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Romeu e Julieta

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Romeu e Julieta

Capítulo 6 · Romeu e Julieta

Ato I — Cena IV. Uma rua.

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Ato I — Cena IV. Uma rua.

Entram Romeu, Mercúcio, Benvólio, com cinco ou seis mascarados; porta-tochas e outros.

ROMEU.
Como? Será dito esse discurso em nossa desculpa?
Ou seguiremos adiante sem apologia?

BENVÓLIO.
Já passou o tempo de tais prolixidades:
Não teremos Cupido vendado com um lenço,
Trazendo um arco tártaro pintado, feito de ripa,
A espantar as damas como guarda de corvos;
Nem prólogo decorado, dito frouxamente
Depois do ponto, para nossa entrada.
Mas que nos meçam como quiserem:
Nós lhes mediremos uma dança e partiremos.

ROMEU.
Dai-me uma tocha; não sou feito para esse passo miúdo.
Sendo tão pesado, levarei a luz.

MERCÚCIO.
Não, gentil Romeu, precisamos que danceis.

ROMEU.
Eu não, crede-me; tendes sapatos de dança,
Com solas ligeiras; eu tenho uma alma de chumbo
Que me finca ao chão, e não posso mover-me.

MERCÚCIO.
Sois amante: tomai emprestadas as asas de Cupido,
E com elas subi acima de um salto comum.

ROMEU.
Estou dolorido demais, traspassado por sua seta,
Para voar com suas leves penas; e tão preso,
Não posso saltar um palmo acima do torpe pesar.
Sob o pesado fardo do amor eu me afundo.

MERCÚCIO.
E, para afundar nele, deveis vós carregar o amor;
Opressão grande demais para coisa tão terna.

ROMEU.
É o amor coisa terna? É áspero demais,
Rude demais, turbulento demais; e espeta como espinho.

MERCÚCIO.
Se o amor é áspero convosco, sede áspero com o amor;
Espetai o amor por vos espetar, e abatereis o amor.
Dai-me um estojo para meter meu rosto: põe uma máscara.
Uma viseira para outra viseira. Que me importa
Que olho curioso anote deformidades?
Aqui estão sobrancelhas de besouro que hão de corar por mim.

BENVÓLIO.
Vinde, batei e entrai; e, mal estejamos dentro,
Cada homem entregue-se às próprias pernas.

ROMEU.
Uma tocha para mim: que os folgazões, leves de coração,
Façam cócegas com os calcanhares nos juncos insensíveis;
Pois a mim cabe o provérbio de avô:
Serei porta-candeia e olharei.
O jogo nunca esteve tão belo, e eu já acabei.

MERCÚCIO.
Ora, pardo é o rato, palavra do próprio meirinho:
Se estás atolado, nós te tiraremos do lodo,
Ou, salvo vosso respeito, do amor em que estás metido
Até as orelhas. Vinde, estamos queimando a luz do dia, olá!

ROMEU.
Não, não é isso.

MERCÚCIO.
Quero dizer, senhor, que, demorando,
Gastamos nossas luzes em vão, luzes acesas de dia.
Tomai nosso bom sentido, pois nosso juízo se assenta
Cinco vezes nisso antes de uma vez em nossos cinco sentidos.

ROMEU.
E temos boa intenção indo a este baile de máscaras;
Mas não há juízo em ir.

MERCÚCIO.
Por quê? Pode-se perguntar?

ROMEU.
Sonhei um sonho esta noite.

MERCÚCIO.
E eu também.

ROMEU.
Pois qual foi o vosso?

MERCÚCIO.
Que os sonhadores muitas vezes mentem.

ROMEU.
Na cama, adormecidos, enquanto sonham coisas verdadeiras.

MERCÚCIO.
Oh, então vejo que a Rainha Mab esteve convosco.
Ela é a parteira das fadas, e vem
Em forma não maior que uma pedra de ágata
No indicador de um vereador,
Puxada por uma parelha de pequenos átomos
Sobre o nariz dos homens enquanto jazem adormecidos:
Os raios de sua carruagem são de longas pernas de aranha;
A cobertura, de asas de gafanhotos;
As correias, da menor teia de aranha;
As coleiras, dos raios aquosos do luar;
Seu chicote, de osso de grilo; a correia, de película;
Seu cocheiro, um pequeno mosquito de casaca cinzenta,
Nem metade tão grande quanto um vermezinho redondo
Picado do dedo preguiçoso de uma criada;
Seu coche é uma avelã vazia,
Feita pelo esquilo carpinteiro ou pelo velho caruncho,
Desde tempos imemoriais fabricantes de coches das fadas.
E, nesse estado, ela galopa noite após noite
Pelos cérebros dos amantes, e então eles sonham com amor;
Sobre os joelhos dos cortesãos, que logo sonham com reverências;
Sobre os dedos dos advogados, que logo sonham com honorários;
Sobre os lábios das damas, que logo sonham com beijos,
Os quais a colérica Mab muitas vezes castiga com bolhas,
Porque seus hálitos estão manchados de confeitos.
Às vezes galopa sobre o nariz de um cortesão,
E então ele sonha que fareja uma demanda;
E às vezes vem com a cauda de um porco de dízimo,
Fazendo cócegas no nariz de um pároco enquanto ele dorme,
E então ele sonha com outro benefício.
Às vezes conduz sobre o pescoço de um soldado,
E então ele sonha cortar gargantas estrangeiras,
Com brechas, emboscadas, lâminas espanholas,
Saúdes de cinco braças de fundo; e logo depois
Tambores lhe soam ao ouvido, com que ele se sobressalta e desperta;
E, assim assustado, jura uma prece ou duas,
E torna a dormir. Esta é a própria Mab
Que entrança à noite as crinas dos cavalos;
E coze os nós de elfo nos cabelos sujos e desleixados,
Os quais, uma vez desembaraçados, auguram muita desgraça.
Esta é a bruxa que, quando as moças jazem de costas,
As oprime e lhes ensina primeiro a suportar,
Fazendo delas mulheres de bom porte.
Esta é ela...

ROMEU.
Paz, paz, Mercúcio, paz;
Falais de nada.

MERCÚCIO.
Verdade, falo de sonhos,
Que são filhos de um cérebro ocioso,
Gerados de nada senão de vã fantasia,
Que é de substância tão tênue quanto o ar,
E mais inconstante que o vento, que corteja
Neste instante o seio gelado do norte,
E, enfurecido, sopra para longe dali,
Voltando o flanco ao sul orvalhado.

BENVÓLIO.
Esse vento de que falais nos sopra para fora de nós mesmos:
A ceia acabou, e chegaremos tarde demais.

ROMEU.
Temo que cedo demais: pois minha mente pressente
Alguma consequência ainda suspensa nas estrelas,
Que há de iniciar amargamente sua temerosa data
Com os festejos desta noite, e encerrar o prazo
De uma vida desprezada, encerrada em meu peito,
Por algum vil preço de morte prematura.
Mas aquele que tem o leme de meu curso
Dirija minha vela. Avante, alegres senhores!

BENVÓLIO.
Toca, tambor.

Saem.

Romeu e Julieta

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Romeo and Juliet, tragédia de William Shakespeare em domínio público. A edição preserva a estrutura teatral em prólogo, atos e cenas, com linguagem clássica legível para leitura contemporânea.

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