Universo da obra
Universo da obra
Clara escolheu a mesa do canto antes que Renato terminasse de cumprimentar o garçom. Era a mesa de sempre, encostada na parede de azulejos antigos, perto o bastante da cozinha para que o cheiro da chapa chegasse antes dos pratos. Renato conhecia o ritual e, ainda assim, fingiu surpresa quando ela passou por ele e pôs a bolsa na cadeira vazia.
— Você corre para esse canto como se alguém fosse tomar posse.
— Porque alguém pode tomar posse.
— De uma mesa manca?
Clara puxou a cadeira, sentou e mexeu o corpo de leve. A perna da frente tremeu contra o piso.
— Está menos manca do que você.
Renato levou a mão ao peito.
— Ataque gratuito logo na entrada.
— É para abrir o apetite.
O garçom apareceu com os cardápios fechados, por educação. Chamava-se Silas, embora Renato insistisse em chamá-lo de senhor quando queria desconto moral na sobremesa. Silas olhou para Clara e sorriu como quem já sabia a resposta.
— Hoje vai mudar, dona Clara?
Ela abriu o cardápio no meio, passou os olhos pela página das massas, virou uma folha, voltou, fingiu dúvida.
— Hoje eu quase mudo.
— Risoto de limão com frango, então.
Renato bateu dois dedos na mesa.
— A mulher é lida por profissionais.
— Não escuta ele, Silas. Um dia eu peço o peixe e vocês dois vão ter que rever toda essa soberba.
Silas anotou o risoto. Renato pediu a parmegiana pequena, que no prato nunca era pequena, e uma água com gás para dividir. Clara pediu uma taça de vinho branco. Renato ergueu as sobrancelhas só um pouco.
— Algum comentário?
— Nenhum.
— Sua testa comentou.
— Minha testa é independente.
Ela riu e tirou o casaco fino dos ombros. Havia passado a tarde no curso de fotografia, o terceiro sábado seguido, e ainda carregava no cabelo um cheiro de sala fechada, café de garrafa e chuva na roupa dos outros. Renato tinha ido buscá-la na saída. Esperou do lado de fora, debaixo da marquise, olhando as pessoas saírem com câmeras penduradas no pescoço e pastas pretas debaixo do braço.
No carro, ela falara quase sem pausa sobre enquadramento, luz lateral, uma mulher que fotografava portões enferrujados e um professor que dizia respiro da imagem com uma solenidade insuportável. Renato zombou do termo até ela ameaçar deixá-lo sem batatas no jantar.
Agora, sentada diante dele, Clara parecia ainda acesa daquela tarde. Mexia nas argolas pequenas da orelha, contava coisas fora de ordem, interrompia a si mesma para lembrar de outra pessoa, outro comentário, outra foto projetada na parede.
— Teve um cara que levou uma câmera antiga do pai — ela disse. — Daquelas enormes, que parecem objeto de filme.
— Funcionava?
— Funcionava. Ele deixou o professor pegar, virou quase cerimônia.
— O professor chorou?
— Faltou pouco.
— Nome do sacerdote?
Clara pegou a taça que Silas acabara de colocar na mesa e bebeu um gole pequeno antes de responder.
— Davi.
Renato assentiu. O nome entrou na conversa sem mudar o tom. Era só mais um personagem da tarde dela, como a mulher dos portões, o professor dramático, a moça que fotografara o próprio joelho por engano.
— Davi da câmera herdada.
— Isso.
— Se um dia eu morrer, você pode vender meu celular por valor sentimental.
— Vou anunciar como aparelho usado por homem que nunca sabia onde salvava os arquivos.
— Isso aumenta ou reduz o preço?
— Depende da compaixão do comprador.
A comida chegou. Clara roubou uma batata do prato dele antes de tocar no próprio risoto. Renato afastou a travessa com falso escândalo.
— Você tem um prato inteiro.
— Eu tenho um prato saudável.
— Risoto com queijo não é saudável.
— Comparado com isso aí, é uma horta.
Ele cortou a parmegiana e colocou um pedaço pequeno na borda do prato dela. Clara aceitou sem agradecer, porque alguns gestos entre os dois já tinham perdido a necessidade de cerimônia. Em troca, empurrou para ele uma garfada de risoto. Renato fez cara séria ao provar.
— Limão demais.
— Você sempre fala isso.
— E você sempre pede.
— Casamento é repetição com testemunha.
Renato gostou da frase. Ela viu pelo jeito como ele baixou os olhos para o prato, segurando o sorriso antes que ficasse grande demais. Havia oito anos de vida ali: na maneira como ele separava as batatas mais queimadas para ela, na maneira como Clara corrigia a posição do copo dele quando ficava perto demais da borda, na implicância com o sal, na memória de pratos antigos e brigas já sem força.
O celular dela vibrou sobre a mesa.
Foi um som breve, quase engolido pelo barulho da cozinha. Clara olhou por reflexo. A tela acendeu.
Davi.
A mensagem apareceu cortada abaixo do nome: “A foto do portão ficou...”
Renato estava com o garfo suspenso. Não parecia ter lido a mensagem inteira, talvez só o nome. Clara tocou no aparelho rápido demais, virou a tela para baixo e pegou a taça.
— Do curso? — ele perguntou.
— Grupo.
A resposta saiu pronta, antes mesmo de ela decidir mentir. Isso a incomodou mais do que a pergunta. Renato mastigou devagar, aceitando a palavra sem comentário.
— Estão mandando as fotos?
— Acho que sim.
— Quero ver depois a do joelho.
— Aquela é patrimônio do curso.
Ela tentou rir, mas o riso ficou curto. O celular, de bruços, parecia maior do que era. Clara encostou a mão nele, não para olhar, só para sentir a vibração caso viesse outra. Renato mudou de assunto. Falou do mercado, de uma infiltração pequena no teto da área de serviço, de uma promoção de detergente que ele suspeitava ser golpe por usar a palavra família no rótulo.
Clara acompanhou. Respondeu nos lugares certos. Riu quando devia. Ainda assim, parte dela continuou presa no retângulo escuro entre a taça e o saleiro.
No meio da sobremesa, ela pediu licença.
— Vou ao banheiro.
— Agora? O pudim acabou de chegar.
— Ele espera.
— Pudim não espera ninguém.
— Então protege o meu.
Renato puxou o prato para perto de si.
— Vou proteger de mim mesmo, que é o inimigo real.
Clara pegou a bolsa. Levou junto o celular, como se fosse natural. Talvez fosse. Talvez Renato nem tivesse reparado. Caminhou até o corredor estreito perto do caixa, passou pela porta da cozinha, ouviu Silas pedir duas águas sem gelo. No espelho do banheiro, a luz branca mostrou uma mulher arrumada o bastante para não chamar atenção e inquieta demais para se convencer disso.
Ela lavou as mãos sem precisar. Secou nos papéis finos que grudavam nos dedos. Só então desbloqueou a tela.
Davi escrevera duas mensagens.
“A foto do portão ficou boa. Você tinha razão sobre chegar mais perto.”
“Chegou bem?”
Clara ficou olhando para a pergunta. Não havia nada ali que um marido não pudesse ver. Nada vergonhoso, nada explícito, nada que justificasse o calor no rosto. Esse era o problema. A frase não fazia nada sozinha. Quem fazia era ela, parada no banheiro do restaurante, segurando o celular com as duas mãos como se estivesse escondendo um objeto roubado.
Digitou: “Cheguei. Foi engraçado hoje. Boa noite.”
Apagou o boa noite. Escreveu de novo. Apagou outra vez. Por fim enviou:
“Cheguei. Foi engraçado hoje.”
A resposta dele veio antes que ela guardasse o aparelho.
“Foi. Sua teoria dos portões salvou minha foto.”
Clara sorriu. O sorriso apareceu no espelho e a irritou. Arquivou a conversa, não apagou. Guardou o celular na bolsa e abriu a torneira de novo. Passou água nos pulsos. Quando voltou para a mesa, Renato havia deixado uma colher limpa sobre o prato dela e separado metade do pudim com uma linha quase perfeita.
— Fiscalizei o território.
— E roubou?
— Um pedaço técnico.
— O que é um pedaço técnico?
— Aquele que não conta.
Ela sentou. A cadeira balançou outra vez. Dessa vez Clara não comentou. Renato percebeu, ou Clara achou que percebeu. Ele empurrou o prato para ela.
— Era mesmo o grupo?
A pergunta veio leve. Tão leve que cabia uma resposta leve.
— Era.
Renato mexeu a colher no pudim dele, partindo a calda.
— Muita foto de portão?
— Muita.
— O mundo estava precisando.
— Você não entende arte.
— Eu entendo pudim.
Ela comeu uma colherada. O doce veio frio, quase excessivo. Clara queria voltar dois minutos no tempo e responder a Davi na frente de Renato, com preguiça, sem teatro. Queria que a frase enviada não tivesse gosto de escolha. Renato pediu a conta. Silas trouxe a pastinha preta, e os dois fizeram a disputa habitual sobre quem pagaria, embora a conta saísse do mesmo lugar no fim do mês.
— Deixa que eu pago — Clara disse.
— Está tentando me comprar?
— Estou tentando acumular poder.
— Com risoto e pudim?
— Impérios começaram com menos.
Renato entregou o cartão, mas deixou que ela conferisse a conta porque Clara gostava de encontrar erros pequenos e chamá-los de justiça. Não havia erro. Ela fingiu decepção.
Na saída, a chuva tinha parado. A calçada brilhava sob a luz dos postes, e uma poça comprida ocupava a beira da rua. Renato abriu a porta do carro para ela. A maçaneta do lado do passageiro às vezes emperrava quando a noite esfriava.
— Amanhã eu vejo isso — ele disse.
— Você fala isso há três meses.
— Estou amadurecendo a solução.
— A solução é uma oficina.
— Você sempre pula a parte filosófica.
No carro, Renato ligou o limpador uma vez para tirar as gotas esquecidas do vidro. Clara colocou a bolsa no colo e manteve a mão por cima do zíper. O gesto não passou despercebido para ela mesma. Renato dirigiu sem pressa. No semáforo, pousou a mão na coxa dela, como fazia quando o trânsito parava. Clara cobriu a mão dele com a sua.
— Gostei de te ouvir falando do curso — ele disse.
— Mesmo quando eu falei profundidade de campo quatro vezes?
— Principalmente aí. Você fica metida.
— Eu fico técnica.
— Fica metida técnica.
Ela riu. Dessa vez o riso saiu melhor. Renato apertou de leve os dedos dela antes de voltar a mão para o câmbio. Clara pensou em contar. Não havia o que contar, disse a si mesma. Um colega mandou mensagem. Ela respondeu. Só isso. O fato de ter escondido parecia maior porque ela estava cansada, porque bebera vinho, porque Renato tinha uma forma injusta de confiar nela sem pedir comprovante.
Em casa, ele tirou os sapatos na entrada e empurrou os dois para perto da parede. Clara deixou a bolsa no aparador da sala. O celular ficou dentro dela. Renato foi para a cozinha guardar a embalagem de alumínio com o resto do risoto.
— Isso aqui vira almoço amanhã — ele disse.
— Você vai comer risoto requentado?
— Sou um homem sem medo.
— Você é um homem com preguiça.
Ele abriu a geladeira e reorganizou potes com a concentração de quem resolvia um problema de engenharia. Clara ficou olhando da porta. Amava aquela cena. Amava o cuidado torto, a mania de encaixar tudo, o modo como Renato fazia da casa uma coisa possível. Foi por isso que a mentira do restaurante voltou a crescer dentro dela, pequena e insistente, como pedrinha no sapato.
No quarto, Renato escovou os dentes primeiro. Clara trocou de roupa devagar, colocou a blusa no cesto e vestiu uma camiseta velha dele. Quando foi ao banheiro, levou a bolsa junto e se odiou por isso. Trancou a porta sem necessidade. Abriu a conversa arquivada. Davi não tinha escrito mais nada.
Ela segurou o celular sobre a pia.
Podia apagar. Podia deixar. Podia mostrar para Renato e rir da própria idiotice. Em vez disso, silenciou a conversa. Depois guardou o aparelho no bolso da camiseta, como se fosse só distração.
Renato já estava deitado quando ela voltou. O abajur aceso do lado dele deixava o quarto amarelo. Ele lia uma notícia no celular, os óculos baixos no nariz. Clara deitou, puxou o lençol até a cintura e virou de lado.
— Você vai dormir com o celular no bolso? — ele perguntou.
Clara ficou imóvel por meio segundo.
— Nossa. Nem vi.
Tirou o aparelho do bolso e colocou sobre a cômoda, longe da cama. Normalmente ele ficava na cabeceira, perto do carregador. Renato olhou para a cômoda. Depois olhou para ela.
— Vai carregar não?
— Amanhã eu carrego.
— Você, que entra em pânico com quarenta por cento?
— Hoje eu sou outra mulher.
Ele sorriu, mas o sorriso demorou pouco.
— Boa noite, outra mulher.
— Boa noite.
Clara apagou o abajur do lado dela. Renato continuou com o dele aceso por alguns minutos. Ela fechou os olhos e fingiu que já estava quase dormindo. Ouviu quando ele colocou os óculos sobre o criado-mudo. Ouviu o clique do interruptor. No escuro, o quarto retomou os barulhos pequenos de sempre: a geladeira armando na cozinha, um carro passando na rua, o lençol quando Renato mudou de posição.
Clara pensou que nada tinha acontecido.
Do outro lado da cama, Renato ficou acordado olhando para o retângulo escuro do celular dela em cima da cômoda.
Clara e Renato vivem um casamento feliz até que um beijo fora do casamento muda a forma como os dois entendem culpa, desejo e cumplicidade. Entre confissões, limites, brigas e reconciliações, eles tentam descobrir se o amor que construíram é capaz de atravessar aquilo que nenhum dos dois sabe nomear direito.
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