Universo da obra
Universo da obra
Senhor, o calmo oceano
Do verão nas quentes noites,
Se revolta sobranceiro
Da tempestade aos açoites!
Encrespa o dorso potente
Dilacerando, fremente,
As asas do vendaval;
Faz cintilar a ardentia,
E arroja à nuvem sombria
Diademas de cristal!
Envolta em flocos de neve
Se levanta a cordilheira;
Sonha um raio ardente, ígneo,
Que lhe doire a cabeleira!
Fita audaz o vasto espaço,
Despedaça o tíbio laço
Dos nevoeiros do sul;
Solta a coma de granito,
Vai devassar o infinito
Rasgando o cendal azul!
No espelho em que o sol se mira
A tarambola, em delírios,
Corta com as plumas de prata
Da espuma os nítidos lírios;
De sobre o escarcéu, ignota,
Num voo imenso a gaivota
Sonda os páramos do ar;
E dos paços encantados
Surgem peixinhos dourados
Que saltam à flor do mar!
Oh! tudo, tudo se expande
Às auras da liberdade!
A treva calcando às plantas,
Demandando a imensidade!
Do incenso a loura neblina...
O som da voz argentina
Que canta idílios de amores...
Do Nuttall nutal o pó ardente...
Da mata a cúpula virente...
Do rio os tênues vapores!
E sob o céu sempre belo
Da mais sedutora plaga,
Beija — o rei — da natureza
O ferro que o pulso esmaga?!
Que importa que os saxêos montes —
Atalaias de horizontes —
Clamem do ar na amplidão:
“Levanta-te, ó povo bravo,
Quebra as algemas de escravo
Que aviltam-te o coração”?!
Rompem-se esforços insanos,
Esmaga o flagício lento;
Mas a verdade sublime
Não aclara o firmamento.
Descera a mortalha fria
Que do mais formoso dia
Enturvava o alvorecer,
E não transborda ruidoso
O vagalhão luminoso
Que o cetro deve sorver!?
Meu Deus, quando há de esta raça,
Que genuflexa rebrama,
Erguer-se de pé, ungida,
Das crenças livres na chama?
Quando há de o tufão bendito
Trazer, das turbas ao grito,
O verbo de Mirabeau?
E a luz da moderna idade
Ao crânio da mocidade
Os sonhos de Vergniaud Vernhiô ?!...
Oh! dá que em breve eu contemple
Aos puros raios da glória
O feito altivo gravado
Nos fastos da pátria história!
Dá que deste sono amargo,
Deste pélago em letargo
Que nos envolve no pó,
Surja a vaga triunfante
Que anime no túmulo ovante
As cinzas de Badaró!
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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