » Shakespeare. Homero já escrevera que a terra mugia debaixo dos pés de homens e cavalos. Mas você deve saber que ha milhões de exagêros na obra dos mestres. Taine disse que o ideal dum artista consiste em « apresentar, mais que os próprios objectos.

completa e claramente qualquer característica essencial e saliente deles, por meio de alterações sistemáticas das relações naturais entre as suas partes, de modo a tornar essa característica mais visível e dominadora ». O snr. Luis Carlos, porém, reconheço que tem o direito de citar o mesmo em defêsa das suas “Colunas.” Já raciocinou sobre o chamado « belo horrivel » ? E’ pena. O belo horrivel é uma escapatória criada pela dimensão da orelha de certos filósofos para justificar a atracção exercida, em todos os tempos, pelo feio sobre os artistas. Não me venham dizer que o artista, reproduzindo o feio, o horrivel, faz obra bela. Chamar de belo o que é feio, horrivel, só porquê está expressado cora grandeza, comoção, arte, é desvirtuar ou desconhecer o conceito da beleza. Mas feio = pecado. . . Atrái. Anita Malfatti falava-me outro dia no encanto sempre novo do feio. Ora Anita Malfatti ainda não leu Emilio Bayard : « O fim

lógico dum quadro é ser agrádavel de ver. Todavia comprazem-se os artistas em exprimir o singular encanto da feiura. 0 artista sublima tudo ».

Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório — questão de moda. Belo da natureza: imutável, objectivo, natural — tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir natureza, nem êste é seu fim. Todos os grandes artistas, ora consciente (Rafael das Madonas, Rodin do Balzac, Beethoven da Pastoral, Machado de Assis do Braz Cubas), ora inconscientemente (a grande maioria) foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico será tanto mais artístico, tanto mais subjectivo quanto mais se afastar do belo natural. Outros infiram o que quizerem. Pouco me importa. Nossos sentidos são frágeis. A percepção das

coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, prèconceitos, indisposições, antipatias, ignorâncias, hereditariedade, circumstáncias de tempo, de lugar, etc__ Só idealmente podemos conceber os objectos como os actos na sua inteireza bela ou feia. A arte que, mesmo tirando os seus temas do mundo objectivo, desenvolve-se em comparações afastadas, exageradas, sem exactidão aparente, ou indica os objectos, como um universal, sem delimitação qualificativa nenhuma, tem o poder de nos conduzir a essa idealização livre, musical. Esta idealização livre, subjectiva, permite criar todo um ambiente de realidades ideais onde sentimentos, sêres e coisas, belezas e defeitos se apresentam na sua plenitude heroica, que ultrapassa a defeituosa percepção dos sentidos. Não sei que futurismo pode existir em quem quasi perfilha a concepção estética de Fichte. Fujamos da natureza ! Só assim a arte

não se ressentirá da ridícula fraqueza da fotografia... colorida. Não acho mais graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um leito de Procusto para que obtenham, em ritmo convencional, número convencional de sílabas. Já, primeiro livro, usei indiferentemente, sem obrigação de retorno periódico, os diversos metros pares. Agora liberto-me também dêsse prèconceito. Adquiro outros. Razão para que me insultem ? Mas não desdenho baloiços dansarinos de redondilhas e decassílabos. Acontece a comoção caber nêles. Entram pois ás vezes no cabaré rítmico dos meus versos. Nesta questão de metros não sou aliado ; sou como a Argentina: enriqueço-me. Sobre a ordem ? « Repugna-me, com efeito, o que Musset chamou :

«L’art de servir à point un dénoument bien cuit». Existe a ordem dos colegiais infantes que saem das escolas de mãos dadas, dois a dois. Existe uma ordem nos estudantes das escolas superiores que descem uma escada de quatro em quatro degraus, chocando-se lindamente. Existe uma ordem, inda mais alta, na fúria desencadeada dos elementos. Quem leciona Historia do Brasil obedecerá a uma ordem que, certo, não consiste em estudar a guerra do Paraguai antes do ilustre acaso de Pedro Alvares. Quem canta seu subconsciente seguirá a ordem imprevista das comoções, das associações de imagens, dos contactos exteriores. Acontece que o tema ás vezes descaminha.

0 impulso lírico clama dentro de nós como turba enfuriada. Seria engraçadíssimo que a esta

se dissesse: « Alto lá ! Cada qual berre por sua vez ; e quem tiver o argumento mais forte, guarde-o para o fim ! » A turba é confusão aparente. Quem souber afastar-se idealmente dela, verá o imponente desenvolver-se dessa alma colectiva, falando a retórica exacta das reivindicações.

Minhas reivindicações ? Liberdade. Uso dela ; não abuso. Sei embrida-la nas minhas verdades filosóficas e religiosas ; porquê verdades filosóficas, religiosas, não são convencionais como a Arte, são verdades. Tanto não abuso ! Não pretendo obrigar ninguém a seguir-me. Costumo andar sózinho. Virgilio, Homero, não usaram rima. Virgilio, Homero, têm assonáncias admiráveis. A lingua brasileira é das mais ricas e sonoras.

Jîsí

E possúi o admirabilíssimo « ão ».

Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal, musical da palavra em liberdade. Aliás: velha como Adão. Marinetti errou: fez dela sistema. E' apenas auxiliar poderosíssimo. Uso palavras em liberdade. Sinto que o meu copo é grande demais para mim, e inda bebo no copo dos outros.

^ Sei construir teorias engenhosas. Quer ver ? A poética está muito mais atrasada que a música. Esta abandonou, talvez mesmo antes do século 8, o regime da melodia quando muito oitavada, para enriquecer-se com os infinitos recursos da harmonia. A poética, com rara excepção até meados do século 19 francês, foi essencialmente melódica. Chamo de verso melódico o mesmo que melodia musical:

arabesco horisontal de vozes (sons) consecutivas, contendo pensamento inteligível. Ora, si em vez de unicamente usar versos melódicos horisontais: « Mnezarete, a divina, a pálida Phrynea Comparece ante a austera e rígida assemblea Do Areópago supremo . . . » fizermos que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras, pelo facto mesmo de se não seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem umas ás outras, para a nossa sensação, formando, não mais melodias, mas harmonias. Explico milhor: Harmonia: combinação de sons simultâneos. Exemplo: « Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas.. . Estas palavras não se ligam. Não formam enumeração. Cada uma é frase, período elíptico, reduzido ao mínimo telegráfico. Si pronuncio «Arroubos», como não faz parte

de frase (melodia), a palavra chama a atenção para seu insulamento e fica vibrando, á espera duma frase que lhe faça adquirir significado e QUE NÃO VEM. « Lutas » não dá conclusão alguma a « Arroubos »; e, nas mesmas condições, não fazendo esquecer a primeira palavra, fica vibrando com ela. As outras vozes fazem o mesmo. Assim: em vez de melodia (frase gramatical) temos acorde arpejado, harmonia, — o verso harmónico. Mas, si em vez de usar só palavras soltas, uso frases soltas: mesma sensação de superposição, não já de palavras (notas) mas de frases (melodias). Portanto: polifonia poética. Assim, em “Pauliceia Desvairada” usam-se o verso melódico: «São Paulo é um palco de bailados russos»; o verso harmónico: «A caiiiçalha. . . A Bolsa.. . As jogatinas. . .» ; e a polifonia poética (um e ás vezes dois e mesmo mais versos consecutivos): « A engrenagem trepida... A bruma neva. . . »

Que tal ? Não se esqueça porém que outro virá destruir tudo isto que construí. Para ajuntar á teoria:

Os gênios poéticos do passado conseguiram dar maior interesse ao verso melódico, não só criando-o mais belo, como fazendo-o mais variado, mais comotivo, mais imprevisto. Alguns mesmo conseguiram formar harmonias, por vezes ricas. Harmonias porém inconscientes, esporádicas. Provo inconsciência: Victor Hugo, muita vez harmônico, exclamou depois de ouvir o quarteto do Rigoletto: «Façam que possa combinar simultaneamente várias frases e verão de que sou capaz.» Encontro anecdota em Galli, Estética Musical. Se non é vero...

Ha certas figuras de retórica em que podemos ver embrião da harmonia oral, como na lição das

sinfonias de Pitágoras encontramos germe da harmonia musical. Antitese — genuina dissonância. E si tão apreciada é justo porquê poetas como músicos, sempre sentiram o grande encanto da dissonância, de que fala G. Migot. Comentário á frase de Hugo. Harmonia oral não se realiza, como a musical, nos sentidos, porquê palavras não se fundem como sons, antes baralham-se, tornam-se incompreensíveis. A realização da harmonia poética efectua-se na inteligência. A compreensão das artes do tempo nunca é imediata, mas niediata. Na arte do tempo coordenamos actos de memória consecutivos, que assimilamos num todo final. Este todo, resultante de estados de consciência successives, dá a compreensão final, completa da musica, poesia, dansa terminada. Victor Hugo errou querendo realizar objectivamente o que se realiza subjectivamente, dentro de nós.

Os psicólogos não admitirão a teoria... E’ responder-lhes com o « Só-quem-ama » de Bilac. Ou com os versos de Heine de que Bilac tirou o « Só-quem-ama ». Entretanto : si você já teve por acaso na vida um acontecimento forte, imprevisto (já teve, naturalmente) recorde-se do tumulto desordenado das muitas ideas que nesse momento lhe tumultuaram no cérebro. Essas ideas, reduzidas ao mínimo telegráfico da palavra, não se continuavam, porquê não faziam parte de frase alguma, não tinham resposta, solução, continuidade. Vibravam, ressoavam, amontoavam-se, sobrepunham-se. Sem ligação, sem concordância aparente — embora nascidas do mesmo acontecimento — formavam, pela successão rapidíssima, verdadeira simultaneidade, verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica e larga do acontecimenlo.

Bilac, Tarde, é muitas vezes tentativa de harmonia poética. Daí, em parte ao menos, o estilo novo do livro. Descobriu, para a lingua brasileira, a harmonia poética, antes dêle empregada raramente. (Gonçalves Dias, genialmente, na scena da luta, Y - Juca - Pirama), O defeito de Bilac foi não metodizar o invento; tirar dêle todas as consequências. Explica-se historicamente seu defeito: Tarde é um apogeu. As decadências não vêm depois dos apogeus. O apogeu já é decadência, porquê sendo estagnação não pode conter em si um progresso, uma evolução ascencional. Bilac representa uma fase destructiva da poesia; porquê toda perfeição em arte significa destruição. Imagino o seu susto, leitor, lendo isto. Não tenho tempo para explicar: estude, si quiser. 0 nosso primitivismo representa uma nova fase constructiva. A nós compete squematizar, metodizar as lições do passado. Volto ao poeta. Ele fez como os criadores do

Organum medieval: aceitou harmonias de quartas e de quintas despresando terceiras, sextas, todos os demais intervallos. 0 número das suas harmonias é muito restrito. Assim, «.. .0 ar e o chão, a fauna e a flora, a erva e o passaro, a pedra e o tronco, os ninhos e a hera, a agua e o réptil, a folha e o insecto, a flor e a [fera » dá impressão duma longa, monótona série de quintas medievais, fastidiosa, excessiva, inútil, incapaz de sugestionar o ouvinte e dar-lhe a sensação do crepúsculo na mata. (1) Lirismo: estado afectivo sublime — visinho da sublime loucura. Preocupação de métrica e de (1) Ha 6 ou 8 mezes expus esta teoria aos meus amigos. Recebo agora, dezembro, numero 11 e 12, novembro, da revista «Esprit Nouveau»- Aliás «Esprit Nouveau»: minhas andas nêste Prefácio Interessantissimo. Epstein, continuando estudo «0 Fenômeno Literário » observa o harmonismo moderno, a que denomina simultaneïsmo. Acha-o interessante, mas diz que é «utopia fisiológica». Epstein no mesmo êrro de Hugo.

rima prejudica a naturalidade livre do lirismo objectivado. Por isso poetas sinceros confessam nunca ter escrito seus milhores versos. Rostand por exemplo; e, entre nós, mais ou menos, o sr. Amadeu Amaral. Tenho a felicidade de escrever meus milhores versos. Milhor do que isso não posso fazer.

Ribot disse algures que inspiração é telegrama cifrado transmitido pela actividade inconsciente á actividade consciente que o traduz. Essa actividade consciente pode ser repartida entre poeta e leitor. Assim aquele não escorcha e esmiuça friamente o momento lírico; e bondosamente concede ao leitor a glória de colaborar nos poemas.

« A linguagem admite a forma dubitativa que o mármore não admite ». Renan.

/< Entre o artista plástico e o músico está o poeta, que se avisinha do artista plástico com a sua

produção consciente, enquanto atinge as possibilidades do músico no fundo obscuro do inconsciente ». De Wagner.

Você está reparando de que maneira costumo andar sozinho...

Dom Lirismo, ao desembarcar do Eldorado do Inconsciente no cáis da terra do Consciente, é inspeccionado pela visita médica, a Inteligência, que o alimpa dos macaquinhos e de toda e qualquer doença que possa espalhar confusão, obscuridade na terrinha progressista. Dom Lirismo sofre mais uma visita alfandegária, descoberta por Freud, que a denominou Censura. Sou contrabandista ! E contrário á lei da vacina obrigatória. Parece que sou todo instinto... Não é verdade.. Ha no meu livro, e não me desagrada, tendência

pronunciadamente intelectualista. Que quer você ? Consigo passar minhas sedas sem pagar direitos. Mas é psicologicamente impossível livrar-me das injecções e dos tônicos. A gramática apareceu depois de organizadas as linguas. Acontece que meu inconsciente não sabe da existência de gramáticas, nem de linguas organizadas. E como Dom Lirismo é contrabandista... Você perceberá com facilidade que si na minha poesia a gramática ás vezes é despresada, graves insultos não sofre nêste prefácio interessantissimo. Prefácio: rojão do meu eu superior. Versos: paisagem do meu eu profundo. Pronomes ? Escrevo brasileiro. Si uso ortografia

portuguesa é porquê, não alterando o resultado, dá-me uma ortografia. Escrever arte moderna não significa jamais para mim representar a vida actual no que tem de exterior: automóveis, cinema, asíalto. Si estas palavras frequentam-me o livro não é porquê pense com elas escrever moderno, mas porquê sendo meu livro moderno, elas têm nele sua razão de ser.

Sei mais que pode ser moderno artista que se inspire na Grécia de Orfeu ou na Lusitânia de Nun’Alvares. Reconheço mais a existência de temas eternos, passíveis de afeiçoar pela modernidade: universo, pátria, amor e a presença-dos-ausentes, ex-gôso-amargo-deinfelizes. Não quis também tentar primitivismo vesgo e insincero. Somos na realidade os primitivos

duma era nova. Esteticamente: fui buscar entre as hipóteses feitas por psicólogos, naturalistas e críticos sobre os primitivos das eras passadas, expressão mais humana e livre de arte.

O passado é lição para se meditar, não para reproduzir. « E tu che sè costí, anima viva, Pártiti da cotesti che son morti ». Por muitos anos procurei-me a mim mesmo. Achei. Agora não me digam que ando á procura da originalidade, porquê já descobri onde ela estava, pertence-me, é minha.

Quando uma das poesias dêstc livro foi

publicada, muita gente me disse: « Não entendi ». Pessoas houve porém que confessaram: « Endendi, mas não senti ». Os meus amigos... percebi mais duma vez que sentiam, mas não entendiam. Evidentemente meu livro é bom.

Escritor de nome disse dos meus amigos e de mim que ou éramos génios ou bêstas. Acho que tem razão. Sentimos, tanto eu como meus amigos, o anseio do farol. Si fossemos tão carneiros a ponto de termos escola colectiva, esta seria por certo o «Farolismo». Nosso desejo: alumiar. A extrema-esquerda em que nos colocámos não permite meio-termo. Si génios: indicaremos o caminho a seguir; bêstas: naufrágios por evitar. Canto da minha maneira. Que me importa si me não entendem ? Não tenho forças bastantes para me universalizar ? Paciência. Com o vário alaúde que construí, me parto por essa selva

selvagem da cidade. Como o homem primitivo cantarei a princípio só. Mas canto é agente simpático: faz renascer na alma dum outro prediposto ou apenas sinceramente curioso e livre, o mesmo estado lírico provocado em nós por alegrias, sofrimentos, ideais. Sempre hei-de achar também algum, alguma que se embalarão á cadência libertária dos meus versos. Nêsse momento: novo Anfião moreno e caixa-d’óculos, farei que as próprias pedras se reunam em muralhas á magia do meu cantar. E dentro dessas muralhas esconderemos nossa tribu. Minha mão escreveu a respeito dêste livro que « não tinha e não tem nenhuma intenção de o publicar ». Jornal do Comércio, 6 de Junho. Leia frase de Gourmont sobre contradição: 1.® volume das “Promenades Littéraires”. Rui Barbosa tem sobre ela página lindíssima, não

me recordo onde. Ha umas palavras também em João Cocteau, “La Noce Massacrée”. Mas todo êste prefácio, com todo o disparate das teorias que contém, não vale coisíssima nenhuma. Quando escrevi “Pauliceia Desvairada” não pensei em nada disto. Garanto porém que chorei, que cantei, que ri, que berrei... Eu vivo !

Aliás versos não se escrevem para leitura de olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se, choram-se. Quem não souber cantar não leia Paisagem n.*’ 1. Quem não souber urrar não leia Ode do Burguês. Quem não souber rezar, não leia Religião. Despresar: A Escalada. Soffrer: Colloque Sentimental. Perdoar: a cantiga do berço, um dos solos de Minha Loucura, das Enfibraturas do Ipiranga. Não continuo.

Pauliceia Desvairada

Sinopse

Texto original de Mário de Andrade, publicado em 1922, em edição de leitura a partir do OCR da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. O escopo inclui dedicatória, Prefácio Interessantíssimo e poemas do volume.

Ver ficha da edição física
Formato
A5 cm
Pauliceia Desvairada

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Pauliceia Desvairada

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias de Pauliceia Desvairada

Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Sinopse do universo · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir