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Romeu e Julieta

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Romeu e Julieta

Capítulo 9 · Romeu e Julieta

Ato II — Cena II. Jardim de Capuleto.

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Ato II — Cena II. Jardim de Capuleto.

Entra Romeu.

ROMEU.
Zomba das cicatrizes quem nunca sentiu ferida.

Julieta aparece acima, a uma janela.

Mas, silêncio! Que luz rompe por aquela janela?
É o oriente, e Julieta é o sol!
Ergue-te, belo sol, e mata a lua invejosa,
Que já está enferma e pálida de mágoa,
Porque tu, sua criada, és muito mais bela que ela.
Não sejas sua criada, pois ela é invejosa;
Sua libré vestal é doentia e verde,
E só os tolos a vestem; lança-a fora.
É minha senhora; oh, é meu amor!
Oh, se ela soubesse que o é!
Ela fala, mas nada diz. Que importa?
Seus olhos discursam; eu lhes responderei.
Sou ousado demais; não é comigo que ela fala.
Duas das mais belas estrelas de todo o céu,
Tendo algum encargo, rogam aos olhos dela
Que cintilem em suas esferas até que retornem.
Que seria se seus olhos estivessem lá, e elas em sua cabeça?
O brilho de sua face envergonharia aquelas estrelas,
Como a luz do dia envergonha uma lâmpada; seus olhos no céu
Verteriam pela região aérea tamanho clarão
Que os pássaros cantariam, julgando não ser noite.
Vede como apoia a face sobre a mão.
Oh, quisera eu ser uma luva naquela mão,
Para tocar aquela face.

JULIETA.
Ai de mim!

ROMEU.
Ela fala.
Oh, fala outra vez, anjo luminoso, pois és
Tão gloriosa para esta noite, estando acima de minha cabeça,
Como um mensageiro alado do céu
Aos olhos maravilhados dos mortais, erguidos em branco,
Que tombam para trás a contemplá-lo,
Quando ele cavalga as nuvens preguiçosas e fofas
E navega sobre o seio do ar.

JULIETA.
Ó Romeu, Romeu, por que és Romeu?
Renega teu pai e recusa teu nome.
Ou, se não quiseres, jura apenas que és meu amor,
E não serei mais Capuleto.

ROMEU. À parte.
Devo ouvir mais, ou falar agora?

JULIETA.
É apenas teu nome que é meu inimigo;
Tu és tu mesmo, ainda que não fosses Montecchio.
Que é Montecchio? Não é mão nem pé,
Nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte
Pertencente a um homem. Oh, sê algum outro nome.
Que há num nome? Aquilo que chamamos rosa
Com qualquer outro nome teria igual perfume;
Assim Romeu, se não fosse chamado Romeu,
Conservaria a preciosa perfeição que possui
Sem esse título. Romeu, despe teu nome,
E, em troca de teu nome, que não é parte de ti,
Toma-me inteira.

ROMEU.
Tomo-te pela palavra.
Chama-me apenas amor, e serei novamente batizado;
Daqui em diante, nunca mais serei Romeu.

JULIETA.
Que homem és tu que, assim oculto pela noite,
Tropeças em meu segredo?

ROMEU.
Por um nome
Não sei dizer-te quem sou:
Meu nome, querida santa, é odioso a mim mesmo,
Porque é inimigo teu.
Se o tivesse escrito, rasgaria a palavra.

JULIETA.
Meus ouvidos ainda não beberam cem palavras
Da emissão de tua língua, e contudo conheço o som.
Não és tu Romeu, e um Montecchio?

ROMEU.
Nem um nem outro, bela donzela, se qualquer deles te desagrada.

JULIETA.
Como vieste aqui? Dize-me, e por quê?
Os muros do pomar são altos e difíceis de escalar,
E este lugar é morte, considerando quem és,
Se algum de meus parentes te encontrar aqui.

ROMEU.
Com as leves asas do amor transpus estes muros,
Pois limites de pedra não podem manter o amor do lado de fora,
E o que o amor pode fazer, ousa o amor tentar;
Portanto, teus parentes não são obstáculo para mim.

JULIETA.
Se te virem, hão de matar-te.

ROMEU.
Ai, há mais perigo em teu olhar
Do que em vinte espadas deles. Olha-me apenas com doçura,
E estarei à prova contra sua inimizade.

JULIETA.
Por todo o mundo eu não quisera que te vissem aqui.

ROMEU.
Tenho o manto da noite para esconder-me de seus olhos;
E, se não me amas, deixa-os encontrar-me aqui.
Melhor seria minha vida findar pelo ódio deles
Que a morte ser prorrogada, faltando-me teu amor.

JULIETA.
Por direção de quem achaste este lugar?

ROMEU.
Pelo amor, que primeiro me incitou a procurar;
Ele me emprestou conselho, e eu lhe emprestei olhos.
Não sou piloto; contudo, se estivesses tão longe
Quanto aquela vasta praia banhada pelo mar mais remoto,
Eu me aventuraria por tal mercadoria.

JULIETA.
Sabes que a máscara da noite está sobre meu rosto,
Senão um rubor de donzela pintaria minha face
Por aquilo que me ouviste dizer esta noite.
De bom grado eu me prenderia à forma; de bom grado, de bom grado negaria
O que falei; mas adeus, cerimônia.
Amas-me? Sei que dirás sim,
E tomarei tua palavra. Contudo, se jurares,
Podes mostrar-te falso. Dos perjúrios dos amantes,
Dizem que Jove ri. Ó gentil Romeu,
Se amas, pronuncia-o fielmente.
Ou, se pensas que fui conquistada depressa demais,
Franzirei a testa, serei esquiva e te direi não,
Para que me cortejes. Mas, de outro modo, nem pelo mundo.
Em verdade, belo Montecchio, sou apaixonada demais;
E por isso podes julgar leviana minha conduta:
Mas confia em mim, cavalheiro, hei de provar-me mais fiel
Do que as que têm mais astúcia para parecer estranhas.
Eu deveria ter sido mais reservada, confesso,
Se não tivesses ouvido, antes que eu me apercebesse,
Minha verdadeira paixão de amor; portanto, perdoa-me,
E não imputes esta entrega a amor leviano,
Que a noite escura assim descobriu.

ROMEU.
Senhora, por aquela lua bendita, juro,
Que prateia as copas de todas estas árvores frutíferas...

JULIETA.
Oh, não jures pela lua, a lua inconstante,
Que mês a mês muda em sua órbita circular,
Para que teu amor não se mostre igualmente variável.

ROMEU.
Por que hei de jurar?

JULIETA.
Não jures de modo algum.
Ou, se quiseres, jura por teu gracioso ser,
Que é o deus de minha idolatria,
E eu acreditarei em ti.

ROMEU.
Se o caro amor de meu coração...

JULIETA.
Bem, não jures. Embora eu me alegre em ti,
Não tenho alegria neste pacto esta noite;
É precipitado demais, inconsulto demais, súbito demais,
Semelhante demais ao relâmpago, que deixa de existir
Antes que se possa dizer “relampeja”. Doce amor, boa noite.
Este botão de amor, pelo sopro maduro do verão,
Pode revelar-se bela flor quando tornarmos a nos ver.
Boa noite, boa noite. Que doce repouso e descanso
Venham a teu coração como os que há dentro de meu peito.

ROMEU.
Oh, queres deixar-me assim insatisfeito?

JULIETA.
Que satisfação podes ter esta noite?

ROMEU.
A troca de teu fiel voto de amor pelo meu.

JULIETA.
Dei-te o meu antes que o pedisses;
E, contudo, quisera que ele estivesse por dar novamente.

ROMEU.
Quererias retirá-lo? Com que propósito, amor?

JULIETA.
Apenas para ser generosa e dá-lo a ti outra vez.
E contudo só desejo aquilo que já tenho;
Minha liberalidade é tão sem limites quanto o mar,
Meu amor tão profundo; quanto mais te dou,
Mais tenho, pois ambos são infinitos.
Ouço algum rumor lá dentro. Querido amor, adeus.
A Ama chama de dentro.
Já vou, boa Ama! — Doce Montecchio, sê fiel.
Espera apenas um pouco, tornarei a vir.

Sai.

ROMEU.
Ó noite bendita, bendita! Tenho medo,
Estando em noite, de que tudo isto não seja senão um sonho,
Doce demais em lisonja para ser substancial.

Entra Julieta, acima.

JULIETA.
Três palavras, querido Romeu, e boa noite de fato.
Se tua inclinação de amor é honrada,
Se teu propósito é casamento, manda-me dizer amanhã,
Por alguém que farei vir a ti,
Onde e a que hora celebrarás o rito;
E porei todas as minhas fortunas a teus pés,
E seguir-te-ei, meu senhor, pelo mundo inteiro.

AMA. Dentro.
Senhora.

JULIETA.
Vou já, agora. — Mas, se não intentas bem,
Eu te suplico...

AMA. Dentro.
Senhora.

JULIETA.
Já vou, num instante.
Que cesses tua demanda e me deixes ao meu pesar.
Amanhã mandarei.

ROMEU.
Que assim prospere minha alma...

JULIETA.
Mil vezes boa noite.

Sai.

ROMEU.
Mil vezes pior, por faltar-me tua luz.
O amor vai para o amor como escolares fogem dos livros;
Mas o amor longe do amor vai para a escola com rosto pesado.

Retira-se lentamente.

Julieta reaparece acima.

JULIETA.
Psiu! Romeu, psiu! Oh, ter voz de falcoeiro
Para atrair de volta este nobre terçol!
O cativeiro é rouco e não pode falar alto,
Senão eu rasgaria a gruta onde jaz Eco,
E faria sua língua aérea mais rouca que a minha
Com a repetição do nome de meu Romeu.

ROMEU.
É minha alma que chama por meu nome.
Quão prateadamente doces soam as línguas dos amantes à noite,
Como música suavíssima aos ouvidos atentos.

JULIETA.
Romeu.

ROMEU.
Minha querida?

JULIETA.
A que horas amanhã
Mandarei a ti?

ROMEU.
Às nove horas.

JULIETA.
Não faltarei. Até lá serão vinte anos.
Esqueci por que te chamei de volta.

ROMEU.
Deixa-me ficar aqui até que te lembres.

JULIETA.
Eu me esquecerei, para que continues aí,
Lembrando-me quanto amo tua companhia.

ROMEU.
E eu ficarei, para que continues a esquecer,
Esquecendo qualquer outro lar que não este.

JULIETA.
É quase manhã; quisera que fosses embora,
E, no entanto, não mais longe que o pássaro de uma menina travessa,
Que o deixa saltitar um pouco de sua mão,
Como pobre prisioneiro em grilhões torcidos,
E com fio de seda o puxa de volta,
Tão amorosamente ciumenta de sua liberdade.

ROMEU.
Quisera eu ser teu pássaro.

JULIETA.
Doce amor, eu também quisera;
Contudo, eu te mataria de tanto carinho.
Boa noite, boa noite. A despedida é tão doce tristeza
Que direi boa noite até que seja amanhã.

Sai.

ROMEU.
Habite o sono em teus olhos, a paz em teu peito.
Quisera eu ser sono e paz, para tão docemente repousar.
Daqui irei à cela de meu pai espiritual,
Pedir seu auxílio e contar minha querida ventura.

Sai.

Romeu e Julieta

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Romeo and Juliet, tragédia de William Shakespeare em domínio público. A edição preserva a estrutura teatral em prólogo, atos e cenas, com linguagem clássica legível para leitura contemporânea.

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