Universo da obra
Universo da obra
Querida, a estrela-d’alva ao mar se inclina;
Solta a calhandra o canto da matina
Na coma ingente da giesta em flor!
A natureza é uma ode imensa:
Eleva-se de cada moita densa
Um hino ao Criador!
Deixemos a cidade: além, a veiga
Nos guarda a olência apaixonada e meiga
Dos corimbos que agita a viração.
Vês? Desponta uma rosa em cada galho,
E das rosas trêmulo o doce orvalho
No rubro coração!
Pelas espáduas ásperas do monte,
— Gigante das legendas do horizonte,
Rola a espuma de luz e alaga o val';
Ao mole influxo de teu riso mago
Desperta o euro e frisa em doido afago
Das linfas o cristal!
E o nenúfar nenufar "diástole"> , a estremecer de frio,
Levanta a fronte cérula do rio
Expondo ao raio a face de cetim;
As borboletas dançam como wilis;
Esquece a louca abelha as amarílis
No seio do jasmim!
Da selva secular, nas verdes naves,
Perdem-se ao longe os cânticos suaves
Dos voláteis salmistas do sertão;
Ouves? A queixa túrbida das matas,
E o múrmur merencório das cascatas
Reboam na amplidão!...
Rasgando a profundeza flutuante
Das nuvens, a pilastra cintilante
Sustenta do infinito a concha azul.
E a concha do infinito é o quente ninho,
Donde a estrela, dourado passarinho,
Voara para o sul! —
Na terra — plena paz! plena harmonia!
Rolam cantos de amor, de poesia,
No val', na serra, na extensão do mar!...
No firmamento — fogos peregrinos,
E a névoa a gotejar prantos divinos
De Deus ao terno olhar!...
É a hora em que a prece da serrana
Vai fervente da plácida cabana
As plantas expirar do Redentor!
Em que a loira criança acorda rindo!
E corta o dorso do oceano infindo
O pobre pescador!
E a fantasia arroja-se no espaço,
Da caligem quebrando o frio laço
Para ondular no pélago de anil!...
E Deus desprende para ti, formosa,
A essência virginal da tuberosa,
Que se embala no hastil!
Em nosso seio brinca a primavera,
Em nossa fronte a lúcida quimera
Verte a flama voraz da inspiração;
Pois bem! Que o vento leve à divindade
Do puro altar de nossa mocidade
O incenso da oração!...
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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