Leia agora
Causas do Heroísmo Paraguaio

Universo da obra

Causas do Heroísmo Paraguaio

Capítulo 3 · Causas do Heroísmo Paraguaio

III. A colônia como exército

3 de 11 ≈ 9 min de leitura

A colônia do Paraguai foi um exército em campanha. Ou era guerreira ou perecia; não quis perecer, claro está, e fez-se guerreira. Já o era por disposição hereditária: “Certas aptidões e instintos estão no sangue e com ele se transmitem”, diz Taine.

Em outras partes, note-se bem, submetido o país, acabava a guerra, salvo no Chile, onde o araucano continuou seu duelo de morte com o conquistador. Mas no Paraguai existe o Chaco inconquistável, centro de uma indiada terrível na qual “um guaicuru vale por vinte mexicanos ou peruanos”, segundo Azara; e ao lado está o Brasil, de onde por séculos saem e acossam portugueses, mamelucos e tupis.

Nessa situação excepcional, única, note-se bem, repito, estabeleceu-se o serviço militar obrigatório, legislação também excepcional e única, na qual cada colono devia ter quatro cavalos, armas e munições por sua conta, e devia estar sempre pronto para voar ao combate. Não era um serviço qualquer. “No serviço militar gastam metade do ano”, dizia Pinedo em 1778, e acrescentava: “a perseguição dos idólatras mantém estes habitantes em perpétua vigília”. “O serviço militar é de prática imemorial.” Alcedo e o doutor Cosme Bueno, estranhando essa batalha sem trégua, ainda sustentada no Paraguai no fim do século XVIII, confessam que “se viram seus vizinhos obrigados a ser todos militares”. Todos militares! Hoje as coisas parecem muito tranquilas, mas terminava aquele século e o paraguaio continuava batalhando sem cessar, sem respiro.

Agredido ou agressor, sua função é esta: joga a vida em cada curva do caminho, onde o espera o golpe da flecha ou o bote do jaguar, traiçoeiro como a flecha. Sem contar os combates em regra contra o jesuíta, contra os bispos, contra as autoridades reais, seus três séculos de história foram três séculos de guerra.

Numa sociedade assim, o valor pessoal é tudo, e o paraguaio fará milagres peleando corpo a corpo com o índio, com o touro, com o jaguar. Continua sendo o godo batalhador da cruzada contra o mouro, mais o indígena do mesmo feitio, e pode dizer, como o espanhol:

Não existiram jamais

covardes em nossa raça.

A criança vem com certa estratégia inata, que é instinto dos progenitores, conservado por lei de herança, por educação, por necessidade, pelo meio; e o exercício contínuo das armas desenvolve virtudes guerreiras que desconhecem os povos pacíficos, virtudes favorecidas aqui pelo alimento, pela água, pela luz, pelo ar.

Com efeito, o solo fértil é, por seus produtos nutritivos, um fator da energia das raças. O alimento mais ou menos abundante e poderoso, a pureza ou impureza das águas, a luz e o estado higrométrico do ar criam homens fortes ou fracos, sãos ou enfermos, valentes ou covardes. As raças vigorosas e belas não o seriam com má nutrição. O naturalista não exagera ao dizer que “o alimento tem grande parte na formação dos homens”, como afirma Buffon.

E o colono do Paraguai, quase sem trabalhar, tinha alimento são e nutritivo. Vivia de um grão de ouro, o milho, alimento completo que derrota o trigo. É sangue vivo, disse alguém. O milho duro, sobretudo, é o rei dos cereais, o poderoso sustento do trabalhador. Tinha belas leguminosas, ou leite vegetal, a banana, ideal da alimentação em seu gênero, a mandioca solúvel e nutritiva, à qual se atribuiu a fecundidade das paraguaias, o mel com sua glicose reconstituinte, a erva-mate que “anima o trabalhador”, “dá-lhe vigor” e “desperta seus sentidos”, virtudes anotadas por Lozano e confirmadas pela química; tinha carne em abundância.

O paraguaio era forte porque, com o mínimo de esforço, se nutria bem; e por nutrir-se bem era também equilibrado. Nem loucos, nem alucinados, nem suicidas houve no Paraguai até a pressão da Ditadura, quando houve alguns entre os oprimidos, e há agora por causa da fome que a guerra ocasionou. A geração que nasceu nesse tempo e a imediatamente posterior levou a pior parte, porque faltava carne e faltava tudo. Quem pode duvidar que a miséria arruinou em parte nossa raça? “A má alimentação faz degenerar a espécie humana”, diz Buffon. A criança mamava o leite sem substância de sua mãe faminta. Lá nas Missões, onde a fome durou pouco, é de ver ainda agora a fortaleza do corpo: que músculos de aço, que elegância! a elegância que Azara celebrava. Todos conhecemos aquele célebre general Duarte, belo tipo do “varão forte”. E assim era, como aquele valente, por sua robusta armadura, por sua poderosa nutrição, a raça de titãs que suportou o peso da guerra. “Os paraguaios eram bem formados e atléticos”, dizem os Robertson.

O colono bem nutrido era sóbrio. O país não produz vinho, ou produz pouco. Em vez de vinho, bebia leite ou água pura; em todo caso, um pouco de aguardente. “A embriaguez só se notava entre a gente muito desprezível”, diz Azara.

Era ágil: fez-se cavaleiro sem igual desde que teve cavalos, e os teve desde cedo. O cavalo o fez mais bravo do que era.

Não era sanguinário. O cristianismo e a música dulcificaram a crueldade nativa do índio antropófago. O mestiço de outras partes é cruel: parece feito pelo diabo, dizia um viajante. O paraguaio não o era, nem o é. Os testemunhos acorrem em tropel. Azara, surpreendido, diz: “Muitos escravos devem sua liberdade aos generosos paraguaios, que além disso os tratam com humanidade pouco comum, de modo que a sorte dos escravos ali é igual e muito melhor que a dos brancos comuns do povo.” Rengger jura que “o trato dos escravos é muito mais suave que em outros países... Fora das classes superiores, não se saberia distinguir o amo de seu escravo... Nunca se lhes castiga com aquela crueldade de que se é testemunha no Brasil.” Demersay parece invejar a sorte de nossos escravos. Achava-a bastante doce, acrescentando que “a faca não é, como para seus vizinhos, a última razão do habitante do Paraguai”.

A verdade é que o paraguaio não gosta de derramar sangue inútil. Em sua generosidade, esse valente abraça o vencido como Cabañas a Belgrano. Derruba o governo colonial sem matar ninguém. O sargento Duré, à morte do Ditador, muda a situação sem causar feridas. Dá os golpes de 9 de junho e de 9 de janeiro sem derramar uma gota de sangue. Só no Paraguai sucediam e sucedem assim as coisas, ontem e hoje, agora e antes. Isto não acontece em parte alguma, dizia um espanhol. Nossa índole amável sempre se pôs em relevo, assim como nosso caráter hospitaleiro, belo rastro de nossa casta indígena. Em nenhum país houve menos criminosos que no Paraguai desde o período colonial; sob Francia menos que antes, e do tempo de Dom Carlos se diz que “os criminosos eram quase desconhecidos”, segundo Demersay. De que povo se poderia afirmar o mesmo? Ser generoso, humanitário, entre tanta gente devorada pelo egoísmo, não é ao menos um belo traço?

Era sofrido, e aqui chego a outro caráter típico em que hei de insistir. O guarani se pasmava de que houvesse prisioneiros capazes de pedir a vida ao vencedor: tal covardia era, a seus olhos, mancha feia que desonrava o branco, segundo Varnhagen; e sua descendência herdou, como duvidar?, esse conceito de valor. “O índio nem grita nem se queixa”, diz Azara. Sofrer calado, estoicismo puro: esta é sua regra de conduta. No princípio do século XVIII, Anglés e Gortari notava que da educação dos paraguaios “nasce serem tão sofridos e aguentadores no trabalho, na fome e nas demais calamidades, e ao mesmo tempo tão firmes e tão resolutos para defender o país”.

Um bom juiz, o doutor Andrés Gelly, mais de cem anos depois de Gortari, afirma que “o paraguaio é forte, inteligente, igual, sobretudo sofrido”. Um inimigo, Washburn, vê-se obrigado a dizer numa nota diplomática: “não se pode negar que o paraguaio é muito sofrido”. Outro inimigo, Masterman, contava que em nossos hospitais de sangue não se ouviam gemidos. Em Buenos Aires, durante a guerra, era fácil saber quem eram os feridos paraguaios: os que não gemiam.

“Corte apenas a perna; não quero clorofórmio”, dizia nosso soldado. Os cirurgiões de hoje confessam igualmente que o paraguaio sofre sem se queixar. É algo inaudito, observado por médicos e não médicos, historiadores, amigos e inimigos, no século retrasado, no passado, hoje mesmo; algo que está no sangue ou nos centros nervosos, não sei onde. O paraguaio não era insensível por ser selvagem: por seu caráter sofrido respondem a cruza, ou o alimento, ou ambas as causas.

E assim como sofre dores, o paraguaio suporta trabalhos que matam o estrangeiro. O peão de agora, meio anêmico ou inteiramente anêmico, às vezes alcoolizado, desde que não lhe falte o locro, é de uma resistência incrível. Só o paraguaio pode com o trabalho pesado dos ervais e do obraje. Onde recruta seus peões a Companhia Matte Larangeira? No Paraguai. Aquilo arrebenta qualquer um que não seja paraguaio.

E que soldado há de ser esse peão tão resistente quanto o urunday de seus bosques? Será um soldado de ferro.

Causas do Heroísmo Paraguaio

Sinopse

Ensaio clássico de Manuel Domínguez sobre as raízes históricas, sociais e morais do heroísmo paraguaio, acompanhado do apêndice Heroísmo e Tirania. Tradução Literunico a partir de El alma de la raza e da publicação original de 1903.

Causas do Heroísmo Paraguaio

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Causas do Heroísmo Paraguaio

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Causas do Heroísmo Paraguaio

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Causas do Heroísmo Paraguaio Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir