Universo da obra
Universo da obra
Ante o gigante brasíleo,
Ante a sublime grandeza
Da tropical natureza,
Das erguidas cordilheiras,
Ai! Quanto me sinto tímida!
Quanto me abala o desejo
De descrever num harpejo
Essas cristas sobranceiras!
. . . . . . . . . . . . . . . .
Vejo a quem os vales pávidos
Que se desdobram relvosos;
Profundos, vertiginosos,
Cavam-se abismos medonhos!
Quanto precipício indômito,
Quanto misterioso assombroso
Nesse seio pedregoso,
Nessa origem de mil sonhos!...
Ondulam ao longe múrmuras
Aos pés de esguios palmares,
As florestas seculares
Cingidas pela espessura;
A liana forma dédalos
Na grimpas das caneleiras,
Do cedro as vastas cimeiras
Formam docéis de verdura.
Por sobre os seixos dos álveos
Coleiam brancas serpentes,
E as águas soltam frementes
Doridos, brandos queixumes;
Ao perpassar pelas fragas
Em prateados cachões,
Sacodem nos turbilhões
Seu diadema de lumes.
Brota a torrente cerúlea
Do Aiuruoca em cascata,
Rola a treda catarata
Sobre coxins de esmeraldas;
A linfa desmaia túmida
No coração da voragem,
E terna — lambendo a margem
Vai perder-se além das fraldas!
Em três lagos vejo o tálamo
Onde as agulhas se elevam,
Neles constantes se cevam
Três espumosas vertentes;
Do Paraná galho ebúrneo
Do Mirantão se desprende
E, sem que banhe Resende,
Leva ao Prata os confluentes!
Rompendo o celeste páramo
Nem mais um tronco viceja,
A ericínia rasteja
Sobre as fendas do granito:
Tapeta o solo a nopália,
Verte eflúvios a açucena,
E a legendária verbena
Coroa o negro quartzito!
Rompendo o celeste páramo
A ericínia rasteja;
Mais alto, ostenta-se a anêmona
No caule ranunculoso;
Pendem do seio mimoso
Flocos de virgem pureza:
Roubou-lhe a tinta das pétalas
O scirrus cirro que adorna a aurora;
A vaga quando desflora
Imita-lhe a morbidez!
O Térglu, o Asse e o Pesciora
Invejam esta altitude,
E da coma áspera e rude
Os cabeços recortados.
Pendem rochedos erráticos
Na vastidão da eminência,
Riquezas que a Providência
Guarda a seus predestinados.
Em derredor, às planícies
Nivelam-se as serranias;
Envoltos nas brumas frias
Transparecem os outeiros;
E o olhar ardente e ávido
Contempla os montes perdidos,
Como troféus reunidos,
Como tombados guerreiros!...
Salve! Montanha granítica!
Salve! Brasíleo Himalaia!
Salve! Ingente Itatiaia,
Que escalas a imensidade!...
Distingo-te a fronte válida,
Vejo-te às plantas, rendido,
O meteoro incendido,
A soberba tempestade!...
De teu dorso assomam ínvios
Feixes de pedra em pilastras,
Órgão gigante que enastras
De mil grinaldas alpestres!
Quem lhes calca a base, intrépido,
Vendo o sublime portento,
Liberta seu pensamento
Das amarguras terrestres!
Rasgando o horizonte plúmbeo
O sol te envia seus raios;
As nuvens formam-te saios
Quais ligeiras nebulosas!
Mimam-te as flores etéreas,
Cobrem-te espumas de neve,
Dão-te o pranto fresco e leve
Da noite as fadas formosas!
E quando envolvem-te as áscuas
Queimando o chão rociado,
Funde-se o tirso gelado,
Caem profusos fragmentos!
Muda-se o quadro de súbito:
— Chovem cristais dos pilares,
E nu se perde nos ares
O perfil dos monumentos!...
. . . . . . . . . . . . . . . .
Vai meu canto ao mundo sôfrego
Que ante os prodígios se inclina,
Narrar a beleza alpina
Das regiões em que trilhas;
Leva-lhe nas asas vélidas
Meu culto à serra gigante,
Pátrio ponto culminante,
Berço de mil maravilhas!...
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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