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Romeu e Julieta

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Romeu e Julieta

Capítulo 18 · Romeu e Julieta

Ato III — Cena V. Uma galeria aberta para o quarto de Julieta, dando para o jardim.

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Ato III — Cena V. Uma galeria aberta para o quarto de Julieta, dando para o jardim.

Entram Romeu e Julieta.

JULIETA.
Queres partir? Ainda não está perto o dia.
Foi o rouxinol, e não a cotovia,
Que feriu o temeroso fundo de teu ouvido;
Toda noite ela canta naquela romãzeira.
Crê-me, amor, foi o rouxinol.

ROMEU.
Foi a cotovia, arauto da manhã,
Não o rouxinol. Olha, amor, que riscos invejosos
Rendam as nuvens que se apartam naquele oriente.
As velas da noite se extinguiram, e o dia jovial
Ergue-se na ponta dos pés sobre os cumes enevoados.
Devo partir e viver, ou ficar e morrer.

JULIETA.
Aquela luz não é luz do dia, eu bem o sei.
É algum meteoro que o sol exala
Para servir-te esta noite de porta-tocha
E iluminar teu caminho para Mântua.
Portanto, fica ainda; não precisas partir.

ROMEU.
Que eu seja tomado, que eu seja morto,
Estou contente, se assim o queres.
Direi que aquele cinzento não é o olho da manhã,
Mas apenas o pálido reflexo da fronte de Cíntia.
Nem é a cotovia aquela cujas notas golpeiam
A abóbada do céu tão alto sobre nossas cabeças.
Tenho mais cuidado em ficar que vontade de partir.
Vem, morte, e sê bem-vinda. Julieta assim o quer.
Como vai, minha alma? Falemos. Ainda não é dia.

JULIETA.
É, é sim! Apressa-te daqui, vai-te, parte.
É a cotovia que canta tão fora do tom,
Forçando ásperas dissonâncias e agudos desagradáveis.
Alguns dizem que a cotovia faz doce divisão;
Esta não o faz, pois divide a nós dois.
Alguns dizem que a cotovia e o sapo odioso trocaram olhos.
Oh, quisera eu agora que tivessem trocado também as vozes,
Pois de braço a braço essa voz nos assusta,
Caçando-te daqui com seu toque de alvorada.
Oh, parte agora; mais e mais luz vai crescendo.

ROMEU.
Mais luz e mais luz; mais trevas e mais trevas em nossas dores.

Entra a Ama.

AMA.
Senhora.

JULIETA.
Ama?

AMA.
Vossa senhora mãe vem para o vosso quarto.
O dia rompeu; cautela, olhai em volta.

Sai.

JULIETA.
Então, janela, deixa entrar o dia, e deixa sair a vida.

ROMEU.
Adeus, adeus; um beijo, e descerei.

Desce.

JULIETA.
Partiste assim? Amor, senhor, sim, esposo, amigo,
Preciso ter notícias tuas a cada hora do dia,
Pois em um minuto há muitos dias.
Oh, por esta conta terei muitos anos
Antes de tornar a ver meu Romeu.

ROMEU.
Adeus!
Não perderei ocasião alguma
Que possa levar-te minhas saudações, amor.

JULIETA.
Oh, pensas que havemos de nos encontrar outra vez?

ROMEU.
Não duvido; e todas estas dores hão de servir
Para doces conversas em nosso tempo vindouro.

JULIETA.
Ó Deus! Tenho uma alma de mau agouro!
Parece-me ver-te, agora que estás tão abaixo,
Como alguém morto no fundo de um túmulo.
Ou minha vista falha, ou estás pálido.

ROMEU.
E, crê-me, amor, aos meus olhos assim estás tu.
A dor seca bebe nosso sangue. Adeus, adeus.

Sai por baixo.

JULIETA.
Ó Fortuna, Fortuna! Todos os homens te chamam volúvel;
Se és volúvel, que fazes com aquele
Que é famoso por sua fidelidade? Sê volúvel, Fortuna;
Pois então, espero, não o conservarás por muito tempo,
Mas o mandarás de volta.

SENHORA CAPULETO.
Dentro. Olá, filha, estás de pé?

JULIETA.
Quem chama? É minha senhora mãe?
Não estará deitada tão tarde, ou erguida tão cedo?
Que causa desusada a traz aqui?

Entra a Senhora Capuleto.

SENHORA CAPULETO.
Ora, que há agora, Julieta?

JULIETA.
Senhora, não estou bem.

SENHORA CAPULETO.
Ainda sempre chorando a morte de teu primo?
Como? Queres lavá-lo da sepultura com lágrimas?
E, se pudesses, não poderias fazê-lo viver.
Portanto, basta: alguma dor mostra muito amor,
Mas muita dor mostra ainda alguma falta de juízo.

JULIETA.
Ainda assim, deixai-me chorar tão sentida perda.

SENHORA CAPULETO.
Assim sentirás a perda, mas não o amigo
Por quem choras.

JULIETA.
Sentindo tanto a perda,
Não posso senão chorar sempre o amigo.

SENHORA CAPULETO.
Bem, menina, não choras tanto por sua morte
Quanto porque vive o vilão que o massacrou.

JULIETA.
Que vilão, senhora?

SENHORA CAPULETO.
Esse mesmo vilão, Romeu.

JULIETA.
Vilão e ele estão separados por muitas milhas.
Deus o perdoe. Eu o perdoo, de todo o coração.
E contudo nenhum homem como ele aflige meu coração.

SENHORA CAPULETO.
Isso é porque vive o traidor assassino.

JULIETA.
Sim, senhora, longe do alcance destas minhas mãos.
Quem dera ninguém, senão eu, vingasse a morte de meu primo.

SENHORA CAPULETO.
Teremos vingança por isso, não temas.
Então não chores mais. Mandarei a alguém em Mântua,
Onde esse mesmo fugitivo banido vive,
Que lhe dê tão desacostumado trago
Que em breve fará companhia a Tebaldo;
E então espero que fiques satisfeita.

JULIETA.
Na verdade, jamais ficarei satisfeita
Com Romeu, até que eu o veja — morto —
Tão vexado está meu pobre coração por um parente.
Senhora, se pudésseis achar um homem
Que levasse um veneno, eu o prepararia,
Para que Romeu, tão logo o recebesse,
Dormisse em paz. Oh, como meu coração abomina
Ouvi-lo nomeado, e não poder chegar até ele,
Para descarregar o amor que eu tinha por meu primo
Sobre o corpo daquele que o massacrou.

SENHORA CAPULETO.
Acha tu os meios, e eu acharei tal homem.
Mas agora te direi alegres novas, menina.

JULIETA.
E a alegria vem bem em tempo tão necessitado.
Quais são elas, suplico a vossa senhoria?

SENHORA CAPULETO.
Bem, bem, tens um pai cuidadoso, filha;
Alguém que, para afastar-te de tua tristeza,
Escolheu um súbito dia de alegria,
Que tu não esperas, nem eu previa.

JULIETA.
Senhora, em hora feliz, que dia é esse?

SENHORA CAPULETO.
Pois bem, minha filha, cedo na próxima quinta-feira de manhã,
O galhardo, jovem e nobre cavalheiro,
O Conde Páris, na igreja de São Pedro,
Felizmente fará de ti uma noiva jubilosa.

JULIETA.
Agora, pela igreja de São Pedro, e por Pedro também,
Ele não fará de mim ali uma noiva jubilosa.
Espanta-me esta pressa, que eu deva casar
Antes que venha cortejar-me quem deve ser esposo.
Rogo-vos, senhora, dizei a meu senhor e pai
Que ainda não me casarei; e, quando o fizer, juro
Que será com Romeu, a quem sabeis que odeio,
Antes que com Páris. Eis aí novas, na verdade.

SENHORA CAPULETO.
Aí vem teu pai; dize-lhe tu mesma,
E vê como ele o receberá de tuas mãos.

Entram Capuleto e a Ama.

CAPULETO.
Quando o sol se põe, o ar goteja orvalho;
Mas pelo ocaso do filho de meu irmão
Chove a cântaros.
Que há agora? Uma fonte, menina? Como, ainda em lágrimas?
Sempre a chover? Em um só corpinho
Representas uma barca, um mar, um vento.
Pois teus olhos, que bem posso chamar de mar,
Enchem e vazam em lágrimas; a barca é teu corpo,
Navegando nesta cheia salgada; os ventos, teus suspiros,
Que, rugindo com tuas lágrimas, e elas com eles,
Sem uma súbita calmaria hão de virar
Teu corpo sacudido pela tempestade. Que há, esposa?
Entregastes a ela nosso decreto?

SENHORA CAPULETO.
Sim, senhor; mas ela não o quer, e vos dá graças.
Quisera eu que a tola estivesse casada com a sepultura.

CAPULETO.
Devagar. Deixai-me acompanhar-vos, deixai-me acompanhar-vos, esposa.
Como, ela não o quer? Não nos dá graças?
Não se orgulha? Não se julga bendita,
Indigna como é, de havermos obtido
Tão digno cavalheiro para ser seu noivo?

JULIETA.
Não me orgulho do que obtivestes, mas agradeço que o tenhais feito.
Orgulhar-me jamais posso daquilo que odeio;
Mas agradeço até o ódio quando se entende por amor.

CAPULETO.
Que há agora, que há agora, lógica picada? Que é isto?
Orgulhosa, e eu vos agradeço, e eu não vos agradeço;
E, contudo, não orgulhosa. Dona mimada,
Não me agradeças agradecimentos, nem me orgulhes orgulhos,
Mas apronta teus finos membros para a próxima quinta-feira,
A fim de ires com Páris à igreja de São Pedro,
Ou eu te arrastarei para lá sobre uma grade.
Fora, carniça de clorose! Fora, traste!
Cara de sebo!

SENHORA CAPULETO.
Fie, fie! Como, estais louco?

JULIETA.
Bom pai, suplico-vos de joelhos,
Ouvi-me com paciência dizer apenas uma palavra.

CAPULETO.
Enforca-te, jovem traste, miserável desobediente!
Eu te direi uma coisa: vai à igreja na quinta-feira,
Ou nunca mais me olhes no rosto.
Não fales, não repliques, não me respondas.
Meus dedos coçam. Esposa, mal nos julgávamos abençoados
Porque Deus nos emprestara esta única filha;
Mas agora vejo que esta uma já é demais,
E que temos uma maldição em tê-la.
Fora com ela, criatura vil!

AMA.
Deus no céu a abençoe.
Errais, meu senhor, em censurá-la assim.

CAPULETO.
E por quê, minha senhora sabedoria? Calai a língua,
Boa prudência; ide tagarelar com vossas comadres, ide.

AMA.
Não falo traição.

CAPULETO.
Oh, Deus vos dê boa-tarde!

AMA.
Não se pode falar?

CAPULETO.
Paz, tola resmungona!
Derramai vossa gravidade sobre a tigela das comadres,
Pois aqui dela não precisamos.

SENHORA CAPULETO.
Estais ardente demais.

CAPULETO.
Pelo pão de Deus, isto me enlouquece!
Dia, noite, hora, viagem, tempo, trabalho, folguedo,
A sós, em companhia, sempre foi meu cuidado
Vê-la bem casada; e agora, tendo provido
Um cavalheiro de nobre linhagem,
De belas terras, jovem, e nobremente aparentado,
Repleto, como dizem, de partes honrosas,
Proporcionado como o pensamento desejaria um homem,
E então haver esta miserável tola choramingas,
Esta boneca lamurienta, ante a oferta de sua fortuna,
A responder: “Não me casarei, não posso amar,
Sou jovem demais, rogo-vos que me perdoeis.”
Pois bem: se não quiseres casar, eu te perdoo.
Pasta onde quiseres; não terás pouso comigo.
Olha bem, pensa nisso; não costumo gracejar.
Quinta-feira está perto; põe a mão no coração, reflete.
Se fores minha, dar-te-ei a meu amigo;
Se não fores, enforca-te, mendiga, passa fome, morre nas ruas,
Pois, por minha alma, jamais te reconhecerei,
Nem coisa alguma minha jamais te fará bem.
Confia nisto, pensa bem: não serei perjuro.

Sai.

JULIETA.
Não há piedade sentada nas nuvens,
Que veja até o fundo de minha dor?
Ó minha doce mãe, não me rejeiteis;
Adiai este casamento por um mês, uma semana;
Ou, se não o fizerdes, fazei o leito nupcial
Naquele sombrio monumento onde jaz Tebaldo.

SENHORA CAPULETO.
Não fales comigo, pois não direi palavra.
Faze como quiseres, pois estou acabada contigo.

Sai.

JULIETA.
Ó Deus! Ó Ama, como se há de impedir isto?
Meu esposo está na terra, minha fé no céu.
Como há de essa fé tornar de novo à terra,
A menos que esse esposo ma envie do céu,
Deixando a terra? Consola-me, aconselha-me.
Ai, ai, que o céu arme estratagemas
Contra criatura tão frágil quanto eu.
Que dizes? Não tens uma palavra de alegria?
Algum consolo, Ama?

AMA.
Por minha fé, aqui está.
Romeu está banido; e aposto o mundo contra nada
Que ele jamais ousará voltar para reclamar-vos.
Ou, se o fizer, terá de ser às escondidas.
Então, estando o caso como agora está,
Penso que o melhor é casardes com o Conde.
Oh, ele é um amável cavalheiro.
Romeu é um trapo diante dele. Uma águia, senhora,
Não tem olho tão verde, tão vivo, tão belo
Como Páris tem. Maldito seja meu próprio coração,
Penso que sois feliz neste segundo enlace,
Pois ele excede o primeiro; ou, se não excedesse,
Vosso primeiro está morto, ou tanto faria que estivesse,
Vivendo aqui sem que vos sirva de nada.

JULIETA.
Falas de teu coração?

AMA.
E de minha alma também,
Ou malditos sejam ambos.

JULIETA.
Amém.

AMA.
Quê?

JULIETA.
Bem, tu me consolaste maravilhosamente.
Entra, e dize à minha senhora que parti,
Tendo desagradado a meu pai, para a cela de Lourenço,
A fim de confessar-me e ser absolvida.

AMA.
Pois assim farei; e isto é feito com prudência.

Sai.

JULIETA.
Antiga condenação! Ó demônio perversíssimo!
Será maior pecado desejar-me assim perjura,
Ou depreciar meu senhor com a mesma língua
Com que ela o louvou, acima de toda comparação,
Tantos milhares de vezes? Vai-te, conselheira.
Tu e meu seio, doravante, sereis dois.
Irei ao Frei saber seu remédio.
Se tudo mais falhar, eu mesma tenho poder para morrer.

Sai.

Romeu e Julieta

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Romeo and Juliet, tragédia de William Shakespeare em domínio público. A edição preserva a estrutura teatral em prólogo, atos e cenas, com linguagem clássica legível para leitura contemporânea.

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