Universo da obra
Universo da obra
DONA OLIVIA GUEDES PENTEADO
HOMENAGEM DO A U T O R
Musica Brasileira Até ha pouco a música artistica brasileira viveu divorciada da nossa entidade racial. Isso ti nha mesmo que suceder. A naçáo brasileira é antçrior á nossa raça. A própria música popular da Monarquia não apresenta uma fusão satisfatória. Os elementos que a vinham formando se lembravam das bandas de alem, muito puros ainda. Eram portugueses e africanos. Inda não eram brasileiros não. Si numa ou noutra peça folclórica dos meados do século passado já se delineiam os caracteres da música brasileira, é mesmo só com os derradeiros tempos do Império que êles principiara abundando. Era fatal: O s artistas duma raça indecisa se tornaram indecisos que nem ela. O que importa é saber si a obra dêsses artistas deve de ser contada como valor nacional. Acho incontestável que sim. Esta verificação até parece ociosa mas pro meio moderno brasilei ro sei que não é. Nós, modernos, manifestamos dois defeitos grandes: bastante ignorância e leviandade sistema tisada. É comum entre nós a rasteira derrubando da jangada nacional não só as obras e auto res passados como até os que atualmente empregam a tematica brasileira numa orquestra eu ropea ou no quarteto de cordas. Não é brasileiro se fala. E que os modernos, ciosos da curiosidade exterior de muitos dos documentos populares nos sos, confundem o destino dessa coisa séria que é a Musica Brasileira com o prazer deles, coisa diletante, individualista e sem importância nacional nenhuma. O que deveras êles gostam no brasileirismo que exigem a golpes duma crítica aparentemente defensora do patrimônio nacio nal, não é a expressão natural e necessária duma nacionalidade não, em vez é o exotismo, o ja mais escutado em música artistica, sensações fortes, vatapá, jacaré, vitoria-regia. Mas um elemento importante coincide com essa falsificação da entidade brasileira: opinião de europeu. O diletantismo que pede música só nossa está fortificado pelo que é bem nosso e consegue o aplauso estrangeiro. Ora por mais respeitoso que a gente seja da critica europea ca rece verificar duma vez por todas que o sucesso na Europa não tem importância nenhuma prá Musica Brasileira. Aliás a expansão do internacionalisado Carlos Gomes e a permanência alem-mar dele prova que a Europa obedece á genialidade e a cultua. Mas no caso de Vila-Lobos por exemplo é facil enxergar o coeficiente guassú com que o exo tismo concorreu pro sucesso atual do artista. H, Prunières confessou isso francamente. Ninguém não imagine que estou diminuindo o valor de V ila - Lobos não. Pelo ccaitrário: quero aumenta-lo.
Mesmo antes da pseudo-música indígena de agora Vila-Lobos era um grande compositor. A gran deza dele, a não ser pra uns poucos sobretudo Artur Rubinstein e Vera Janacopulos, passava des percebida. Mas bastou que fizesse uma obra extravagando bem do continuado pra conseguir o aplauso. Ora por causa do sucesso dos Oito Batutas ou do choro de Romeu Silva, por causa do suces so artístico mais individual que nacional de Vila-Lobos, só é brasileira a obra que seguir o passo deles? O valor normativo de sucessos assim é quasi nulo. A Europa completada e organisada num estádio de civilisação, campeia elementos estranhos pra se libertar de si mesma. Como a gente não tem grandeza social nenhuma que nos imponha ao Velho Mundo, nem filosófica que nem a Asia, nem economica que nem a America do Norte, o que a Europa tira da gente são elemen\tos de exposição universal: exotismo divertido. Na música, mesmo os europeus que visitam a gente perseveram nessa procura do exquisito apimentado. Si escutam um batuque brabo muito que bem, estão gosando, porem si é modinha sem sincopa ou certas efusões líricas dos tanguinhos de Marcelo Tupinambá, Isso é musica italiana! falam de cara enjoada. E os que são sabi dos se metem criticando e aconselhando, o que é perigo vasto. Numa toada num acalanto num abôio desentocam a cada passo frases francesas russas escandinavas. As vezes especificam que é Rossini, que é Boris.^^^ Ora o quê que tem a Musica Brasileira com isso! Si Milk parece com Milch, as palavras deixam de ser uma inglesa outra alemã? O que a gente pode mas é constatar que ambas vieram dum tronco só. Ninguém não lembra de atacar a italianidade de Rossini por quê tal frase dele coincide com outra da opera-cômica francesa. Um dos conselhos europeus que tenho escutado bem é que a gente si quiser fazer música na cional tem que campear elementos entre os aborígenes pois que só mesmo êstes é que são legiti mamente brasileiros. Isso é uma puerilidade que inclui ignorância dos problemas sociologicos, 1 étnicos psicologicos e esteticos. Uma arte nacional não se faz com escolha discrecionaria e di letante de elementos: uma arte nacional já está feita na inconsciência do povo. O artista tem só que dar pros elementos já existentes uma transposição erudita que faça da música popular, mú sica artística, isto é: imediatamente desinteressada. O homem da nação Brasil hoje, está mais afastado do ameríndio que do japonês e do húngaro. O elemento ameríndio no populario brasi leiro está psicologicamente assimilado e praticamente já é quasi nulo. Brasil é uma nação com normas sociais, elementos raciais e limites geográficos. O ameríndio não participa dessas coisas e mesmo parando em nossa terra continua ameríndio e não brasileiro. O que evidentemente não destrói nenhum dos nossos deveres pra com êle. Só mesmo depois de termos praticado os deve res globais que temos pra com êle é' que podemos exigir dele a prática do dever brasileiro. Si fosse nacional só o que é ameríndio, também os italianos não podiam empregar o orgão que é egipeio, o violino que é arabe, o cantochão que é grecoebraico, a polifonia que é nórdica, anglosaxonia flamenga e o diabo. Os franceses não podiam usar a ópera que é italiana e mui to menos a forma-de-sonata que é alemã. E como todos os povos da Europa são produto de mi grações preistoricas se conclui que não existe arte europea... Com aplausos inventários e conselhos desses a gente não tem que se amolar. São fruto de igno rância ou de gosto pelO’ exotico. Nem aquela nem este não podem servir pra critério dum julga mento normativo. ( 1)
Todas estas afirmativas já foram escutadas por mim, de estranhos... fazendo inventário do que é nosso.
Por isso tudo, Musica Brasileira deve de significar toda música nacional còmo criação quer I tenha quer não tenha caracter étnico. O padre Mauricio, I Salduni, Schumanniana são músicas brasileiras. T oda opinião em contrário é perfeitamente covarde, antinacional, anticrltica. E afirmando assim não faço mais que seguir um critério universal. As escolas étnicas em música são relativamente recentes. Ninguém não lembra de tirar do patrimônio itálico Gregorio Mao"no, Marchetto, João Gabrieli ou Palestrina. São alemães J. S. Bach, Haendel e Mozart, tres espiritos perfeitamente universais como formação e até como caracter de obra os dois úl timos. A França então se apropria de LuUi, Gretry, Meyerbeer, Cesar Franck, Honnegger e até Gluck que nem franceses são. Na obra de José Mauricio e mais fortemente na de Carlos Gomes, Levy, Glauco Velasquez, Miguez, a gente percebe um nâo-sei-quê indefinivel, um rúim que não é rúim propriamente, é um niim exquisito pra me utilisarduma frase de Manuel Bandei ra. Esse não-sei-quê vago mas geral é uma primeira fatalidade de raça. badalando longe. Então ■ na lirica de Nepomuceno, Francisco Braga, Henrique Osvaldo, Barroso Neto e outros, se per cebe um parentesco psicologico bem forte já. Que isso baste prá gente adquirir agora já o cri tério legítimo de música nacional que deve ter uma nacionalidade evolutiva e livre. Mas nesse caso um artista brasileiro escrevendo agora em texto alemão sobre assunto chi nês, música da tal chamada de universal faz música brasileira e é músico brasileiro. Não é não. Por mais sublime que seja, não só a obra não é brasileira como é antinacional. E socialmente o au tor dela deixa de nos interessar. Digo mais: por valiosa que a obra seja, devemos repudia-la, que nem faz a Rússia com Strawinsky e Kandinsky. O periodo atual do Brasil, especialmente nas artes, é o de nacionalisação. Estamos procurando conformar a produção humana do país com a realidade nacional. E é nessa ordem de ideas que justifica-se o conceito de Primitivismo aplicado ás orientações de agora. E um engano im agi nar que o primitivismo brasileiro de hoje é estetico. Ele é social. Um poeminho humorístico do Pau Brasil de Osvaldo de Andrade até é muito menos primitivista que um capítulo da Estética da Vida de Graça Aranha. Porquê este capitulo está cheio de pregação interessada, cheio de idealismo ritual e deformatorio, cheio de magia e de medo. O lirismo de Osvaldo de Andrade é uma brincadeira desabusada. A deformação empregada pelo paulista não ritualisa nada, só destrói pelo ridículo. Nas ideas que expõe não tem idealismo nenhum. Não tem magia. Não se confunde com a prática. E arte desinteressada. Pois toda arte socialmente primitiva que nem a nossa, é arte social, tribal, religiosa, co memorativa. E arte de circunstancia.'E interessada. T oda arte exclusivaraente artistica e de sinteressada não tem cabimento numa fase primitiva, fase de construção. E intrinsecamente in dividualista. E os efeitos do individualismo artístico no geral são destrutivos. Ora numa fase primitivistica, o indivíduo que não siga o ritmo dela é pedregulho na botina. Si a gente principia matutando sobre o valor intrínseco do pedregulho e o conceito filosofico de justiça, a pédra fica no sapato e a gente manqueja. “A pedra tem de ser jogada fora”. É uma injustiça feliz, uma in justiça justa, fruta de epoca. O critério atual de Musica Brasileira deve ser não filosofico mas social. Deve ser um crité rio de combate. A força nova que voluntariamente se disperdiça por um motivo que só pode ser
indecoroso(comodidade própria, covardia ou pretensão) é uma força antinacional e falsificadora. E arara. Porquê, imaginemos com senso-comum: Si um artista brasileiro sente em si a força do genio, que nem Beethoven e Dante sentiram, está claro que deve fazer música nacional. Por quê como genio saberá fatalmente encontrar os elementos essenciais da nacionalidade (Rameau Weber Wagner Mussorgski). Terá pois um valor social enorme. Sem perder em nada o valor artistico porquê não tem genio por mais nacional (Rabelais Goya Whitman Ocussai) que não seja do patrimônio universal. E si o artista faz parte dos 99 por cento dos artistas e reconhece que não é genio, então é que deve mesmo de fazer arte nacional. Porquê incorporando-se á e s cola italiana ou francesa será apenas mais ura na fornada ao passo que na escola iniciante será benemerito e necessário. Cesar Cui seria ignorado si não fosse o papel dele na formação da es cola russa. Turina é de importância universal mirim. Na escola espanhola o nome dele é impres cindível. Todo artista brasileiro que no momento atual fizer arte brasileira é um ser eficiente com valor humano. O que fizer arte internacional ou estrangeira, si não for genio, é um inútil, um nulo. E é uma reverendíssima besta. Assim: estabelecido o critério transcendente de Musica Brasileira que faz a gente com a co ragem dos Íntegros adotar como nacionais a Missa em Si Bemol e Salvador Rosa, temos que reconher que esse critério é pelo menos ineficaz pra julgar as obras dos atuais menores de quaren ta anos. Isso é logico. Porquê se tratava de estabelecer um critério geral e transcendente se r e ferindo á entidade evolutiva brasileira. Mas um critério assim é ineficaz pra julgar qualquer momento historico. Porquê transcende dele. E porquê as tendências históricas é que dão a for ma que as ideas normativas revestem. O critério de música brasileira prá atualidade deve de existir em relação á atualidade. A atualidade brasileira se aplica aferradamente a nacionalisar a nossa manifestação. Coisa que po de ser feita e está sendo sem nenhuma xenofobia nem imperialismo. O critério historico atual de Musica Brasileira é o da manifestação musical que sendo feita por brasileiro ou individuo nacionalisado, reflete as características musicais da raça. Onde que estas estão? Na música popular.
Texto original em OCR da edição de 1928 de Ensaio sobre a Música Brasileira, de Mário de Andrade, em domínio público no Brasil.
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