Leia agora
Romeu e Julieta

Universo da obra

Romeu e Julieta

Capítulo 3 · Romeu e Julieta

Ato I — Cena I. Um lugar público.

3 de 26 ≈ 14 min de leitura

Ato I — Cena I. Um lugar público.

Entram Sansão e Gregório, armados de espadas e broquéis.

SANSÃO.
Gregório, por minha palavra, não carregaremos carvão.

GREGÓRIO.
Não, pois então seríamos carvoeiros.

SANSÃO.
Quero dizer que, se nos meterem em cólera, puxaremos da espada.

GREGÓRIO.
Sim, enquanto viveres, trata de puxar o pescoço para fora da coleira.

SANSÃO.
Eu bato depressa, quando me provocam.

GREGÓRIO.
Mas não és depressa provocado a bater.

SANSÃO.
Um cão da casa de Montecchio me provoca.

GREGÓRIO.
Provocar é mover; e ser valente é ficar firme: portanto, se te moves, foges.

SANSÃO.
Um cão daquela casa me moverá a ficar firme. Tomarei a parede de qualquer homem ou criada dos Montecchios.

GREGÓRIO.
Isso mostra que és um fraco escravo, pois o mais fraco vai para a parede.

SANSÃO.
Verdade; e por isso as mulheres, sendo vasos mais frágeis, são sempre empurradas contra a parede: portanto, afastarei da parede os homens de Montecchio e empurrarei suas criadas contra ela.

GREGÓRIO.
A querela é entre nossos senhores e nós, seus homens.

SANSÃO.
Dá tudo no mesmo; mostrarei que sou tirano: depois de lutar com os homens, serei civil com as moças; cortar-lhes-ei as cabeças.

GREGÓRIO.
As cabeças das moças?

SANSÃO.
Sim, as cabeças das moças, ou suas virgindades; toma-o no sentido que quiseres.

GREGÓRIO.
Terão de tomá-lo no sentido as que o sentirem.

SANSÃO.
A mim elas hão de sentir enquanto eu puder ficar de pé; e é sabido que sou boa peça de carne.

GREGÓRIO.
Ainda bem que não és peixe; se fosses, serias bacalhau seco. Desembainha tua ferramenta; aí vem gente da casa dos Montecchios.

Entram Abraão e Baltasar.

SANSÃO.
Minha arma nua está fora: arma a questão; eu te darei apoio.

GREGÓRIO.
Como? Viras as costas e corres?

SANSÃO.
Não temas por mim.

GREGÓRIO.
Não, por Maria; temo a ti!

SANSÃO.
Ponhamos a lei de nosso lado; deixemos que eles comecem.

GREGÓRIO.
Eu franzirei a testa ao passar por eles, e que tomem como quiserem.

SANSÃO.
Não; como ousarem. Morderei o polegar para eles, o que lhes é afronta se a suportarem.

ABRAÃO.
Mordeis o polegar para nós, senhor?

SANSÃO.
Mordo o polegar, senhor.

ABRAÃO.
Mordeis o polegar para nós, senhor?

SANSÃO.
A lei fica de nosso lado se eu disser que sim?

GREGÓRIO.
Não.

SANSÃO.
Não, senhor, não mordo o polegar para vós, senhor; mas mordo o polegar, senhor.

GREGÓRIO.
Quereis brigar, senhor?

ABRAÃO.
Brigar, senhor? Não, senhor.

SANSÃO.
Mas, se quiserdes, senhor, estou ao vosso dispor. Sirvo a homem tão bom quanto o vosso.

ABRAÃO.
Não melhor.

SANSÃO.
Pois bem, senhor.

Entra Benvólio.

GREGÓRIO.
Dize melhor; aí vem um dos parentes de meu senhor.

SANSÃO.
Sim, melhor, senhor.

ABRAÃO.
Mentis.

SANSÃO.
Puxai, se sois homens. Gregório, lembra-te do teu golpe de lavar.

Lutam.

BENVÓLIO.
Separai-vos, tolos! Guardai vossas espadas; não sabeis o que fazeis.

Derruba-lhes as espadas.

Entra Tebaldo.

TEBALDO.
Como? Estás de espada em punho entre estes servos sem coração?
Vira-te, Benvólio, e contempla tua morte.

BENVÓLIO.
Não faço senão conservar a paz; guarda tua espada,
Ou maneja-a para apartar estes homens comigo.

TEBALDO.
Como? De espada em punho, e falas de paz? Odeio a palavra
Como odeio o inferno, todos os Montecchios e a ti.
Defende-te, covarde.

Lutam.

Entram três ou quatro Cidadãos com bordões.

PRIMEIRO CIDADÃO.
Porretes, alabardas e partasanas! Batei! Derrubai-os!
Abaixo os Capuletos! Abaixo os Montecchios!

Entram Capuleto, em seu roupão, e a Senhora Capuleto.

CAPULETO.
Que rumor é este? Dai-me minha espada longa, olá!

SENHORA CAPULETO.
Uma muleta, uma muleta! Por que chamais por uma espada?

CAPULETO.
Minha espada, digo! O velho Montecchio chegou,
E brande sua lâmina para afrontar-me.

Entram Montecchio e a Senhora Montecchio.

MONTECCHIO.
Tu, vilão Capuleto! Não me detenhas; deixa-me ir.

SENHORA MONTECCHIO.
Não darás um passo para procurar inimigo.

Entra o Príncipe Escalo, com acompanhantes.

PRÍNCIPE.
Súditos rebeldes, inimigos da paz,
Profanadores deste aço manchado por vizinhos,
Não querem ouvir? Como! Olá! Homens, feras,
Que apagais o fogo de vossa raiva perniciosa
Com fontes purpúreas que brotam de vossas veias,
Sob pena de tortura, dessas mãos sangrentas
Lançai ao chão vossas armas desgovernadas
E ouvi a sentença de vosso príncipe, ora comovido.
Três rixas civis, nascidas de palavra vã,
Por ti, velho Capuleto, e por ti, Montecchio,
Três vezes perturbaram a quietude de nossas ruas,
E fizeram os antigos cidadãos de Verona
Despirem seus ornamentos graves e convenientes,
Para empunhar velhas partasanas, em mãos tão velhas,
Carcomidas pela paz, a fim de apartar vosso ódio carcomido.
Se outra vez perturbardes nossas ruas,
Vossas vidas pagarão a perda da paz.
Desta vez, partam todos os demais:
Vós, Capuleto, vireis comigo;
E vós, Montecchio, vinde esta tarde
Saber nossa vontade ulterior neste caso,
À velha Cidade Livre, nosso comum lugar de julgamento.
Mais uma vez, sob pena de morte, todos se dispersem.

Saem o Príncipe e acompanhantes; Capuleto, Senhora Capuleto, Tebaldo, Cidadãos e Criados.

MONTECCHIO.
Quem tornou a abrir esta antiga querela?
Fala, sobrinho; estavas presente quando começou?

BENVÓLIO.
Aqui estavam os criados de vosso adversário
E os vossos, em cerrado combate, antes que eu me aproximasse.
Desembainhei para apartá-los; no mesmo instante chegou
O ardente Tebaldo, de espada preparada,
A qual, enquanto ele soprava desafio em meus ouvidos,
Fazia girar em torno da cabeça e cortava os ventos,
Que, ilesos, assobiavam-lhe em escárnio.
Enquanto trocávamos estocadas e golpes,
Chegaram mais e mais homens, e lutaram de um lado e de outro,
Até que veio o Príncipe, que apartou ambas as partes.

SENHORA MONTECCHIO.
Oh, onde está Romeu? Vistes hoje meu filho?
Muito me alegra que não estivesse nesta contenda.

BENVÓLIO.
Senhora, uma hora antes que o venerado sol
Espiasse pela janela dourada do oriente,
Uma mente inquieta impeliu-me a caminhar fora,
Onde, sob o arvoredo de sicômoros
Que se enraíza a oeste deste lado da cidade,
Tão cedo, andando, vi vosso filho.
Dirigi-me a ele; mas percebeu-me
E esgueirou-se para o abrigo do bosque.
Eu, medindo seus afetos pelos meus próprios,
Que então mais buscavam onde menos podiam ser encontrados,
Sendo eu mesmo companhia demais para mim fatigado,
Segui meu humor, não seguindo o dele,
E de bom grado evitei quem de bom grado fugia de mim.

MONTECCHIO.
Em muitas manhãs tem sido visto ali,
Aumentando com lágrimas o fresco orvalho matinal,
Somando nuvens às nuvens com seus profundos suspiros;
Mas tão logo o sol, que a todos anima,
Começa, no extremo oriente, a puxar
As cortinas sombrias do leito de Aurora,
Meu filho sombrio foge da luz e rouba-se para casa,
E, privado em seu quarto, ali se encerra,
Fecha as janelas, tranca fora a bela luz do dia
E faz para si uma noite artificial.
Negro e funesto há de provar-se esse humor,
Se bom conselho não lhe remover a causa.

BENVÓLIO.
Meu nobre tio, conheceis a causa?

MONTECCHIO.
Nem a conheço, nem posso aprendê-la dele.

BENVÓLIO.
Tendes insistido com ele por algum meio?

MONTECCHIO.
Tanto por mim mesmo como por muitos outros amigos;
Mas ele, conselheiro de seus próprios afetos,
É para si — não direi quão fiel —
Mas para si tão secreto e tão fechado,
Tão distante de sondagem e descoberta,
Como o botão mordido por invejoso verme
Antes que possa abrir suas doces folhas ao ar
Ou dedicar sua beleza ao sol.
Se ao menos soubéssemos de onde crescem seus pesares,
Com igual vontade daríamos a cura e o conhecimento.

Entra Romeu.

BENVÓLIO.
Vede, aí vem ele. Se vos apraz, afastai-vos;
Saberei sua mágoa, ou muito me será negada.

MONTECCHIO.
Quisera eu que fosses tão feliz, ficando,
A ponto de ouvir verdadeira confissão. Vinde, senhora, vamos.

Saem Montecchio e a Senhora Montecchio.

BENVÓLIO.
Bom-dia, primo.

ROMEU.
É tão jovem ainda o dia?

BENVÓLIO.
Mal bateu nove horas.

ROMEU.
Ai de mim, horas tristes parecem longas.
Foi meu pai aquele que saiu tão depressa?

BENVÓLIO.
Foi. Que tristeza alonga as horas de Romeu?

ROMEU.
Não ter aquilo que, tendo, as faria breves.

BENVÓLIO.
No amor?

ROMEU.
Fora.

BENVÓLIO.
Do amor?

ROMEU.
Fora do favor daquela por quem estou enamorado.

BENVÓLIO.
Ai, que o amor, tão gentil em sua aparência,
Seja na prova tão tirânico e rude.

ROMEU.
Ai, que o amor, cuja vista está sempre vendada,
Sem olhos veja caminhos para a própria vontade!
Onde iremos jantar? Oh, eu! Que briga houve aqui?
Não me digas; pois já ouvi tudo.
Aqui há muito que ver com ódio, mas mais ainda com amor:
Por que então, ó amor briguento! ó ódio amoroso!
Ó qualquer coisa, de nada primeiro criada!
Ó pesada leveza! vaidade séria!
Caos disforme de formas bem-aparentes!
Pluma de chumbo, fumaça clara, fogo frio, saúde enferma!
Sono sempre desperto, que não é o que é!
Este amor sinto eu, que não sinto amor nisto.
Não ris?

BENVÓLIO.
Não, primo; antes choro.

ROMEU.
Bom coração, por quê?

BENVÓLIO.
Pela opressão de teu bom coração.

ROMEU.
Pois tal é a transgressão do amor.
Minhas próprias dores pesam graves em meu peito,
E tu as propagarás, fazendo-o oprimir-se
Com mais das tuas. Este amor que me mostraste
Acrescenta mais pesar ao excesso dos meus.
O amor é fumaça feita do vapor dos suspiros;
Purificado, é fogo que cintila nos olhos dos amantes;
Contrariado, é mar nutrido com lágrimas de amantes.
Que mais é ele? Loucura assaz discreta,
Fel que sufoca e doce que preserva.
Adeus, meu primo.

Vai saindo.

BENVÓLIO.
Devagar! Irei contigo;
E, se me deixas assim, fazes-me agravo.

ROMEU.
Ora! Perdi-me a mim mesmo; não estou aqui.
Este não é Romeu; ele está em alguma outra parte.

BENVÓLIO.
Dize-me, com seriedade: quem é aquela que amas?

ROMEU.
Como? Devo gemer e dizer-te?

BENVÓLIO.
Gemer! Ora, não; mas dize-me seriamente quem é.

ROMEU.
Manda a um doente, com seriedade, fazer seu testamento:
Palavra mal urgida a quem está tão mal.
Com seriedade, primo, amo uma mulher.

BENVÓLIO.
Eu mirava bem perto quando supus que amavas.

ROMEU.
És bom atirador; e é bela aquela que amo.

BENVÓLIO.
Um alvo belo, belo primo, é mais depressa atingido.

ROMEU.
Pois nesse acerto erras: ela não será atingida
Pela seta de Cupido; tem o espírito de Diana;
E, fortemente armada em prova de castidade,
Vive incólume ao arco fraco e infantil do amor.
Não se renderá ao cerco de palavras amorosas,
Nem suportará o encontro de olhos assaltantes,
Nem abrirá o colo ao ouro que seduz santas.
Oh, ela é rica em beleza; só é pobre
Porque, quando morrer, com a beleza morrerá seu tesouro.

BENVÓLIO.
Então jurou viver sempre casta?

ROMEU.
Jurou; e nessa poupança faz enorme desperdício,
Pois beleza faminta por sua severidade
Corta a beleza de toda posteridade.
Ela é bela demais, sábia demais; sabiamente bela demais
Para merecer bem-aventurança fazendo-me desesperar.
Jurou renunciar ao amor; e nesse voto
Vivo morto, eu que vivo agora para contá-lo.

BENVÓLIO.
Rege-te por mim: esquece de pensar nela.

ROMEU.
Oh, ensina-me como devo esquecer de pensar.

BENVÓLIO.
Dando liberdade a teus olhos;
Examina outras belezas.

ROMEU.
Esse é o caminho
Para pôr mais em questão a beleza dela, requintada.
Essas máscaras felizes que beijam frontes de belas damas,
Por serem negras, lembram-nos que ocultam o belo;
Aquele que foi ferido de cegueira não pode esquecer
O precioso tesouro da vista perdida.
Mostra-me uma senhora que seja belíssima:
Para que serve sua beleza, senão como nota
Onde eu possa ler quem ultrapassou essa belíssima?
Adeus; não podes ensinar-me a esquecer.

BENVÓLIO.
Pagarei essa doutrina, ou morrerei em dívida.

Saem.

Romeu e Julieta

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Romeo and Juliet, tragédia de William Shakespeare em domínio público. A edição preserva a estrutura teatral em prólogo, atos e cenas, com linguagem clássica legível para leitura contemporânea.

Romeu e Julieta

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Romeu e Julieta

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Romeu e Julieta Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Romeu e Julieta

Capa de Romeu e Julieta
Continue a leitura Ato I — Cena I. Um lugar público. Capítulo 3 · 3 de 26 · ≈ 14 min
Todos os capítulos 26 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir