Universo da obra
Universo da obra
Ao desmaiar do sol, além, nas cordilheiras,
Ao badalar dos sinos dobrando — Ave Maria!
Ai! desprende um gemido, acorde doloroso,
Minha alma na agonia!
Que importa o ledo riso de um tempo já volvido?
Que importa o beijo frio da cerração do sul?...
O sofrimento extingue anelos de ventura,
— Flor virgem num paul! —
Já tive, como todos, meus enlevados sonhos,
Senti tingir-me a face a púrpura do enleio;
E o coração pulsou-me um dia entre delícias
Fazendo arfar o seio.
E a flor, vendo-me a furto, fulgia mais contente!
E as lâmpadas do céu brilhavam mais gentis!
E os cânticos das aves mais ternos se elevavam
Nas viragens sutis!
E a lua me enviava um raio de tristeza;
A luz, beijo de fogo — ardente, fulgurante!
A nuvem vaporosa, ao perpassar no espaço,
Olhava-me um instante!
Ai! cedo esvaeceu-se a frívola miragem,
E fugitiva, rápida, desfez-se essa ilusão;
Apenas hoje sangra e estua-me sem vida,
O gélido gel'do coração.
Não mais se expandem lírios, nem luzem mais estrelas,
Emudeceram lentos os mágicos cantores;
Não mais me envolve a luz entre amorosos laços
E límpidos fulgores.
Porque não sou a rola que deixa além o ninho,
E estende as leves asas, e voa na amplidão?
Porque não chego ao menos a fronte à imensidade
Por sobre a criação?!...
Porque não sou o íris que arqueia-se no éter?
Porque não sou a nuvem dos páramos sidéreos?
Porque não sou a onda azul que além desmaia
A revelar mistérios?...
O mundo que me vê passar sem um sorriso,
Não vê do meu tormento o horrendo vendaval!
Ele que acolhe e afaga o venturoso, entrega
O triste à lei fatal!
Só resta hoje à minha alma os campos do infinito;
Aquece-se a tristinha ao sol da eternidade;
E se à lembrança traz as lendas que se foram,
São laivos de piedade!
Meu Deus! porque embalar-me o quedo pensamento
Se amor é passageiro, se as glórias são de pó?!
Poetisa — tomo a lira às lufas da descrença,
E a ti me volto só.
Bondoso, abre-me os braços, reúne-me aos teus anjos,
A eterna ventura almejo palpitante;
Contemplarei o — nada — do seio das estrelas,
Das dores triunfante!
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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