Universo da obra
Universo da obra
RECORDAÇÃO DA FAZENDA ESPERANÇA
I
Ó noite plena de celeste encanto,
Fonte sagrada de abusões suaves,
Deixa que eu prenda a teu cendal meu canto;
Deixa que eu libe teus harpejos graves,
Ó noite plena de celeste encanto!
Quando do empíreo te debruças linda
Que doce paz no coração entornas!
Com a flor mimosa da saudade infinda
O peito enfermo do proscrito adornas,
Quando do empíreo te debruças linda!
De teu bafejo ao perfumoso afago
O cacto abre a virginal corola
E a ondina paira sobre o azul do lago!
Da brisa o treno no infinito rola
De teu bafejo ao perfumoso afago!
E tudo, tudo quanto vive ama
Bebendo as lendas que teu manto espalha;
De Vênus brinca a vaporosa flama
Com o facho humilde do casal de palha,
E tudo, tudo quanto vive ama!
Em derredor de uma fogueira ardente,
Qual tribo inquieta de falenas loucas,
Dançam moças sobre a gleba algente;
E o riso entreabre coralíneas bocas
Em derredor de uma fogueira ardente.!
No chão resvalam como orvalho de ouro
Fátuas centelhas recortando o espaço;
Da laranjeira o doce fruto louro
Da luz cedendo ao languescido abraço,
No chão resvala como orvalho de ouro!
Corre o tambor a extravagante escala
Seguindo o canto que murmura o escravo;
Negra crioula a castanhola estala,
E à voz robusta que levanta um — bravo!
Corre o tambor a extravagante escala.
Ó noite plena de celeste encanto,
Fonte sagrada de abusões suaves,
Deixa que eu prenda a teu cendal meu canto
Deixa que eu libe teus harpejos graves,
Ó noite plena de celeste encanto!
II
Rasgou-se a faixa noturna
Que a natureza envolvia,
E a aurora rubra derrama
Torrentes de poesia;
Das cascatas, da floresta
Ergue-se um hino de festa
Nas harpas da viração;
E o sol — Vesúvio sublime —
Nos crânios vastos imprime
A lava da inspiração!
Erguendo ao Senhor hosanas,
Curva-se na ara o levita,
E a bênção concede à turba
Que genuflexa palpita.
Da fé, à chama divina,
Cada cabeça s'inclina
Banhada de etérea luz;
De cada lábio rubente
A prece voa fervente
Ungindo o pé da cruz!
A criancinha dileta
Rindo recebe o batismo
E isenta de culpas, entra
No templo do cristianismo!
A celeste unção é gládio
Que vence o crime, paládio
Contra a heresia infernal;
Abate as seitas erguidas
E leva as almas rendidas
À pátria celestial!
Sim! quando em berço de infante —
Ninho de crenças mimosas —
Onde o amor brota em ondas,
Onde rebentam mil rosas,
Resvala a gota sagrada
Que verte na fronte amada
A luz das constelações,
O povo abraça a esperança
E a Deus eleva a criança
Nas asas das saudações!...
Por isso da célia estância
Num raio de caridade
À terra baixou radioso
O anjo da liberdade;
Que a fortes pulsos escuros
Unindo seus lábios puros
Partiu um grilhão atroz;
E de infelizes escravos
Fez talvez dez homens bravos,
Talvez dez outros heróis!
Oh! bendita a mão femínea
Que o empíreo entreabre ao precito,
Que ao cego aponta um caminho,
E à pátria leva o proscrito!...
Oh! bendita a mãe formosa
Que, olhando o filho ditosa,
Manda o cadáver viver!
A oração do liberto,
Subindo no vento incerto,
Faz o céu graças chover!
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
III
É noite, é noite de magia e enleio!
Buscando asilo em palpitante seio
Voa o pólen da flor!
Do ar sereno as vibrações eólias
Perfumam-se nas alvas magnólias maguinólias ,
Que languescem de amor!
Na sala festiva pelas janelas
Céleres rolam catadupas belas
De fulgidos clarões;
Vênus surpreende, da azulada esfera,
Um raio de langor verte severa
Por entre as cerrações.
Os perfumes sutis causam vertigens;
Transborda de fulgor o olhar das virgens,
Da madona ideal;
Como a planta a boiar sobre a corrente,
Adeja do mancebo o sonho ardente
Num colo de vestal!
E cada riso anima uma esperança!
Aos sons da tentadora contradança
Esquece-se o sofrer...
O hálito da bela o ar aroma,
E o rubor que na face nívea assoma
Traz íntimo prazer.
Dos lábios de uma loura formosura,
Enchendo o espaço de harmonia pura,
Desata-se a canção:
Para ouvir-lhe a fala maviosa, a lua
Que no páramo intérmino flutua
Penetra no salão!...
Canta, canta, formosa peregrina,
Que a tua merencória cavatina
Acalma anseios meus!
O mundo é vário, pérfido oceano...
Quando o deixares, cisne soberano,
Gorjearás nos céus!
O turbilhão da valsa o moço arrasta,
E à tez rubente da donzela engasta
A baga de suor...
Só eu, meio à turba que doudeja,
Sou como a Esfinge que o Atbára beija
Sem vida... sem calor...
Ó noite divinal, plena de odores,
Que estendes sobre a terra um véu de flores
Abertas ao luar,
Verteste em meu sombrio pensamento
O orvalho sideral do esquecimento!
Oh! deixa-me te amar!...
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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