Universo da obra
Universo da obra
Enfim te vejo, estrela da alvorada,
Perdida nas celagens do horizonte!
Enfim te vejo, vaporosa fada,
Dolente presa de um sonhar insonte!
Enfim, de meu peregrinar cansada,
Pouso em teu colo a suarenta fronte,
E, contemplando as pétreas cordilheiras,
Ouço o rugir de tuas cachoeiras!
Mal sabes que profundos dissabores
Passei longe de ti, Éden de encantos!
Quanto acerbo sofrer, quantos agrores
Umedeci com as bagas de meus prantos!
Sem um raio sequer de teus fulgores...
Sem ter a quem votar meus pobres cantos...
Ai! o simum cruel da atroz saudade
Matou-me a rubra flor da mocidade!...
Vivi bem triste! O coração enfermo
Buscava embriagar-se de harmonias,
Porém via do céu no azul sem termo
Um presságio de novas agonias!...
O bulício do mundo era-me um ermo
Onde as lavas do amor chegavam frias...
Só uma melancólica miragem
Dourava-me a solidão — a tua imagem!
Caminhei, caminhei sem ter descanso
Ao som das epopeias das florestas;
Caminhei, caminhei e no remanso
Da tarde, ouvi do mar as vozes mestas;
Nas ribas descansei de um lago manso
Pra gozar do talento as nobres festas,
E adormeci na esmeraldina alfombra
Da palmeira real à grata sombra!
Caminhei inda mais: com nobre empenho
Penetrei no sagrado santuário
Onde o gênio — em delírio — arrasta o lenho
Do trabalho, em demanda de um Calvário!
Vi surgir sobre a tela, à luz do engenho,
E povoar o templo solitário,
Da Carioca a lânguida figura,
De Nhaguassu o feito de bravura!...
Inclinada nas longas penedias
Acompanhei o voo das gaivotas;
Meu nome arremessei às ventanias
Sem que sentisse sensações ignotas!
Da musa do piano as melodias,
De uma flauta canora as doces notas,
O gelo que sorvi num mago enleio,
Tudo gelado achou meu débil seio!...
Mas após negridão de noite lenta,
Na curva do horizonte o sol resplende:
Após o horror de tétrica tormenta,
Fugaz santelmo lá no céu se acende;
Após o latejar da dor cruenta
Vejo-te enfim, ó plácida Rezende,
Debruçada no cimo da colina,
Sorrindo meiga à exausta peregrina!
Abre-me os braços, filha do ocidente,
Quero beber teus úmidos luares!
Quero escutar o soluçar plangente
Do vento pelas franças dos palmares!
Não vês que no meu lábio há sede ardente
Que calcinou-me a tez o sol dos mares?...
Ah! mostra ao passo meu tardio, incerto,
A sombra da arequeira do deserto!
Que saudades que eu tinha das campinas,
Destes prados e veigas odorantes!
De teu tirso de cândidas neblinas
Recamado de auroras cambiantes!
Destas brandas aragens matutinas
Que doudejam com as ondas murmurantes,
De tudo, tudo quanto em ti resumes,
Formosa noiva dos estivos lumes!
Na corola da flor de minha vida
Se aninha agora inspiração mais pura;
De meu rio natal a voz sentida
Desperta em mim um mundo de ternura!
Em minha triste fronte empalecida
Mais uma estrofe límpida fulgura,
E no berço de tuas matas densas
Libo sedenta o orvalho de mil crenças!...
Ó filha de Tupã, que um véu de brumas
Estendes sobre o mísero precito;
Ó ave linda, que as mimosas plumas
Aqueces nos ardores do infinito;
Garça gentil, que surges das espumas
Como da mente do poeta o mito,
Enquanto a lua ondula pelo espaço,
Abre a meu sono eterno o teu regaço!
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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