Universo da obra
Universo da obra
Na noite sepulcral dos tempos idos
Plácida avulta a merencória esfinge;
Esplêndido ideal que esclarecera
A crente multidão!
Monumento do verbo grandioso
Deste povo titã, débil ainda...
Centelha sideral que fecundara
A seiva da nação!
Lacerado o sendálio tenebroso
Que nos velava os livres horizontes,
Entoa o continente americano
Um hino colossal;
Mais vívida no peito a fé rutila;
Mais nobres se erguem dos heróis os bustos
Cingidos pela chama deslumbrante
Da glória perenal.
Mas tu projetas o negror no espaço
Que sobre nós desata-se em sudário!
Mas teu hálito extingue a luz benéfica
Que acendera o Senhor!
Maldição! Maldição! A liberdade
Vê de lodo seu manto salpicado...
Do vulcão popular a ígnea lava
Desmaia sem calor...
Raiaste como o símbolo nefasto
Do traidor Antiteu, mentindo ao orbe;
E os louros virgens da nação sorveste
Como hidra voraz!
Roubaste ao povo a palma do triunfo,
Recompondo a algema ao pó lançada,
E moldaste no bronze a estátua fria
Da mentira loquaz!
Das espaldas robustas da montanha
A pedra derrocada, abate selvas;
A avalanche vacila lá nos Alpes...
Convulsam terra e mar!
Resvalaste, padrão de cobardia,
Pelos áureos degraus do sólio augusto...
E a santa aspiração, e os sonhos grandes,
Esmagaste ao tombar!...
Após a luz... o caos confuso, intérmino!
Após o hino festivo de um povo...
O lúgubre silêncio do sepulcro
Sem uma queixa ou voz!
Lançaste a pátria em báratros profundos
Ferida pela mão da tirania,
E apenas um lampejo de civismo
Deixaste ao crime atroz!
. . . . . . . . . . . . . . . .
Onde estavam, ó pátria, os teus Andradas
Que sustinham-te aos ombros gigantescos?
Onde o tríplice brado altipotente
Do peito popular?
— Gemem sem luz em cárceres medonhos,
— Seguem do exílio a pavorosa senda,
Rorando com seu pranto piedoso
De teu solo o altar!
Rasgai, rasgai a folha lutulenta,
— Emblema do mesquinho cativeiro;
Não vedes? Choram hoje em suas campas
Os manes dos heróis!...
Salvai a honra dos que em lar estranho
Por ti verteram lágrimas de sangue,
E resgatando a fé despedaçada,
Vingai nossos avós!
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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