Universo da obra
Universo da obra
Salve! Florestas virgens, majestosas,
Aos céus alçando as comas verdejantes
Em perenes louvores!
Salve! Berço de brisas suspirosas,
Onde pendem coroas flutuantes
Aos lúcidos vapores!
Eu que esgotei do sofrimento a taça,
Que pendo para a campa úmida e fria
No alvorecer da vida;
Que na longa vigília da desgraça
Não vejo luz... nem tenho na agonia
Consolação querida;
Eu que sinto na fronte erma de sonhos
A centelha voraz, a febre ardente
Que o viver me consome;
Que já não creio num porvir risonho...
Que só busco olvidar num ai plangente
O martírio sem nome...
Oh! Eu quero, meu Deus, sorver sedenta
Os virgíneos eflúvios desta selva,
Gozar beleza e sombra!
Molhar meus pés na vaga sonolenta...
E desmaiar depois da mole relva
Na balsâmica alfombra!...
Aqui, entre estes troncos seculares,
Sob a cúpula ingente que flutua
Num mar de luz serena,
Não penetra a paixão com seus esgares;
Mais lânguido fulgor esparge a lua
Nas asas da falena.
Na mística penumbra entrelaçadas
Vicejam longas palmas espinhosas
De rastejantes cardos;
E do âmago das árvores lascadas,
Em fios brotam bagas preciosas
De cristalinos nardos.
Ao brando embate da amorosa aragem
Desprendem-se das longas trepadeiras
Mil pétalas pet'las purpurinas;
E dos terrais a tépida bafagem
Derrama o grato odor das caneleiras
No cálix das boninas.
Nas folhas de sereno gotejantes,
Balouça-se o inseto de esmeralda
À luz dourada e pura;
A serpente de tintas cambiantes
Desprende-se da florida grinalda,
E roja na espessura!
Além, recorta o vale aveludado,
Entre moitas gentis de violetas
O arroio preguiçoso;
E das flores aladas namorado,
Retrata as ondejantes borboletas
No leito pedregoso.
Em floridos festões cria a liana,
Sobre a linfa que rola murmurando,
Mil pontes graciosas,
Ou coliga-se à hercúlea canjerana,
E eleva-se, brandícias derramando,
Às nuvens luminosas.
O povo dos cerúleos passarinhos
Que há pouco em doces hinos de alegria
Cantava seus amores,
Voleia em busca dos macios ninhos
Saciado de gozo, a fantasia
Repleta de esplendores.
Pouco a pouco derramam-se nos ares
Mais doces murmúrios. Já se esvaem
No remanso da noite
Os harpejos dos trêmulos pilares;
Já não bafeja os lotos, que descaem,
Das auras o açoite.
Agora que repousa a turba estulta,
Que a lua brinca nos vergéis fulgentes,
E os silfos se embevecem,
O primeiro cantor brasíleo exulta;
E os gorjeios sonoros, estridentes,
Num gemido falecem!
De novo a voz se alteia palpitante
Ao capricho indolente, langoroso,
Da garganta canora;
Varia o poeta a escala delirante...
Dir-se-ia o murmurar langue saudoso,
Da onda que se explora!...
Eu amo estes risonhos alcaçares,
Quer a pino dardeje o rei dos astros
Seus raios queimadores,
Quer a névoa que ondeia entre os palmares
Deixe os noturnos, luminosos rastros,
Com gélidos palores.
Aqui aos ternos cânticos das aves,
Ao refulgir das lágrimas da aurora
Nos campesinos véus,
minh'alma minha alma pousa de emoções suaves
Desdenha a mágoa insana que a devora,
E remonta-se aos céus!
Salve! Florestas virgens, majestosas,
Aos céus alçando as comas verdejantes
Em perenes louvores!
Salve! Berço de brisas suspirosas,
Onde pendem coroas flutuantes
Aos lúcidos vapores!
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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